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A forma Estado: individual e social, privado e público

Como vimos, a organização de tipo feudal era privada e isolacionista; a atual, por outro lado, condicionada pelas mudanças sociais históricas, é republicana, ou seja, pública e agregadora. O que exatamente significa isso?

O termo “república” vem do latim res publica e é usado como sinônimo de administração do bem público ou dos interesses públicos.

Nos Dicionários Latino-Português e Latino-Vernáculo Res é tratado como coisa, objeto, ser, e Publica, palavra feminina, traz o sentido original de

meretriz, ou seja, aquela que pertence a todos. As formas publicus, publicum correspondem ao que é geral, ordinário, vulgar, do que concerne ao povo e ao bem comum (MACHADO, 1995, p. 13, grifos da autora).

Essa acepção dicionarizada indica que a oposição entre público e privado concerne à propriedade: o que é privado pertenceria a um indivíduo só; o que é público, ao contrário, seria de todos. No entanto, não é possível estabelecer uma equivalência entre os termos “privado” e “público” e os vocábulos “individual” e “social”, respectivamente, pois “[m]uitos atos privados são sociais [e] suas consequências contribuem para o bem-estar da comunidade ou afetam sua posição social e perspectivas. [...] Em suma, atos privados podem ser socialmente valiosos tanto por consequências indiretas quanto por intenções diretas” (DEWEY, 1946, p. 13-14). Ações filantrópicas e descobertas científicas exemplificam com clareza como atos privados destinam-se ao uso comum; no entanto, até mesmo um ato privado entre duas pessoas pode acarretar consequências sociais:

Se uma pessoa fosse prejudicada, cabia estritamente a ela decidir o que fazer. Ferir outro e exigir uma penalidade por uma lesão recebida eram transações privadas. Eram assuntos daqueles que estivessem diretamente envolvidos, e ninguém mais deveria se meter nesses negócios privados. Mas a parte lesada obtinha prontamente a ajuda de amigos e parentes, bem como o agressor. Assim, as consequências da discussão não ficavam restritas às pessoas imediatamente envolvidas. Seguiam-se vinganças e brigas de sangue que poderiam implicar uma grande quantidade de pessoas, perdurando por gerações (DEWEY, 1946, p. 16-17).

Na citação acima, Dewey aponta que uma ação restrita a dois indivíduos, ou compreendida como tal, pode implicar consequências mais extensas. Nesse caso, quando as consequências atingem mais pessoas, a ação passa a ser considerada pública, levando a discussão da delimitação entre o particular e o público à esfera da moralidade – e, se a questão é moral, deixa de ser meramente quantitativa. Em outras palavras, é possível deduzir que entre o social e o individual há uma inter-relação de dependência, em que um dá forma ao outro, de modo que uma relação privada, independentemente do número de pessoas diretamente envolvidas, é já uma relação social. Esse embaralhamento de conceitos leva à “questão de onde o público deve terminar e a esfera do privado começar, [que] por muito tempo tem sido um problema político vital nos assuntos domésticos” (DEWEY, 1946, p. iv).

A discussão sobre os conceitos “público” e “privado” leva a ambiguidades e indefinições; obstáculos similares são encontrados quando se trata das concepções de “indivíduo” e “sociedade”, termos geralmente tomados como antagônicos. “De fato, ambas as

palavras, individual e social, são desesperançosamente ambíguas, e a ambiguidade nunca terminará enquanto pensarmos como antíteses” (DEWEY, 1946, p. 186). No senso comum, basta haver uma certa separação espacial para caracterizar a individualidade; no entanto, até no próprio senso comum subsiste a percepção de que “algo” individual está intimamente relacionado ao meio em que vive, tal como uma árvore, que precisa de terra, sol, água e adubo para sobreviver. Ou, como exemplifica Dewey: “Uma pedra se move aparentemente sozinha. Mas só se move se algo mais acontece e o curso do seu voo depende não somente da propulsão inicial mas também do vento e da gravidade” (DEWEY, 1946, p. 186). Assim, fica claro que algo somente pode ser tomado como “individual” se todas as relações com o meio e com outras coisas forem desconsideradas: “nós não podemos determinar o individual sem fazer referência às diferenças assim como às conexões antecedentes e coetâneas” (DEWEY, 1946, p. 187). Assim é também com o ser humano, cuja individualidade, como já vimos, é constituída de uma intrincada rede de hábitos e fenômenos singulares de comportamento inter-relacionados com o contexto social. Isso implica que os hábitos ‒ que são a “segunda natureza” humana e a próprio fundamento da individualidade ‒ não podem ser desvinculados do comportamento associado.

