2.3 Para modificar hábitos precisamos aprender a pensar reflexivamente
2.3.3 Aprender “verdades”?
A “verdade” por muito tempo ocupou uma posição de destaque no conhecimento. “Verdade” significa conformidade com os fatos, autenticidade, correspondência. Isso implica sua unicidade: não pode haver duas verdades; uma delas seria necessariamente falsa. Para aceitar a ideia de verdade como correspondência é necessário acreditar que o que é observado, a evidência, não sofre alterações culturais; ou seja, a “coisa” percebida é apreendida
exatamente conforme de fato é, de modo imediato, como se não houvesse interferências entre
o observador e o observado. Dewey retruca essa concepção, afirmando a compulsoriedade da mediação, o que acaba por negar a divisão entre observador e a coisa observada:
não há separação absoluta entre a pele e o interior do corpo. Mal foi feita a distinção e já temos que qualificá-la. De fato, não há uma coisa exclusivamente como um evento nervoso inicial periférico. Condições internas, assim como a fome, a circulação sanguínea, as funções endócrinas, a persistência de atividades anteriores, conexões neurais preexistentes, abertas ou fechadas, juntas com uma infinidade de outros fatores intraorgânicos, entram na determinação da ocorrência periférica. E, depois que a excitação periférica aconteceu, o que vem a seguir não está autodeterminado, mas é afetado por, literalmente, tudo o que acontece no organismo. É pura ficção que a “sensação”, ou as excitações periféricas, ou os estímulos viajem solitárias, sem serem incomodadas, na sua própria carruagem, para entrarem candidamente no cérebro ou na consciência. Uma particular excitação é, na realidade, uma avalanche de excitações simultâneas, periféricas e procedentes, de receptores internos; cada uma tem que competir com as outras para conseguir se impor; o que acontece é uma integração de forças complexas (DEWEY, 1958, p.333-334, grifo do autor).
A sensação é apreendida de forma imediata porque é orgânica, mas enquanto “percorre” o caminho até o cérebro, sofre outras interferências orgânicas e, por fim, a maior das interferências, quando é mediada pela mente e adquire significação. Portanto, esse longo percurso “orgânico-mental” torna uma coisa “outra coisa”. A verdade, então, não pode ser correspondência imediata porque não existe nem de forma orgânica essa imediatez.
A verdade também não pode ser absoluta, imperativa, mas somente condicional, referencial, contingencial, pois algo só é “verdadeiro se: se certas outras coisas eventualmente se apresentarem juntas e quando estas coisas ocorrerem, elas, por sua vez, sugerirem outras futuras possibilidades; a operação de dúvida-inquirição-descoberta se repete” (DEWEY, 1958, p. 155, grifo do autor). Elaborando livremente essa afirmação de Dewey: se o observador é igual organicamente a todos os outros observadores, então, sim, o acontecimento é observado da mesma maneira por todos os outros observadores; se o objeto do conhecimento mantém
relação constante com os outros objetos do conhecimento, então, sim, pode-se caracterizá-lo como uma singularidade e, portanto, é único; se a verdade se contrapõe à experiência, porque esta última é interpretação e, assim, a obscurece, então, sim, a verdade é ontologicamente superior, pois a interpretação é uma falha ao reconhecer a correspondência real das coisas. Argumentando contra esses dados condicionais que acabaram de ser expostos: existencialmente, todos os observadores são organicamente diferentes; as relações entre objetos do conhecimento mudam de tempos em tempos, portanto, não têm constância; a interpretação é sempre individual e não há maneira de uniformizá-la, pois as “mesmas” experiências são sempre diferentes para cada indivíduo. Logo, a “verdade”, para ser “verdadeira”, deveria sustentar as mesmas condições sempre ‒ o que jamais acontece.
E ainda: a verdade é um significado, e como todos os outros significados, não possui um estatuto de superioridade. A “verdade”, para ser “verdadeira”, deveria prescindir de mediação; deveria ser imediata. No entanto, como a “verdade” é um significado, depende de mediação para ser inteligível, o que a torna um constructo da linguagem e, portanto, um signo.
[N]ão há diferenças originais e inerentes entre significados válidos e significados que ocorrem em devaneios, desejos, temores, lembranças, sendo todos intrinsecamente iguais em relação aos eventos. Este fato contém em essência a condenação da introspecção. Não faz diferença, em princípio, se a doutrina introspectiva assume uma forma dialética, como no realismo lógico cartesiano-espinosista, no qual a intrínseca autoevidência, clareza, adequação ou verdade são imputadas a alguns significados conceituais ou a ideias; ou se toma a forma mais usual de designar as coisas que surgem no campo da consciência como propriedades intrínsecas que podem ser lidas por inspeção direta e, assim, usadas para denominá-las como sensoriais, perceptivas, conceituais, imaginativas, fantásticas, mnemônicas, emocionais, volitivas. etc. (DEWEY, 1958, 339-340).
