ESCOLA
Continua muito atual o pensamento de Gramsci: “Todos somos filósofos”. Gramsci não fala do especialista em Filosofia, mas muito mais daquilo que Sócrates argumentava como sendo o filósofo, o “amante da sabedoria”. Aquele que pratica a Filosofia não é um sophos (sábio), entendido como aquele que tem muitos conhecimentos, mas um PhiloSophos, aquele que reconhece a própria ignorância, limitação e, ao mesmo tempo, busca e deseja de maneira ardente o saber. A etimologia de PhiloSophia, como amor ou procura da sabedoria, no sentido vulgar entre os gregos, sophia e, entre os latinos, sapientia, é o que a maior parte dos filósofos desde Heráclito sempre proclamou.
Assim, como para Platão e Espinosa, para os estóicos, como para Descartes ou Kant, para Epicuro, como para Montaigne ou Alain, a sabedoria tem a ver com o pensamento, com a inteligência, com o conhecimento e com um certo saber. Por que certo saber? Porque se trata de um saber particular, que não está colocado por ciência alguma em nenhuma demonstração válida, em nenhum laboratório para testar ou atestar; enfim, que nenhum certificado ratifica. Não estamos falando só de teoria, mas
de uma prática; nem só de evidências, mas de vivências; nem só de experimentação, mas de exercícios; nem só de ciência, mas de vida.
Entre os pensadores gregos, havia uma oposição entre sabedoria teórica ou contemplativa (spohia) e a sabedoria prática (phronêsis). Percebiam eles que uma não existia sem a outra e que a verdadeira sabedoria seria a conjunção das duas. Dizia Descartes: “Bem julgar para bem agir”, e isso é sabedoria. Tendo presente que alguns são mais aptos para a contemplação e outros para a prática. Para Aristóteles: “A sabedoria não pode ser uma ciência nem uma técnica”, ela é um saber, um saber viver. A Filosofia somente terá um sentido verdadeiro à medida que nos aproximar da sabedoria: trata-se de pensar melhor para viver melhor, e só isso é filosofar verdadeiramente. Montaigne afirmava que “a Filosofia é aquilo que nos dá instrução para viver”. Por não sermos sábios, temos a necessidade de filosofar, a sabedoria, então , é a finalidade, a Filosofia, o caminho.
Dessa forma, a Filosofia é vista como uma atitude de busca do saber, do conhecimento. Saber que não é o do senso comum, “baseado na opinião, no ouvir dizer..., no eu acho que...”. O saber que a Filosofia busca é episteme, entendido como um saber com fundamento, onde está presente a argumentação racional consistente, podendo ser considerado verdadeiro, deixando de lado as opiniões particulares. Cabe aqui a distinção de Platão entre o philosopho (amante do conhecimento, da verdade) e o philodoxo (amante da opinião) encontrado no livro V de A República (1987, p.265). Portanto, pela Filosofia, temos a busca do conhecimento verdadeiro, não ficando somente no senso comum, mas em sua superação. No dizer de Gramsci (1986, p.14):
A Filosofia é uma ordem intelectual, o que nem a religião nem o senso comum podem ser. [...] A Filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, neste sentido, coincide com o “bom senso”, que se contrapõe ao senso comum.
Por ter essa função de superar o senso comum indo para o ‘bom senso’, na visão de Gramsci, a Filosofia deve estar sempre em contato com o ‘simples’, com as
massas populares, com o intuito de “conduzi-los a uma concepção de vida superior”, a “possibilitar um progresso intelectual de massa, e não apenas de peque nos grupos intelectuais” (1986).
Encontramos nas idéias de Montaigne, em seus Ensaios, a seguinte constatação: “Ensinam-nos a viver quando a vida já passou”. Essa afirmação não tem um tom de fatalidade da condição humana, como quanto de um erro de educação, que pode ser corrigido. Por que esperar para filosofar quando a vida não espera? Continua Montaigne: “Cem estudantes apanharam sífilis, antes de terem chegado à lição de Aristóteles sobre a temperança...”. O que isso tem a ver com a Filosofia? Muito mais como prevenção do que como remédio, o exemplo mostra que a sexualidade, a prudência, o prazer, o amor, a morte... têm a ver com uma reflexão filosófica. Nos Ensaios, há uma outra afirmação: “Não morres por estares doente, morres por estares vivo”; aprender a morrer, aprender a viver, isso é a própria Filosofia. Por isso, Montaigne afirmava: “Fazemos mal em a tornar inacessível às crianças, em lhe dar um rosto desagradável, severo e terrível. Quem a mascarou com esse falso rosto, pálido e repugnante? Não há nada mais alegre, mais jovial, mais bem-humorado, e quase me apetece dizer folgazão”.
