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O corpus kardeciano e os períodos do Espiritismo

No documento augustocesardiasdearaujo (páginas 75-90)

O E SPIRITISMO EM SEU TRÍPLICE ASPECTO

1.4. O corpus kardeciano e os períodos do Espiritismo

Denomino, aqui, corpus kardeciano o conjunto completo das publicações espíritas feitas por Allan Kardec entre 1857 e 1869. Em geral, mesmo no movimento espírita, a ênfase maior recai sobre o chamado pentateuco espírita, os cincos principais tratados doutrinários escritos por Kardec , também conhecidos como codificação espírita. No entanto, como nossa 185 186

intenção é a de compreender o pensamento kardeciano em suas diversas fases de desenvolvimento, reduzir nosso objeto a esse pequeno número de livros, torna-se impensável. Mesmo que, por sua importância, eles possam ser considerados como grandes marcos na carreira espírita de seu autor, não poderíamos nos esquecer, por exemplo, dos doze volumes contendo a coleção integral dos anos em que Kardec esteve à frente da Revue Spirite [1858-1869]. Ou, então, dos opúsculos de divulgação doutrinária e do conjunto de textos e anotações publicados por seus discípulos em 1890 sob o título Oeuvres Posthumes. Cada uma dessas obras tem sua história – algumas com várias edições publicadas ao longo da vida do autor sofreram grandes ou pequenas modificações, inclusive nos títulos e na extensão –, cada uma refletindo, a seu modo, as preocupações e os interesses de Kardec, bem como os modos como ele encarou os conceitos que norteiam nossa pesquisa em cada época distinta do desenvolvimento da doutrina e do movimento por ele fundado. 187

São estes, segundo a ordem de sua publicação: Le Livre des Esprits [1860]; Le Livre des Médiuns [1861];

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L’Évangile selon le Spiritisme [1864] ; Le Ciel et l’Enfer selon le Spiritisme [1865] ; e, La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme [1868]. Além desses tratados e da Revue Spirite, periódico mensal fundado

em 1858 e que será dirigido e editado por Kardec até sua morte em 1869, compõem ainda o corpus kardeciano: a primeira edição de Le Livre des Esprits [1857]; Instruction Pratique sur les manifestations spirites [1858]; a brochura Qu’est-ce que le Spiritisme [1859]; a Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme [1864] ; além das pequenas brochuras de divulgação doutrinária: Le Spiritisme à sa plus simples expression [1862]; Voyage Spirite

de 1862; Résumé de la loi des phénomènes spirites ou première initiation a la usage des personnes étrangères à la connaissance du Spiritisme [1864] ; Recueil de Prières extrait de L’Évangile selon le Spiritisme [1866] ; Caractère de la révélation spirite [1868]   ; Catalogue Raisonné des Ouvrages pouvant servir a fonder une Bibliothèque Spirite [1869]. Também o Étude sur la poésie médianimique [1867], publicado como Introdução à

obra Échos Poétiques d’outre-tombe, de L. Vavasseur . E, por fim, o conjunto de textos e anotações publicados por seus discípulos em 1890 sob o título Oeuvres Posthumes.

Deriva dessa expressão o epíteto de codificador frequentemente atribuído a Kardec.

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Não tenho a intenção de, ao longo deste trabalho, apresentar exaustiva história do desenvolvimento desta

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obra. No entanto, parece-me imprescindível que, de alguma forma, algumas das mudanças mais significativas do ponto de vista que nos ocupa aqui sejam devidamente ressaltadas. Dessa forma, essa seção de nosso trabalho apresentará a proposta de periodização da obra kardeciana, a partir da periodização que nosso autor oferece do processo de expansão do Espiritismo. Este expediente favorecerá o desenvolvimento de etapas posteriores da pesquisa.

Apesar da obviedade desta última observação, já que toda obra está situada histórica e existencialmente ligada às convicções de seu autor, refletindo, portanto, algo o esprit du temps e da intentio auctoris, ela é necessária por causa do lugar simbólico ocupado pela obra kardeciana no imaginário do movimento espírita. Encarada pelo próprio autor como fruto de uma revelação providencial, a doutrina espírita consignada no corpus kardeciano tem sido facilmente identificada como um saber a salvo das vicissitudes típicas de uma composição literária comum. Em outras palavras: a obra kardeciana, há muito, assumiu para a maior parte do movimento espírita o lugar ocupado pelos textos sagrados de outras religiões. Em 188

momento oportuno trataremos especificamente do significado do termo revelação aplicado por Kardec ao Espiritismo. Por agora, interessa-nos, sobretudo, a constatação de que essa dinâmica de recepção dos escritos de Kardec como depositários da doutrina espírita, entendida como um conjunto atemporal de conhecimentos revelado por “Espíritos superiores”, tem significativamente diminuído o valor desses escritos enquanto obra e, portanto, diminuído, ou mesmo praticamente anulado, o papel de Kardec como autor. 189

