• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III – A TRANSFORMAÇÃO DA FORMA ESCOLAR

3.2 A forma escolar com finalidades emancipatórias

No início desta subseção, consideramos fundamental esclarecer nosso entendimento de transformação da forma escolar. Demarcamos que se trata de uma radical transformação que incide tanto sobre a forma quanto conteúdo da escola, com foco em interesses emancipatórios voltados para a classe trabalhadora. No sentido etimológico da palavra transformação, conforme realçam Saviani e Lombardi (2011), estão três termos distintos: um prefixo que remete à ideia de mudança (trans); no centro, a palavra forma, cujo entendimento está relacionado à estrutura; e ao final, o sufixo ção, que remete à ideia de atividade ou ação sobre algo que precisa ser modificado. Nas palavras destes autores, a transformação significa “o ato de mudar a forma [...] é a mudança que incide sobre a própria substância das coisas às quais se refere” (SAVIANI; LOMBARDI, 2011, p. 101, grifos nossos).

Outro aspecto que destacamos acerca do nosso entendimento sobre transformação é que essa ação se distancia muito da ideia de inovação, muito bem esclarecida por Caldart (2015a). A inovação diferencia-se da transformação, pois ela está comprometida em retoques, ajustes à forma escolar; porém, a lógica de exploração, dominação e subordinação, própria do sistema capitalista, permanece. A ideia de inovação está comprometida com a manutenção da lógica do capital, “com o objetivo exclusivo de manter o capitalismo funcionando, o capital se reproduzindo e convertendo as forças produtivas em forças destrutivas da própria existência humana” (CALDART, 2015c, p. 151).

Em outras palavras, entendemos que a transformação da forma escolar é uma concepção alinhada aos interesses emancipatórios da classe trabalhadora, com mudanças estruturantes na forma e conteúdo da escola, no sentido de contribuir com a formação humana de sujeitos que possam se engajar no projeto de transformação social mais amplo.

Nesta tese, quando mencionamos uma nova forma escolar, referimo-nos à que prioriza uma formação omnilateral, o trabalho coletivo e a práxis pedagógica emancipadora. Uma escola na qual sejam transformados os modos de produção do conhecimento e as relações

sociais dentro da escola. Nessa lógica, a escola relaciona-se com a vida concreta, ou seja, a educação constitui-se em um campo que, ultrapassando os muros da escola, traz para seu bojo a dimensão política, a consciência de classe e de organização revolucionária (emancipação dos sujeitos históricos do campo).

Diante da crise da organização escolar, se a tomarmos pelo prisma da classe trabalhadora, Vincent, Lahire e Thin (2001) argumentam a favor de uma abertura da escola à prática social. Tanto no sentido de aproximação dos estudantes com a vida, como a possibilidade de formação, em outros espaços, que aproxime outros agentes exteriores à instituição escolar e mesmo às famílias dos estudantes.

Existe uma relativa alteração dos limites da escola e seu entorno, alteração que leva ainda a se perguntar se a forma escolar não está prestes a explodir ou, até mesmo, ser ultrapassada, substituída por outra forma (VINCENT; LAHIRE; THIN, 2001, p. 44).

Apreende-se, dessa percepção, a emergente necessidade de mudanças estruturais na forma escolar. “A forma escolar construiu-se, e se constrói, nas lutas e transformações”, e ela é influenciada por múltiplas determinações (VINCENT; LAHIRE; THIN, 2001, p. 46).

Em que pese destacar, Farias (2015) argumenta que um passo importante para a superação da hegemonia capitalista na escola é, justamente, o reconhecimento dos contornos que essa visão gera no seio escolar. Isso significa pensar como a escola se organiza, nessa lógica, para reproduzir a visão de divisão de classes, a subordinação, a alienação e a fragmentação do conhecimento.

O conjunto dos argumentos apresentados por Freitas (2010a) e Curado Silva (2008) reúnem críticas à visão fragmentada de que os elementos que devem constituir essa organização restrinjam-se apenas à tríade polarizada de professor – aluno – conhecimento. Um projeto de escola que se alimenta dos princípios do capitalismo agrega, como afirma Farias (2015), práticas próprias de uma perspectiva tecnicista de educação e traz, para a escola, princípios desta concepção: a departamentalização, seriação, avaliação padronizada, etc.

