CAPÍTULO 3. A PRECARIEDADE DOS LAÇOS NAS RELAÇÕES DE
3.2 O PAPEL DO AMBIENTE E DO OUTRO NA VIDA DO SUJEITO
No item anterior, discorremos sobre como o ambiente profissional sofreu alterações nos últimos tempos, mas é inegável que o trabalho possui o mesmo espaço de sempre na vida dos indivíduos: isto é imutável e independe da sociedade em que vivemos, pois o trabalho é fundamental na construção da identidade do sujeito, é uma marca que o transforma em pertencente a um grupo seleto, e primordial para a manutenção da sociedade como tal. Dejours (2004) defende essa colocação da seguinte maneira:
O trabalho sempre coloca à prova a subjetividade, da qual esta última sai acrescentada, enaltecida ou ao contrário, diminuída, modificada.
Trabalhar constitui, para subjetividade, uma provocação que a transforma. Trabalhar não é somente produzir é, também, transformar a si mesmo e, no melhor dos casos, é uma ocasião oferecida à subjetividade para se testar, até mesmo para se realizar. (p. 30).
Dejours (2004) trata, neste momento, da centralidade do trabalho, isto é, da relação entre o trabalho e a subjetividade no campo psíquico. Para o autor,
“o trabalhar seria uma condição transcendental de manifestação absoluta da vida” (DEJOURS, 2004, p. 31). Observa-se que essa condição não se atém somente a uma atividade remunerada, mas também à relação social, pois também é uma forma de organizar a subjetividade em um mundo hierarquizado diante das desigualdades de uma cultura social, onde o sujeito é reconhecido pela sua resistência, pois trabalhar é, de certa maneira, resistir ao mundo social.
Em “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/2006) afirma que a ênfase no trabalho conduz o sujeito à realidade e o insere de modo seguro na sociedade. Sendo assim, o trabalho é indispensável na arte de viver e um impulsionador do sujeito ao circuito social. No mesmo texto, o autor considera o trabalho como fonte do aparelho psíquico na busca da felicidade, quando a escolha profissional é livre, e quando, através da sublimação, as moções pulsionais se tornam úteis. Entretanto, ele lembra que o trabalho dificilmente é apreciado como via para a felicidade.
Os atributos psíquicos presentes no trabalho – necessidade, amor, agressividade –, por vezes necessitam ser deslocados, forjando uma relação bem contraditória do indivíduo com a sociedade. O trabalho impõe uma
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associação com o outro, associação esta que pode ser de cunho positivo ou negativo. Para a manutenção dessas relações, os atributos tendem a ser deslocados e sublimados de maneira que os sujeitos trabalhadores atendam à demanda de um mundo capitalista e de uma sociedade que não tolera a diferença, a infelicidade.
Dejours (2010) defende que os trabalhadores de hoje sofrem como os trabalhadores das gerações anteriores – ou seja, independentemente das mudanças que ocorrem nas sociedades, o trabalho em uma sociedade capitalista será sempre fonte de sofrimento. O que diferencia o sofrimento é o suporte que, na contemporaneidade, está muito longe de ser como em outros tempos. Pois, se antes havia estratégias coletivas de defesa contra o sofrimento, atualmente essas estratégias não funcionam mais. Os sindicatos estão escassos e a cultura do trabalho é cada dia mais competitiva e individualista, causando nos trabalhadores um sofrimento duplo: o do trabalho e o da solidão.
Em outras palavras, o que o autor nos traz referente à contemporaneidade é que houve uma transformação do sofrimento em iniciativa e em mobilização criativa (DEJOURS, 1994). Sendo assim, todo esse discurso sobre engajamento, senso de responsabilidade e criatividade que circula nos meios corporativos, é também consequência de sofrimento.
Os trabalhadores se investem de esforços impressionantes para lutar contra o sofrimento, não procuram situações de trabalho sem sofrimento. Frequentemente eles as detestam. (...) a realidade do trabalho é um terreno propício para se jogar e rejogar com o sofrimento, na esperança de que ele desemboque nas descobertas e nas criações socialmente, e mesmo humanamente, úteis. (...) o sofrimento adquiriu um significado, um sentido. A criatividade confere sentido porque ela traz em contrapartida ao sofrimento, reconhecimento e identidade. (...) O prazer no trabalho é um produto derivado do sofrimento. (DEJOURS, 1994, p.160).
