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CAPÍTULO I PERCURSO METODOLÓGICO: DEFININDO A ROTA

1.5 O contexto macro da pesquisa de campo

1.5.1 Os sujeitos e o locus de pesquisa (contexto micro)

Nesta etapa do trabalho, pretendemos descrever o processo de inserção e aproximação na Escola pesquisada. Entendemos que a inserção do pesquisador no contexto de pesquisa requer uma imersão na realidade pesquisada, na vivência do cotidiano da Escola e da comunidade. Conforme Frigotto (2001, p. 79) destaca, é necessário tomar, como ponto de partida da análise, os dados da realidade, não como fim último da pesquisa, mas como atitude investigadora e crítica para superar “[...] impressões primeiras, as representações fenomênicas destes fatos empíricos e ascender ao seu âmago, às leis fundamentais”. O horizonte é chegar a um concreto pensado, confrontando a realidade com uma análise teórica e crítica sobre os fatos.

A pesquisa de Brito (2017) localizou, na Escola Estadual Che Guevara, a presença de três egressas da Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília, e sinalizou que estas estudantes, junto com seus coletivos de professores, têm protagonizado “[...] práticas pedagógicas que apresentam uma repercussão diferenciada em torno da formação e na resistência ao modelo agrícola hegemônico” (BRITO, 2017, p. 264).

Essa constatação foi, para nós, uma importante descoberta, e despertou nosso interesse em realizar uma pesquisa de campo nessa escola e buscar compreender em que medida essas egressas estão articulando os conhecimentos construídos ao longo da formação na universidade, e a maneira como buscam promover transformações significativas nas suas comunidades e, principalmente, na forma escolar.

Em 2009, a Escola Estadual Ernesto Che Guevara foi oficializada como instituição estadual e, em 2014, iniciou um processo de transformação na organização escolar, que despertou nossa atenção e nos instigou a aproximação da Escola para a realização desta pesquisa. O fato é que uma egressa da Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília foi eleita, por eleição direta, diretora da Escola, e outra egressa assumiu o cargo de coordenadora pedagógica na mesma instituição (SOUZA; BRICK, 2017). Elas, a partir do trabalho coletivo, protagonizado pelos docentes da Escola, em parceria com a universidade, têm fomentado mudanças significativas na Organização Escolar e nos Métodos de Trabalho Pedagógico.

Figura 7 – Foto da Escola Estadual Ernesto Che Guevara

Fonte: Arquivo do pesquisador (2018).

A Escola Estadual Ernesto Che Guevara, no ano de 2018, conforme informações da diretora da instituição, ofertava uma turma de Pré-escola 1 e Pré-escola (Educação Infantil) 2. Essa turma pertence à Rede Municipal de Ensino. A referida escola atende, também, a turmas do 1º ano até o 9º ano do Ensino Fundamental no turno matutino, e do 6º ao 9º ano no período vespertino. No período noturno, oferta o Ensino Médio (1º, 2º e 3º anos) e a Educação de Jovens e Adultos voltada para o ensino médio, e o EJA fundamental 1º e 2º segmento.

Em relação aos horários de funcionamento, pela manhã, das 7h30 às 11h30; à tarde, de 13h às 17h; e a noite, das 19h às 22h45. A escola segue o calendário de aulas do Estado de Cuiabá. As aulas tem início no começo de fevereiro e duram até 22 de dezembro, calendário

normal. Com vistas a alinhar o atendimento prestado pelo transporte escolar, no corrente ano, a Escola unificou o calendário do estado e do município.

Acerca da equipe de trabalho da Escola, foi possível constatar que há uma diretora, uma coordenadora pedagógica, 23 professores, e 03 merendeiras (chamadas de apoio nutrição, que estão distribuídas nos três turnos). Há, também, três pessoas atuando na conservação e limpeza do ambiente escolar (uma para cada turno). Somam-se a essa equipe três vigias, duas auxiliares de turma e as profissionais que auxiliam os alunos que têm alguma dificuldade, seja de se locomover ou intelectual. Elas acompanham mais de perto esses alunos.

