4. O DIREITO À FELICIDADE NOS TRIBUNAIS SUPERIORES
4.1 A felicidade e o STJ: acórdãos sob perspectiva
4. O DIREITO À FELICIDADE NOS TRIBUNAIS SUPERIORES
BRASILEIROS
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Neste capítulo, são dissecadas duas decisões promanadas por um dos tribunais
superiores brasileiros, o Superior Tribunal de Justiça, nas quais os julgadores
fundamentaram-se ou citaram como razão de um dos fundamentos o direito à felicidade.
O critério se dá em atenção à seguinte ordem: duas decisões, divididas entre a primeira e
a última. A busca contempla todas as menções aos termos, porém são estudadas apenas as
hipóteses em que o instituto validou a decisão, descartando-se os casos que apenas a palavra
felicidade apareceu dentre os filtros utilizados pelo mecanismo de pesquisa e aqueles em que o
voto pautado no instituto foi vencido.
Quando consultada a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, são obtidas 12
respostas para a associação de termos direito + à+felicidade. O primeiro caso a ser analisado é
do Recurso Especial REsp 1026981/RJ, designado para a Terceira Turma, com relatoria da
Ministra Nancy Andrighi e julgamento ocorrido a 4 de fevereiro de 2010. Como se pode notar, é
bastante recente o debate sobre o instituto, e levou cerca de dois anos após seu ajuizamento para
que se obtivesse resolução da lide. A ementa
36fracionada em sua parte dispositiva é a seguinte:
Direito civil. Previdência privada. Benefícios. Complementação. Pensão post
mortem. União entre pessoas do mesmo sexo. Princípios fundamentais. Emprego de analogia para suprir lacuna legislativa. Necessidade de demonstração inequívoca da presença dos elementos essenciais à caracterização da união estável, com a evidente exceção da diversidade de sexos. Igualdade de condições entre beneficiários. Recurso especial provido.
O julgado do Acórdão tratou de matéria relevantíssima ao direcionar o melhor
entendimento sobre benefícios relacionados ao sistema de previdência privada em
relação do à união de pessoas do mesmo sexo. Esclarece a ementa que esta aplicação do
direito a um caso da vida concreta tem o condão de suprimir a ausência legislativa
quanto ao assunto debatido. O fundamento da decisão valida, neste sentido, a não
omissão do Estado diante de uma transformação social complexa, que disseminou
formas de família que ultrapassam a visão tradicional da disposição homem-mulher.
Neste ínterim, é possível dizer que a validade não se extrai apenas do viés negativo e
liberal, mas de verdadeiro direito prestacional e positivo, garantido mediante uma ação.
Ao reforçar a ideia de que o direito não regula sentimentos, mas define relações
geradas por determinados exercícios de direito – em questão, o exercício do direito à
liberdade sexual – veda-se a discriminação de qualquer natureza para uma situação onde
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Disponível em: <
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/doc.jsp?livre=direito+a+felicidade&b=ACOR&p=true&l=10 &i=11>. Último acesso em 09 set 2018.
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esta discriminação não é legalmente permitida ou justificável, por isso seria uma das
hipóteses de interferência estatal ilegítima sobre as quais se falou no capítulo anterior.
Merece igual ênfase o trecho em que se fala da inércia da lei civil (instrumento positivo
do direito), o que chama a um dever de agir, como é digno de igual destaque o
raciocínio jurídico de utilização expansiva dos parâmetros humanitários, cristalizados
nas dimensões de direitos fundamentais, para que deles seja extraída a melhor solução
para o litígio.
Por estas razões, o STJ entendeu que cabe a ampliação de todas as prerrogativas
concedidas àqueles que se encontram em regime de união estável, incluindo a parte até
então marginalizada que era a população homoafetivas. Cita-se a quebra de paradigma
no tocante ao direito de afeto nascido da livre manifestação das vontades, o que
configurou imenso avanço sobre a visão meramente patrimonialista do direito familiar,
indo além da finalidade de cunho religioso, que seria a reprodução humana. A
comunhão de interesses, ideologias e visões de mundo passa a obter maior espaço no
universo do direito das famílias, à visão do julgador moderno, que atribui à afinidade o
caráter de elemento sintetizador das relações fincadas no afeto.
