4.3 Resistência e transformações em Montes de María Panorama Pós-ANUC
4.3.2 Violência e transformações no modelo produtivo
Como mostrei, o panorama local em Montes de María manteve algumas continuidades no âmbito do cultural e na relação dos camponeses com a terra após a queda da
161 ANUC, por causa da forte repressão e o acirramento da repressão estatal e pela pretensão das guerrilhas de suplantar o movimento camponês, subordinando-o às suas formas de luta. Porém, o processo político da década de 70 e os posteriores desdobramentos no contraditório mapa do poder na Colômbia causaram transformações no cotidiano da região.
O acirramento da violência, que reestabeleceu a lógica patriarcal e senhorial nos Montes de María mediante o assassinato, tortura e enfrentamento bélico transformou o panorama dos campesinos-gaiteros e consequentemente sua prática musical.
O processo que evoluiu na década de 80 era o de reestabelecimento de uma economia moral baseada na dominação dos latifundiários, mas não nos termos idênticos aos anos 60. O objetivo foi aumentar o poder das elites e desarticular as condições de existência de qualquer possível organização camponesa. O que, junto com as transformações que não faziam mais pertinente o modelo de aluguéis por desmatamento, significou para as elites a necessidade de esvaziar os espaços rurais. Para isso, a violência se tornou uma estratégia fundamental de “refundação” do território.
Nesta área - e não por acaso - incubou-se o projeto político-militar de captura regional do Estado e de configuração de uma base social submissa que incluía de passo o desmantelamento da organização camponesa e a reversão das parcelaões da terra realizadas desde a década de 1960. Esse projeto “refundador” também se tornou a ponta de lança de um dos grandes monstros da violência contemporânea no país, o paramilitarismo e sua expressão política, a parapolítica.166 (MACHADO CARTAGENA; MEERTENS; SÁNCHEZ GÓMEZ, 2014, p. 19)
Como veremos, este processo de intensificação da violência se traduz em práticas cotidianas e em processos subjetivos. Nordstrom e Robben(1995) consideraram as dificuldades que uma definição de violência unívoca e estável representa numa pesquisa centrada nos sujeitos, especialmente quando se trata de expressar experiências e percepções tão diversas dos atores da guerra em relação ao fato violento. “Cada participante, cada testemunha da violência, tem sua própria perspectiva. Estes testemunhos podem variar drasticamente” 167 (NORDSTROM; ROBBEN, 1995, p. 5). De certa forma, dar conta das experiências dos sujeitos que vivem ou viveram com a guerra diariamente é um desafio tão grande para a pesquisa que não é possível uma definição da violência que aborde todas as expressões de violência, com as particularidades que cada conflito implica, uma vez que a violência não é um fenômeno universal com um padrão fixo de ocorrência no mundo todo.
Preferimos considerar a violência como uma manifestação social e culturalmente construída de uma dimensão deconstitutiva da existência humana. Assim, não existe uma forma fixa de violência. Sua manifestação é tão flexível e transformadora como as pessoas e culturas que a materializam,
162 a empregam, a sofrem e a desafiam. A violência não é uma ação, uma emoção, um processo, uma resposta, um estado ou uma unidade. Pode manifestar-se como respostas, meios, ações e assim por diante, mas as tentativas de reduzir a violência a um núcleo ou conceito essencial são contraproducentes, porque eles essencializam uma dimensão da existência humana e resultam na apresentação das manifestações culturais da violência como se fossem naturais e universais. A violência não é redutível a algum princípio fundamental do comportamento humano, a uma estrutura básica e universal da sociedade, ou a processos cognitivos ou biológicos gerais. Não negamos que as pessoas construam com frequência essas explicações gerais da própria violência para se fornecerem de um quadro de referência para suas vidas problemáticas. Esses quadros culturais de compreensão são um objeto legítimo de estudo etnográfico [...], mas esses modelos locais não devem ser confundidos com explicações teóricas ou universais da violência. Queremos manter as abordagens essencialistas equivocadas à margem, permanecendo mais perto da experiência da violência e focando nas suas manifestações empíricas.168(NORDSTROM; ROBBEN, 1995, p. 5).
Compartilho com eles o interesse em elucidar a experiência da violência além da abordagem de uma referência conceitual sobre a violência que a coloque dentro de um quadro de significados único. De fato, em uma mesma comunidade, as pessoas percebem o ato violento de maneiras muito diferentes e é em torno dessa multiplicidade de significados que a teia complexa da vida social se tece. Assim, no contexto da experiência da violência, situam-se as expressões culturais que, embora não necessariamente dela surgem, coexistem e se transformam com ela. A historiadora Arlette Farge(2015), retomando o trabalho de Michel Foucault, fala em concordância com isso: “A violência está, portanto, presente assim como o afrontamento e é deles que nascerão valores, liberdades, a capacidade de substituir as regras precedentes por outras regras. Cabe aos sujeitos, a partir de então, demarcar os sistemas de violência que os constrangem, para poder se subtrair a eles, desfazer-se deles ou estabelecer outros modos de regulação” (FARGE, 2015, p. 34). A partir desse entendimento, o convite que faz Farge ao historiador, é o de entender os mecanismos racionais da violência, surgidos em cada momento histórico particular.
