O E SPIRITISMO : UMA DOUTRINA FILOSÓFICA ?
3.2. A filosofia espírita no período religioso
Nossas considerações devem começar pela admissão explícita de que Kardec nunca afirmou que a doutrina dos Espíritos fosse uma teologia. Ao contrário, em todos os momentos, até o fim de sua vida, nosso autor sempre declarou que o Espiritismo, em seu aspecto doutrinário, era uma filosofia de bases positivas ou uma ciência filosófica. Dito isso é preciso ainda esclarecer que, portanto, a denominação teologia espírita com que buscamos, a partir de agora, caracterizar a doutrina em questão é fruto de meu esforço interpretativo da obra kardeciana. Ou seja, embora esta não seja uma conceituação própria de Kardec, creio que ela encontre na obra deste autor as razões suficientes para ser sustentada com propriedade.
Contudo, se é assim, por que Kardec teria evitado chamar sua doutrina de teologia? No capítulo anterior discutimos como o codificador encontrava-se sob a influência da mentalidade positivista de vertente comteana, típica do século XIX francês. Ora, por causa desta influência, é possível que Kardec tenha considerado o conceito de teologia sob uma perspectiva semelhante à de Comte, para quem esta seria um tipo de filosofia. Um tipo 484
insuficiente de conhecimento, contudo, próprio ao estágio inicial do desenvolvimento da inteligência humana e fundado sobre a crença de que todas as anomalias aparentes no
CHIBENI. O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso. Parte I. Reformador,
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agosto de 2003. p. 38-39.
Segundo a definição de Comte, teria havido três sortes de filosofia ou de sistemas gerais de concepções sobre
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o conjunto dos fenômenos: a teologia, a filosofia ou metafísica e a ciência positiva. O primeiro marcaria o ponto de partida necessário à inteligência humana; o terceiro seu estado definitivo; e, o segundo marcaria a transição
universo se dariam devido à interferência de agentes sobrenaturais. E, como vimos acima, 485
Kardec crê que os fenômenos mediúnicos sejam fenômenos naturais, que escapariam completamente ao domínio do sobrenatural; e, como tais, deveriam possuir uma explicação dentro do quadro geral das leis da natureza, sendo, portanto, objeto de uma ciência positiva. Por outro lado, assumir explicitamente o caráter teológico da doutrina equivaleria a negar seu caráter científico e assumir, também explicitamente, que o Espiritismo seria uma nova religião. Fato que, como veremos no próximo capítulo, Kardec nega veementemente em sua polêmica com o abade François Chesnel. Como discutimos também no capítulo anterior, o conceito de ciência desfruta de uma precedência epistemológica sobre o conceito de filosofia dentro da obra de Allan Kardec. Essa precedência se torna patente na exigência de que aquilo que Kardec nomeia como filosofia espírita, que nada mais é que a própria doutrina consignada em Le Livre des Esprits, seja construída a partir da aplicação do método indutivo. Para Kardec essa seria a condição para que a doutrina espírita pudesse ser considerada uma filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema; uma doutrina construída a partir de uma objetividade exemplar na qual nenhuma ideia pré-concebida tomasse parte ou interferisse em qualquer nível. Este caráter positivo excluiria qualquer possibilidade, portanto, de que a doutrina fosse encarada como uma doutrina teológica.
No entanto, como dissemos acima, Kardec tem, ao mesmo tempo em que trabalha na elaboração do corpo doutrinário que aparecerá com a publicação de seu primeiro tratado espírita, um crescente sentido de que é o portador de uma missão providencial. Uma missão que possui fortes características de um mandato carismático de cunho religioso. Na verdade, ao que tudo indica, Kardec assume a missão de promover, com o Espiritismo, verdadeira reforma religiosa. Sendo assim, nosso quadro se tornaria ainda mais complexo e problemático. Como poderia Kardec ao mesmo tempo ver-se como portador de uma missão de reforma religiosa, organizador de uma doutrina teológica, e se recusar terminantemente em admitir que o Espiritismo fosse uma nova religião? Acredito que, de certa maneira, o debate neste capítulo do caráter teológico da doutrina espírita nos colocará na direção certa para a solução de tais problemas.