Nessa direção, Caldart (2010) alerta para alguns riscos de conceber, como finalidade estritamente da escola, a função de intervir na realidade. A autora afirma que essa pode ser uma visão alargada demais da função da escola, ou uma visão ingênua de que a escola pode resolver os problemas sociais. Assim, ela menciona que a escola deve estar ligada a um projeto formativo e social mais amplo, em um projeto contínuo de formação.

Ainda criticando este viés tradicional e este descompromisso da escola clássica, tradicional e capitalista com a vida real e material dos sujeitos, Freitas (2010a) opõe-se, também, a uma proposta educativa que vê a prática social como passível de ser artificialmente didatizada. Em outras palavras, compreendida de maneira abstrata e separada da vivência social, como se houvesse a possibilidade de se distanciar da vida real para compreendê-la e para depois nela intervir. Pelo contrário, a educação não é vista como uma preparação para a vida, mas é a própria realidade dos sujeitos, vivenciada nos espaços escolares de formação, e também fora destes espaços.

A constatação acima evidencia que, embora o acesso da classe trabalhadora à escola tenha sido algo positivo, é necessária a discussão sobre os princípios que norteiam as ações dessa instituição e em que medida ela está alinhada aos anseios das classes sociais. Isso significa que há projetos em disputas em relação à posição da forma escolar. Na perspectiva de resistência aos padrões capitalistas, há esforços no sentido de propor uma nova forma de escola que seja comprometida com a formação de lutadores e construtores do futuro (PISTRAK, 2009). A organização escolar, na perspectiva contra-hegemônica, exige o rompimento com modelos de organização escolar, muito enraizados na prática escolar tradicional.

Ao pensar perspectivas de transformação da forma escolar, Caldart (2010) discute algumas tendências para a materialização dessa proposta. Segundo ela, perpassa a discussão acerca do projeto formativo e finalidades educativas da escola; das contradições que a escola enfrenta junto às lutas sociais da comunidade em que está inserida e dos desafios da educação em nossos tempos, que inclui um repensar da lógica de constituição dos planos de estudos e da organização do trabalho pedagógico.

A construção de um projeto diferente do que é proposto pela lógica do capital é um tema amplamente considerado, quando se pretende discutir um novo projeto de sociedade e, consequentemente, de educação. A organização escolar como está posta, deixa evidentes suas fragilidades, no que se refere à conscientização da classe trabalhadora. No entanto, é evidente, também, que ela tem sido competente na disseminação de princípios da lógica capitalista de exploração do trabalho e controle da classe trabalhadora.

É reconhecendo essa premissa que Arroyo (2011) situa a discussão sobre a Educação do Campo em uma perspectiva mais radical de um projeto de Educação Popular Nacional, rompendo com a lógica hegemônica de pensar uma proposta educacional desvinculada das

questões sociais e dos sujeitos nela envolvidos. Neste viés, a Educação do Campo passa a ser vista de maneira indissociável do próprio movimento social que acontece no campo.

Diante do exposto, Freitas (2010a), Caldart (2010) e Arroyo (2011) defendem que, a partir do reconhecimento do movimento social que paulatinamente foi se consolidando no campo, a escola tem a necessidade compreender o ato pedagógico de maneira ampliada. Isso significa superar a mera discussão acerca do currículo, da metodologia, avaliação e ultrapassar os muros e limites da escola, na direção dos sujeitos que integram essas propostas educativas e seus coletivos organizados.

Nesse movimento de aproximação da Escola do Campo à vida dos sujeitos, Arroyo (2011, p. 73-74) destaca que “[...] não nos é pedido como educadores que dinamizemos a sociedade rural a partir da escola, mas que dinamizemos a escola, nossa ação pedagógica para acompanhar a dinâmica do campo”. Isso significa que a escola passa assumir uma relação mais intrínseca no tocante à comunidade onde está inserida, sendo aliada dos anseios desse grupo.

Ora, se a escola relaciona-se de maneira viva e dinâmica com a vida, então ela deixa de assumir status de único espaço onde a formação acontece. Pelo contrário, a formação ocorre em diferentes espaços formativos e por diferentes sujeitos que protagonizam essa formação. Para Arroyo (2011, p. 77-78), “[...] os processos educativos acontecem fundamentalmente, nas lutas, no trabalho, na produção, na família, na vivência cotidiana”.

