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2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL, O ESTATUTO DA CIDADE E O

2.2 O ESTATUTO DA CIDADE, E AS TRANSFORMAÇÕES NO MODO

2.2.1 A função social da cidade e da propriedade

A Constituição da República Federativa do Brasil, no título concernente á ordem econômica e financeira, dedica um capítulo à política urbana, consubstanciada, em linhas gerais, nos arts. 182 e 183. Ambos são de natureza social, no sentido amplo da expressão. O art. 182 prescreve que a política de desenvolvimento urbano, a ser executada pelos Municípios, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. Mesmo tratando das funções sociais, a Constituição não chega a esclarecer quais seriam tais funções, que deveriam ter plena ordenação, buscando melhorias efetivas na qualidade de vida dos moradores da cidade e daqueles que dela se utilizam.

Assim, a Carta Magna, não dispõe de nenhum desdobramento normativo específico para a compreensão da definição do que seja o termo “função social da cidade”. Já o Estatuto da Cidade oferece base suficiente para a fixação da definição da função social, através das diretrizes gerais contidas em seu art. 2º.

O referido artigo, em seu inciso I, ressalta quais seriam algumas dessas principais funções: “garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações”.

Voltando um pouco na história do urbanismo, vemos que as funções sociais urbanísticas foram sistematizadas e definidas na Carta de Atenas: trabalho, habitação, recreação e circulação. Considerando uma atualização terminológica, a

função recreação passa a ser denominada de lazer, e a função circulação é substituída por mobilidade urbana, pela amplitude conceitual que os novos termos contêm.

A habitação tem seu fundamento na caracterização e conceituação da cidade, e esta não existe sem seus habitantes e sem moradias fixas. Para Rocco (2006), na área urbana, o alto custo do espaço para moradia, representa um dos fatores que tem dificultado o acesso das pessoas de menor renda. Desse modo, a função social habitação apresenta sua concretização com o acesso à moradia digna a todos os habitantes e que o Poder Público deve oferecer políticas direcionadas às populações de menor renda, para terem acesso à moradia e a áreas urbanizadas.

Para Rocco (2006), a função trabalho representa uma “prioridade” da vida urbana. A maneira como o trabalho é organizado e distribuído no ambiente urbano traz a possibilidade de mudanças significativas. O trabalho, o ambiente de trabalho, a indústria, o comércio e os serviços são atividades fundamentais para a sustentabilidade econômica de uma cidade. Assim como a habitação, sem a possibilidade de trabalho, a cidade não se mantém viva.

A terceira função social é a mobilidade urbana ou circulação. Para Carvalho Filho (2006), trata-se de um processo que integra os fluxos de pessoas e bens, que envolvem todas as formas de deslocamentos dentro do ambiente urbano. Tais formas vão desde o transporte público coletivo (serviço público fundamental e necessário para a concretização das funções sociais da cidade (CF, art. 30)) e o individual, transporte privado motorizado ou não, e a pé, além dos modos rodoviário, ferroviário e hidroviário, dentre outros.

Rocco (2006) trata, ainda, de outra função social da cidade, que é o lazer ou recreação. Os moradores desfrutam e compartilham espaços de recreação e de contato social, na busca da realização integral do cidadão, ocasião em que tem origem os relacionamentos humanos nas diversas esferas, seja familiar ou de amizade simplesmente, formando os grupos e os sentimentos de unidade.

A cidade cumpre sua função social no momento em que ela oferece àquele que vive em suas limitações territoriais, as condições necessárias para sua sobrevivência. Se existem preceitos constitucionais que garantam ao indivíduo a dignidade humana, a saúde, a educação, a cultura e o lazer, é no ambiente urbano, construído para a satisfação dessas necessidades, que elas devem ser efetivadas.

Cabe à cidade, portanto, acomodar todos os aspectos necessários para a consecução destas garantias.

Para Cammarosano (2006), o Estatuto da Cidade assume, como pilar de sua normatividade, uma corajosa redefinição da função social da propriedade, outorgando-lhe contornos firmes e consequentes [...]. A grande novidade trazida por esta lei está exatamente na criação de instrumentos que possibilitarão uma intervenção mais concreta e efetiva do Poder Público no desenvolvimento urbano. Com isto, espera-se alcançar, pelo menos, dois objetivos: mitigar a especulação imobiliária e fazer com que a propriedade imobiliária urbana cumpra sua função social.

Na visão de Carvalho Filho (2006), desenvolver as funções sociais de uma cidade representa implementar uma série de ações e programas que tenham por alvo a evolução dos vários setores que compõem uma comunidade, dentre eles, os pertinentes ao comércio, à indústria, à prestação de serviços, ao transporte, à habitação, ao lazer e a todos os subsistemas que sirvam para satisfazer as demandas coletivas e individuais. Esse desenvolvimento social inclui também o desenvolvimento econômico, e não tem outra finalidade senão a de proporcionar e garantir o bem-estar de seus habitantes.

Carvalho Filho (2006) diz, ainda, que, no art. 2° do Estatuto, vemos todos os objetivos da política urbana, referindo-se ao desenvolvimento social das cidades, cujo sentido é inegavelmente de expressiva amplitude, e alude, também, ao desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana. Pois, de fato, para garantir o bem-estar da população, a política urbana deve ser direcionada tanto ao desenvolvimento das funções sociais da cidade quanto das funções sociais da propriedade urbana. São coisas diversas. Enquanto nas funções sociais da cidade, devem ser desenvolvidos os setores que resultam das demandas primárias e secundárias da coletividade, a função social da propriedade urbana reflete a adequação da propriedade à ordem urbanística estabelecida no Plano Diretor. O autor conclui, então, que o desenvolvimento das duas funções sociais, são os objetivos da política urbana.