CAPÍTULO 6: EM BUSCA POR UMA CONCRETIZAÇÃO DO DEBATE
6.2 BARBARIANS AT THE GATE
6.2.1 RJR Nabisco: o império do desperdício e do poder
Sendo formada em 1985 como resultado de um processo de fusão entre a Nabisco, uma organização do setor de biscoitos, e a RJ Reynolds Tobacco Company, a RJR Nabisco, sob a presidência de F. Ross Johnson, desfrutou anos de muita glória. Já no primeiro ano de Johnson como CEO, os retornos organizacionais eram deslumbrantes. Lampert (1990) alega que, imediatamente após o poder ser conferido a Johnson, as vendas aumentaram cerca de 4%, as receitas da organização tiveram um crescimento de 14% e os dividendos trimestrais saltaram de 30% à 48% por ação.
Deste modo, considerada como uma organização detentora dos maiores e melhores valores em toda a indústria alimentícia, a RJR Nabisco detinha de uma preponderância histórica que, se não fosse o fato de ter sido o ícone do maior processo de aquisição alavancada da história, em 1988, jamais teria escapado das páginas de negócios (BURROUCH, 1999).
Já de início, é possível afirmar que o pivô daquilo que vulnerou a RJR Nabisco à ignomínia financeira que marcou o fim da década de 80 (BURROUGH, 1999) foi um caso típico de alienação mental por parte daquele por quem era gerida. Embora considerado como o responsável pelos anos de glória da RJR Nabisco, Johnson era um sujeito cujo modo de pensar era altamente dominado pela ganância. Assim sendo, foi da resistência em mudá-lo que provieram todos os acontecimentos que deram um fim à história da RJR Nabisco.
Com suas riquezas incessantes e sob o domínio de um homem poderoso, na realidade da RJR Nabisco o dinheiro consistia como algo de gasto natural. Para Johnson, gastá-lo incessantemente não o fazia sujeito ao déficit. Desfrutando de um ganho de cerca de 2,7 milhões de dólares em 1987, nenhuma despesa era poupada em sua gestão (LAMPERT, 1990).
Como bem colocado por Lampert (1990), a RJR Nabisco consistia em um complexo de realeza corporativa. O autor considera que a forma convencional de gerir uma organização era anátema para Johnson. Ao invés de seguir o rito costumeiro dos executivos, voltando-se à constante necessidade de planejamento das ações, apresentações formais às equipes, enfim, àquilo que consiste em um comportamento típico de gestão, Johnson geria a RJR Nabisco segundo sua própria coragem e inteligência. Era um homem cuja inconvencionalidade das ideias o separava da tendência dominante. Aliás, por um grande período de sua carreira, este seu comportamento atraía efusiva consagração à sua pessoa (LAMPERT, 1990).
Em meio a tanta riqueza, Johnson nem mesmo separava o que era seu e o que era da organização (LAMPERT, 1990). Era na exuberância física do patrimônio, nos torneios de golfe patrocinados, nas festas e na enorme frota de jatos ao seu dispor, que estava o seu pensamento.
Analiticamente se interpreta que a RJR Nabisco era o espaço onde era projetada toda a riqueza e vitupério que detinham um valor significativo para Johnson. Como seu próprio espaço pessoal, nela ele desfrutava de uma ilusão que o dinheiro transformava em realidade.
Sendo assim, pode-se dizer que Johnson regia a organização de forma perigosa. Preenchido por um sentimento que o fazia poderoso e confiante que a organização e toda a diretoria repousavam nas palmas de sua mãos, Johnson agia sem medo. Muitos o alertavam da necessidade de depositar os fundos em melhores usos, de comprar alguma coisa, de modernizar. Porém, da sua gestão só provinha o conforto e os fundos eram usados para garanti-lo. Johnson não se interessava em comprar nada, ele só vendia e os valores eram direcionados ao suprimento dos altos débitos que seu prazer pela riqueza resultava.
Resgatando um ponto debatido no decorrer do trabalho, pode-se considerar que, em semelhança ao mundo animal, Johnson se assemelhava a um peixe. Assim como a
água é tão fundamental ao peixe, a ponto de ele nem se quer notá-la ou questioná-la, a vida em meio ao luxo era tão fundamental para Johnson que ele nem se quer lhe dispensava muita atenção.
Quando alertado pelo desperdício, Johnson sempre ignorava. Mesmo que mortificado pelo Wall Street Journal, com suas constantes afirmações satíricas a respeito de seu comportamento, Johnson sempre se mostrava não intencionado em libertar-se da vida em meio ao luxo (LAMPERT, 1990).
Uma análise profunda do comportamento de Johnson demonstra que a riqueza, os prazeres, o conforto e o poder atribuíam significado em sua própria vida. Despojar de tudo isso que tinha e viver de forma limitada era para Johnson algo extremamente inviável. Como alguém que começou do nada e vendo que naquele momento possuía muito além do que sonhava em possuir, ele se prendeu na riqueza. Desfrutá-la sem medo tornou-se parte da sua identidade. Como uma criança incapaz de se libertar de algo, o modo de ser e viver em meio a uma vida repleta de prazeres tinha para Johnson um efeito transicional.
Dizendo de forma simples, a análise dos fatos permite afirmar que Johnson se tornou prisioneiro de uma mente gananciosa. Em cada ação, ele deixava transparecer a sua necessidade de possuir cada vez mais, de nutrir-se ainda mais daquilo que o dinheiro o permitia. Pelo próprio significado que o seu estilo de vida luxuoso e transbordante fornecia para si mesmo, a forma como Johnson rastreava os acontecimentos, interpretava-os e agia organizacionalmente, seguia as patologias que sua própria ganância embutia na sua mente. Para Johnson, com o poder, ele seria capaz de tudo, nada se igualava a sua capacidade.
Vale enfatizar que esta postura de Johnson muito desagradava as pessoas que enxergavam os acontecimentos por meio de outros vieses, por meio de olhares menos gananciosos. Porém, analisando a forma como agia, é possível afirmar que alertas e conselhos não eram suficientes para o abandono de suas verdades. Simbolicamente representado-o como prisioneiro da caverna subterrânea, Johnson enxergava a realidade por meio dos reflexos sombreados que seu poder delineava. Consequentemente, pouca importância era dado àquilo que se passava além daquelas sombras. Alienado em meio delas, Johnson não sabia que, com o passar do tempo, os efeitos de sua postura retornariam carregados de grande assombro para si.