COMTE. Curso de Filosofia Positiva. op. cit. p. 22. “No estado teológico, o espírito humano, dirigindo
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essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de seres sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo”.
Antes de qualquer coisa, precisamos estabelecer as bases do debate. Para tanto, é necessário que retomemos um aspecto importante, que foi intencionalmente omitido, quando discutimos no capítulo anterior a ideia do controle universal do ensino dos Espíritos, proposta por Kardec em 1864 com a publicação de Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme. Um aspecto que, agora, quando pretendemos fazer avançar um pouco mais nossa compreensão do conceito kardeciano de filosofia, confrontando-a com o conceito de teologia espírita, se torna imprescindível discutirmos. Nesta mesma obra, ao propor o controle universal como uma ferramenta metodológica para o estabelecimento de novos princípios doutrinários, Kardec tem em mente que estes mesmos princípios, bem como toda a doutrina, sejam fruto de uma revelação providencial. Não é que ele utilize o termo revelação em sentido figurativo, como se se tratasse de princípios que fossem meramente descobertos por meio da pesquisa. Antes, a ideia de fundo é que os Espíritos estariam seguindo uma espécie de desígnio divino para a plena manifestação da doutrina a qual seria, então, a terceira revelação da lei de Deus em missão de complementaridade e sucessão às revelações mosaica e cristã. Esta é uma das razões, embora não seja a única, que nos leva a defender esta obra – que posteriormente se intitulará L’Évangile selon le Spiritisme – como o livro inaugural do período religioso do Espiritismo, previsto por Kardec em 1863.
Embora a ideia de que o Espiritismo cumpriria um propósito providencial já estivesse presente no pensamento de Kardec desde 1857, me parece que a admissão explícita de que o mesmo seria um grande evento revelatório tenha criado algumas dificuldades para nosso autor. Isto porque, praticamente desde o começo de suas pesquisas, ele havia negado com veemência que o Espiritismo fosse uma nova religião. Ora, estando o conceito de revelação inegavelmente ligado ao pensamento religioso – e o próprio Kardec admite isso, como veremos – afirmar que o Espiritismo seria uma nova revelação não equivaleria a dizer que ele estaria a caminho de se tornar uma nova religião? Não seria essa, igualmente, a consequência lógica de admitir que o Espiritismo estivesse prestes a entrar num período religioso? Como conciliar esta nova informação, esta nova via, com o que já havia sido construído até o momento em termos da compreensão da natureza da doutrina? Poderia ainda se chamar de ciência filosófica uma doutrina que estaria fundada sobre um evento revelatório? Não seria melhor, antes, nomeá-la como uma ciência teológica?
