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A formação de conceitos sobre os objetos no ensino

AS VERDADES SOBRE OS OBJETOS E OS SUJEITOS EDUCACIONAIS

1. Os objetos transformados em objetos didáticos

1.1. A formação de conceitos sobre os objetos no ensino

O discurso que reitera a importância da utilização de objetos diversificados no ensino espalhou-se pelo ideário pedagógico nas décadas de 1960 e 1970, no Brasil, como verificamos nas discussões reali zadas anteriormente, no corpo dessa pesquisa. Encontramos esse discurso no conjunto de enunciados dos dois periódicos analisados, incorporado nas discussões, propostas, idéias e sugestões que formam o conjunto textual dos mesmos, e sustentado por fatores e relações que o legitimam como verdadeiro e pertinente ao contexto vivido pelo país, neste período histórico.

A análise desse discurso, seguindo as propostas de Michel Foucault, deve determinar a ligação entre um enunciado e outro, na tentativa de estabele cer como elementos recorrentes podem

Reaparecer, se dissociar, se recompor, ganhar em extensão ou em determinação, ser retomados no interior de novas estruturas lógicas, adquirir, em compensação, novos conteúdos semânticos, constituir entre si organizações parciais (FOUCAULT, 2000, p.67)

O conceito dado aos objetos no ensino, nomeados nos periódicos como recursos audiovisuais, recursos didáticos, materiais de ensino, entre outras nomenclaturas, também pode nos possibilitar encontrar as relações entre os e nunciados ao descobrirmos modificações e permanências conceituais, bem como conhecermos o sentido que se constrói sobre os objetos a partir desses conceitos.

Por meio dessas considerações, o objetivo principal, nessa parte da análise dos dados, é mostrar como o termo objeto didático formou-se no ideário pedagógico desse período, a partir dos conceitos que os periódicos, Audiovisual em Revista e Revista Tecnologia Educacional, utilizam-se para explicar como entendem a introdução desses objetos na educação brasileira.

Conforme menciona G. Roberto Coaracy, no editorial de Audiovisual em Revista, n.03, de 1959, foi a partir da II Guerra Mundial que “surgiu em vários países um grande movimento em torno da intensificação do emprego dos meios-audiovisuais nas escolas, determinando-se as formas e as técnicas específicas.” O discurso enunciado justifica a utilização de recursos audiovisuais no ensino formal por meio do êxito que a utilização

desses objetos alcançou na preparação de soldados para a II Guerra Mundial. A ssim, as práticas discursivas sobre esse tema, levam a se pensar que se esses objetos conseguiram atingir os resultados esperados na preparação de grandes exércitos de guerra, poderão, com certeza, serem utilizados na educação formal escolar. Concomitantemente à utilização de tais objetos, como o retroprojetor, foi surgindo um corpo de conhecimento sobre essa manipulação e utilização, norteando as práticas educativas.

Em alguns trechos do periódico Audiovisual em Revista podemos encontrar uma possibilidade de conceituação, pautada mais na identificação de objetos passíveis de serem utilizados para a comunicação, e nas vantagens de seu uso

As técnicas e os processos que melhor asseguram tais requisitos são as que hoje em dia denominam-se de recursos e métod os audiovisuais. Compreendem elas todos os processos e materiais de comunicação, como folhetos, cartazes, flanelógrafos, filmes, diafilmes, diapositivos, rádio, televisão, imprensa, e uma infinidade de outros, utilizados por pessoal especialmente treinado, segundo metodologia própria (COARACY,1960, p.04).

O periódico Audiovisual em Revista não traz uma conceituação direta do que entende por audiovisual. No entanto, observamos que no discurso um grupo de objetos é recorrente e considerado como meios audiov isuais, mesmo quando esses objetos estimulam somente um órgão do sentido ou são somente utilizados como suportes e instrumentos para elaboração da imagem. Podemos citar, entre eles, os seguintes objetos que são identificados como objetos didáticos: álbum -seriado, folhetos, flanelógrafos, gráficos, cartazes, diafilmes, diapositivos, filmes, exposições, rádio, imprensa, quadro-negro, fantoches, jornal de parede, dioramas, modelos, espécimes, sistema de alto-falante, jornal, revistas, dobradura, retroprojetor, mapas-relevo, fotografia, livro, hectógrafo, entelagem, pantógrafo, desenho, mural didático, figuras e ilustrações.