Valores como fraternidade e solidariedade servem para transpor a questão da
responsabilidade do Estado na construção da felicidade individual e coletiva porque
condiciona a República Federativa a orientar-se por um espírito solidário de
preocupação com o bem-estar das pessoas. Antes de chegar ao direito à felicidade,
fala-se em equiparação pois, quando garantida a pessoas não casada o reconhecimento das
uniões estáveis, ocorre um movimento de elasticidade pela ampliação ao texto da
Constituição com fito de alcançar e proteger mais indivíduos, trazendo-os para a esfera
de preocupação do Estado.
Por este mesmo movimento de acolhimento pessoal, a garantia inicial de direitos
adstritos ao casamento entre homem e mulher é despida da formalidade da celebração e
alcança realidades até então invisíveis à ciência jurídica. Com os relacionamentos
homoafetivos observa-se a necessidade de ação para promover uma retração(omissão) já
debatida. Concomitantemente, o Estado se abstém de marginalizar estas pessoas e atua
positivamente aplicando-lhes os direitos que as assistem.
O direito à busca pela felicidade é abordado de forma expressa, trazendo ao
campo fático a teoria de propiciar um ambiente salutar ao desenvolvimento da do
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estar, onde o homem pode preocupar-se com aspirações mais nobres e amplas face ao
atendimento de uma de suas demandas básicas existenciais, que é o reconhecimento
jurídico do direito personalíssimo à orientação sexual. Nesta esteira, o art. 16 da Lei
8.213/91, que trata da concessão do benefício de pensão por morte quando presumida a
união estável, alicerçada pela situação de dependência econômica foi aplicado ao por
analogia, dando-se provimento ao recurso com o adendo de sua aplicação ser exclusiva
aos planos de previdência privada complementar.
O segundo acórdão versa sobre o que se conhece hoje como nome social, que
tem funcionado como identificação às pessoas que passam por mutações de gênero por
não se considerarem representadas ou satisfeitas com aquele determinado pelo
nascimento. O REsp 1626739, numerado pela sequência 2016/0245586-9, com relatoria
do Ministro Luis Felipe Salomão, da Quarta Turma, foi julgado em 9 de maio de 2017.
Ementa
37abaixo, reduzida ao dispositivo:
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RETIFICAÇÃO DE REGISTRO DE
NASCIMENTO PARAA TROCA DE PRENOME E DO SEXO (GÊNERO)
MASCULINO PARA O FEMININO. PESSOA TRANSEXUAL.
DESNECESSIDADE DE CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO.
Em suma, versa sobre a situação em que uma pessoa transexual pleiteia a
retificação do Registro Civil para troca de prenome e de seu sexo, que passaria, de
acordo com aquilo que provavelmente significava um impeditivo à sua felicidade. A
modificação buscada em juízo era do gênero masculino para o feminino. Frise-se que à
época inexistia cirurgia de transgenitalização pela parte recorrente, o que os ministros
também consideraram dispensável, abrindo um leque de oportunidades às demais
pessoas que ainda não haviam alcançado a última fase do processe de transgenização.
O STJ relacionou os arts. 55, 57 e 58 da Lei de Registros Públicos
38, nº 6.015/73
ao direito à felicidade propriamente dito. Pontue-se, necessariamente, que há certa
oscilação entre o entendimento do que seria afeto ao direito à busca, negativo e liberal,
ou à própria felicidade, positivo e prestacional. Neste Recurso Especial, vislumbrou-se a
37Disponível em: <
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/doc.jsp?livre=direito+a+felicidade&b=ACOR&p=true&l=10 &i=2>. Último acesso em 9 set 2018.
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Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6015compilada.htm>. Último acesso em 9 set 2018.
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