3. PROCESSOS METODOLÓGICOS
3.3. Métodos de Investigação
O método de investigação aplicado nessa pesquisa é o estudo de casos múltiplos, que segundo Robert Yin (2001) é definido como “uma pesquisa empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos” (YIN, 2001, p.33). A afirmação do autor pode ser usada para pensarmos as minisséries históricas, que são fenômenos contemporâneos que misturam história e ficção, personagens ficcionais e figuras históricas, passado e presente, numa reconstrução da realidade, onde, às vezes, a forma de narrar pode ser mais fascinante do que a própria história.
As minisséries foram reunidas e trabalhadas como um estudo de casos múltiplos, uma vez que, cada obra a ser estudada trabalha essas relações sob um viés diferente. Essa opção amplia a relação entre o contexto e a vida real. Com isso, vínculos entre o contexto e as obras vão se construindo, trazendo a possibilidade de ilustrar certos ângulos e explorar situações que seriam difíceis de avaliar fora desse conjunto.
Neste estudo, observamos os temas abordados nas produções das obras históricas e o enfoque sob o qual são narrados, bem como, o modo com que essas releituras midiáticas da história circulam na sociedade. Esta é uma pesquisa qualitativa sobre minisséries históricas e a metodologia de observação se firma em três eixos: análise das minisséries, entrevistas, circulação das obras.
Peter Burke (2002) em História e Teoria Social, fala sobre dois tipos de comparação. Um que compara elementos que têm a mesma estrutura e são da mesma espécie e outro que compara elementos basicamente diferentes. Para o autor, é através da comparação que conseguimos ver o que não está lá e entender a importância de uma ausência específica. O historiador fala da comparação a partir de modelos e diz que modelo é uma construção que simplifica a realidade com o objetivo de entendê-la. A comparação proposta nesse estudo é do tipo que busca comparar elementos com a mesma estrutura, que pertencem à mesma família.
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A abordagem das minisséries, a fim de trabalhar o problema de pesquisa apresentado na tese, se firmou em três vértices: análise do produto; entrevista com produtores e atores; e observação da circulação. Isto é, esses foram os processos adotados de observação sistemática das minisséries.
A análise descritiva das minisséries buscou, a partir do levantamento dos principais ângulos das tramas, observar as lógicas do produto minissérie histórica. Os ângulos observados nas obras foram levantados a partir de três movimentos: ler o resumo das tramas, assistir aos DVDs das minisséries e anotar aspectos interessantes das obras, que poderiam se tornar um ângulo de observação.
A questão dos personagens centrais e sua representatividade dentro das tramas serviu de eixo de ligação entre as minisséries, e nos possibilitou perceber como ocorre a midiatização das personalidades históricas na narrativa audiovisual. Para preparar essa abordagem estudamos determinados ângulos metodológicos como sugere a análise performativa. O termo análise performativa foi criado pelo professor pesquisador José Luiz Braga, para designar uma forma de análise, que procura perceber no texto ou produto audiovisual suas operações internas (o que seus elementos e proposições fazem e como se articulam); inferindo os encaminhamentos de sua produção e de seu encaminhamento ao espectador.
Buscamos fazer conexões entre as tramas, a partir dos ângulos levantados, observando a multiplicidade de elementos que constitui cada obra, as linhas de fuga, intensidades e os diversos modos de codificação. Observamos a estrutura e os movimentos internos das minisséries, índices e condições dos processos de produção.
Para que a análise desse conta de explicar o texto, o autor e a época de sua produção, observamos os “discursos” propostos por cada uma das obras. Como Pinto (1999) afirma, o termo “discursos” dá uma ideia de multiplicidade de intenções, por parte dos produtores dos discursos e dos receptores que fazem diversas leituras desse misto de imagens e textos que compõem as minisséries.
Ao observar os múltiplos discursos que fazem parte da dinâmica televisiva, o foco de observação são os propósitos comunicacionais apresentados pelos textos que as obras trazem à tona durante sua exibição. Observamos como cada texto busca explicar, dizer, interagir e seduzir o telespectador a partir do tipo de narrativa que cria, num misto de texto e imagens que forma as minisséries.
Em paralelo à análise das minisséries, observamos como se deu o processo produtivo, cotejando a versão/ visão dos produtores e criadores das obras sobre as mesmas. Para isso foram realizadas entrevistas com pessoas envolvidas com a criação das minisséries, entre elas autores, diretores, produtores, cenógrafos, figurinistas e
elenco11. Os representantes das obras, escolhidos como essenciais para a realização das entrevistas são: o autor, o diretor geral (que poderá contribuir com a parte de produção: cenografia, figurino e fotografia) e o personagem histórico protagonista da obra12.