Essa representação, muitas vezes reforçada em pontos diversos da própria obra kardeciana, embora possa ser adequada ao adepto, para nossa pesquisa, se adotada, traria algumas consequências indesejadas. A primeira é, que vista sob essa perspectiva, a doutrina não conteria qualquer contradição ou erro; já que “[...] a falência total ou parcial da obra de Kardec [...]” representaria “[...] a falência total ou parcial dos Espíritos Superiores, particularmente do Espírito da Verdade, e consequentemente a falência dos ensinos do Cristo”. Sendo assim, o corpus kardeciano deveria ser lido e interpretado de modo a 190

minimizar as aparentes contradições, ou mesmo as falhas argumentativas, decorrentes do contexto específico em que a obra foi escrita; da falha pessoal de Kardec enquanto autor; ou mesmo da evolução de seu pensamento ao longo dos anos. Isso se tornará evidente, como veremos, na discussão do aspecto religioso do Espiritismo. Tanto aqueles que defendem ser o Espiritismo uma religião, como aqueles que renegam essa hipótese, partem do pressuposto, a meu ver equivocado, de que Kardec sempre sustentou o mesmo posicionamento sobre esse

Refiro-me aqui às concepções religiosas de feição fundamentalista para as quais seus textos-fonte se

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constituem como literal e completa revelação de Deus.

Muitas vezes, sob o epíteto de codificador os espíritas têm feito essa redução do papel de Kardec na

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consignação da doutrina apresentando-o como mero organizador ou compilador do ensino dos Espíritos Superiores.

PIRES, José Herculano. A pedra e o joio. São Paulo: Cairbar, 1979. p. 9.

tema. Curiosamente, a segunda consequência, derivada desta primeira, seria, portanto, a 191

inerrância de Kardec. Embora reduzido ao papel de coadjuvante na revelação da doutrina espírita ao mundo, Kardec teria sido, no cumprimento de sua missão providencial, o melhor instrumento dessa manifestação. Seu papel, reduzido ao de compilador fiel e objetivo do ensino dos Espíritos Superiores, lhe conferiria, assim, uma blindagem contra a crítica. E isso de tal modo que, para muitos, estabelece-se um novo axioma segundo o qual fora de Kardec não há Espiritismo. 192

Por isso, a fim de evitarmos essa leitura teologizante e de cunho fundamentalista do pensamento kardeciano, creio ser necessário assumir o conjunto de seus escritos como uma obra. O que significa admitir que o corpus kardeciano se ressente das vicissitudes comuns a toda e qualquer obra literária. Além disso, significa que é necessário restabelecer Kardec como legítimo autor da doutrina expressa nesses escritos que levam a sua assinatura; mesmo que isso signifique, em grande medida, contrariar o que disse e escreveu Kardec a esse respeito. Tal postura nos colocará também na posição oposta à maioria dos intérpretes que, na qualidade de adeptos, tendem a, no máximo, admitir que Kardec seja coautor, ao lado dos Espíritos, da doutrina expressa em seus textos canônicos. Para assegurarmos o mínimo de violência possível àquilo que se compreende como a intenção do autor em sua obra; na consecução desses objetivos sugiro lançarmos mão de dois expedientes previstos pelo próprio Kardec.

O primeiro deles encontra-se na Conclusão da segunda edição de Le Livre des Esprits. A esta altura, em 1860, Kardec já acumulou alguma experiência em relação aos opositores da doutrina. Ele sabe, por exemplo, que muitos que a criticam nem mesmo se deram ao trabalho de conhecê-la. Negam sua possibilidade por mero preconceito, por espírito de sistema. Diante disso, dirige-se aos adversários de boa-fé, dizendo:

Seguramente se nós houvéssemos apresentado esta filosofia como obra de um cérebro humano, ela teria encontrado menos desdém e teria conquistado

Como, por exemplo, o faz Krishnamurti de Carvalho Dias, ao afirmar que: “Desde o primeiro contato (o

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episódio Carlotti, os contatos com Pâtier, Fortier e Roustan) até seu decesso, uma nota dominava tudo: Rivail apresentava o Espiritismo como matéria científica e filosófica, negava que fosse religiosa, embora reconhecesse a interação existente com essa área”. (DIAS, Krishnamurti de Carvalho. Análise do Pensamento de Allan Kardec

de 1855 a 1869. Disponível em: http://viasantos.com/pense/arquivo/1327.html).