Mas enquanto o comportamento associado é, como já observamos, uma lei universal, o fato da associação não faz, por si só, uma sociedade. Isso exige, como também vimos, percepção das consequências de uma atividade conjunta e da parte distintiva de cada elemento em produzi-la. Tal percepção cria um interesse comum; isso diz respeito à parte de cada um na ação conjunta e à contribuição de cada um dos seus membros para essa ação. Só então existe algo verdadeiramente social e não meramente associativo. [...] A molécula de oxigênio na água pode agir em certos aspectos diferentemente do que agiria em qualquer outra união química. Mas como um constituinte da água ela age como a água age, isso enquanto a água é água (DEWEY, 1946, p. 188-189).

Embora afirme que o comportamento associado seja uma “lei universal”, Dewey esclarece que isso não implica que o ser humano se entendesse como um indivíduo nos primórdios do comportamento associado. Pelo contrário, os comportamentos associativos, nas variadas formas com que foram surgindo historicamente, moldaram as relações individuais e a própria ideia de indivíduo.

A afirmação de que “ontem e desde que a história começou, os homens estavam relacionados um ao outro como indivíduos” não é verdade. Os homens, vivendo juntos, sempre foram associados e a associação como um comportamento conjunto afetou suas relações entre si como indivíduos. É suficiente lembrar como as relações humanas têm sido permeadas por

padrões derivados direta e indiretamente da família; até mesmo o Estado era um assunto dinástico (DEWEY, 1946, p. 97).

Assim, um sujeito age de maneiras diferentes nos diversos tipos de associação de que participa, seja casamento, grupo de trabalho, clube, igreja ou qualquer outro exemplo. Quando um indivíduo age de maneira integradora em relação à coletividade à qual pertence, direciona suas forças em benefício dela e, mesmo que discorde de ações decididas pelo conjunto de membros dessa associação, passa a agir conforme as regras ou acordos estabelecidos, desconsiderando tanto o conflito interno do grupo quanto a sua preferência individual. Essas contradições entre individualidade e coletividade apontam a dificuldade de se estabelecer os limites entre uma e outra, que só podem ser definidos isolando-se aspectos das relações que são estabelecidas. A conclusão de Dewey é a de que ambos, “sociedade” e “o indivíduo” tornam-se, dessa forma, “irreais abstrações” (Cf. DEWEY, 1946, p. 191, grifos do autor).

Ainda que as relações entre o individual e o social frequentemente tomem a forma de oposição e possam gerar conflitos internos nas pessoas, individualmente, e nos grupos, bem como entre associações, não se pode ignorar que trata-se de um “problema genuíno [...] ajustar os grupos e os indivíduos uns aos outros” (DEWEY, 1946, p. 191). Ao longo da história, tais conflitos acabaram por se reverter na criação de organizações sociais e instituições políticas com as quais lidamos até hoje, seja a herança da velha organização feudal/dinástica ou a impessoalidade das grandes organizações contemporâneas, que reclamam a reconstrução das formas às quais os humanos se unem durante as atividades associadas.

Por que, então, se a individualidade é tão precária, tão abstrata, ainda é um conceito preponderante? Dewey faz duas considerações: 1ª. porque libertou o indivíduo da opressão das velhas condições feudais. O indivíduo, hoje, trabalha menos e não precisa se submeter a um único senhor feudal que não pode escolher; politicamente, o individualismo libertou a nova classe média, a classe mercantil e a manufatureira das restrições feudais e também abriu maior espaço para iniciativas e criações individuais. O indivíduo passa a ter consciência de seus desejos e isso ofusca as relações sociais. “Os modos necessários e persistentes de associação passam despercebidos” (DEWEY, 1946, p. 100). 2ª. o surgimento do “sujeito”, a conscientização gradual de si mesmo como um ego em formação contínua, criou um ambiente psicológico em que a vontade individual confronta os hábitos e regras indesejados.