É preciso então compreender as formas de racionalidade que fazem jorrar a violência. Um espaço complexo se abre onde o historiador, cujo procedimento é de revelar os mecanismos racionais que conduzem à violência, mostra eventualmente que, se esses mecanismos existem, outros podem existir, contrários, diferentes, se abrindo a novas possibilidades. Violência, barbárie e crueldade são organizações de poder que se inscrevem em enunciações políticas: nada é fatal nem mesmo obrigatório em sua aparição, uma vez que todo mecanismo é um jogo que se desmonta, e por vezes mesmo se abole, num outro jogo. (FARGE, 2015, p. 39)
No pano geral dos Montes de María, as recuperações de terra causaram a reação dos latifundiários e elites regionais, por meio do financiamento de exércitos privados que, na década de noventa, tornaram-se membros de vários grupos paramilitares. A presença de grupos
163 guerrilheiros na década de oitenta na região tornou-se a desculpa para o ataque paramilitar posterior contra as comunidades rurais, que foram criminalizadas como supostos colaboradores dos guerrilheiros.
Esta tensão é manifestada pelos gaiteros e pelo apontamento da sua prática musical, A música “¿por qué nos llaman así?” de Gerson Vanegas(2017), morador de Ovejas, Sure, mostra o descontento pela referência violenta que justificou a repressão e os impactos que esta teve na prática cultural dos campesinos-gaiteros.
Não sei se isso é pecado ser filho desta terra,
mas todos vivem apontando para aquele que diz ser de a Ovejas,
nos difamam, apelidam e nos chamam de guerrilheiros, e não importa o quanto você rejeite a mentira,
para eles somos nós violentos. Não senhor, esse não é o caso, [...]
porque o Ovejero é são desde o nascimento e se dizem que carrega um rifle,
com certeza é uma gaita com cinco buracos.169 (VANEGAS, 2017)
As únicas armas na sua luta, segundo Vanegas, seriam as gaitas, e o sistema cultural ao redor delas. Ele manifesta como, a partir de meados dos anos oitenta, prevaleceu a imagem de Montes de Maria como uma área violenta (OJEDA et al., 2015). O discurso oficial representou os camponeses como potenciais guerrilheiros, e, enquanto inimigos do desenvolvimento, uma ameaça para a segurança nacional.
Devido à repressão e a risco com o qual conviviam os camponeses, os espaços rurais se configuraram como geografias do medo. Se anteriormente as limitações no espaço cultivado, baixo a permissão dos latifundiários, não representavam por meio das velações uma limitação ao trânsito entre os diferentes espaços, a configuração desses espaços de terror começou a limitar as possibilidades de circulação desses sujeitos no território. Com isso, se procurou o ingresso de empresas e indústrias que não requeressem a mão de obra camponesa na sua produção.
Isto significou uma transformação no modelo produtivo regional, que transitou de um território com vocação primordialmente agrícola a um distrito minero-energético. Como aponta Daniels Puello(2016):
No caso de Montes de María, deve-se notar que o boom na mineração coincide com o processo de recuperação do território pelas forças públicas no âmbito da política de segurança e consolidação territorial. [...] Nessa perspectiva, vemos como a metamorfose na qual está imerso território introduz uma série de práticas de negócios de caráter não-rural de mineração e monoculturas, cuja maioria dos efeitos visíveis se manifestam de várias maneiras, tais como uma
164 mudança substancial na relações sociais e culturais construídas ao longo do tempo170. (DANIELS PUELLO, 2016, p. 62,66)
As formas de limitação do acesso à terra e o deterioro dos modos de sustento das populações locais de Montes de María mostram as estratégias de despojo cotidiano na região, enquanto estas afetam diretamente as formas como seus habitantes se relacionam entre si e com o espaço que habitam (OJEDA et al., 2015).
A produção de tabaco declinou de forma drástica na década de 90 e 80 por conta do panorama de despojo de terras e transformação do modelo produtivo, e paulatinamente as empresas comercializadoras de tabaco foram abandonando a região. Em 2006, por ocasião da saída da última das empresas comercializadoras, o jornal El Tiempo ressumia a situação da seguinte maneira:
El Carmen era um dos centros de tabaco mais importantes da costa caribenha. Pode-se dizer que todas as pessoas viveram, nos últimos 130 anos, a semeadura deste produto. Hoje, poucos camponeses estão semeando e a última das três maiores empresas de tabaco, La Tairona, fechou as portas em janeiro passado e deixou cerca de 2.000 carmeros desempregados. A guerra em seus caminhos, as campanhas contra o uso de tabaco na Europa e os ataques dos grupos violentos contra as grandes empresas de tabaco são consideradas as causas da ruína. [...] Nos campos, poucos arriscam semear. “Além disso, os homens armados que andam nos campos não nos permitem cultivar bem. Vamos de manhã e à tarde voltamos a dormir à zona urbana para que não nos prejudiquem, e por isso não podemos cuidar da lavoura”, reclama Martha Cecília, uma camponesa magricela.171(ACIERI, 2006)
Esta situação impossibilitava tanto o cultivo quanto as práticas culturais associadas a ele. Os campos ficaram vedados para o trânsito noturno e as velações se tornaram impossíveis de realizar. Nesse contexto, a preocupação pela prática musical fez com que se procurassem estratégias de “preservação” da música.