Também compõem a equipe de servidores as três técnicas administrativas, sendo uma secretária, uma auxiliar da biblioteca, e uma para apoio a multimeios, que fica no laboratório de informática.

A Escola dispõe de alguns materiais de uso coletivo: um datashow; computadores no laboratório de informática (destes, dois computadores foram adquiridos por intermédio do Estado e os demais foram cedidos pelo projeto Casa Digital, do Ministério das Comunicações). A biblioteca da Escola dispõe de alguns livros, com um acervo reduzido.

No que se refere aos espaços externos da Escola, há um pátio bem grande. Tem uma área bastante grande e uma quadra que é descoberta. Ela está já bem danificada pela ação do tempo, do sol e da chuva. Na fala das colaboradoras da pesquisa, a quadra de esportes está bem danificada, principalmente o alambrado que fica em volta dela, que já se encontra bastante rachado e quebrando. Há, também, uma quadra de areia de vôlei, que é bem utilizada pelos estudantes. Tem um parquinho, que está em reforma.

No espaço tem bastantes árvores que projetam sombras para o ambiente escolar. As salas não são climatizadas; portanto, há momentos em que os estudantes recorrem às sombras das árvores para a realização de aulas ao ar livre.

A respeito dos projetos realizados, a Escola dispõe de um laboratório (sala de recurso multifuncional), local onde acontece o atendimento dos alunos que têm dificuldade ou alguma deficiência. Os alunos têm atendimento especial, realizado por uma profissional docente, que é psicopedagoga, e trabalha questões relacionadas à formação dos estudantes atendidos. Também há o laboratório de aprendizagem, que é para trabalhar essa dificuldade, mas esse espaço fica destinado aos alunos com defasagem de aprendizagem.

Nessa Escola identificamos três egressas do curso de Licenciatura em Educação do Campo, que passaram a ser nossas colaboradoras primárias da pesquisa. A primeira chama-se

Ângela, que à época da realização da pesquisa atuava como diretora da Escola, cargo para o qual foi eleita em 2013 e permaneceu durante cinco anos. É graduada em Licenciatura em Educação do Campo, na área de Linguagens, Especialista em Educação Ambiental Campesina pela Universidade Federal de Mato Grosso e reside no Assentamento Antônio Conselheiro.

A segunda colaboradora chama-se Angélica, graduada em Licenciatura em Educação do Campo, na área de Ciências da Natureza e Matemática e em Pedagogia. Especialista em Educação Inclusiva e em Educação do Campo para o trabalho interdisciplinar em Ciências da Natureza e Matemática, curso feito no âmbito da formação continuada na Universidade de Brasília. No ano de realização da pesquisa, essa colaboradora atuava como coordenadora pedagógica da Escola. Também filha de agricultores de subsistência, viveu a maior parte da vida no Assentamento Antônio Conselheiro.

A terceira colaboradora da pesquisa chama-se Rosana, é docente da Escola e também graduada em Licenciatura em Educação do Campo na área de Linguagens. É Especialista em Língua Portuguesa e Oratória e em Educação Ambiental Campesina. Essa colaboradora atua na docência desde 2014 e é filha de camponeses do assentamento Antônio Conselheiro.

Contamos também com o apoio de colaboradores secundários que nos auxiliaram no entendimento de como a comunidade escolar e local percebem as ações de transformação da forma escolar, realizadas pelas egressas da LEdoC. Nessa situação de geração de dados estiveram presentes seis colaboradores, entre eles: dois docentes da instituição; dois estudantes e dois funcionários da Escola, que atuam em outras funções. A intenção foi averiguar os indícios de transformação da forma escolar, dando voz a outros sujeitos da Escola, indo além da visão da gestora e da coordenadora.

A partir da identificação destes sujeitos, surgiu a intencionalidade de investigar, na perspectiva das egressas que trabalham na referida Escola, os sentidos atribuídos por elas em relação à sua formação inicial e continuada. Além disso, intencionamos discutir os desafios enfrentados na materialização de uma proposta metodológica que favoreça a transformação da forma escolar na perspectiva de uma formação omnilateral dos sujeitos do campo.

