CAPÍTULO III – EM BUSCA DO ESTADO APOSTÓLICO
2. Os Loios como projeto de escola sacerdotal
2.3. A formação intelectual e o testemunho de vida
João Vicente era descrito como «milagroso por seu testemunho»278, pela retidão da sua vida, costumes e ação caritativa junto das populações, e por contraste com os dotes de pregador de Martim Lourenço, ou a formação académica de Afonso Nogueira. No entanto, não deixa de ser um letrado do seu tempo. A sua formação intelectual, a frequência da corte, da universidade e da cidade mais importante do reino estão com
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certeza entre os principais fatores que o fizeram despertar para a situação eclesial e para as mazelas que a afligiam. Procurou para isso remédios exemplares e eficazes ao reunir um pequeno grupo de reflexão para debater atitudes concretas para obviar ao estado do clero secular. E é isso que vemos refletido no carisma da congregação por si fundada.
O plano de vida e formação dos Loios incluía o estudo de gramática, Sagrada Escritura, patrística e leituras hagiográficas ou espirituais alinhadas com a espiritualidade da devotio moderna279. Vemos também pouca importância dada às matérias de escolástica e direito canónico, numa rutura com a tradição antecedente. Paralelamente, os seus cónegos eram encorajados a dedicar-se à pregação pública, catequese e ensino das gentes simples. Em quase todas as casas era ministrada formação, por vezes aberta à população circundante. A exigência interna nunca diminuiu, como demonstra a resistência do capítulo geral a aceitar eremitas da Serra d’Ossa à profissão na congregação, por manifesta falta de qualidade da sua formação académica.
Outra das razões apontadas para a recusa dos eremitas da Serra d’Ossa era a sua incapacidade para viver uma vida comunitária intensa e regrada. Se a formação académica era valorizada, não o era menos a observância das regras, a devoção e o fervor pastoral, numa incessante demanda de acrisolamento das virtudes sacerdotais. O rigor e a exigência eram uma constância, a clausura apertava o cerco a saídas desnecessárias, os votos simples eram sinal de opção livre mas também de exigência e rigor nunca afrouxados em todos os aspetos.
O testemunho de vida era uma demanda basilar para os Loios, que longamente cultivaram a aura de clérigos exemplares, atraindo muita gente pela sua virtude. Sobretudo no período da vida de João Vicente, muitos dos que pediam ingresso na congregação eram letrados e sacerdotes, como alguns párocos de igrejas limítrofes a Vilar de Frades, entre outros João Afonso de São Paio de Midões, Diogo Afonso de Santa Maria de Góios, ou Gonçalo Dias de Barros, abade de Calvelo280.
279 Cf. TAVARES, «Legislação capitular», 460. Era conhecido o alto padrão de exigência dos Loios para
admissão ao noviciado, exigindo-se ao candidato qualidades musicais e vocais comprovadas, saber ler e escrever, e formação em gramática.
280 Cf. MARQUES, Arquidiocese de Braga, 855. Ainda no século XV, mas após a morte de João Vicente,
o bispo do Porto, D. João de Azevedo, após diligências para a fundação de uma comunidade de Loios nesta cidade, acabará por se recolher à congregação e tomar o hábito em Xabregas em 1496. Cf. também TAVARES, «Lóios», 155.
93 Ilustres pela sua relação próxima com os Loios eram D. Jorge da Costa e Vasco Rodrigues. O primeiro nunca fez parte da congregação, mas terá feito a sua formação inicial em Santo Elói e sempre lá manteve quarto e gabinete, doando depois ao hospital parte da sua biblioteca281. O segundo, cónego e chantre do cabido da Sé de Braga, era culto, letrado e viajado. Aparece nas crónicas citado como o «arcebispo pequeno», tanto por ser de baixa estatura, como por ser homem de confiança do arcebispo de Braga, frequentemente chamado a representar D. Fernando da Guerra em contratos e cerimónias oficiais282. Foi dele que partiu a cedência do Couto da Várzea, que desbloqueou a instalação de João Vicente em Vilar de Frades. A relação entre ambos era muito próxima, referindo-se Vasco Rodrigues a ele como seu «mestre e senhor». Se numa fase inicial, isto indicaria uma certa filiação de ordem espiritual, o chantre acabará por ingressar efetivamente em Vilar de Frades numa fase posterior283.
O próprio Afonso Nogueira, companheiro nas manobras iniciais de fundação, repetia frequentemente, como arcebispo de Lisboa, ter mais afeição pelo rigor e pobreza da vida em Vilar de Frades que pelo fausto arquiepiscopal de Lisboa, recolhendo-se repetidas vezes a Santo Elói ou a Xabregas284.
João Vicente, tendo sido fundador e superior efetivo dos Loios durante menos de cinco anos, manteve-se como superior e visitador apostólico da congregação ainda por vários anos após a sua nomeação episcopal, cargos de que só abdicou já em 1459, continuando mesmo assim ligado a ela até à morte285.
Apesar do influxo carismático e institucional de São Jorge de Alga nos Loios, é à intuição inicial de João Vicente de constituir uma escola, um exemplo de estado apostólico para o clero secular que os seus sucessores se referem como carisma fundador. É no exemplo e testemunho de João Vicente que encontram o protótipo fundante da sua missão, na sua solicitude para com os pobres, atitude humilde, rigor e vigor na observância de todas as prescrições coroada com gestos concretos e reveladores da espiritualidade cultivada.
281 Cf. TAVARES, «Lóios», 154.
282 Cf. JORGE DE SÃO PAULO, Epílogo e compendio, 144. 283 Cf. COSTA, Bispos de Lamego e Viseu, 279-288.
284 Cf. JORGE DE SÃO PAULO, Epílogo e compendio, 167. O próprio Abade de Alcobaça, D. Estevão
Aguiar, ex-companheiro de D. Frey Gomes Eanes na primeira tentativa de reforma monástica do reino, deu posse aos Loios do Hospital de S. Elói. Cf. também TAVARES, «Lóios», 154.
285 Na véspera da sua morte chegou a Viseu João de Nazaré, justamente para despachar assuntos
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Não deixa até certo ponto de ser curioso, embora pouco verosímil, que a congregação fundada por um académico de medicina fosse posteriormente encarregada da gestão dos principais hospitais do reino. Nalgumas crónicas, até o facto de o capelo da cátedra de medicina da universidade ser de cor azul era visto pelo escriba como prenúncio e sinal da providência286.