CAPÍTULO 5: UMA ABORDAGEM SUBJETIVISTA DA RESISTÊNCIA DOS
5.2 A FRAGILIDADE DO INDIVÍDUO E O PODER DA ORGANIZAÇÃO
De acordo com Freitas (1999), o caráter acelerado e interdependente das mudanças faz com que a própria compreensão do momento se perca. Isto é, o caráter violento com que o contexto vem sendo alterado produz uma espécie de vácuo, um sentimento de vertigem ou até mesmo de um salto no vazio. A autora argumenta que a mudança, pela própria sensação de futuro incerto que remete, gera uma certa desorientação, dúvida e confusão no indivíduo.
Considerado como elo mas frágil de toda a cadeia social e suscetível aos impactos das diversas mudanças que ocorrem ao seu redor, o indivíduo passou a enfrentar uma "crise de identidade" (FREITAS, 1999). Tal crise refere-se às perturbações que ocorreram nos processos de identificação do indivíduo. Isto é, houve um enfraquecimento das fontes e imagens identificatórias ou mesmo daquilo que, no passado, estabilizava as condições de contingências individuais, tais como a tradição, o lugar, a família, a religião, enfim, todos os determinantes pessoais das mudanças de vida para os indivíduos (CLEGG; HARDY, 2009). A ancoragem no universo simbólico do passado foi perdida, as referências sociais do indivíduo e seus valores tradicionais, até então aceitos como norteadores da vida, foram quebrados, gerando uma perda de seu próprio núcleo identitário e coeso (FREITAS, 1999).
De acordo com Freitas (1999), os efeitos que o indivíduo sofre diante desta crise, diante deste processo de mudanças violentas, não são passíveis de análise objetiva e racional, mas se manifestam no próprio comportamento, nas atitudes, assim como na própria esperança que ele tem do futuro. Pelo fato de os vínculos sociais do passado se revelarem como caducos e enganosos, o indivíduo é dominado por um grande mal-estar em suas referências e fontes identificatórias.
A autora argumenta que, à medida que o social em geral deixa de garantir suporte e segurança para uma mínima compreensão do presente e uma certa esperança em relação ao futuro, o indivíduo tem a tendência de agarrar mais a si próprio e naquilo que possa reduzir sua fragilidade e garantir um referencial menos instável diante do incerto e do desconhecido. A mesma autora ressalta que a maneira como ele lida com os novos quadros de referência é resultado da sua própria leitura subjetiva e da acomodação psíquica que ele mesmo é capaz de elaborar. Entretanto, enfatiza-se que os efeitos desta "crise de identidade" podem resultar identidades problemáticas e frágeis, visto que o indivíduo torna-se uma presa
fácil das mensagens que parecem oferecer-lhe respostas às suas próprias inquietações (FREITAS, 1999).
Assim, Pagès et al. (1987) afirma que o indivíduo criou uma imagem inconsciente bastante rígida da organização, já que enxergou a mesma como uma formação psíquica capaz de fornecer respostas às suas próprias necessidades de segurança psicológica em frente ao ambiente totalmente mutante que o cerca. Ele passou a vê-la como uma nova entidade fornecedora de condições de contingência correlatas àquelas que se romperam com o advindo da modernidade. Deste modo, forças cegas passaram a operar por meio dos indivíduos em um caso, organizações em outro (CLEGG; HARDY, 2009) e, assim, a organização e a estrutura psicológica do indivíduo tornaram-se peças de um sistema sócio- mental que se reforçam mutuamente. Isto é, a organização é uma leitura do indivíduo e o indivíduo é uma leitura da organização (PAGÈS et al., 1987).
Justificando tal argumento, é certo que a organização e a personalidade humana são unidades distintas detentoras de leis próprias. No entanto, acredita-se que existem partes importantes da existência de uma delas que dependem desta conexão estabelecida com a outra unidade. Sendo assim, não há como compreender plenamente o indivíduo sem compreender a organização na qual ele está inserido, e vive-versa (ARGYRIS, 1975).
No que se refere a esta ligação entre o indivíduo e a organização, Pagès et al. (1987) defende a ideia de que ela não é estruturada apenas por laços materiais e morais ou por vantagens econômicas e satisfações ideológicas. O indivíduo está ligado à organização por laços psicológicos, afetivos e imaginários (FREITAS, 1999). Ela passa a desempenhar um papel cada vez mais importante em relação ao fornecimento de significações, gratificações e, enfim, identidade.