Nesse ponto, cabe voltar à etimologia e à acepção dicionarizada dos termos “público” e “privado”, que remetem à administração de recursos materiais para mudança das condições

concretas, físicas, das relações sociais entre indivíduos, como a construção de uma estrada ou de uma ponte, por exemplo. Esse sentido, que relaciona “público” e “privado” à gestão de recursos, começou a ser difundido no século XVIII, quando as pessoas passaram a ser arregimentadas pelas indústrias nascentes, levando à formação de uma nova classe, o operariado assalariado. Diferentemente da escravidão, em que o escravo pertencia a uma autoridade, e da servidão, em que o servo está obrigatoriamente ligado à propriedade de um senhor feudal, o assalariado tornou-se “dono” de sua força de trabalho, que passou a ser vendida à indústria. O conceito de “privado”, entendido como aquilo que pertence a um indivíduo, anteriormente relativo exclusivamente às posses dos senhores feudais, estendeu-se, então, a outras camadas da sociedade, inclusive ao operariado, que, nas relações de venda da força de trabalho e de consumo, tornou-se capaz de ser proprietário de alguma coisa. E, assim, algo do feudalismo subsistiu em um novo formato: todos partilham, em certo grau, de uma “qualidade” dos senhores feudais, a posse de uma “propriedade”.

Propriedade e indivíduo estão logicamente atrelados pela relação de posse: algo pertence a alguém. Sendo o operário proprietário de alguma coisa, consequentemente, passa a ser “alguém”, logo, um indivíduo. Uma das alterações sociais que levaram ao fim o feudalismo clássico foi a ampliação do direito de propriedade que, por sua vez, facilitou a expansão da ideia de indivíduo. Enquanto o sujeito medieval era entendido como mero recurso, sem vontades nem desejos pessoais, controlado à distância pelos nobres e pelo clero, o indivíduo contemporâneo surgiu diretamente vinculado à propriedade. Possuindo propriedade, tornou-se detentor de desejos e vontades que colidiam com desejos e vontades de outros, dando margem a comportamentos hostis, que, por sua vez, geraram a necessidade de segurança e fiscalização dos membros da sociedade.

O ponto essencial tem a ver com as consequências extensivas e duradouras do comportamento que, como todo comportamento, procede, em última análise, de seres humanos individuais. O reconhecimento de más consequências provocou um interesse em comum que requeria, para a manutenção da sociedade, certas medidas e regras, juntamente com a seleção de certas pessoas como seus guardiões, intérpretes e, se necessário, seus executores (DEWEY, 1946, p. 17).

Essa é a origem dos oficiais públicos e da forma Estado: uma organização do público promovida por oficiais e dedicada à proteção dos interesses comuns aos seus membros (Cf. DEWEY, 1946, p. 33). A passagem das instituições feudais para o governo dos oficiais públicos é, frequentemente, considerada como o movimento democrático. Porém, este é

apenas um dos significados possíveis para o termo “democracia”:

um dos significados é claramente político, pois denota um modo de governo, uma prática específica na seleção de oficiais e na regulamentação de sua conduta como oficiais. Este não é o mais inspirador dos diferentes significados de democracia; é comparativamente especial em reputação. Mas contém tudo o que é relevante para a democracia política. Atualmente as teorias e práticas sobre a seleção e o comportamento de oficiais públicos que constituem a democracia política foram trabalhadas contra o pano de fundo histórico mencionado. Eles representam um esforço, em primeiro lugar, para neutralizar as forças que determinaram tão amplamente a posse do governo por fatores acidentais e irrelevantes, e em segundo lugar, um esforço para frustrar a tendência de empregar o poder político para servir a fins privados em vez de públicos (DEWEY, 1946, p. 82-83, grifo do autor).

Os oficiais do público, “representantes” da res publica, foram dotados de autoridade, enquanto, paralelamente, como todos os indivíduos, possuíam interesses pessoais – e rapidamente aprenderam a usar o poder de que dispunham em seu próprio interesse (Cf. DEWEY, 1946, p. 18). Além disso, oficiais do público também frequentemente agiam – e agem – conforme suas próprias noções de justiça e de moral. Dessa forma, enredando individualismo, interesses pessoais, propriedade, poder e arbítrio, noções individuais de moralidade e justiça, institucionalização do aparato jurídico, estabeleceram-se o Estado e a sociedade pós-feudal.

