3 A PROPOSTA DE FILOSOFIA PARA CRIANÇAS DO PROFESSOR LIPMAN E
3.1 Quem é Matthew Lipman e o que é Seu Programa de Filosofia para Crianças?
Matthew Lipman nasceu em 24 de agosto de 1922, na cidade de Vineland, New Jersey (EUA). Sua família era de origem modesta e de descendência judeu-russa. O filósofo e educador norte-americano participou da II Guerra Mundial servindo no batalhão de infantaria na França, Áustria e Alemanha. Relatos de pessoas que lhe são íntimas mostram que é uma pessoa humilde, inteligente, serena, vivaz, espirituosa e com uma preocupação social forte, especialmente no tocante à situação da infância.
Em sua formação acadêmica, com doutorado na Universidade de Columbia (Nova Iorque) defendeu sua tese sobre arte25, o que demonstra serem suas primeiras preocupações relacionadas à estética e à metafísica. Lipman afirma ser a arte uma expressão da inteligência e do pensamento, portanto, cognitiva. Sendo a arte uma
25 Sua dissertação, Problemas de Investigação Artística, foi defendida em 1950, mas publicada somente em
expressão estética e cognitiva, seu interesse passava por possíveis analogias entre a arte e a Filosofia. Seus estudos foram sobre estética, Filosofia norte-americana e John Dewey, com quem mantinha contatos e por quem nutria admiração.
Esteve na Sorbone, França, realizando estudos de pós-graduação por dois anos. Lá conheceu melhor a idéia de Maurice Merleau-Ponty, Gaston Bachelard e outros fenomenólogos e existencialistas. A partir desses contatos e estudos, passou a considerar e buscar uma Filosofia mais intensa e viva. Durante essa fase de estudos e no decorrer de sua vida e obras, interessou-se em aprofundar seus estudos em estética, metafísica, pragmatismo, fenomenologia, existencialismo e Filosofia da linguagem. Como professor de Filosofia na Universidade de Columbia, da cadeira de Lógica, com filhos em idade escolar, começou a realizar as primeiras experiências de traduzir para o entendimento infantil os conteúdos filosóficos acadêmicos. Principalmente os primeiros procedimentos sob uma investigação lógica e na idéia de que, ao entender os passos do processo de investigação científica, as crianças estariam aprendendo a pensar melhor, também, nos conteúdos das disciplinas escolares. Portanto, visava a desenvolver a investigação filosófica com o objetivo de ampliar a aprendizagem e o entendimento dos demais saberes humanos.
Desse início dos trabalhos com as crianças, Lipman, em 1972, foi para o Departamento de Filosofia do MontClair State College, em New Jersey. Lá lecionou Filosofia para os acadêmicos e os trabalhos de aplicação do Programa de Filosofia para Crianças, criando o IAPC (Institute for the Advancement of PhiloSophy for Children26).
A motivação para disponibilizar o acesso e entendimento da Filosofia às crianças, numa investigação filosófica, teve alguns pontos decisivos. Um deles, de ordem pessoal, foi a aprendizagem dos próprios filhos, outro, de ordem profissional, foi que seus alunos da graduação apresentavam grandes dificuldades de leitura e compreensão dos conteúdos filosóficos. Acreditava Lipman que a escola não estava
26 Foi fundado oficialmente em 1974, com o objetivo de organizar e ampliar a preparação, difusão e o
desenvolvimento do Programa de Filosofia para Crianças nos EUA e também com pessoas e instituições de outros países.
desenvolvendo adequadamente as habilidades cognitivas das crianças. O caminho seguido por ele foi, via lógica e Filosofia, favorecer o desenvolvimento das habilidades de raciocínio, do bom e bem pensar.
Aos críticos que tecem comentários ao seu programa ou dizem que é uma vulgarização da Filosofia, que é impossível ensinar Filosofia às crianças, diz:
Estão cometendo um erro. Não estamos tentando fazer com que memorizem Aristóteles. Não estamos querendo que aprendam Filosofia, mas que façam Filosofia. Isto envolve deliberação, diálogo, raciocínio. As crianças podem ler, discutir, raciocinar. Podem falar das coisas sobre as quais falam os filósofos, sobre a verdade, a justiça, etc. Podem dizer que as crianças não são capazes de fazer isso, mas o fato é que elas o fazem (FOLHA DE S. PAULO, 01/05/1994, p.6.5).