O tempo de cada entrevista foi definido pelas respostas dos entrevistados, podendo ser curto ou longo. No entanto, todas as entrevistas seguiram o mesmo tipo de pauta pré-estruturada, no estilo pergunta-resposta, embora algumas questões se alterassem para enfocar mais precisamente a minissérie. Como em toda entrevista, foi necessário muito cuidado ao apresentar as questões, buscando uma empatia com o entrevistado para o sucesso do encontro.
Quadro I – Pauta das Entrevistas Perguntas para o diretor / autor
Que elementos levaram a produzir/escrever essa minissérie?
Em sua opinião, qual o interesse (social/cultural) de uma minissérie abordar temas históricos em sua narrativa?
Como foi produzir/escrever uma obra de ficção baseada em acontecimentos históricos? Que cuidados específicos uma obra assim (de época/histórica) exige?
A partir de que fontes históricas a obra foi escrita/criada/produzida? Que fatos serviram de eixo para a produção da minissérie? Livros, documentos, fotografias, etc. Quais características psicológicas você destacaria como as mais importantes da personagem histórica central da narrativa?
O retorno da obra em audiência e críticas foi como você esperava?
Perguntas para o elenco
Em sua opinião, qual a importância de uma minissérie abordar temas históricos em sua narrativa?
Como foi representar um personagem histórico (real)? Houve algum preparo diferente? O que você sabia sobre a vida dessa figura histórica antes da minissérie?
Viver esse personagem mudou sua visão sobre ele e/ou alterou sua visão sobre a história? Que visão você tinha e qual tem hoje?
11 A importância de entrevistar pessoas do elenco se dá buscando entender o grau de afetação dos atores pelos personagens históricos por eles representados. Já que, quem “vive” os personagens, tem um outro tipo de relação com a representação da história, diferente dos produtores e criadores da obra.
12
Dos fatos históricos apresentados pela minissérie e vividos pelo personagem, quais deles você destacaria como mais relevante? Por quê?
Fisicamente e/ou psicologicamente, você acha que se parece ou se pareceu com a figura histórica representada?
Quais características psicológicas você destacaria como mais importantes desse personagem? Você acha que essas características interferiram nas decisões históricas desse personagem?
O que você achou do personagem que a minissérie construiu? Acha que se aproximou ou se distanciou da figura real histórica? Por quê?
Para realizar a técnica da entrevista, partimos das funções apresentadas por Daniel Bertaux (2005), relativas aos relatos de vida. As funções mencionadas pelo autor são: de exploração, quando o pesquisador não conhece nada do objeto estudado; analítica, que consiste em escutar e transcrever as entrevistas, relendo anotações de campo e expressiva, que está ligada à força dos relatos de vida. Essas funções também ocorrem na técnica de entrevista, ainda que apareçam de forma menos marcadas do que em relatos de vida e às vezes, sem a presença da função expressiva.
Em determinados momentos de seu texto, Bertaux faz considerações mais específicas sobre a entrevista, que tomaremos como base, dando dicas de como agir e da importância de ser claro, preciso e natural nas abordagens. O autor fala ainda que um contato prévio com o entrevistado é sempre indicado e destaca a importância de uma segunda entrevista em alguns casos, ou mesmo um contato pelo telefone para esclarecimentos. Essas são observações simples, mas sempre importantes, assim como é sempre necessário pedir o consentimento do entrevistado e gravar a conversa.
Pierre Bourdieu (1997) fala que a entrevista às vezes é vista pelos pesquisadores como um jogo, onde eles atribuem as regras. Essa visão segundo o autor é unilateral e não se preocupa com o pesquisado, o que acaba por criar uma hierarquia dentro da entrevista. Para Bourdieu é importante pensarmos a interpretação, ou seja, precisamos entender a entrevista como um movimento que vai além do momento em que pesquisador e entrevistado estão juntos, pois se estende até o momento da interpretação do que foi dito pelo entrevistado. Esse cruzamento entre a interpretação do entrevistado sobre os fatos e do pesquisador sobre a entrevista nunca é totalmente livre, pois
“independente do que se faça, toda leitura já está, senão obrigada, pelo menos orientada por esquemas interpretativos” (BOURDIEU, 1997, p.712).
Articulando essas estratégias para as entrevistas, diria que os autores nos ajudam a organizar a forma de abordagem e nos apontam dicas de como proceder após coletar os dados com os entrevistados. Por isso, a técnica desenvolvida aqui parte da produção de uma pauta, na busca por uma entrevista pré-estrutura baseada em poucas perguntas, que podem se desdobrar a partir das repostas dos entrevistados.
Das entrevistas realizadas para a tese13, todas foram marcadas com antecedência e as presenciais foram gravadas. Muitos dos entrevistados foram tensionados para dar detalhes sobre suas falas, outras vezes após o depoimento.
