CAPÍTULO II – MOSAICO DE INFLUÊNCIAS E AFINIDADES
1. Pessoas e relações
1.4. D Fernando da Guerra
D. Fernando da Guerra, bisneto de D. Pedro I e, portanto, sobrinho de D. João I, ascende à mitra arquiepiscopal bracarense por volta de 1416, após passagem pelo Algarve e pelo Porto. Cedo se apercebendo do estado lastimoso da diocese que recebe, efetua diversas visitas pastorais um pouco por toda a vasta diocese, reformulando várias paróquias e mosteiros, conventos e abadias. Procurando estar sempre inteirado dos acontecimentos do reino e da sua diocese, efetua produção escrita considerável, sobretudo correspondência, num afã de tal forma notável que chega a pedir autorização real para possuir trinta mulas para que os seus escudeiros pudessem fazer funcionar um serviço de correio privativo176. Convocará também diversas assembleias de clero e sínodos provinciais.
Em termos políticos e religiosos, destacou-se pela defesa acérrima das liberdades eclesiásticas e das prerrogativas da sua autoridade, bem como do clero em geral. São conhecidas as suas posições na contestação às leis jacobinas de D. João I e às iniciativas de reforma eclesiástica e centralização administrativa, intentadas por D. Duarte177. Foi, portanto, no seu tempo, a mais poderosa e influente figura eclesiástica do reino.
João Vicente conhece-o, por certo, a partir da frequência da corte, que D. Fernando frequentava por parentesco, título e também ofício. No entanto, o primeiro registo seguro de um encontro entre os dois situa-se no tempo em que já João Vicente residia em Santa Maria dos Olivais, frequentando embora ainda a corte em oficio de médico: D. Fernando cai enfermo e é por ele tratado178. A crónica dá ainda assim a entender que não haveria proximidade entre eles anterior a este encontro, já que João Vicente lhe é recomendado por terceiros179.
176 Cf. José MARQUES, «Os Itinerários do Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra (1417-1467)»
Revista de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1 (1978), 115.
177 Cf. MARQUES, «Legislação e prática judicial», 43.
178 Cf. FRANCISCO DE SANTA MARIA, O Ceo Aberto na Terra, 210-216. 179 Cf. MARQUES, Arquidiocese de Braga, 76.
55 A cura é considerada como quase milagrosa e motiva vincada gratidão por parte do arcebispo que, sabendo das disposições de João Vicente e companheiros, lhes oferece a possibilidade de se instalarem em Braga, onde não lhes faltaria apoio nem casas livres, dado que se vira obrigado a reduzir vários mosteiros e conventos a igreja secular, por falta de quórum e idoneidade para a vida religiosa regular.
Quando falha a tentativa dos Olivais, a comunidade dirige-se para norte, mas detém-se no Porto, por ser mais urbano. Depois de expulsos de Campanhã, apenas João Rodrigues acompanha João Vicente a Braga, onde é calorosamente acolhido por D. Fernando, que se dispõe a cumprir a promessa feita em Lisboa. Oferece-lhe Santa Maria de Adaúfe, mas o protesto do abade comendatário faz João Vicente recusar. D. Fernando, agastado com a situação, acaba retirando da mesma forma a abadia e comenda ao queixoso. Abrindo-se a possibilidade de Vilar de Frades, por morte do abade e único monge residente, e complementando-se a oferta com a cedência do vizinho Couto da Várzea, antigo cenóbio também reduzido a igreja secular e na posse de Vasco Rodrigues, chantre do cabido bracarense e futuro Loio, João Vicente recebe, em nome da comunidade que procurará reunir, o ofício e benefício deste local, em fevereiro de 1425.
João Vicente participará inclusive no sínodo de Braga de 1426-1427, onde alinhará com D. Fernando nas críticas à postura de D. Duarte de permanente interferência nos assuntos da Igreja180.