Esse conjunto de objetos entra no discurso pedagógico como objetos capazes de auxiliar o processo de ensino e aprendizagem. Novas tecnologi as são introduzidas e velhas tecnologias são ressignificadas nas práticas discursivas. Alguns desses objetos

são conceituados de maneira bem clara e direta, salientando, nessa conceituação, a sua importância para o ensino da época. Podemos destacar os segu intes trechos

Álbum seriado: trata-se de uma coleção de estampas ilustradas, devidamente acondicionadas em uma encadernação de madeira compensada ou papelão encorpado, podendo conter fotografias, mapas, gráficos, organogramas, cartazes, letreiros, ou qua lquer outra forma de apresentação simbólica que possa ser útila ao educador ou líder na apresentação de um tema (s /a, Audiovisual em Revista, 1959, n.03, p.06-07)

Normógrafo: o normógrafo é um recurso simples que pode ser produzido com matéria prima de fácil obtenção e permite a execução de qualquer letra do alfabeto. (s /a, Audiovisual em Revista, 1959, n.02, p.10)

Flanelógrafo: é um recurso que vem sendo utilizado com enorme eficiência em várias atividades de natureza distinta porque é simples. (s/a, Audiovisual em Revista, n.9, 1959, n.04)

Fantoches: este meio de comunicação se constitui em excelente veículo de mensagens educativas. ( s /a, extraído do The Multiplier, vol III, n.02, pág.04, Audiovisual em Revista, 1959, n.04)

O que observamos nessas conceituações é que essas se preocupam mais com o destaque das vantagens de uso desses objetos do que com a própria descrição do que venham a ser eles, com exceção da conceituação feita para o álbum seriado. A estratégia discursiva consiste em utilizar-se de palavras que indicam qualidade, tais como: excelente, enorme, simples, fácil, barato, dentre outras, que aparecem recorrentemente nos enunciados dos textos de Audiovisual em Revista. Assim, o discurso possibilita um pensamento que associa a aplicação de objetos no ensino com simplicidade, facilidade, eficiência, tanto na produção desses objetos como na sua manipulação e utilização no processo de ensino e aprendizagem.

Os editoriais e artigos na Revista Tecnologia Educacional também trazem conceitos e concepções sobre o que entendem por objetos didáticos, ao comentarem sobre alguns recursos audiovisuais propostos ao ensino, principalmente o rádio e a TV, objetos considerados a nova tecnologia no momento. Os seguintes trechos mostram esse aspecto.

Eles são na verdade, os únicos meios de difusão de matéria pedagógica que se tornam cada vez menos custosos, quanto mais aumenta o número de consumidores. (PONTILLON, 1972, p.33).

O rádio é o melhor meio de comunicação para levar ensino ao interior. (SOIFER, 1973, p.55)

O rádio e a televisão são veículos de participação ativa no esquema educacional, prontos a buscar soluções que a escola tradicional não está conseguindo encontrar. (E DITORIAL, 1974, p. 02)

Sobre o livro: É sem dúvida, um meio de comunicação que transmite conhecimentos e leva entretenimento, cumprindo seu destino, eficientemente, seja em termos individuais, seja sob um prima de significação e conscientização social (BLOIS, 1979, p.05)

Os recursos audiovisuais são uma forma de comunicação, o materi al de esclarecimento e demonstração, usado pelo professor em sua atividade como informador de fatos. (HENNING, 1978, p. 50)

Nos conceitos e concepções dos textos da Revista Tecnologia Educacional, a aparente preocupação está no ato de comunicação; ou seja , na tentativa de procurar formas melhores de se comunicar algo a alguém. Concebendo a educação como um ato de comunicação, o discurso estabelece que o ensino oferecido até então não tem sido eficaz, não tem atingido o resultado esperado, o ato de comunica ção tem sido falho. Assim, enfatiza-se nas práticas discursivas analisadas a importância da utilização de recursos audiovisuais a partir da construção de potencialidades dos mesmos no processo de comunicação.