Para Krishnamurti de Carvalho Dias, por exemplo: “[...] o espiritismo é Kardec, é a Codificação, não as

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fantasias e os equívocos de ninguém”. (Cf.: DIAS, Krishnamurti de Carvalho. O Laço e o Culto. É o espiritismo uma religião? Santos: DICEP, 1985. p. 30).

a honra do exame daqueles que pretendem dirigir as opiniões. Mas ela vem dos Espíritos, que absurdo! Ela mal merece um de seus olhares [...]. Façam, se o quiserem, abstração de sua origem. Suponham que este livro seja a obra de um homem e digam em sua alma e consciência se, após tê-lo seriamente lido, se encontram aí matéria para zombaria. 193

Ora, como primeiro passo, sugiro que nos apropriemos aqui dessa “licença” dada por Kardec – embora não me veja como um adversário do Espiritismo, nem mesmo tenha a pretensão de julgá-lo ou ridicularizá-lo – e façamos abstração da origem por ele atribuída à doutrina. Coloquemos, por um momento, esta informação entre parênteses, a fim de nos proporcionarmos uma leitura contextualizada, não apenas de Le Livre des Esprits, mas de toda a sua obra. Contudo, é necessário não perdermos de vista que, mesmo atuando como autor, Kardec tem seu trabalho influenciado por aquilo que acredita ser a orientação dos Espíritos. Diante desse quadro, tendo em vista a necessidade de preservar de um lado o caráter autoral da obra em questão, e de outro, a importância daquilo que Kardec, como autor, pensa a respeito de si e de sua obra, creio que podemos encontrar um ponto de mediação atribuindo- lhe o papel de intérprete que, em meio a inúmeras fontes de informação, constrói seu pensamento a partir de seus próprios pressupostos e os apresenta à crítica dos leitores.

E, mais uma vez, o próprio Kardec é quem nos autoriza a estratégia quando declara: “C’est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées, et

maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du

Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857”. Gostaria de chamar a atenção para a expressão 194

em negrito e que tem sido comumente traduzida como “muitas vezes retocadas”. Esta não é uma tradução incorreta embora, a meu ver, ela enfraqueça o sentido original do verbo francês remanier. Em sua etimologia este verbo remonta a manier que tem o sentido primeiro de manipular, tocar com as mãos. Daí, o Dictionnaire de l’Académie Française [1835] definir remanier como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Sendo assim, talvez, a maneira mais acertada de compreender o sentido da declaração de Kardec seja o seguinte: “Da comparação e da fusão de todas as respostas coordenadas, classificadas e, muitas vezes, reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do

LE2, p. 449: “Assurément si nous eussions présenté cette philosophie comme étant l’oeuvre d’un cerveau 193

humain, elle eût rencontré moins de dédains, et aurait eu les honneurs de l’examen de ceux qui prétendent diriger l’opinion ; mais elle vient des Esprits ; quelle absurdité ! c’est à peine si elle mérite un des leurs regards [...]. Faites, si vous le voulez, abstraction de l’origine ; supposez que ce livre soit l’oeuvre d’un homme, et dites en votre âme et conscience si, après l’avoir lu sérieusement vous y trouvez matière à raillerie”.

KARDEC. Ma première... op. cit. p. 310. (Negrito meu)

Livro dos Espíritos, publicada a 18 de abril de 1857”. Com isso, não quero dizer que Kardec tenha modificado as comunicações que alega terem sido a matéria prima de sua obra. Ao menos não no sentido de uma deliberada falsificação do conteúdo das mesmas a fim de atender seus interesses pessoais. No entanto, há modificações. 195

Uma analogia, talvez, ajude a tornar mais claro o que tenho em mente. Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos pré- socráticos ou fisiólogos. Como sabemos, não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C. Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro Sobre a natureza, a ele atribuído. Nem 196

sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação mais ou menos arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados. Diante de tais fontes, diferentes interpretações podem ser 197

estabelecidas, a depender da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura dos mesmos.

Agora, se olharmos o modus operandi de Allan Kardec, tal como por ele mesmo descrito, veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras insistiu que a doutrina não era sua,

A comparação, por exemplo, das respostas atribuídas por Kardec aos Espíritos às perguntas que coincidem

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nas duas primeiras edições de Le Livre des Esprits oferece um rico material demonstrativo do trabalho

interpretativo de Kardec. Da mesma forma, podem-se notar significativas modificações em importante

comunicação registrada em dois de seus principais tratados, a saber: Le Livre des Médiums [1861] e Imitation de

l’Évangile selon le Spiritisme [1864]. Para uma discussão minuciosa das diferenças presentes nessa comunicação

veja-se o Capítulo 4 desta tese.