Alguns destes questionamentos só terão sua resposta no próximo capítulo, quando investigaremos diretamente a questão religiosa na obra kardeciana. No entanto, não poderíamos deixar de mencioná-los aqui, já que a partir de agora iremos considerar o modo como Kardec proporciona uma ampliação do sentido da expressão filosofia espírita a fim de abarcar o conceito de revelação divina. A fim de bem compreendermos este processo, faz-se necessário que, durante toda a discussão que virá, não nos esqueçamos de um fato extremamente relevante. Como dissemos no Capítulo 1 desta tese, há indícios em L’Évangile selon le Spiritisme que demonstram a preocupação de Kardec com a continuidade de sua obra. Através de elementos diversos, o codificador se preocupa em construir um vínculo que ligasse o novo livro, e o período que ele inaugura, ao período científico-filosófico. Sua preocupação parece ser a de preservar, na medida do possível, a representação anterior da doutrina como fruto de um trabalho investigativo científico. Assim, por exemplo, sua preocupação metodológica tardia e o estabelecimento das regras do controle universal a que nos referimos anteriormente. Além disso, mais voltado para o aspecto propriamente filosófico do período anterior, Kardec apresenta Sócrates e Platão como precursores da ideia cristã e do Espiritismo. Esta é uma medida importante, uma vez que estes dois pensadores gregos 486
teriam participado, como Espíritos superiores, do processo que deu origem a Le Livre des Esprits. Essas precauções, a meu ver, representam um esforço de continuidade no discurso. Sim, o Espiritismo está entrando em uma nova fase, seu período religioso, mas isso não significaria, a rigor, uma ruptura com as fases anteriores. Ao contrário, parece-me mesmo haver uma ideia de fundo de que a entrada do Espiritismo neste novo período se trataria, na verdade, de um avanço em relação aos períodos anteriores. Como podemos verificar no seguinte trecho, no qual Kardec, ao tratar do tema da concordância universal, afirma:
Uma das maneiras através da qual Kardec tenta inserir a doutrina por ele criada no contexto mais amplo da
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história da filosofia e do espiritualismo filosófico é através dos nomes de autores clássicos do pensamento ocidental presentes na obra da codificação. Se olharmos atentamente a lista desses autores veremos ali nomes como Sócrates e Platão, por exemplo, a quem Kardec atribui o título de precursores da ideia cristã e do
espiritismo. Contudo, o Sócrates de Kardec é um Sócrates convertido em símbolo, um Espírito cristianizado; não
o “homem de carne e osso [...] o cidadão ateniense nascido em 469 a.C. e condenado à morte e executado no ano 399 a. C. [...]”, como diria Werner Jaeger. É o Sócrates convertido em mártir pré-cristão, quem sabe até um
santo pagão, cuja doutrina teria preparado terreno para a ideia cristã e para o Espiritismo. O Sócrates de Kardec
lhe vem através do imaginário iluminista para o qual o filósofo se convertera em guia, “[...] apóstolo da liberdade moral, separado de todo dogma e de toda a tradição [...], evangelista da nova religião terrena e de um conceito de bem-aventurança atingível nesta vida mercê da força interior do homem e baseada, não na graça, mas na incessante tendência ao aperfeiçoamento do nosso próprio ser” (JAEGER, Werner. Sócrates. In: ______.
Na nossa posição, recebendo as comunicações de cerca de mil centros espíritas sérios, disseminados sobre diversos pontos do globo, estamos em condições de ver os princípios sobre os quais esta concordância se estabelece. Foi esta observação que nos guiou até este dia e é, igualmente ela que nos guiará nos novos campos que o Espiritismo é chamado a explorar. Foi assim que, estudando atentamente as comunicações vindas de diversos lados, tanto da França quanto do estrangeiro, reconhecemos, pela natureza toda especial das revelações, que ele tende a entrar por um novo caminho e que lhe chegou o momento de dar um passo para adiante. 487
Assim, nesse momento, para compreendermos essa nova via em que o Espiritismo deveria entrar a partir de 1864, creio ser necessário que nos voltemos para dois aspectos do conceito kardeciano de filosofia que se desenvolvem a partir de então. Um desses aspectos é o confronto com a fonte de autoridade da tradição cristã e a admissão de que o Espiritismo seja a terceira revelação da lei de Deus. O outro aspecto, não menos importante, é a tentativa levada a efeito por Kardec de apresentar o Espiritismo como uma chave de leitura daquela mesma tradição, tornando-o, assim, uma espécie de médium do cristianismo para o século XIX e para a nova era da humanidade. A seguir discutiremos cada um desses aspectos.