Sendo a vida tão difícil, frágil, perigosa e preciosa, como é efetivamente, temos mais uma razão para filosofar o mais cedo possível: “a infância tem nela que aprender, tal como as outras idades”, ou seja, aprender a viver, à medida que isso é possível, antes que seja demasiado tarde. Para isso, serve a Filosofia, e é por isso que pode servir em qualquer idade, pelo menos desde que se domine minimamente o pensamento e a linguagem. Por que não defender uma educação filosófica para as crianças que estudam outras disciplinas nas escolas? E por que não permitir que os adolescentes filosofem ao pensar em suas profissões? E os jovens e adultos mergulhados no seu trabalho, nas suas escolhas e nos seus cuidados, quando encontrarão tempo para dedicar à Filosofia? A finalidade última de um entendimento filosófico da nossa existência é termos uma vida mais lúcida, mais livre, mais feliz, mais sábia. É o que Kant coloca como divisa do Iluminismo: “Sapere aude, incipe”,
ousa saber, ousa ser sábio, começa! Nunca é demasiado cedo nem tarde para filosofar, dizia de certa maneira Epicuro, uma vez que nunca é demasiado cedo nem tarde para ser feliz, porém, a mesma razão indica muito claramente que quanto mais cedo melhor.
Do pressuposto de que a Filosofia tem como finalidade última ensinar a pensar é dentro do espaço escolar que ela terá maior entrada, até por sua condição de contribuir para uma educação mais reflexiva. Será então cada vez mais necessária e o que pesará na vida das pessoas é a necessidade de aprender a pensar. Poderíamos questionar a restrição a somente uma disciplina, a Filosofia, como responsável por tal necessidade e urgência. Cabe então novamente perguntar: O que é a Filosofia? Para que serve a Filosofia hoje? Como fazer Filosofia ou filosofar em nossa realidade? Que tipo de ensino-aprendizagem poderá resultar em uma escola reflexiva?
Dessas questões surge outra que precisa de resposta: Que sabedoria (sophia)? A resposta, como sobre tudo, contém divergências entre filósofos, pois podemos querer uma sabedoria do prazer, como em Epicuro; da vontade, como nos estóicos; do silêncio, como nos céticos; do conhecimento e do amor, como em Espinosa; do dever e da esperança, como em Kant; da emancipação, em Adorno. É por isso que temos a necessidade de aprender a filosofar por nós mesmos e o mais cedo possível: porque ninguém pode pensar nem viver pelo outro. A sabedoria do bem viver se reconhece numa certa felicidade, numa certa sereni dade, numa certa paz interior composta de alegria e lucidez que só existem por um exercício rigoroso da razão.
Muitos filósofos procuraram valorizar a Filosofia. Hegel dizia que é a única disciplina que coloca o “problema de todos os problemas”, “a questão de todas as questões”. Supervalorizar a figura do filósofo seria redundante no momento, pois, se a Filosofia nos ajudar a pensar e transformar o mundo, já terá dado uma grande contribuição. Ao responder as questões anteriores referentes ao que ensinar, ao como ensinar e ao para que ensinar Filosofia, é preciso necessariamente abordar que método empregar, de qual objeto se deve ocupar e os fins que se quer almejar. Teríamos inúmeros caminhos abertos e com certeza muitas controvérsias.
Ao buscar uma educação escolar que seja reflexiva, propondo um trabalho num programa filosófico-pedagógico, oportunizamos que esse espaço de vivência dos alunos seja reflexivo. Saviani diz que refletir é uma atitude consciente, comprometida e intencional para repensar o que já foi pensado, de problematizar o pensamento estabelecido, colocando-o à dúvida, à crítica, à análise cuidadosa, buscando seu significado mais profundo.