O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos

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pensadores gregos originários.

No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os

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fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou,

após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou- se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.

mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda em seus relatos, como se dá esse procedimento de codificação da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente codificá-los, ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Em outras palavras: penso que afirmar a existência da doutrina de Heráclito nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos Espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. No entanto, podemos falar com tranquilidade, por exemplo, da interpretação heideggeriana dos fragmentos de Heráclito. Assim também, creio, podemos falar da 198

interpretação kardeciana dos ensinos dos Espíritos. Ainda que nós mesmos não estejamos prontos para reconhecer a existência factual de Espíritos e da possibilidade de sua comunicação conosco, não vejo motivos para duvidar que Kardec tenha, em seu labor doutrinário, se debruçado sobre material bruto produzido por outrem. 199

Além disso, se tomarmos a folha de rosto da primeira edição de Le Livre des Esprits [1857], poderemos ver que ali aparece a seguinte descrição da obra: “Écrit sous la

dictée et publié par l’ordre d’Esprits Supérieurs” (Escrito sob o ditado e publicado por ordem de Espíritos Superiores). Nas edições seguintes essa descrição é substituída por: “Selon l’enseignement donné par les Esprits supérieurs à l’aide de divers médiums. Recueillis et mis en ordre par Allan Kardec” (Segundo o ensinamento dado pelos Espíritos superiores através de diversos médiuns. Recolhidos e postos em ordem por Allan Kardec). Ora, uma doutrina ditada por alguém difere muitíssimo de uma doutrina segundo os ensinamentos de alguém.

O que desejo demonstrar com este exemplo é que, entre 1857 e 1860 a 200

compreensão de Kardec sobre o tema se modificou: de uma doutrina ditada, e portanto, literalmente dos Espíritos; para uma crescente tomada de consciência do papel do homem em

Cf.: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará,

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1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback).

Não cabe, no escopo desta investigação, adentrar na questão sobre quem, de fato e sob quais condições, teria

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produzido o material que se converteu em fonte primária para Kardec em seu trabalho como intérprete.

E, muito além dessa data, pois em 1868, Kardec afirmará: “[...] a Doutrina não foi ditada completa, nem

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imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe

põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as consequências e aplicações. Em suma, o que caracteriza a revelação espírita é o fato de ser divina a

sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”. (Cf.: KARDEC,

Allan. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme. Quatriéme Éditon. Paris : A. Lacroix, Verbeockhoven et Cie., 1868).

sua elaboração. Um papel fundamental já que os ensinamentos que lhe serviram de fonte precisaram ser recolhidos e postos em ordem (comparados e fundidos; classificados e muitas vezes modificados, reparados, etc.), numa clara indicação de que, em seu estado bruto, eles seriam insuficientes – seja por sua diversidade, seja por suas ambiguidades ou divergências explícitas – para formar uma doutrina (um sistema coeso) de caráter filosófico (racional).

Diante disso, creio ser possível concluir pela posição de Kardec como intérprete do ensino dos Espíritos, e consequentemente, autor da doutrina espírita. Num caso como este, o intérprete torna-se autor, pois, não é o mero reprodutor de suas fontes. Ao contrário, envolve- se num processo criativo a partir do qual a interpretação é ordenada segundo procedimentos de controle e auto-controle oriundos do próprio material a ser interpretado. É algo como se houvesse um “princípio popperiano” da interpretação, a partir do qual nem toda expectativa de sentido projetada pelo intérprete é possível de ser confirmada. Chamo a isso a 201

materialidade do texto, já que no texto-fonte encontra-se o limite material a partir do qual toda e qualquer interpretação possível é construída. 202

E Kardec reconhece a materialidade de suas fontes. Ao relatar o processo que deu origem à primeira edição de Le Livre des Esprits, afirma que as comunicações permitiram

provar a existência do mundo espiritual, bem como conhecer sua constituição e seus costumes, num processo semelhante ao que poderíamos chamar de uma etnografia do mundo dos Espíritos. Pois, segundo descrição do próprio Kardec, cada Espírito se convertera, em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos, em uma fonte de informação; exatamente como se chega a conhecer um país ao se interrogar seus habitantes de todas as classes e de todas as condições. Cada um informando de alguma peculiaridade; mas, nenhum deles, individualmente sendo capaz de informar tudo o que é preciso saber;  cabendo, portanto, ao observador formar uma visão de conjunto, a partir dos documentos recolhidos por meio dos diversos testemunhos, cotejando-os, coordenando-os e os controlando uns por meio dos outros. Em outras palavras:203   ao observador caberia eliminar possíveis divergências e contradições em meio à diversidade de relatos disponíveis. A Kardec coube

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