Existem críticas a uma colocação de Lipman, quando ele fala que os jovens do final dos anos 60 tinham o desejo de mudanças (movimento estudantil de 1968) e que, a partir dessa posição política, cometiam irracionalidades. O que é preciso entender aqui é a constatação feita primeiramente junto aos seus filhos, e aos seus alunos na universidade de Columbia e em MontClair: a juventude estava em uma escola que não prezava pela investigação de nenhuma espécie. Havia um despreparo em analisar, julgar, agir diante das idéias colocadas e pouco hábito no discutir as idéias, perceber as ideologias, deixar-se conduzir. Caberia então à Filosofia ajudar, desde os primeiros anos escolares, em Comunidade de Investigação, auxiliada pelos professores, que deveriam adotar condutas ‘racionais’, ser críticos, criativos e criteriosos, para que as ações pudessem ser duradouras, dentro da racionalidade.
Ambas as motivações de Lipman são políticas. Seu desejo era que a aprendizagem passasse a ser significativa, participativa e transformadora. Assim como qualquer mudança social também precisa desses elementos e de uma boa dose de racionalidade, aqui não se pode ver nenhum papel conservador atribuído à prática da Filosofia na escola. Ao contrário, essa intenção de ação mostra a racionalidade que seu programa busca junto às crianças e também aos professores: é um apelo filosófico racional, como deve ser qualquer reflexão filosófica.
Com a organização IAPC, Lipman e seus colaboradores passaram a década de 1970 e 1980 produzindo textos, materiais didáticos27 e teóricos28, capacitando professores, discutindo e divulgando a proposta. O que se constata é que a aplicação e a expansão organizada pelo IAPC levou a uma internacionalização a partir da metade da década de 80. Em 1985, surgiu o Conselho Internacional para Investigação Filosófica com Crianças ( ICPIC29).
O próprio Lipman diz que, quando percebeu o seu interesse pelo bem pensar das crianças por intermédio da Filosofia, sabia muito pouco de educação, e completa: “Meus estudos são de Filosofia e não de pedagogia”.
Sobre Lipman, vale destacar que:
Ele via que nos Estados Unidos dedica-se muito tempo à escrita, à leitura e à matemática, mas o resultado é muito escasso. Por quê? As escolas são meras repetidoras de informações. Se, pelo contrário, se colocasse ênfase não no ato de os alunos memorizarem, mas no de buscarem as respostas para suas interrogações através do diálogo, da leitura compreensiva e do questionamento, os resultados seriam bem mais significativos, tanto em curto como em longo prazo. Em outras palavras, se a criança ou o jovem não sabem pensar, não sabem detectar as articulações internas das coisas ou da linguagem escrita, significa que a escola não lhes ensinou a pensar (SOUZA, 2001, p.38).
É sua a afirmação de que a demora em utilizar a Filosofia em todos os momentos da vida escolar deve-se, principalmente, aos próprios filósofos, pois encaram o ato de filosofar como ‘privilégio’ de alguns, e entendem que a apreensão filosófica do mundo, do outro e de si mesmo está muito longe dos ‘simples mortais’ , das crianças ou de todos que estão em um certo estágio de reflexão.
27
Livros escritos por Lipman que foram traduzidos e são comercializados pelo CBFC (Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças): A descoberta de Ari dos Telles, Luísa, Pimpa, Issao e Guga (histórias para os alunos e manual para os Professores).
28
Vários livros, dentre os quais estão presentes no nosso mercado editorial: Filosofia na sala-de-aula (1980), A Filosofia vai `a escola (1988), O pensar na educação (1991), Natacha: diálogos Vigostkianos (1997).
29
O ICPC, International Council for PhiloSophical Inquiry with Children, tem participantes sócios de várias partes do mundo e é responsável pelo debate e pelas resoluções dos principais problemas que envolvem o aplicar do programa nos mais variados países; responsável por conseguir recursos nos organismos internacionais para projetos.