Os significados só são “diferentes” entre si porque têm valores diferentes. Ora, o “valor” é atribuído às coisas dependendo dos hábitos sociais, de modo que a “verdade” pode assumir qualquer valor que queiramos lhe dar. Isso a torna, então, passível de discussão, de mediação, invalidando a ideia de verdade imediata. Sendo, portanto, a verdade um significado pertencente aos objetos da linguagem e da mente, é um ilógico tratar esse constructo humano como se tivesse uma existência independente da mente.
A noção da independência dos significados foi a crença dominante até o século XVII, no período pré-científico; logo, a crença na “verdade imediata” deriva de um processo histórico.
Houve um tempo em que os homens acreditavam que cada objeto do mundo exterior trazia sua natureza estampada na sua própria forma externa e que à inteligência simplesmente competia examinar e decifrar esse mundo completo e enclausurado. A revolução científica que se iniciou no século 17 originou-se através da capitulação desse ponto de vista. Ela começou com o reconhecimento de que cada objeto natural é, na verdade, um acontecimento ininterrupto, contínuo no espaço e no tempo com outros acontecimentos e conhecido unicamente por investigações experimentais que revelarão uma multidão de relações complicadas, obscuras e minuciosas. Qualquer objeto ou forma observada constitui nada menos do que um desafio (DEWEY, 1956, p. 53-54).
A crença na possibilidade da “verdade” se baseia no sentimento de insegurança humana diante de um mundo incerto e mutável. “O homem que vive em um mundo de perigos é obrigado a procurar a segurança” (DEWEY, 1929, p. 3). A busca por segurança tem sua gênese no hábito adquirido pela mediação do equilíbrio orgânico. Um organismo “equilibrado”, como já se referiu neste trabalho, está satisfeito com suas condições. Quando há mudança nas condições, há um esforço para alterar as novas condições indesejadas e voltar às condições históricas de satisfação. Esse desequilíbrio orgânico é a “sensação de insegurança”, daí a origem orgânica da incerteza.
O hábito de “buscar a certeza”, porém, não significa a mesma coisa que possuir uma “verdade”. A “verdade”, em si, é estática, enquanto hábito de “buscar a certeza” se configura diante de acontecimentos, sendo contingencial e temporário. O hábito depende da atividade contínua de questionamento de uma certa condição, buscando garantir determinadas consequências, eliminando outras. O resultado dessas escolhas, às vezes, tem consequências irrevogáveis; daí porque a mudança de hábito provoca o medo de errar: o tempo não “volta” atrás; um erro pode ser fatal.
O amor à certeza é o exigir garantias antes da ação. Relegando o fato segundo o qual a vontade pode ser comprada somente pela aventura inerente ao método de se encontrar a verdade através de provas e experiências, o dogmatismo transforma a verdade em uma companhia de seguros. Fins fixos de um lado e princípios fixos – isto é, regras oficiais – de outro, são fundamentos de um sentimento de segurança, o refúgio do tímido e os meios pelos quais os destemidos oprimem os tímidos (DEWEY, 1956, p. 187).
A finalidade da “verdade” é política pois, sendo ela mediada, produto da linguagem, estabeleceu-se pelo discurso de autoridade, formando uma narrativa oficial, autorizada e autoritária. A “verdade” não é ontologia, porque não é imediata; não é epistemologia, porque não é lógica; é apenas política: arbitrária e definida por autoridades. O medo do erro e o apego
à “verdade” coexistem: “Por trás [...] da concepção de fixidez, com referência à ciência ou à moral, existe a adesão à certeza da ‘verdade’, adesão a alguma coisa fixa, nascida do temor ao novo e da afeição à posse, do apego à propriedade” (DEWEY, 1956, p. 186, grifo do autor). Isso implica dizer que a “verdade”, em vez de ser uma constante investigação, tornou-se passividade criativa diante dos acontecimentos; deixa de ser uma orientação para o aumento de opções vitais, tornando-se mais uma forma rotineira de pensar.
Atribuir à verdade o caráter de provisoriedade tem valor pedagógico. Questionar seus preceitos conduz os aprendentes à inquirição, instrumentalizando-os para o pensar reflexivamente.