A cultura contemporânea reforçou no trabalho sua já conhecida figura principal e de centralidade, onde a imagem que se vende é que somente através dele, o homem tem a capacidade de materializar seu futuro próspero atrelado ao desenvolvimento crescente da sociedade. Bauman (2000) aponta esse período como o momento de encantamento entre sujeito e trabalho, no qual este último é responsável pela aquisição de progressão. Essa era a grande sacada do sujeito. Quem tem trabalho e um bom salário, tem o respeito
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dos demais e garantia de vida próspera. Porém, o trabalho se apresenta ao sujeito de uma maneira mais complexa. Essa complexidade contém inúmeras frustrações, que irão levar o sujeito ao contraste entre realização e angústia.
Entre tantas frustrações que o sujeito encontra no trabalho, a expectativa que se cria é a mais impactante. Pois, à medida que o mundo corporativo contemporâneo nos promete felicidade, satisfação, realizações pessoais e financeiras, o sujeito trabalhador encontra, contrariamente, com um cenário individualista, segregado, competitivo, e se sente desamparado pelo sistema. É a partir desse contexto que se pode apresentar o sofrimento humano no trabalho.
O que sabemos e pretendemos defender é que o ambiente, assim como o outro, é de suma importância na vida do sujeito trabalhador. No entanto, a globalização, a inovação tecnológica e as novas reformas trabalhistas vêm promovendo, ao longo dos últimos anos, uma grande mudança no ambiente organizacional, trazendo à tona uma competição exacerbada e uma cultura institucional impiedosa. Nesse cenário, os profissionais têm que se adaptar a uma estrutura organizacional fragilizada e, para atender sua necessidade de sobrevivência, reavaliar sua postura, valores e condutas, em busca de manter o emprego e assim se sentirem pertencentes a um grupo.
No ponto de vista de Bauman (2000), em uma releitura darwiniana, no mundo contemporâneo – onde somente os fortes sobreviverão –, o desempenho tem que ser obediente às tarefas pré-estabelecidas pela empresa e sempre de maneira imediatista, mesmo diante do sentimento de incerteza, que causa o medo e a ansiedade. O ambiente de trabalho sempre foi um espaço fértil para a manipulação das incertezas; no entanto, a incerteza contemporânea se apresenta como uma força individualizadora, fazendo com que a ideia de interesse comum fique cada vez mais nebulosa e sem nenhum valor prático (BAUMAN, 2000).
Quando esse cenário se constrói de maneira permanente, o ambiente se transforma em um jogo, no qual o outro é visto como um adversário, e as relações se tornam inconstantes e transitórias. Bauman (2001) evoca fluidez e liquidez como termos perfeitos para descrever essa nova tendência no ambiente de trabalho contemporâneo, onde nada é estável. Para o autor, a
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modernidade não foi fluida em sua concepção, mas foi movida pela necessidade de derreter a solidez existente. O espírito moderno determinava que a realidade deveria ser emancipada da sua própria história, o que apenas poderia ser feito derretendo tudo o que persistisse no tempo e fosse contrário à sua passagem ou imune ao seu fluxo (BAUMAN, 2001).
Fazendo uma articulação com nosso primeiro capítulo, onde discorremos sobre o desamparo social, observamos que as mudanças nas relações , de suporte ao trabalhador é diretamente, ligada a esse sentimento de desamparo. Pois, para se pensar em suporte do ambiente ao trabalhador, é imprescindível pensar de maneira temporal, pois cada época tem, para si, um modelo ideal de mundo profissional. Hoje, o que encontramos é um direcionamento do sujeito para a individualização, reforçando uma gestão de si mesmo, colocando cada vez mais o trabalhador como o grande responsável pelo seu resultado, impulsionando o empreendedorismo a qualquer custo.
Retira-se, assim, todo o suporte do ambiente (governo e empresa) para o sujeito contemporâneo do trabalho. Sobre isso falaremos mais à frente.
Chegamos ao ponto de um tema amplamente discutido e complexo,que é a gestão por medo. Essa questão não é nova; de fato, sempre esteve presente no ambiente profissional, apesar de não nomeada. Sua discussão é de suma importância para o presente estudo.