• Nenhum resultado encontrado

4. REFLEXÕES TEÓRICAS

5.4. O Quinto dos Infernos

5.4.3. A figura do imperador

A transição de D. Pedro criança para adulto, ocorre no oitavo capítulo da minissérie, durante um banho de chuva, que inicia criança e acaba homem feito. No entanto, apenas podemos observar as mudanças no corpo do príncipe, já que o rosto não é focado pela câmera. Em cena seguinte, num ringue improvisado de luta, em zona pouco nobre da cidade, um belo jovem é mostrado, corpo e rosto, e alguém afirma tratar-se de D. Pedro, o príncipe herdeiro. Força e virilidade são mostradas na primeira imagem do príncipe adulto trazida pela minissérie.

Ainda criança, D. Pedro, mostra-se forte e cheio de personalidade. Não quer fugir de Portugal e enfrenta a mãe, dizendo que não vai agir como um covarde. A mãe afirma que antes de ser uma pessoa, ele é um príncipe e com essa frase convence o menino a embarcar.

A imagem de D. Pedro I, ainda que seja muito vinculada a sexualidade pela obra, é sempre positiva. Íntegro, honesto, forte, alegre, simpático, apaixonado pelo Brasil – ainda que bêbado e mulherengo, como qualquer jovem plebeu da época. D. Pedro I é retratado como apegado à avó, ao pai e até a própria mãe, que é retratada como uma articuladora política que passa a vida tramando em busca de conseguir o poder. Em passeios e conversas com a avó, D. Maria mostra-se lúcida nos conselhos que dá ao neto, para não acreditar em quem depende dele. A avó diz ainda a Pedro que um rei não pode fechar os ouvidos para seu povo e afirma que ele será um bom rei, pois tem um olhar determinado, indignação contra a injustiça e é suficientemente louco para ser um grande monarca. As qualidades de Pedro não são mencionadas por ele, mas pelas outras personagens que o cercam.

Na minissérie, na noite do velório da avó, D. Pedro está na orgia com mulheres, por não saber do ocorrido. No entanto a obra mostra que D. Pedro, no fundo é o único que sofre sinceramente a morte da rainha. Em uma cena do neto chorando ele fala ao amigo Plácido que a avó foi a única de sangue igual ao dele que o amou de verdade. A trama apresenta um estremecimento entre D. Pedro e seu pai, após a morte da rainha, mas logo voltam às boas.

Quando D. Pedro recebe D. Leopoldina no porto, chegada da Áustria, ela pergunta o que ele sentiu quando chegou ao Brasil e ele responde com a seguinte frase: “Eu amei, como se não viesse de Portugal e aqui tivesse nascido e para lá levado, roubado de

criança”. Essa afirmação fortalece o vínculo de D. Pedro com o Brasil e os laços de simpatia do público com o personagem.

D. Pedro e o Chalaça se conhecem, segundo a minissérie, em uma briga de bar, o que registros históricos apontam ter ocorrido mesmo de forma semelhante. Chalaça diz ao príncipe, logo que se entendem, que ele é jovem e sorri com a fartura dos pobres, o que reitera a imagem de simpatia e simplicidade de D. Pedro.

As conversas de D. Pedro com a mãe trazem frases de impacto. Durante um banho de mar entre mãe e filho, D. Pedro diz a Carlota que sempre admirou sua força. Já num momento de discussão entre os dois, o príncipe afirma: “Vou ser rei, e hoje tive certeza disso, porque vi que quero ser rei.”

D. Pedro é construído na trama como um pai amoroso e muito dedicado. Sofre com a morte de um filho seu com uma atriz de teatro por quem foi apaixonado antes casamento, e emociona-se com o nascimento da primeira filha, Maria da Glória.

A ficcionalização do primeiro encontro de D. Pedro com Domitila é bastante romanceada pela trama. Na obra, os dois encontram-se em meio a um banho de chuva e sem falar nada, fazem amor. A paixão tumultuada e avassaladora nutrida pelos amantes é representada na minissérie por algumas conversas apaixonadas. D. Pedro diz para Domitila que queria ser seu pai, seu marido, seu filho, enfim, todos os homens de sua vida. Tal frase vai ao encontro das cartas reais, registros históricos do romance entre o casal. Ao final das cartas que o imperador mandava para amante, costumava assinar, teu filho, teu pai, teu amante.... Também as inúmeras tentativas de rompimento entre o monarca e a marquesa são apresentadas ao público, embora o rompimento nunca se concretize por completo, outro ponto que as cartas factuais apresentam da mesma forma que a minissérie.

O episódio do “fico” retratado pela minissérie, descreve os acontecimentos a partir de uma ordem de D. João, por pressão das cortes, para que D. Pedro, embarque de volta a Portugal. D. Pedro se rebela e junta tropas. Diz que não aceita que o tempo volte atrás e que o Brasil volte a ser colônia de Portugal. Afirma que o povo é soberano e o povo quer seu príncipe, por isso decide ficar. O texto roteirizado pela obra e a construção ficcional desse momento histórico, enaltecem a coragem e a força de D. Pedro, sendo decisivo para a construção heróica, ainda que não um herói convencional, do personagem.

Em função das revoltas geradas pelo “fico”, Leopoldina foge com o filho mais novo, que acaba morrendo. A morte do primeiro filho homem de D. Pedro, mais uma vez traz emoção e humanização ao anti-herói, como um pai amoroso e sentimental.

