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3.2 Velaciones de santos e gestão cultural da experiência camponesa

3.2.3 A gaita como instrumento sagrado e reprodutivo

Na velación, o poder do santo se sintetiza com o poder da gaita, como um instrumento de produção e reprodução da vida social. Há vários tipos de interpretação que os camponeses da região de Montes de María fazem desse potencial reprodutivo e produtivo que a gaita representa. São comuns as comparações com pássaros no cortejo. “Olha a gaita, ela é como um pássaro, tem um corpo, uma cabeça e um bico. Tem o pássaro macho e a fêmea. Quando os pássaros estão seduzindo-se para fazer cria, a fêmea canta e o macho responde, igual que na gaita” (CARMONA, 2017)98.

Esta descrição encontra um correlato na estrutura melódica da música de gaitas, na qual a gaita fêmea propõe a base melódica enquanto a gaita macho se limita a preencher os vazios sonoros que a fêmea deixa. Na interpretação da estrutura musical mesma é recorrente que os músicos façam comparações como essa. Carlos Rendón, disse:

Como eu o entendo, uma é a que faz a melodia, é a que alegra, é a que se move por todos os cantos com sua melodia e ela canta pro macho, o macho unicamente tem dois buraquinhos, ou um só, as vezes, e ele diz: sim, não, sim, não, e vai seguindo-a. Eles se assuntam, assuntar-se é acasalar-se, quando se faz amor (RENDÓN, entrevistado por QUINTANA MARTÍNEZ, 2006, p. 167)99.

110 Outra intepretação que aparece nos relatos é a de uma cobra. A comparação é similar, só que o bico é assimilado com uma língua. Na biografia de Toño Fernández, o mais célebre gaitero de San Jacinto, feita pelo seu conterrâneo, Numas Armando Gil Olivera (2010b), se conta como a picadura de uma cobra submerge ao cantor em um delírio de morte do qual acorda apaixonado pelo instrumento que lhe daria reconhecimento internacional. Uma terceira analogia a compara com órgãos genitais, “tem gente que também fala que a gaita é como um pênis enfiado na vagina” (GÓMEZ, 2014)100. A Figura 9 expõe o motivo desta referência. As três definições estão relacionadas entre si pela ideia da reprodução e de fecundidade.

As três definições da gaita estão relacionadas. Na etnografia clássica sobre Los Kogi, Reichel-Dolmatoff (1951) explica que tanto as aves quanto os vermes representam o pênis para esse grupo indígena, que não apenas se encontra geograficamente próximo da região a que nos referimos senão que, adicionalmente, tem seus instrumentos chamados kuisis, idênticos às Gaitas Montemarianas e provavelmente um dos seus precursores. Obedecendo a este olhar, a gaita é compreendida nesse pensamento como um instrumento reprodutivo, de reprodução social e reprodução humana. Ao mesmo tempo, a metáfora da fertilidade na gaita também compõe a ideia da fertilidade da terra. Ao ter sido associada com as atividades agrícolas se busca com ela conseguir elementos que propiciem a abundância da produção.

As gaitas são um sinal de virilidade por parte dos homens e seu uso também busca, nessa leitura, a fertilidade feminina, da terra e das mulheres. Ideias sobre sexualidade e fertilidade associadas a flautas são comuns em todo o território americano. Por exemplo, entre os Kamayurá do alto Xingu, as flautas representam a sexualidade e a fertilidade e as mulheres são banidas do seu contato. Há um lugar onde as flautas descansam, chamado tapuy, ou casa de flautas em que as mulheres são proibidas de entrar à risco de que por fazê-lo o castigo pode levar ao estupro coletivo. Não apenas a entrada para a casa das flautas é proibida, mas também a vista das flautas. Elas podem ouvi-las, mas não as ver. (MENEZES BASTOS, 2011; PRINZ, 2011)

Um veto semelhante na presença feminina, obviamente, sem proibições ou consequências tão radicais, ocorre na música de gaitas. A música é geralmente produzida por homens e com ela fortalecem sua masculinidade.

Figura 9. Detalhe da cabeça das gaitas,

mostrando a representação de um

pênis enfiado em uma vagina.