É na investigação que o pesquisador tem de recolher a ‘matéria’ em suas múltiplas dimensões; compreender o específico, o singular, a parte e seus liames imediatos e mediatos com a totalidade mais ampla; as contradições e, em suma, as leis fundamentais que estruturam o fenômeno pesquisado (FRIGOTTO, 2001, p. 80, grifo do autor).

A partir dessas premissas, apresentamos nosso esforço no sentido de aproximação com o empírico, a realidade a ser pesquisada. Assim, no quadro abaixo há uma síntese do diário de

campo de pesquisa, detalhando as datas de inserção no contexto estudado e as atividades realizadas em cada momento.

Quadro 2 – Cronograma de inserção na realidade pesquisada Data da

inserção

Atividade realizada 15/08/2018  Visita à Escola Estadual Antônio Conselheiro;

 Apresentação do pesquisador e reconhecimento da comunidade escolar. 16/08/2018  Visita à comunidade;

 Participação em reunião da equipe gestora com o CRAS;

 Reunião de planejamento do I Encontro da Juventude Camponesa de Tangará da Serra;  Participação na reunião de professores;

 Participação em reunião da equipe gestora com a comunidade (estudantes, mães e pais de estudantes, servidores da Escola) para tratar da BNCC.

17/08/2018  Reunião com a equipe gestora para a continuidade dos encaminhamentos preparatórios do I Encontro da Juventude Camponesa de Tangará da Serra.

17 /10/2018  Chegada à Escola Ernesto Che Guevara para nova etapa da pesquisa de campo. Participação em evento comunitário/Bazar.

18/10/2018  Visita às nove escolas do campo de Tangará da Serra e Distritos vizinhos;

 Reunião para encaminhamento das atividades do Encontro da Juventude Camponesa, que se realizou em novembro de 2018 na Escola Estadual Ernesto Che Guevara.

19 /10/2018  Acompanhamento da rotina escolar (cotidiano da Escola);  Realização da entrevista semiestruturada com Ângela.

20 /10/2018  Momento de reunião e preparação para o evento comunitário – Campeonato de futebol. 21/10/2018  Participação em evento comunitário – Campeonato de futebol.

22 /10/2018  Realização de entrevista semiestruturada feita pelo pesquisador com as colaboradoras da pesquisa (Ângela e Angélica).

11 /11/2018  Visita à comunidade e reunião preparatória para o I Encontro da Juventude Camponesa. 12/11/2018  Participação no I Encontro da Juventude Camponesa da Escola Ernesto Che Guevara –

Organicidade do evento.

13/11/2018  Participação no I Encontro da Juventude Camponesa da Escola Ernesto Che Guevara – Acompanhamento das oficinas e palestras;

 Realização de roda de conversa com sujeitos de diferentes segmentos: professores, servidores, estudantes e comunidade.

14/11/2018  Participação no Encerramento do I Encontro da Juventude Camponesa da E.E. Ernesto Che Guevara – Avaliação do Encontro.

Fonte: Elaboração do autor (2018).

Entre as atividades realizadas no local da pesquisa, destacamos as visitas de reconhecimento do município de Tangará da Serra, do Assentamento Antônio Conselheiro e das Agrovilas. Após as aproximações com o Assentamento onde está a Escola Estadual Ernesto Che Guevara, realizamos atividades voltadas para maior aproximação e vivência do cotidiano escolar: reuniões pedagógicas entre a gestão e diferentes segmentos (docentes, serviço social, comunidade, estudantes e assessoria pedagógica do município). Foi possível perceber demandas pedagógicas e administrativas que são comuns à maioria das escolas: encaminhamento e acompanhamento de estudantes com dificuldades de aprendizagem; atividades de secretaria, como matrícula e transferência; reunião com diferentes setores da

Escola; diálogo com equipe de apoio à aprendizagem para discussão sobre discentes que estão em situação de risco; providenciar manutenção de equipamentos (por exemplo: gás de cozinha), etc. Em todas essas situações, foi possível perceber que há um amplo protagonismo da diretora e da coordenadora da Escola, no sentido de atender às solicitações diversas que ocorrem no cotidiano da Escola.