Transformar a realidade? Isso supõe a sua valorização, o seu reconhecimento. Fazer acontecer o que ainda não é? Supõe que se trabalhe sobre o que é. A sociedade e o mundo não são para ser sonhados, mas transformados. Ser sábio (sophos) é, portanto, estabelecer uma certa relação com a verdade e com a ação, uma lucidez ponderada, um conhecimento comprometido. Ver as coisas como elas são e saber o que se quer: conhecer e aceitar; compreender e transformar; resistir e superar. A realidade está aí para ser apreendida ou não, e ninguém poderá transformá-la sem a condição prévia de começar a apreendê-la.
Portanto, a Filosofia na escola, numa didática filosófica que começa com as crianças pequenas, continua com os adolescentes e jovens, faz-se compreender como um saber sobre o homem e a realidade, sobre o mundo, para compreendê-lo e transformá-lo, num processo sempre dinâmico de apreensão das significações históricas da realidade humana, de maneira humilde e processual. Um verdadeiro filósofo, assim como um programa filosófico-pedagógico, rejeita o status de ‘possuidor da verdade’, como se fosse possível conhecê-la ou, ainda, que fosse capaz de apreender a totalidade da realidade. Ele deixa claro, no entanto, que compreende a precariedade de sua busca e o dinamismo do próprio processo de definição das ‘verdades’ de cada época.
Hoje, não temos um pensamento filosófico uniforme, existem inúmeras tendências, métodos, escolas e tradições diferentes no entendimento da realidade, do homem e do mundo. É tarefa individual exercitar-se no seu ‘ser filósofo’, pôr-se em busca de uma apreensão significativa da cultura, de uma leitura crítica da realidade e de uma ação engajada no mundo. Apesar de vivermos num tempo que enaltece sob
alguns aspectos a Filosofia, predomina a idéia corrente de uma negação oficial ao seu espaço de aprendizagem que é a escola. Jaspers (1977) expressou o seguinte veredicto sobre a ausência da Filosofia:
Um instinto vital, ignorado de si mesmo, odeia a Filosofia. Ela é perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar a minha vida. Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente. [...] Muitos políticos vêem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da Filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão- somente usam de uma inte ligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a Filosofia seja vista como algo entediante. Oxalá desaparecessem as cátedras de Filosofia. Quanto mais vaidades se ensinem, menos estarão os homens arriscados a se tocar pela luz da Filosofia. Assim, a Filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não têm consciência dessa condição. A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente da vida, o hábito de só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário – tudo isso proclama a anti-Filosofia.
A estrutura atual da nossa sociedade consumista, pragmática, positivista e tecnocrática criou e solidificou uma estrutura educacional tecnicista, positivista, conteudista e castradora (autoritária), em que a Filosofia foi banida dos currículos e expurgada da escola. A indicação é produzir uma massa passiva, homens sem consciência, mão-de-obra dócil a implantação de um capitalismo monopolista internacional de um liberalismo excludente e injusto. Qual seria a validade da Filosofia dentro da estrutura educacional para todas as idades nesse contexto, a não ser a da crítica radical? Querer compreender essa questão e responder a ela nos coloca uma outra indagação, muito comum nos tempos atuais: para que serve a Filosofia? Assim, estamos no primeiro passo de uma aproximação com a atitude filosófica original. Responder a essa questão, mesmo de maneira precária (exigente) e renovada, já é filosofar. Nesse aspecto, é preciso levar em consideração a afirmação de Lipman (1990, p.52):
O que está surgindo agora é que o pensamento está se tornando o verdadeiro fundamento do processo educacional e que a educação construída sobre qualquer outra fundação (tal como o tipo de educação que temos atualmente) será superficial e estéril. Uma vez que as habilidades necessárias para o pensar nas outras disciplinas têm de ser aperfeiçoadas anteriormente, vemos por que a Filosofia precisa deixar de ser um assunto de universidade e tornar-se uma matéria da escola primária – uma disciplina cuja tarefa é preparar os estudantes a pensar nas outras disciplinas.
2 AS DIRETRIZES, TENDÊNCIAS, VISÕES E INSPIRAÇÕES FILOSÓFICO-