Não apenas o Estado mas também a própria sociedade foram pulverizados em um agregado de desejos e vontades discrepantes. Como consequência lógica, o Estado é concebido ou como pura opressão nascida do poder arbitrário e que se sustenta pela fraude, ou como um agrupamento de homens singulares em uma força maciça, que pessoas individualmente são incapazes de confrontar, sendo esse agrupamento uma medida de desespero por ter se tornado a única alternativa ao conflito de todos contra todos, que acarretaria uma vida desamparada e brutal (DEWEY, 1946, p. 21-22).

Os oficiais do público lidam com os poderes da res publica e fazem a mediação concreta entre a letra simbólica das leis e os atos praticados pelo povo; têm a possibilidade de lançar mão dos “recursos” públicos para seus propósitos pessoais, de classe ou de grupo e, ainda, detêm o privilégio de determinar a ordenação legal. A despeito dessa intrincada trama de relações e indefinições na origem do Estado moderno, o governo é, de fato, exercido pelos oficiais públicos, cujos interesses pessoais “tingem” de características privadas tanto o exercício de suas atividades oficiais de mediação e de aplicação da lei quanto a legislação em si. Isso significa dizer que o oficial público é a representação do que deveria ser o “público”,

todavia detém poderes decisórios sobre a vida deste e usa seus poderes para mantê-lo (ao público) desorganizado.

A óbvia marca da organização de um público ou de um Estado é, portanto, a existência de oficiais. O governo não é o Estado, pois isso inclui o público, e nem são os governantes encarregados de deveres e poderes especiais. O público, no entanto, é organizado em e através daqueles oficiais que agem em nome de seus interesses (DEWEY, 1946, p. 27-28).

É nesse sentido que a organização social atual assemelha-se à feudal. Ainda que existam leis, a hierarquia dos oficiais públicos é individualista e arbitrária, porque cada um deles é controlado por outro membro da oficialidade. “O problema essencial do governo reduz-se a isso: que arranjos impedirão que os governantes promovam seus próprios interesses às custas dos governados? Ou, em termos positivos, por quais meios políticos os interesses dos governantes devem ser identificados com os dos governados?” (DEWEY, 1946, p. 93).

O Estado é, portanto, o governo do público pelos oficiais; a res publica, os recursos e as pessoas – que podem ser vistas como recursos também – estão sujeitas aos oficiais do público. Como não há Estado se não houver público, então “o público forma o Estado somente com e por meio dos oficiais e seus atos” (DEWEY, 1946, p. 68). Pode-se dizer que este modelo continua mantendo as diretrizes do mundo antigo: substituiu-se o senhor feudal pelo conjunto de oficiais do público, cujo individualismo faz da res publica seu domínio privado. No entanto, a ideia de Estado como algo que existe per se levou à separação entre essa estrutura social e o conjunto das pessoas que a controlam, possibilitando que alguns “maus” oficiais públicos sejam responsabilizados pela corrupção da instituição, assim tornada intangível. “Desde que, no entanto, um público é organizado em um Estado através de seu governo, o Estado é o que os seus oficiais são. Somente através da constante vigilância e crítica dos funcionários públicos pelos cidadãos, pode um Estado ser mantido íntegro e útil” (DEWEY, 1946, p. 69). Porém, a forma Estado persiste, independentemente dos problemas que apresenta, e é com ela que as pessoas têm de lidar em seus cotidianos. Como forma de aprimorar essa instituição, abrindo caminho para novas formas de associação, Dewey sugere a vigilância crítica “pontual” aos oficiais públicos por meio da criação de instrumentos políticos que permitam a avaliação constantemente cada um deles.

A crítica à função do Estado e suas ações deve considerar o quão longe a atividade estatal pode ir (Cf. DEWEY, 1946, p. 73), o que pode fazer e, principalmente, o que não pode, de forma que haja uma inversão de expectativas com características democráticas: o público

controlando o Estado, por meio de cada oficial, individualmente. Os oficiais representam o público e são, simultaneamente, parte dele, e suas ações devem ser limitadas por este público do qual faz parte. Por outro lado, o público somente pode agir por intermédio de seus oficiais (Cf. DEWEY, 1946, p. 75). No entanto, o Estado, como se apresenta, tem sido governado pelos oficiais públicos, a despeito dos interesses do público. A “máquina” eleitoral, por exemplo, é projetada e gerida pela oficialidade juntamente com seu emaranhado de hábitos e intenções privadas, o que corrompe o propósito de eleger legítimos representantes dos interesses da totalidade do público.

