CAPÍTULO 2. O DESAMPARO E AS VULNERABILIDADES COMO UM
2.2 A FRAGILIDADE E A QUEBRA DOS LAÇOS SOCIAIS
2.2 A FRAGILIDADE E A QUEBRA DOS LAÇOS SOCIAIS
O contexto contemporâneo, com uma sociedade líquido-moderna, vem sendo marcado por um enfraquecimento dos laços sociais. Enfraquecimento esse devido a um forte discurso da flexibilização, apoiado em um marketing do individualismo, que muito contradiz a ideia de suporte do outro, como vimos ao longo desse estudo.
Quando pensamos na liquidez proposta por Bauman (2009), logo nos deparamos com a fragilidade das relações sociais, as quais se encontram assim como a modernidade: líquidas. Diante disso, vale um questionamento importante: como fica o amor e os laços sociais nesse cenário tão frágil e vulnerável ao estado de desamparo? Para que possamos refletir sobre essa fragilidade, introduziremos brevemente o conceito de amor na perspectiva de Freud, percorrendo sua construção e desenvolvimento na teoria psicanalítica, bem como a necessidade de vínculos amorosos enquanto forma de amenizar o sentimento de desamparo.
Desde seus primeiros trabalhos em “Estudos sobre a histeria”, Freud (1893/2016) já defendia que o que adoecia as pessoas era justamente a
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incapacidade de amar. Depois, em “Introdução ao narcisismo”, afirma claramente que é preciso amar para não adoecer (FREUD, 1914/2010). Em 1912, o autor analisa a questão do amor transferencial no atendimento de seus pacienes, e seus resultados positivos o levam a afirmar que a técnica psicanalítica promove a cura através de uma relação de amor, denominada de transferência positiva. Por fim, em “O mal-estar da civilização”, Freud (1930/2006) diz que a psicanálise devolve aos indivíduos a capacidade de
“amar e trabalhar” por meio da relação amorosa transferencial.
Entretanto, vale considerar que o amor nunca foi algo muito simples para a psicanálise, e irá percorrer toda a obra freudiana, sendo nomeado de maneiras distintas e reconhecido sob diferentes ângulos. Entre os principais conceitos utilizados por Freud para tratar o amor estão a libido e Eros (pulsão de vida). Segundo o autor, “Em sua origem, função e relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide perfeitamente com a força amorosa, a libido da psicanálise...” (1921/2011, p. 44). Sobre a libido, Freud diz que é utilizada para representar a força do amor, a energia psíquica que liga os indivíduos em uma relação amorosa. Eros, por sua vez, representa o amor de forma bem específica e só será empregado por Freud a partir de 1920. Por fim, um conceito que está intrinsicamente ligado à noção de amor para a psicanálise é a pulsão de vida, a qual agrega, sob uma só classe de pulsão, as pulsões sexuais e as de autoconservação. Se até 1920 as pulsões sexuais e as de autoconservação eram tratadas como opostas, após uma maior compreensão de Freud esse antagonismo foi reestruturado para, de um lado, as pulsões de vida, e de outro, a pulsão de morte.
A pulsão de vida traz os conceitos de Eros e libido unidos, sendo a libido a energia de Eros que o Eu utiliza em seus vínculos com os objetos de satisfação. É exatamente a partir dessa dinâmica de Eros – a qual consiste em unir indivíduos em busca da conservação da vida –, que temos, no amor real, a possibilidade de amparo.
De acordo com o dicionário internacional de psicanálise, o amor não representa um fim em si mesmo; ele significa um acontecimento a partir de uma relação entre duas pessoas onde existe possibilidade de troca, de amar e ser amado um pelo outro (LAPLANCHE, 2001). Entretanto, enquanto essa
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relação se dá através do bebê recém-nascido e sua mãe, não se trata de um amor de imediato. De fato, segundo Ferenczi (1932/1990), em um primeiro momento, o bebê não ama, apenas responde às suas demandas internas e do mundo externo. Porém, a mãe ama e investe todo seu amor em forma de amparo.
A contemporaneidade é marcada por inúmeras facilidades, dentre elas uma muito discutida: a tecnologia e seu impacto sobre a comunicação, que se tornou mais dinâmica entre os sujeitos, independente de localização, contato físico etc. Nunca foi tão fácil se comunicar, iniciar relações e se informar. Hoje é possível falar com aquele amigo do outro lado do oceano por meio de uma transmissão simultânea, com chamadas de vídeos, ou mesmo com uma simples mensagem. Entretanto, essa facilidade possui duas vertentes bem ambíguas, que contestam a eficácia desse acesso imediato a tudo e todos.
Mas será que quanto mais acessamos o outro com facilidade, mais banalizamos o encontro? Decerto que, diante de tudo que já dissemos até aqui, as relações sociais sempre sofreram com o desamparo e falta de afeto, independentemente da maneira como nos relacionamos. Então, será realmente que essa facilidade banaliza e prejudica as relações? Ou são apenas considerações daqueles que são avessos aos constantes avanços da tecnologia? Decerto, essa chegou de maneira avassaladora, mas seu uso devido foi responsável pela melhoria na qualidade de vida dos sujeitos.
Portanto, seria irresponsável apontar as facilidades proporcionadas pelas novas tecnologias como agente do caos no âmbito das relações sociais.