111 Conforme reconhecido por Quintana (2006)

O domínio masculino revela-se nas restrições à plena participação das mulheres na música e nos mitos que, por meio de proibições como não tocar um instrumento fálico, acabam exercendo um poder que controla a vida das mulheres e as afasta do conhecimento musical que os homens querem dominar. Desta forma, as relações entre homens e mulheres em San Jacinto, Ovejas e Bogotá, os papéis cotidianos que exercem, [...] a participação de homens e mulheres na música de gaitas e tambores, [...] e os nomes femininos ou masculinos, atribuídos aos instrumentos, fazem parte de um "trabalho histórico de des-historicização" das bipolaridades de gênero, construções sociais que se perpetuam através de mitos, festivais tradicionais, textos de canções e significados dados a instrumentos e seus sons 101(QUINTANA MARTÍNEZ, 2006, p. 24)

Esses instrumentos são, então, associados ao despertar sexual, à fertilidade das mulheres e à virilidade dos homens. O mito Kogi sobre os instrumentos, entre eles o kuisis, nos diz que quando as flautas foram criadas, as mulheres foram vê-las e tocá-las sem a autorização dos homens e, quando tocaram seus corpos novamente, os cabelos saíram nas axilas e no púbis. onde eles não tinham antes. (QUINTANA MARTÍNEZ, 2006; REICHEL-DOLMATOFF, 1951) Isso quer dizer que o contato com a gaita induz simbolicamente o desenvolvimento sexual das mulheres.

A imagem que os músicos evocam com a narrativa das gaitas como homologia dos genitais humanos copulando implica uma exaltação da sexualidade. A música regula práticas reprodutivas e isso é evidente nas ocasiões musicais e na relação entre mulheres e tocadores de gaita. Sañudo Pazos (2000) nos fala sobre isso em relação às velaciones dos santos:

Este também era um ponto de encontro onde as mulheres em idade idónea iam em busca de um marido, vestiam seus melhores vestidos longos para dançar com os dançarinos que chegavam e que também iam em busca de mulheres. Isso era feito através das danças, o status das mulheres se demonstrava pela dança, a que melhor dançava era reconhecida por todos e era muito solicitada por todos os homens. A beleza das mulheres era qualificada de acordo com a dança.(SAÑUDO PAZOS, 2000, p. 103)

O ritual garantia a circulação e a criação de laços sociais que promovessem a reprodução do grupo social, por meio de metáforas explícitas da sexualidade e à sensualidade tanto na dança quanto na estrutura musical.

Ao mesmo tempo, a metáfora da fertilidade na gaita também compõe a ideia da fertilidade da terra. Pois ao associar-se com atividades agrícolas, busca-se com ele obter os elementos que propiciem a abundância de produção. Se expressa uma relação de homologia da reprodução humana com a reprodução da terra. O ritual que fertiliza o monte e garante o sustento do coletivo por meio da produção agrícola chamando às forças naturais é o mesmo que

112 reúne as pessoas e estimula sua sexualidade para garantir a reprodução do coletivo e a criação de novas unidades familiares.

Esta relação se sustenta na compreensão das forças naturais como seres similares a estes campesinos-gaiteros. Os santos, como figuras com vontades, afinidades e uma sexualidade e gosto musical similar aos deles transforma a relação com a natureza numa relação familiar.

Há um trabalho do monte, da natureza, da terra, que escapa à compreensão dos grandes capitalistas e isso explica, então, a permanência até tempos muito recentes da família camponesa (isto é: comunidades camponesas que “mesmo que voltados para o seu mundo do trabalho na unidade de produção familiar camponesa, as interdependências entre as famílias camponesas contribuíam para cimentarem socialmente o seu modo de produzir e de viver” (HORACIO MARTINS DE CARVALHO, 2012, p. 29) como unidade de produção, em um cultivo que representou milhares de toneladas de produto exportado.

Tal resistência contrastava com as tentativas de instituição da monocultura de grande extensão por parte das empresas comercializadoras de tabaco nos Montes de María, cujas intenções falharam em diferentes ocasiões. Estes experimentos capitalistas, que se realizaram no contexto de quedas nos preços internacionais, em que os camponeses se abstiveram de cultivar tabaco para continuar seu trabalho agrícola de subsistência, significou um grande fracasso nos projetos das comercializadoras de tabacopp, obrigando-as a recorrer aos camponeses e suas técnicas “arcaicas”.

A análise da música feita pelos folcloristas interessados na música de gaitas foi feita no sentido de entendê-la como expressão cultural, subtraindo-a do seu contexto de produção, acometendo, então, um projeto de despolitização da música. O trabalho de List é um exemplo disso. Porém, como tenho mostrado, a música não corresponde só a uma expressão estética do mundo, senão a um modelo prático, com um reflexo estético, de entender o mundo. O trabalho da música, como trabalho da terra, visa por enquadrar a música em um contexto de luta de classe, como uma ferramenta cultural que não só responde a uma identificação enquanto estética senão que foi utilizada como uma ferramenta dessa mesma luta, como uma resposta de uma classe particular às suas condições de subalternidade em um contexto de exploração econômica.

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