Dialogando com Arroyo (2011), Farias (2015) acrescenta que um dos desafios dessa nova forma escolar é consolidar a participação dos estudantes na perspectiva do protagonismo e da autonomia. Tais princípios se materializam na autogestão e na auto-organização do coletivo de estudantes. A proposta, segundo Farias (2015), é justamente propor um projeto de escola alinhado com uma formação omnilateral, integral do indivíduo e próxima à vida social dos estudantes.

É no bojo desse debate que se discute outro projeto de educação, que não veja o restrito espaço escolar como o único e privilegiado meio para educar as novas gerações. Freitas (2010a) argumenta que as agências formativas são várias e podem ser desde uma fábrica, um sindicato, um partido político, o movimento social organizado, a associação de moradores, entre outros que estão diretamente relacionados com a produção material da vida.

O foco nos diferentes espaços formativos voltados para a compreensão da materialidade da vida justifica a necessidade de compreender que o processo educativo não ocorre apenas na escola, mas em todo espaço que se ocupa do trabalho humano como

atividade humana criativa. Nessa visão, o trabalho, ou seja, a produção material da vida é um princípio que deve nortear a educação com vistas a colocá-la em consonância com a realidade dos sujeitos.

Ter o trabalho como princípio educativo é mais que ligar a educação com o trabalho produtivo de bens e serviços. Tomar o trabalho como princípio educativo é tomar a própria vida (atividade humana criativa) como princípio educativo. Vida que é luta, que implica contradições (FREITAS, 2010a, p. 158).

Essa visão de trabalho como princípio educativo, ao conectar a escola com a vida, justifica o reconhecimento de que a vida no campo tem suas especificidades, pois a produção material no campo é diferente da cidade, da mesma forma que as relações sociais e a cultura também são. Aproximar a escola da vida real e atual dos estudantes exige o reconhecimento de que a sala de aula não é o único espaço onde a educação acontece, mas na própria organização do trabalho útil, oficinas, esportes, lazer, estudos e participação em eventos relacionados ao movimento social dos trabalhadores do campo.

A partir dessa premissa, Caldart (2010) argumenta que a estrutura de formação hegemônica vigente, seguindo uma postura impositiva dos padrões urbanos ou das exigências do capitalismo, não se configura com esse projeto de sociedade que se pretende formar. Pelo contrário, o que se almeja é um projeto que se comprometa com a própria transformação das relações sociais.

Avançando nesta trilha argumentativa, Caldart (2010) reconhece que a transformação da forma escolar não ocorre de maneira isolada, pelo contrário: ela ocorre de maneira articulada com a própria transformação das relações sociais e das contradições, tensões e conflitos que marcam os sujeitos do campo. Sendo assim, os desafios da Educação do Campo somente podem ser enfrentados considerando as especificidades dele, a experiência do campo, de seus sujeitos, seus anseios e necessidades que, na prática “[...] se desenvolverá a partir das condições objetivas particulares a cada local” (CALDART, 2010, p. 154).

A transformação da forma escolar, conforme apresentado anteriormente, deve partir do reconhecimento da singularidade dos sujeitos do campo. A partir deste reconhecimento, outras questões devem ser levadas em consideração, entre elas as finalidades e objetivos da escola. Caldart (2010) alerta para “[...] a rediscussão das finalidades educativas, desencadeadas pelo reconhecimento da especificidade dos sujeitos concretos e que estas práticas se destinam [...] e a identificação de suas necessidades formativas” (CALDART, 2010, p. 156). Nessa perspectiva de reflexão sobre uma nova forma escolar, Freitas (2010a)

destaca a importância da ação do coletivo da escola, em que os estudantes assumem o protagonismo junto aos educadores e outros integrantes do ambiente escolar em um projeto de caráter democrático e participativo. “A categoria que orienta esta ação é a auto-organização com a participação do estudante na gestão, no autosserviço, em oficinas escolares e no próprio trabalho produtivo, quando apropriado” (FREITAS, 2010a, p. 164).