Com Leonardo Machado (Faixa Comentada), houve contato antes e depois da entrevista por e-mail e a entrevista foi presencial. Com Carlos Lombardi (O Quinto dos Infernos) a primeira abordagem e a entrevista foram presenciais, e depois da entrevista houve outros contatos por e-mail e por telefone. Com Marcos Pasquim (O Quinto dos Infernos) o primeiro contato foi por telefone, a entrevista foi pessoalmente e depois da entrevista houve outros encontros presenciais e contato por telefone. Com Joel Rufino (Abolição/ República) o primeiro contato foi por e-mail, a entrevista foi presencial e depois da entrevista não houve mais contato. Com Francisco Alencar (Abolição/ República) o primeiro contato foi via assessoria, a entrevista foi pessoalmente e depois da entrevista não houve mais contato. Com Lauro César Muniz (Chiquinha Gonzaga), o primeiro contato foi por e-mail, a entrevista presencial e depois da entrevista mantivemos outros contatos por e-mail. Com Maria Adelaide Amaral (A casa das sete mulheres) o contato foi todo por e-mail, inclusive a entrevista. Com Regina Duarte (Chiquinha Gonzaga) houve contato antes da entrevista por e-mail e por telefone e a entrevista foi presencial. Com Gabriela Duarte (Chiquinha Gonzaga) os contatos foram por e-mail e telefone e a entrevista foi feita pessoalmente. Com Walther Negrão (A casa das sete mulheres) tive vários contatos, todos por e-mail, assim como a entrevista que foi realizada também por e-mail, ele se mostrou muito acolhedor ao tema, mas por uma questão de agenda não foi possível realizar a entrevista pessoalmente. Com Wolf Maya (O Quinto dos Infernos), não consegui contato, apesar de várias tentativas junto a conhecidos dele. Por fim, com Jayme Monjardim (A casa das sete mulheres/ Chiquinha
13 A forma de tratamento dos entrevistados, primeiro nome ou sobrenome, não segue um padrão. Foi usado de acordo com o tratamento dado ao entrevistado durante as entrevistas.
Gonzaga) troquei e-mails, mas não cheguei a realizar a entrevista. Em vista de ter os depoimentos dados pelos diretores (Wolf e Jayme) nos DVDs das obras e do fato de acreditar que novas entrevistas não trariam ângulos novos para o trabalho, utilizo como base de análise os depoimentos dos diretores que constam nos DVDs das minisséries.
Observamos também a circulação de duas das cinco tramas estudadas: O Quinto dos Infernos e Chiquinha Gonzaga. Esse olhar sobre a circulação das minisséries trouxe à baila como os fatos e as personalidades históricas são ressignificadas a partir de sua construção televisiva. Ou seja, como as minisséries são recebidas em determinados ambientes interpretativos.
Para entendermos o conceito de circulação e sua aplicação na mídia, alguns autores serão basilares. Entre eles, José Luiz Braga (2006) que aborda a temática da circulação no livro A sociedade enfrenta sua mídia. Para o pesquisador a circulação é própria do sistema de resposta social e se manifesta na sociedade contemporânea, frequentemente, em forma de crítica. É um terceiro sistema de processos midiáticos que corresponde à atividade de resposta da sociedade em interação com os produtos midiáticos.
Essa circulação se dá, segundo Braga, porque, quando o interesse ultrapassa o que a mídia mostra há uma tendência de fazer seguir adiante a comunicação, pelo compartilhamento de interpretações e reelaborações. A reapresentação das minisséries é uma forma de circulação, que converge com esse interesse que ultrapassa o que a mídia mostra, apontado por Braga, ainda mais se pensarmos em programas como o Faixa Comentada, que além de reapresentar a obra, ampliam sua abordagem, fazendo entrevistas com autor, produtor, diretor e elenco, além de outras pessoas envolvidas na obra e especialistas em literatura, história, produção de tevê, etc.
Além das reapresentações, os livros da Rede Globo e o site oficial da emissora, intitulado, Memória Globo, também são formas de mostrar que o que é produzido e apresentado na emissora não se dissolve após sua exibição, e permanece circulando, de acordo com o interesse de quem deseja ir além do que a mídia mostra.
A circulação das minisséries foi observada sob dois eixos. No caso da minissérie O Quinto dos Infernos, foi feita uma leitura dos textos veiculados na mídia sobre a obra, na época de sua exibição ou após a apresentação. Os textos, basicamente, eram críticas de televisão e foram analisados de forma individual e em conjunto. Através dos
dados, traçamos um panorama que nos aponta os principais ângulos sob os quais a obra circulou na sociedade a partir da crítica midiática. No caso da minissérie Chiquinha Gonzaga, a circulação da trama foi observada por meio do programa Faixa Comentada, o que nos permitiu repensar a obra anos depois de sua produção, com um aprofundamento de seu conteúdo.