3.2.1. O Espiritismo como fonte: o problema da revelação
Como dissemos, a fim de promover a passagem do Espiritismo de seu período científico- filosófico para o período religioso, Kardec precisaria conciliar suas reflexões anteriores sobre a natureza da doutrina com a nova realidade que agora se apresenta. O principal desafio será, parece-me, conciliar as duas fontes de autoridade de saberes tão díspares quanto ciência e religião. Se o primeiro retiraria sua autonomia e autoridade da aplicação do método positivo aos fatos, para deles inferir leis universais; a religião, por sua vez, fundada sobre o conceito de revelação dependeria, exclusivamente, da autoridade daquele que fala em nome de Deus. A primeira providência tomada por Kardec foi sugerir que a filosofia espírita pudesse reaproximar as duas formas de saber. Afinal, “ambas [...] tendo o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se”. Este é um ponto importante que, posteriormente, será 488
ES, p. XI-XII: “Dans notre position, recevant les communications de près de mille centres spirites sérieux,
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disséminés sur les divers points du globe, nous sommes à même de voir les principes sur lesquels cette concordance s'établit ; c'est cette observation qui nous a guidé jusqu'à ce jour, et c'est également celle qui nous guidera dans les nouveaux champs que le Spiritisme est appelé à explorer. C'est ainsi qu'en étudiant attentivement les communications venues de divers côtés, tant de la France que de l'étranger, nous reconnaissons, à la nature toute spéciale des révélations, qu'il y a tendance à entrer dans une nouvelle voie, et que le moment est venu de faire un pas en avant.”
ES. p. 6.
retomado por Kardec: Deus é o real ponto de conexão entre ciência e religião. Será também o ponto comum que ambas terão com a filosofia espírita, como se verá.
Assim, Kardec precisará se haver, diante da pretensa precedência epistemológica da ciência espírita sobre a filosofia e a religião, com o conceito de revelação. Um conceito forte que, embora possa ser associado a significados mais corriqueiros como, por exemplo, o de “[...] descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida” ; está, inegavelmente, 489
ligado ao âmbito da religião. A saída encontrada – afirmar não apenas que o Espiritismo seria uma revelação, como seria ainda a terceira revelação da lei de Deus – parece ter-lhe gerado alguns problemas, como dissemos acima. Para solucioná-los, penso, foi preciso que Kardec aplicasse ao conceito de revelação uma extensão tão ampla que ele pudesse se abrigar em si todas as formas de conhecimento. E aí, novamente, a precedência epistemológica do conceito de ciência se faz sentir. Admitindo a existência da revelação religiosa na revelação espírita, subordinada, contudo, ao método positivo das ciências, Kardec teria tentado preservar a coerência do discurso no interior de sua obra. Mas, estamos nos precipitando. Antes de concluirmos algo sobre este tema, precisamos investigar as origens do conceito de terceira revelação da lei de Deus, aplicado por Kardec ao Espiritismo no princípio do período religioso de sua história.
Que o Espiritismo cumpriria um propósito providencial na história é uma crença que Kardec sempre defendeu. Nos Prolégomènes da primeira edição de Le Livre des Esprits isso fica bastante claro. Assim como fará Arthur Conan Doyle anos mais tarde em The History 490
of Spiritualism , Kardec afirma que relatos das manifestações ostensivas entre o mundo 491
espírita e o mundo corporal estão presentes em todas as épocas da história da humanidade. No entanto, segundo este autor, se os fenômenos que ocorreram a partir de 1848, nos Estados Unidos, e que deram origem ao Moderno Espiritualismo, e, consequentemente, ao
GMP. p. 2: “Revelar, derivado da palavra véu (do latim velum), significa literalmente retirar o véu; e, em
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sentido figurado: descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida”. No original: “Réveler, dérivé du mot voile (du latin velum), signifie littéralement ôter le voile; et, au figuré, faire connaître une chose secrète ou inconnue”.
LE1, p. 29-30: “Os espíritos anunciam que chegaram os tempos marcados pela Providência para uma 490
manifestação universal, e que, sendo os ministros de Deus e os agentes de sua vontade, a sua missão é instruir e esclarecer os homens, inaugurando uma nova era para a regeneração da humanidade”. No original: “Les esprits annoncent que les temps marqués par la Providence pour une manifestation universelle sont arrivés, et qu’étant les ministres de Dieu et les agents de sa volonté, leur mission est d’instruire et d’éclairer les hommes en ouvrant une nouvelle ère pour la régénération de l’humanité”.