Esta grande concórdia de interesses e desejos de reforma eclesiástica sofrerá um grande revés em 1431 quando João Vicente chega de Roma via Bruges, feito bispo de Lamego, superior geral e visitador apostólico da nova congregação, que, por aprovação pontifícia, fica irmanada em carisma, isenções e benefícios com a Congregação Apostólica de São Jorge de Alga, passando a ser pela mesma razão isenta dos ordinários e imediata à Santa Sé.
A reação de D. Fernando é violenta e eficaz. Depois de várias represálias, obriga os Loios a uma composição181 desfavorável em 1439, em que abdicam das suas isenções182. Mas a contenda reacende-se pouco depois, e mesmo com auxílio real e, sobretudo, de D. Afonso, conde de Barcelos e duque de Bragança, os Loios são obrigados, em 1461, a
180 Cf. MARQUES, «Legislação e prática judicial», 41
181 Cf. MARQUES e CUNHA, «Conflito de jurisdições», 16-17. Uma composição era um acordo pré-
judicial em que as partes resolviam entre si uma contenda para evitar o seu julgamento público e a incerteza da decisão.
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humilharem-se publicamente perante o arcebispo, assinando uma dura composição que os proibia não só do usufruto dos privilégios e isenções recebidas de Roma, como inclusive de qualquer menção a São Jorge de Alga ou de portar o seu hábito azul no território da arquidiocese183.
Já vimos a perspetiva de João Vicente ao procurar estas benesses pontifícias que se tornariam pomo da discórdia. Vejamos agora o ponto de vista de D. Fernando. A experiência como ordinário mostrara que era preciso uma autoridade forte para que houvesse rigor reformista. As isenções e autonomias, que ajudam ordens observantes e renovadas na sua disseminação, tornam, por outro lado, irreformáveis as comunidades mais relaxadas. Ora, a comunidade fundada por João Vicente podia ser nova e reformista, com inícios muito auspiciosos, mas não era ainda provada pelo tempo e pelo terreno para poder eximir-se de vigilância. Não eram os rendimentos que estariam em causa, pois estes eram historicamente escassos, o que se demonstra pelas numerosas vezes em que, apesar da contenda, D. Fernando isenta os Loios de taxas e contribuições, para que estes não se vissem obrigados à mendicância. Em ambas as composições, os Loios ficam mesmo obrigados apenas ao pagamento de um real de prata de Castela, como sinal de obediência184.
A relação entre D. Fernando e João Vicente nunca mais será amigável. Na nomeação do segundo por D. Duarte para acompanhar D. Frey Gomes numa visitação geral de reforma eclesiástica do reino, o arcebispo vai contestar que se tenha escolhido alguém de tão baixo nascimento e índole duvidosa. Quando João Vicente é nomeado para dirimir a questão entre D. Fernando e D. Luís da Cunha, prior da colegiada de Guimarães, D. Fernando alegará falta de idoneidade e imparcialidade de João Vicente para julgar o caso e nunca responderá às convocações do bispo de Lamego.
Estamos perante um choque entre dois reformadores, com visões análogas do problema, mas diversos na metodologia. D. Fernando preconiza sobretudo a via jurídica e estrutural de reforma. Já João Vicente, sem descurar esses aspetos, concebe a solução mais pela mudança de mentalidade, atitudes e testemunho contagiante185.
O desenrolar dos acontecimentos vai afastá-los, apesar do interesse comum e da inicial conjugação de esforços. D. Fernando foi crucial na fundação dos Loios e na
183 Cf. MARQUES, Arquidiocese de Braga, 860. 184 Cf. MARQUES, Arquidiocese de Braga, 862.
57 caminhada de João Vicente. Mas vai também tornar-se num dos maiores espinhos e problemas para o desenvolvimento da congregação e mesmo para o normal trabalho de João Vicente como ordinário. A fundação dos Loios será, contudo, uma grande mais-valia para D. Fernando e a sua diocese: os Loios serão, ao longo de todo o século XV, a comunidade religiosa mais numerosa e com mais atividade pastoral e crescimento. As rendas não pararão de aumentar e a simpatia das populações farão de Vilar de Frades um oásis numa diocese que continuará em franca decadência, apesar da ação decidida do seu arcebispo, até às portas de Trento186.