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5 COTIDIANO E JORNALISMO: (DES)ENCANTOS E

5.3 Imagens do jornalismo e a luta pela sobrevivência

5.3.2 A greve de 1992: O dia em que a terra parou

A expressão “O dia em que a Terra parou” não se trata de um pretenso juízo de valor da nossa parte, mas sim de uma chamada para significar o que aquele acontecimento passou a representar para os jornalistas, visto que a paralização de 1992 se constituiu num marco

229 RETRANCA, ano III, n. 9, Teresina, 1º a 10 de junho, 1989, p. 2.

230 Cf.: LIMA, Antônia Jesuíta de. As multifaces da pobreza: formas de vida e representações simbólicas dos

pobres urbanos. Teresina: Halley, 2003. p. 39-91.

231 Roberto John costumava citar Abramo por este reconhecer um ponto comum entre o marceneiro e o jornalista:

histórico para aqueles piauienses. Esta importância justifica-se, tendo em vista que os cinco principais Diários da capital tiveram suas atividades paralisadas durante quinze dias do mês de fevereiro do referido ano.

Entender a greve de 1992 torna-se um desafio a nossa narrativa, uma vez que a força da interpretação a ser dada tem como foco apreender os sentidos advindos daquele grupo de atores, e não inicialmente aquela da nossa parte. Castoriadis insiste em nos levar a compreender os atores sociais como aqueles capazes de agir e criar a partir de suas próprias representações sociais e instituições, constituindo-se então um imaginário impregnado de peculiaridades, singularidades e de pertencimento ao grupo.232

Este tipo de empreitada histórica nos foi possibilitada em grande parte pelas consultas às publicações do Jornal Retranca e das Atas de reuniões do Sindicato dos Jornalistas do Piauí – SINDJOR-PI. Outras fontes se inserem como auxiliares na tentativa de articulação de uma configuração social dotada de diversas constelações de significados. Os vários sentidos históricos possíveis vão se revelando à medida que seus atores vão se apropriando dos discursos, que, uma vez apropriados e ressignificados, têm como resultante as saídas e caminhos viáveis, com os ônus e os bônus daquelas escolhas (Figura 7).

Figura 7 - Greve de 1992

Fonte: Retranca, Teresina, quinta-feira, 20 fev. 1992, p. 6-7.

Algumas questões e respostas alcançadas até então, para que certas regularidades discursivas sejam entendidas, foram surgindo, entre as quais: — Por que apenas a greve de 1992 fora retida na memória dos jornalistas? Por que a greve na TV Antena 10, ocorrida em 1989,

232 Cf.: CORNELIUS, Castoriadis. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p.

385-413; e SADER, Eder. Quando os novos sujeitos sociais entram em cena: experiência e luta dos trabalhadores da Grande São Paulo, 1970-1980. p. 25-57.

não ficou registrada na memória das gerações posteriores, ou seus contemporâneos? (Figura 8).233

Figura 8 - Greve na TV Antena 10

Fonte: Retranca, Teresina, 1-10 abr. 1992, p. 4.

Com a década de 1980 deflagra-se uma época em que se faz matriz das lutas, conquistas e constelações de significados a posteriori. Se houve avanços, estes se deram por desdobramentos e ocupações de todas as frentes possíveis de ações alcançáveis.

A nossa compreensão tenta evitar a todo custo a busca de um status fundacional da História como o mito da origem. Se as escolhas feitas por aqueles atores sociais que trouxeram para si a luta por transformações e mudanças, isso não implica a existência da imprevisibilidade da História. Esta não pode se ancorar no princípio do previsível e da inevitabilidade. As incertezas fazem parte da sua natureza, somando-se a esta homens e mulheres que a fazem cotidianamente e aqueles que a constroem como disciplina do conhecimento.

Com a greve de 1992, os jornalistas conseguiram piso salarial e data-base com um movimento paredista que atingiu quase cem por cento da categoria até mesmo diretores e demais ocupantes de funções gratificadas participaram do movimento. Além de retomar a discussão da data-base que se encontrava em devoluto há dois anos, eles obtiveram, também, o piso salarial de Cr$ 270 mil. Estes valores passavam a ser corrigidos pela política salarial do governo, com antecipações bimestrais corrigidos pelo NPC/IBGE.

233 Cf.: POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudo históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-

220, 1992; e NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, Revista do

Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Depto. de História da PUC- SP, São Paulo, 1985. p. 7-

O Jornal Retranca fez questão de anunciar que o acordo havia sido assinado com O

Dia, O Estado, Diário do Povo e Jornal da Manhã. Antecipando a referência aos Diários

citados, o periódico faz questão de enunciar o vocábulo empresa. Então, a palavra empresa passa a se constituir elemento regular dos enunciados discursivos para o grupo de atores do Jornalismo da cidade.

O confronto entre discursos da antiga e da nova geração se dava em razão do incômodo que a expressão empresa jornalística causava. O Jornalismo local – por abrigar em seu berço literatos, a crônica como arte, principalmente entre a antiga geração, e pouco menos entre os novos jornalistas – não assimilava facilmente a ideia da redação do jornal como departamento serial da produção de notícias. Esta cada vez mais associada ao mercado, como mecanismo de azeitamento da circulação dos bens de consumo.

As cidades medievais e modernas e seus vínculos umbilicais ao mercado mostraram historicamente seus (des)caminhos nas sociedades capitalistas. Desde estas primeiras experiências citadinas da modernidade, vêm à tona os dilemas mercantis e seus [dis]sabores, como bem analisa Jacques Le Goff em Por amor às Cidades.234

A nova geração põe termo a uma “crise de identidade”, no entanto, o mercado não cedeu à sua fome voraz do lucro e da acumulação. De crise em crise, o capitalismo deixa de saia justa aqueles que um dia com ele se contemporizaram: o mal-estar volta sem pedir licença a uma geração que um dia resolveu ousar.

Zózimo Tavares, Kenard Kruel e Roberto John representam, entre os novos atores jornalistas, aqueles que indubitavelmente foram atingidos por este mal-estar dos tempos modernos do capitalismo. Suas lideranças se firmaram por representar atores que mediaram essa transição. Se estão tão abertos aos novos tempos, suas identidades não se incompatibilizam em conviver mediando com atores como José Vieira Chaves, A. Tito Filho, e Carlos Said. Este era um ícone na invenção e reinvenção da cidade de Teresina, no que concerne aos desportos, com destaque para a legitimação da construção do Albertão como locus discursivo da Teresina moderna, bem como das justificativas das intervenções urbanas na cidade progressista.

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