A despedida de D. Pedro da mãe e do pai, quando esses retornam a Portugal, também são acontecimentos bastante trabalhados pela trama, no sentido de reforçar a imagem de bom filho de D. Pedro. Com a mãe a despedida se dá num banho de mar, com troca de frases de efeito em que os personagens se mostram semelhantes, nos defeitos e qualidades. Com o pai, a despedida acontece no quarto da Quinta, com troca de palavras carinhosas e de admiração, momento em que os dois choram e se emocionam.

A reconstrução fictícia da independência parece estar bastante próxima aos registros históricos. A obra mostra poucos homens e um pequeno riacho sendo o Ipiranga. A cena destaca a força de D. Pedro e ao fundo pode-se ouvir o hino da independência, composto pelo imperador.

A trama oferece aos telespectadores algumas faces, embora confirmadas por rastros históricos, pouco conhecidas do monarca. A minissérie mostra D. Pedro jogando capoeira e os ataques de epilepsia dos quais sofria. Além disso, a obra revive mitos, como o de uma passagem secreta, subterrânea que saia da Quinta. Tal passagem nunca foi desmitifica e de sua existência não há confirmação, porém, alguns indícios fazem crer que pode de fato ter existido.

Domitila é destratada pela corte na trama e D. Pedro enfrenta todos para defendê- la e dá à amante o título do marquesa. O imperador decide casar com a paulista e segundo a ficcionalização apresentada pela obra, só desiste de seu intento em função de um atentado sofrido pela irmã da marquesa, do qual Domitila é acusada de ser a autora.

A dificuldade de D. Pedro encontrar uma noiva nobre, também é satirizada pela série, que narra os fatos de forma bem aproximada à realidade, embora bastante cômica. Registros históricos trazem as condições impostas pelo imperador para encontrar uma noiva, assim como relatam sua fama de “barba azul” e a calúnia espalhada de que sua primeira esposa faleceu vítima de um pontapé do marido. Tais fatos que possuem raízes históricas, são trabalhados pela obra e apresentado aos telespectadores.

Na trama, a notícia da morte de D. João abala Pedro, que diz que depois que se perde o pai não se pode mais errar, pois não há mais ninguém para limpar nossos

enganos. Nesse momento da narrativa D. Pedro é retratado como um sentimental, enquanto Miguel recebe a notícia com frieza e interessado apenas no destino do trono de Portugal.

A despedida de D. Pedro do Brasil, após a abdicação também busca emocionar os telespectadores com o grande amor do imperador pelo país por ele criado. No último banho mar, afirma ao amigo Plácido que a despedida é dolorosa e que o mar de Portugal não é como o do Brasil. D. Pedro afirma que o povo é uma amante caprichosa e que a ingratidão faz parte do ser humano. E diz que o amigo foi o único irmão que realmente teve.

Uma das últimas cenas de Pedro no Brasil é no ringue, mesmo ringue onde o personagem é apresentado ao público, quando inicia a fase adulta do protagonista. Diz que quer lutar e que os brasileiros guardem a imagem de um vitorioso, pelo menos nos ringues. Essa construção narrativa reafirma o Pedro simples e popular, amado por seu povo, que a minissérie constrói desde a primeira cena. Ainda o monarca é mostrado chorando por deixar o Brasil e relembrando os bons momentos vividos. Na obra, quando se despede do filho, para quem deixa o trono brasileiro, repete os conselhos dados a ele por sua avó D. Maria.

D. Pedro trava uma guerra contra o irmão, com apenas 10% dos soldados de que D. Miguel dispunha. Mesmo assim, com seu entusiasmo contagiante, sua força e estratégia militar, sai vencedor do combate. O D. Pedro da trama, após ganhar a guerra, liberta a mãe, que sempre tramou contra ele, e tinha sido presa pelo irmão D. Miguel. A esse manda para o exílio, provando ser clemente e generoso, mostrando mais uma vez, qualidades de herói.

A trama informa aos telespectadores, que após vencer a guerra em Portugal, D. Pedro recebe uma carta com um pedido oficial do Brasil para que volte. Ele não aceita e diz que nunca vai dar a chance de seu filho tornar-se seu inimigo. Diz que a carta será uma lembrança, mas que graças a Deus veio, pois ele precisava que viesse. Neste momento querem D. Pedro em Portugal e no Brasil.

O próprio elenco se mostra seduzido pela história e pelos personagens. Nos depoimentos dos atores ao final do DVD, Luana Piovani (Marquesa de Santos), André Mattos (D. João) e Érika Evantini (D. Leopoldina) são alguns dos integrantes do elenco que comentam sobre o fato de terem se “encantado” pelo personagem de D. Pedro I,

representado na obra por Marcos Pasquim. Ou seja, a construção ficcional de um simpático D. Pedro I apresentado pela minissérie fez com que os sentidos produzidos sobre essa figura histórica, fossem reconstruídos a partir da midiatização da narrativa histórica proposta pela televisão.

A obra que tem 48 capítulos, em sua versão para DVD, foi editada. No entanto, ao comparar o texto original e o apresentado no DVD é possível perceber que as cenas com D. Pedro se mantêm (quase) que na íntegra, mesmo as cenas absolutamente ficcionais que trazem o personagem como centro. Essa escolha, mais uma vez reforça a ideia de que D. Pedro é a grande figura história da minissérie.