A partir da proposta de apresentar alternativas a um projeto educativo que une a teoria e a prática de maneira concreta, Freitas (2010a) argumenta em favor do trabalho socialmente útil como forma de relacionar os conhecimentos socialmente acumulados à realidade, à atualidade, à forma de vida concreta dos estudantes. Nessa visão, os estudantes fazem parte de uma proposta educativa comprometida com a construção de uma nova sociedade, com as lutas, e caminha para uma reestruturação das relações sociais.

O trabalho assume destaque e importância na organização das crianças na escola. Em outras palavras: “a exigência de participação da comunidade na escola, a entrada do trabalho no processo educativo escolar, a construção de formas coletivas de organização do trabalho e dos processos de gestão e auto-organização dos estudantes” (CALDART, 2010, p. 169).

Nessa nova forma de pensar a escola, os sujeitos (estudantes, coletivo pedagógico da escola, comunidade escolar, agências do meio etc.) são protagonistas comprometidos com a transformação da forma escolar e de sua visão de mundo. A educação relaciona-se com a análise da realidade e a busca de formas coletivas de transformá-la (CALDART, 2010). Essa autora reconhece que essa mudança é paulatina e não se fundamenta no argumento da transformação imediata. Pelo contrário, o movimento de transformação ocorre a partir das condições reais, contradições, totalidade e das lutas sociais do coletivo em busca dos interesses da classe trabalhadora do campo e por uma educação que se alinhe a estes anseios.

Na lógica capitalista de educação, a gestão assume o papel de centralizador e autoritário nos processos decisórios. Por outro lado, o que se defende para a Educação do Campo é justamente o oposto; ou seja, uma visão participativa de todos os segmentos que fazem parte da vida escolar ou que dela se beneficiem: professores, gestores, servidores da escola, alunos, pais e comunidade circunvizinha.

Este é, certamente, o grande desafio para pensar a inadiável necessidade de transformação da forma da escola, quando seus limites, em uma lógica capitalista, estão colocados. Não há, portanto, ajustes a serem feitos na forma escolar clássica que possam contribuir com o processo de emancipação humana e, por isso, ela precisa ser transformada.

A par dos argumentos apresentados, Mészáros (2008, p. 35) é categórico ao afirmar a necessidade de “[...] rasgar a camisa de força da lógica incorrigível do sistema e trilhar os caminhos de uma escola que ainda não temos”. Emergem, então, algumas questões que podem contribuir com essa reflexão: qual forma terá a escola quando a sociedade tiver sido transformada no sentido da emancipação humana? De que maneira a escola poderá contribuir com o desenvolvimento de uma consciência socialista?

Ainda sobre este aspecto, Mészáros (2008) sinaliza que a transformação da forma escolar só é possível a partir de uma visão alargada de educação, ou seja, uma visão mais ampla de educação é mais apropriada para que o ato educativo acompanhe o processo de transformação radical da sociedade.

Pois muito do nosso processo contínuo de aprendizagem se situa, felizmente, fora das instituições educacionais formais. Felizmente, porque esses processos não podem ser manipulados e controlados de imediato pela estrutura educacional formal legalmente salvaguardada e sancionada (MÉSZÁROS, 2008, p 53).

Uma importante contribuição de Freitas (2009) a este respeito é que, nessa concepção alargada de educação, a escola conecta-se com a vida, com a realidade por meio do trabalho. Ao realizar diversas formas de trabalho, entre eles o trabalho socialmente necessário, os estudantes se aproximam de outras agências formativas presentes na vida. A escola assume sua função como agência formativa, que “[...] tendo sua responsabilidade social, ao mesmo tempo, se integra em uma rede de agências sociais formativas” (FREITAS, 2009, p. 96). Essas agências do meio são, por exemplo, os partidos, as organizações sociais, os movimentos sociais, o sindicato, entre outras que, mesmo sendo consideradas informais, desempenham um papel formativo de ampla relevância.

A mudança da forma escolar é, então, uma necessidade da atualidade. Isso significa que não cabe uma atitude passiva de esperar a transformação plena nos meios de produção para começar a pensar a forma escolar. Pelo contrário, é no processo de transformação das formas de produção que a educação tem muito a contribuir.

Portanto, o papel da educação é soberano, tanto para a elaboração de estratégias apropriadas e adequadas para mudar as condições objetivas de reprodução, como para a automudança consciente dos indivíduos chamados a concretizar a criação de uma ordem social metabólica radicalmente diferente (MÉSZÁROS, 2008, p. 65).