O livro foi publicado originalmente em dois volumes em 1926. No Brasil, a primeira tradução desta obra feita
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por Júlio Abreu Filho, assumiu erroneamente o título de História do Espiritismo. Recentemente a editora da Federação Espírita Brasileira lançou nova tradução, de autoria de José Carlos da Silva Silveira, que corrige este equívoco.
Espiritismo, possuiriam as características de uma “invasão organizada”; para Kardec, essa invasão tem o caráter de uma manifestação universal e cumpre, como se viu acima, um plano providencial. Os Espíritos superiores seriam os “ministros de Deus e agentes de sua vontade”; e Le Livre des Esprits, a coletânea de seus ensinamentos. No entanto, embora a palavra revelação ainda não seja utilizada aqui, seu conceito já se encontra implícito na própria noção acima descrita.
De fato, a problematização do tema só acontecerá explicitamente com a inclusão da teoria das três revelações no cânone kardeciano em 1864. A raiz dessa teoria, no entanto, 492
data de 1861, e tem sua origem numa série de comunicações que teriam sido obtidas por um médium de Mulhouse. Kardec publicará essas comunicações nos números de março e setembro da Revue, omitindo propositalmente o nome do médium, chamando-o apenas de Sr. R..., fiel a seu princípio de que a identidade dos correspondentes seria preservada. 493
A primeira comunicação, publicada no número de março, é introduzida por um trecho da carta do próprio Sr. R... no qual esclarece os motivos que o teriam levado a consultar seu Espírito protetor Mardoché R... a fim de solucionar uma dúvida que lhe ocorrera. Afirma o médium:
Em primeiro lugar devo lhe dizer que professo o culto israelita e que, naturalmente, levado às ideias religiosas nas quais fui educado. Eu havia notado que, em todas as comunicações feitas pelos Espíritos, estava sempre em questão apenas a moral pregada pelo Cristo e que nunca se falava da lei de Moisés. Eu me dizia, contudo, que os mandamentos de Deus, revelados por Moisés, pareciam-me ser o o fundamento da moral cristã; que o Cristo havia sido capaz de ampliar seu quadro e desenvolver suas consequências, mas que o germe estava na lei ditada no Sinai. Perguntei-me, então, se a menção, tão frequentemente repetida, da moral do Cristo, embora a Moisés não lhe fosse estranha, não proviria do fato que a maior parte das
Por teoria das três revelações designo a ideia geral de que a história da humanidade teria sido marcada por
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três grandes revelações divinas. Emile Littré, em seu Dictionnaire de la langue française (1872-1877), no verbete révélation, registra o uso frequente da expressão les trois révélations para fazer referência à religião judaica, à religião cristã e à religião muçulmana. Em apoio a essa afirmação, Littré cita o Émile de Jean-Jacques Rousseau. É curioso observar que Kardec dá um novo sentido a essa expressão, atribuindo ao Espiritismo o lugar de terceira revelação. Posteriormente, Kardec desqualificará o Islã como uma genuína revelação: “Apenas constatamos as duas grandes revelações sobre as quais se apoia o Cristianismo: a de Moisés e a de Jesus, porque tiveram uma influência decisiva na Humanidade. O islamismo pode ser considerado como um derivado de concepção humana do mosaísmo e do Cristianismo. Para acreditar a religião que queria fundar, Maomé teve que se apoiar sobre uma pretensa revelação divina” (RS, Avr/1866, p. 100). O lugar de terceira revelação teria ficado assim vacante até o advento do Espiritismo.
“Não daremos o conhecer os nomes das pessoas que nos enviarem as comunicações, a não ser que, para isto
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comunicações recebidas emanavam de Espíritos que haviam pertencido à religião dominante e se elas não seriam uma lembrança de ideias terrenas. 494