Outra ação vivenciada pelo pesquisador, no contexto da pesquisa, foi o acompanhamento dos preparativos e realização do I Encontro da Juventude Camponesa da Escola Estadual Ernesto Che Guevara. O tema definido para encontro foi Organicidade, trabalho e cultura: a juventude e a vida no campo. O referido evento estava sendo planejado com realização prevista para os dias 12, 13 e 14 de novembro de 2018. Em articulação com sete escolas do campo da região, a equipe pretendeu reunir 250 jovens das escolas do campo, para dialogar e debater a ação deles nos próprios territórios e a sua organização coletiva nas suas comunidades, tendo como eixos a organicidade, o trabalho e a cultura camponesa. O objetivo do encontro foi o de promover, com a juventude camponesa, o debate e reafirmação da identidade, como jovens do campo e sujeitos sociais, fortalecendo e incentivando a vivência coletiva, a auto-organização dos jovens camponeses e o seu protagonismo na opção pela luta e resistência em seus territórios.

No acompanhamento dessas atividades, e como ações de preparação do I Encontro da Juventude Camponesa de Tangará da Serra, o pesquisador pôde acompanhar os estudantes da Escola e a equipe gestora nas atividades de divulgação do evento. Percorremos cerca de 300 km quilômetros, visitando as escolas convidadas a participar do referido Encontro. O mosaico de fotos a seguir demonstra evidências dessa ação.

Nessa visita às escolas, tivemos uma experiência muito importante, na qual foi possível observar a postura da equipe gestora e o incentivo ao protagonismo e auto-organização dos estudantes.

Além de poder vivenciar partes do cotidiano escolar, foi possível a inserção do pesquisador também em atividades envolvendo a vida comunitária. A comunidade do assentamento costuma realizar, periodicamente, atividades de cultura, lazer e esportes. Em uma das inserções do pesquisador (em outubro de 2018), a comunidade da Agrovila 2 promoveu um campeonato de futebol.

Figura 8 – Mosaico de fotos de visita às Escolas do Campo de Tangará da Serra

Foi possível notar que eventos como estes integram bastante a comunidade e reúne vizinhos, amigos e parentes. Em tais eventos, além da socialização entre os moradores, há momentos de lazer e diversão. O trabalho é todo voluntário e o lucro obtido foi destinado à melhoria da infraestrutura da comunidade que sedia o evento.

Figura 9 – Fotos do envolvimento do pesquisador nas atividades do Assentamento Antônio Conselheiro

Fonte: arquivo do pesquisador (2018).

Uma das visitas à comunidade, locus da pesquisa, ocorreu no dia 11 de novembro de 2018. Nessa ocasião, a Escola estava se preparando para sediar o I Encontro da Juventude Camponesa das Escolas do Campo de Tangará da Serra. Este evento foi realizado contando com o protagonismo dos estudantes em todas as atividades, não somente no encontro, mas no processo formativo que o antecedeu: estudos, formações, organização da programação, infraestrutura, alimentação, entre outras ações. O objetivo dessa reunião da juventude foi promover o debate e reafirmação da identidade como jovens do campo e sujeitos sociais, fortalecendo e incentivando a vivência coletiva, a auto-organização e o protagonismo da juventude na opção pela luta e resistência em seus territórios. Nessa data, realizamos reuniões da equipe organizadora, no sentido de fazer os encaminhamentos finais da proposta do encontro.

Este encontro contou com o acompanhamento e apoio, na realização das atividades, de três universidades (Universidade de Brasília, Universidade Federal de Santa Catariana e Universidade Federal do Mato Grosso), do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e do CEFAPRO (Centro de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores).

Figura 10 – Mosaico de fotos do I Encontro da Juventude Camponesa – Tangará da Serra: evidência de protagonismo dos estudantes na condução do evento

Fonte: arquivo do pesquisador (2018).

Figura 11 – Parcerias e colaboradores do I encontro da Juventude Camponesa

Fonte: arquivo do pesquisador (2018).

Ao longo deste processo de aproximação com o contexto de pesquisa, acreditamos que houve um importante vínculo entre o pesquisador e a comunidade, e essa interação favoreceu o processo de geração dos dados que analisamos nesta pesquisa de doutorado.

CAPÍTULO II - A LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO E SUAS