A preocupação com o processo comunicativo també m está presente nas propostas e concepções de Audiovisual em Revista. Contudo, a importância da utilização de objetos e materiais no ensino, preconizada no discurso enunciado nesse periódico, é construída a partir da necessidade criada pelos órgãos govern amentais, em parceria com instituições educacionais da época, de estabelecer uma comunicação mais efetiva, atraente e de fácil acesso a um grupo ainda restrito de pessoas, quer sejam elas crianças ou adultos de uma comunidade rural que necessitam ser alfabetizados e/ou receberem noções básicas de higiene e conhecimentos sobre o cultivo da terra.

Tal discurso ancora-se na necessidade de ocorrência de um movimento interno da ação pedagógica e do processo educativo, onde os objetos servem de instrumentos para a melhora da comunicação de um determinado conteúdo de ensino, num determinado lugar, num determinando tempo e para um número determinado de pessoas.

No periódico Revista Tecnologia Educacional, a concepção de processo comunicativo no ensino parece ser mais ampla e ambiciona atingir mais pessoas, num mesmo tempo e em espaços diferentes. O periódico está inserido num contexto histórico, político e social no qual se vivencia o avanço tecnológico adentrando o país, o desenvolvimento industrial e a preocupação governamental com o desenvolvimento econômico e progressista. A televisão e o rádio, veículos de comunicação de massa, começam a invadir os lares e são vistos como objetos capazes de difundir idéias, informações, entretenimento a milhares de ouvintes e telespectadores, modernizando concepções e práticas sobre o processo de comunicação e difusão de conhecimento. O discurso constrói a idéia de que basta à educação formal, institucionalizada pelas escolas, aproveitar desse novo contexto e dessa nova forma de e nsinar tudo a todos e ao mesmo tempo, apropriando-se desses veículos de comunicação social. Verificamos isso nos seguintes trechos do periódico

As tecnologias educacionais começaram a despontar como resposta adequada às novas exigências da dinâmica do ens ino. E a televisão nas salas de aulas passou a ser uma das práticas pioneiras dessa nova mentalidade educacional. ( s/a, A TV nas salas de aulas: uma revolução na educação, Revista Tecnologia Educacional, n.11, 1976, p.38)

Ignorar a influência dos meios, encará-los como concorrentes desleais ou tê-los simplesmente como alvo de críticas e menosprezo, equivale a deixá-los agir paralelamente, a abrir mão de uma interação que pode resultar benéfica e frutífera. A escola e os meios precisam se encontrar. (EDITORIAL, 1980, p. 01)

O discurso dito induz a pensar que a possibilidade de existência de uma maneira de se comunicar melhor, de forma mais eficiente, atraente e menos custosa, materializada pela televisão e o rádio, impõe à escola a necessidade de apropriaç ão desses veículos, tomados como instrumentos excelentes ao processo comunicativo, e destacados como a própria comunicação eficiente. Esta indução discursiva coloca a escola numa possível posição subalterna e de desvantagem, caso suas práticas educativas não venham se apropriar das potencialidades desse novo veículo.

Conceituar os recursos audiovisuais parece não ser de grande importância para os periódicos analisados, pois suas vantagens e contribuições ao ensino brasileiro, por si só, já parecem explicar o que são esses objetos e por que devem ser utilizados. São as vantagens que impulsionam seu uso e alicerçam o discurso sobre eles. As vantagens produzem “verdades”, legitimadas e credibilizadas por ações educativas que tiveram êxito com a utilização de objetos no ensino e que foram formadas num contexto de inserção de novas idéias e propostas advindas, principalmente, de órgãos e instâncias internacionais, cujo objetivo aparente era o de contribuir para que o país rompesse com as características de subdes envolvimento e adentrasse numa era de modernização e progresso.