A afirmação acima não alimenta o ideal ingênuo de que a educação é que, por si só, transforma a sociedade. Pelo contrário, a transformação social é um processo mais amplo de

emancipação e mudança nos meios de produção. No entanto, a educação pode contribuir de maneira concreta com a transformação social, desde que esteja relacionada às necessidades de intervenção efetiva e consciente na formação dos coletivos e indivíduos sociais, com vistas à emancipação humana. Para Mészáros (2008, p. 115), o papel da educação é “[...] o desenvolvimento contínuo da consciência socialista, é sem dúvida um componente crucial desse processo transformador”.

Antes de finalizar esta subseção, percebemos a necessidade de inserir, aqui, um breve debate sobre as perspectivas em disputa pela forma escolar. Por um lado, os movimentos sociais e coletivos organizados do campo têm buscado uma escola comprometida com a elevação dos níveis de consciência da classe trabalhadora e discutido possibilidades de uma transformação social na perspectiva da emancipação humana. Por outro lado há, na atualidade brasileira, uma forte onda conservadora que vem atuando em vários projetos de regressão aos direitos sociais, entre eles, citamos o Projeto de Lei nº 867/2015, que institui o Programa Escola Sem Partido, cujo apelido popular é a Lei da Mordaça. Este programa tem, no bojo de sua finalidade, retirar, da escola, a discussão de temas como raça, etnia, religiosidade, gênero, sexualidade, capitalismo, etc., por serem considerados, por eles, como suscetíveis de doutrinação ideológica.

Este projeto é mais uma faceta decorrente do golpe parlamentar, midiático e jurídico ocorrido no Brasil, em 31/8/2016, protagonizado por diversos sujeitos que buscaram alinhar a base econômica nacional às exigências internacionais. Conforme afirma Frigotto (2017, p. 25), “as forças e intelectuais que as promovem são a expressão política e ideológica do contexto atual, que assumem as relações sociais capitalistas no Brasil”. Tais princípios ideopolíticos se firmam em premissas ultraconservadoras no plano social e político e na junção da política com moralismo fundamentalista religioso.

Esses princípios ideopolíticos se concretizam, segundo Apple (1994b), em uma coalização perigosa que tem se estabelecido entre grandes grupos de interesses. Entre eles, este autor destaca os neoliberais e neoconservadores, na tentativa de maior controle social, cultural e econômico.

O neoliberalismo defende o Estado fraco. Uma sociedade que deixa a “mão invisível” do mercado guiar todos os aspectos de suas interações sociais é vista não só como eficiente, mas também como democrática. Por outro lado, o neoconservadorismo orienta-se pela visão de um Estado forte em certas áreas, sobretudo no que se refere à política das relações de corpo, gênero e raça; a padrões, valores e condutas e ao tipo de conhecimento que deve ser transmitido a futuras gerações (APPLE, 1994b, p. 69, grifo do autor).

Essas duas visões, embora divergentes em relação à atuação do Estado, colocam-se unidas no que se refere ao controle curricular, no sentido de se apropriar de um tipo de conhecimento que deve ser considerado válido nacionalmente. O conhecimento, validado constitui-se em um possível controle das práticas educacionais capazes de informar o mercado acerca do domínio e controle que certos grupos mantém sobre outros.

O que está por trás dessa associação entre os líderes do mercado e os representantes de um fundamentalismo religioso são interesses perversos, que desprofissionalizam o professor na medida em que retiram, deste trabalhador, algo que lhe é implícito: o ato de ensinar e educar e, nas palavras de Frigotto (2017, p. 31), “trata-se de, pelo confronto de visões de mundo, de concepções científicas e de métodos pedagógicos, desenvolver a capacidade de ler criticamente a realidade e constituírem-se sujeitos autônomo”.

Algebaile (2017, p. 64) recorda que a lei da Escola Sem Partido é reflexo de tentativas precedentes, a partir da união de grupos preocupados com “[...] o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras”. Assim, criam-se alternativas de vigilância, controle e criminalização para alternativas educacionais que estejam em desacordo com o referido projeto.

É a partir dessa base que vem se dando a ramificação progressiva do Escola