Em concordância a esse ponto, Gagliardi (2009) argumenta sobre o próprio espaço físico da organização e o significado que o mesmo transmite ao indivíduo. O autor defende que este não atua como algo vazio no qual se concretizam as ações organizacionais, mas como um elemento que cultiva todos os sentidos individuais e refina a própria capacidade humana de perceber. Submersos neste espaço, os indivíduos acabam por se acostumarem com determinadas sensações e pareceres em relação a determinados estímulos a ponto de se afeiçoarem com eles, mesmo que considerados desagradáveis em outros contextos. Vale ressaltar que esta visão de Gagliardi (2009) concretiza o argumento de Pagès et al. (1987) de
que o indivíduo é enxertado à organização, de forma que a reproduz não por razões racionais, mas por motivos que escapam até mesmo de sua própria consciência.
Diante de toda esta "crise de identidade", as organizações passam a se posicionarem como detentoras de um grande poder. Freitas (1999) explicita que a organização surge como um novo ícone, um novo referencial e promete acompanhar o indivíduo em toda a solidão resultante destas mudanças. A autora acrescenta que, implicitamente, as organizações fazem promessas ao indivíduo de excelência, de potência, de perfeição, de dinamismo, de juventude, ou seja, promessas de propiciar-lhe uma identidade social privilegiada. Afinal, segundo Pagès et al. (1987, p.162), "a identidade do indivíduo está ligada à sua atividade e às suas trocas com o meio do qual depende material e psicologicamente".
Pagès et al. (1987) argumenta que, ao fazer essas promessas e oferecer um sistema de crenças e um ideal de vida, a organização responde às necessidades profundamente enraizadas no indivíduo e passa a exercer um domínio, uma capacidade de influência no inconsciente do mesmo, tornando-se capaz de ligá-lo a ela de forma quase indissolúvel.
A este respeito, Argyris (1975) enfatiza que a organização, graças a esta visão de subsociedade que lhe foi dirigida, tornou-se capaz de influenciar o indivíduo nos mais diversos aspectos. O autor afirma que a capacidade de influência que ela exerce inicia-se desde aquilo que o indivíduo deseja, passando pelas possibilidades de tal desejo ser alcançado e no significado que é atribuído ao êxito ou ao fracasso.
Pagès et al. (1987) decifra esta influência e domínio vendo a organização como "droga". Isso porque seu próprio papel simbólico constitui-se como um corpo estranho que se mistura no organismo do indivíduo, a ponto de exercer sobre ele efeitos incontroláveis. Ou seja, ela é algo que se tornou parte integrante de seu organismo e que o controla.
Diante de toda essa simbologia, desta imagem de poderio refletido pelas organizações, o indivíduo tornou-se profundamente ambivalente a elas (PAGÈS et al., 1987). Isso reflete o que na linguagem psicanalítica se designa de identificação, projeção e introjeção. Pagès et al. (1987) explica o fenômeno da identificação por meio de uma relação entre o indivíduo e um objeto qualquer. Ao projetar sobre um objeto parte de si mesmo, de seus impulsos e de seus medos reprimidos, o indivíduo acaba por se tornar parte do objeto e este passa a expressar no lugar do próprio indivíduo tudo aquilo que foi projetado por ele, ou seja, é introjetado no indivíduo e torna-se parte dele. Isso permite ao indivíduo viver seus
medos e desejos inconscientemente, sem os assumir. O resultado deste duplo processo é a identificação, isto é, o inconsciente do indivíduo e o objeto se tornam insolúveis.
De acordo com Freitas (1999), é através do processo de identificação que a identidade do indivíduo é construída. Pagès et al. (1987), por sua vez, argumenta que quando o processo de projeção e introjeção é maciço, a identidade individual não é construída, mas captada, de uma só vez, e fixada no objeto na qual se projetou.
Desta forma, resultante da projeção do indivíduo, a organização torna-se um objeto de identificação, de amor e uma fonte de prazer e é ela quem alimenta e fixa sua angústia. Consequentemente, o indivíduo torna-se dependente dela, não apenas para sua existência material, mas também para a integridade de sua própria identidade (PAGÈS et al., 1987).
No parecer de Enriquez (2000a), apresentando-se como todo-poderosa, a organização torna-se fornecedora de todos os elementos de segurança capazes de saciar o desejo de completude do indivíduo. Isso porque, segundo o autor, o ser humano carrega consigo uma falha irremediável, uma angústia original relacionada a necessidade de ser protegido e nutrido por um ser fora do comum. Para Moreira (2005), este sentimento de fragilidade e de finitude do ser humano é algo que marca seu nascimento e o acompanha até a sua morte. Até mesmo o amadurecimento e a vida adulta não o esconde desta fragilidade. Assim como na infância, o indivíduo continua buscando algo para se identificar. Ele tem nostalgia dos pais, ou seja, da mãe-nutriz e do pai protetor (FREITAS, 1999).
5.3 O ESPAÇO DO INDIVÍDUO NA ORGANIZAÇÃO: UMA REALIDADE ARTIFICIAL