Em vez de indivíduos que, na privacidade de sua consciência, fazem escolhas que são realizadas por vontade pessoal, há cidadãos que têm a abençoada oportunidade de votar em um certificado de ingresso de homens quase desconhecidos para eles, e que é compensado por uma máquina encoberta por convenções cujas operações constituem uma espécie de predestinação política (DEWEY, 1946, p. 119-120).

Por outro lado, como não há um “público” concreto, real, que regule as questões públicas, esse vazio é preenchido por pessoas que procuram tornar seus interesses privados, individuais ou de um determinado grupo, em opinião pública. “Mesmo em tempos de excitação política, [em que as pessoas são] artificialmente ‘aceleradas’, suas opiniões são movidas coletivamente pela corrente do grupo, e não pelo julgamento pessoal independente” (DEWEY, 1946, p. 122). Assim como as circunstâncias mudam incessantemente, também as pessoas mudam de ideia constantemente.

O "maremoto" faz saltar alguns; o "deslizamento" carrega outros para o escritório. Em outras ocasiões, o hábito, os fundos partidários, a habilidade dos operadores da máquina, o retrato de um candidato com sua mandíbula firme, sua adorável esposa e filhos e uma infinidade de outras irrelevâncias determinam a questão (DEWEY, 1946, p. 122, grifos do autor).

As pessoas “vão na onda”, seguem um modismo; canalizam seus esforços na discussão de polêmicas aleatórias; o candidato mais histriônico as “embala” emocionalmente. Esse “maremoto” incessante da cena política, porém, é tão perturbador, tão desorientador, que resulta em desinteresse generalizado.

Tais coisas são familiares; elas são os lugares comuns da cena política. [...] A indiferença é a evidência da apatia atual, e a apatia é um testemunho do fato de que o público está tão desnorteado que não consegue encontrar a si mesmo. [...] Pode-se dizer que a atual confusão e apatia se deve ao fato de que a energia real da sociedade é agora dirigida em todos os assuntos não-

políticos por especialistas treinados que gerenciam as coisas, enquanto a política é conduzida por uma maquinaria e por ideias formadas no passado para lidar com outro tipo de situação. Não há público específico interessado em encontrar experientes instrutores escolares, médicos competentes ou gerentes de negócios. Nada chamado de público intervém para instruir os médicos na prática da arte da cura ou dos comerciantes na arte de vender. A conduta desses nomeados e outros característicos do nosso tempo são decididos pela ciência e pela pseudociência (DEWEY, 1946, p. 122-123).

Assim são criadas, portanto, condições intencionais para evitar a formação do público: uma associação – ou um público – somente surge quando os interesses pelas consequências das ações são compartilhados.

Outra dificuldade na formação do público encontra-se na circunstância histórica. Nos últimos séculos, porém, a “colisão” de culturas decorrente do encontro de povos acabou por gerar muitos “públicos” diferentes, com múltiplos e discordantes interesses. “Há muito público, um público tão difuso e espalhado e de composição muito intrincada” (DEWEY, 1946, p. 137). Para muitos, essa heterogeneidade e essa multiplicidade tomam a forma de desintegração de uma sociedade que lhes parecia bem estabelecida, o que os empurram na direção de reações conservadoras.

A integração política resultante confundiu as expectativas dos primeiros críticos do governo popular, tanto quanto deve surpreender seus primeiros patrocinadores, se eles estão olhando de cima para a cena atual. Os críticos previram desintegração, instabilidade. Eles previram a nova sociedade desmoronando, dissolvendo-se em grãos animados de areia mutuamente repelentes. Eles também levaram a sério a teoria do “individualismo” como a base do governo democrático. Uma estratificação da sociedade em classes imemoriais dentro da qual cada pessoa desempenhava seus deveres declarados de acordo com sua posição fixa parecia-lhes a única garantia de estabilidade (DEWEY, 1946, p. 116, grifo do autor).

Enquanto os oficiais públicos tomaram o vazio deixado pela aristocracia, reis e nobres, os “especialistas” – aqueles que têm “méritos”, tais como líderes religiosos, executivos,