A verdade é que hoje acompanhamos simultaneamente todos os movimentos do outro simplesmente acessando a Internet. O que era para facilitar e nos aproximar, vem nos afastando do convívio de pessoas que sempre nos foram próximas. Atrelado a essas novas formas de comunicação, encontramos a falta de informação, pois diante de tanta facilidade de se comunicar e se informar, o sujeito compartilha informações que lhe vêm de forma fácil, sem ao menos tentar entender melhor ou se aprofundar sobre sua veracidade. A falta de informações pertinentes favorece a produção de ideologias morais e sociais que interferem sobre os comportamentos e as
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relações com os outros. Essa visão moral sobre as coisas muitas vezes conduzem os sujeitos ao ostracismo ou à rejeição.
Mas o que pretendemos então? Culpar ou inocentar as novas tecnologias pela falta de amparo social na contemporaneidade? Adiantamos que nem uma coisa, nem outra. O que nos atenta neste trabalho é a constituição psíquica do sujeito na contemporaneidade, e se vivemos em uma era da tecnologia, cabe a nós mesmos refletir sobre o uso que fazemos das facilidades proporcionadas por ela. Pois, segundo Freud, a falta sempre existiu, e a rejeição ao estranho também.
Rejeição remete à exclusão – exclusão social que, em nossa cultura, está vinculada a questões raciais, sociais e também sexuais. São exclusões que se dão a partir de divergências de ideias; que consistem no afastamento por questões religiosas, políticas, entre outras, e as quais se relacionam à questão do estrangeiro conforme exposta em “Totem e tabu” (1913), pois aqui nos referimos a pequenos grupos com divergências singulares que, aos poucos, tomam proporções devastadoras. São pequenas vulnerabilidades que vão se aglomerando e atacando diretamente a maneira dos sujeitos contemporâneos de se relacionar.
Em 1915, Freud afirmou que o estrangeiro nos torna inimigos: a exclusão, na maior parte das vezes, se dá através de um desconhecimento do outro, e esta condição reforça a singularidade das relações na contemporaneidade. Mas isso não significa que o sujeito da contemporaneidade passa desapercebido; pelo contrário, na sociedade conhecida pela exaltação à exibição, o anonimato é mal visto. O que consideramos aqui é que essa exclusão está mais pautada na fragilidade das relações. Não existe mais profundidade nas relações sociais, não conhecemos ao certo o outro, e isto nos causa a repulsa do diferente. Como nos disse Caetano, “Narciso acha feio, o que não é espelho” (VELOSO, 1978/1992).
Em “Psicologia de massas e análise do eu”, Freud (1921/2011) colocou em cena a questão referente ao narcisismo das pequenas diferenças, afirmando que tal estado permite àqueles que não pertencem à mesma comunidade, raça e religião dirigir a raiva para o exterior. Esse texto, escrito em
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1921, não poderia ser mais contemporâneo e apropriado para descrever nossa atual sociedade que não permite “o diferente”. E, como dissemos anteriormente, em 1930, Freud (1930/2006) considera que o sofrimento humano tem como uma de suas causas mais impactantes o mal-estar referente às relações sociais, que pode ter como consequência o isolamento, uma condição para a solidão enquanto sofrimento.
Melanie Klein (1946/1971) afirma que, por sentimento de solidão, não apenas se entende a situação objetiva de ser privado da companhia externa, mas também o sentimento de estar sozinho independente das circunstâncias externas, isto é, de sentir-se só mesmo quando estamos entre amigos e recebendo amor. É a solidão enquanto sintoma. Um sintoma interno, avesso às interferências externas, pois nesse caso o sujeito se encontra solitário, e tal sentimento é angustiante.
Esse sentimento a que se referiu Klein (1946/1971) é próximo do que experimentamos nos dias de hoje, pois entre tantas maneiras de se relacionar, o sujeito se encontra cada vez mais solitário: já não é mais preciso sair de casa para comer, fazer compras, conversar com os amigos e até mesmo trabalhar.
Então, existe uma sociedade mais solitária do que a nossa?
Em seu artigo “A capacidade de estar só”, Winnicott (1958/1998) descreve a solidão como parte do desenvolvimento emocional primitivo, considerando que para a constituição subjetiva se fazem necessárias as ausências maternas, pela falta. Entretanto, quando essa ausência ultrapassa o suportável, tem-se o trauma e a angústia. É justamente esse sentimento de angústia e desamparo que norteia o presente estudo. Pois, quando observamos as experiências da sociedade atual, nos deparamos com sujeitos que se utilizam de uma exposição social excessiva como fuga de uma solidão utilizada como uma fuga diante do sentimento de desamparo. Nesse caso, a exposição é uma maneira de se sentirem amparados pelo meio, este mesmo meio que irá aprisioná-los e limitá-los.
É indiscutível a importância do avanço das civilizações, mas propomos pensar o uso deste avanço para abrir discussões referentes a cada caso individualmente, e não generalizar massas e criar regras tidas como verdades
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absolutas, condicionando o sujeito como parte de uma classe que, para ser aceito, necessita pensar em conjunto, e que quando escolhe outro discurso, seja desamparado socialmente. Ora, essa questão nos remete novamente ao pensamento freudiano, o qual sustenta a importância do afeto para a constituição do sujeito. Sendo assim, em uma sociedade de laços frágeis, torna-se necessário o olhar ao outro, bem como o exercício constante do respeito e da empatia.