3 A ATUAÇÃO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO PIAUÍ –
3.5 Tentando romper amarras: uma saída chamada alternativa
Embora cada vez mais o sindicato se distanciasse dos dias em que foi uma Associação de Jornalistas, antes mesmo do primeiro quinquênio da década de 1980, jornalistas se movimentam em busca de alternativas. Arimathéa Moreira, ao revisitar suas memórias sobre a
Imprensa Alternativa em Teresina, registra o que algumas fontes insistem em negar, que
Teresina não conheceu a perseguição jornalística através da censura pós-golpe militar de 1964. Uma leitura a contrapelo é possível registrar o contrário. Moreira, em artigo escrito para o
Retranca, nos demonstra, como sobrevivente àquela época de repressão, que a própria
existência da “imprensa alternativa” é fato que comprova a existência de um monitoramento muito forte na imprensa oficial.
Assim, se o profissionalismo disciplinado na CLT se firmava como imagem de respeito do regime aos direitos trabalhistas dos jornalistas, no entanto, o desrespeito se fechava nas circunscrições de outras leis que exerciam poder de pressão sobre o jornalista.85
83 MEDEIROS, A. J., op. cit., 13 fev. 1995, p. 9.
84 OLIVEIRA, Marylu. Contra a foice e o martelo: considerações sobre o discurso anticomunista piauiense no
período de 1959-1969 – uma análise a partir do jornal O Dia. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 2007. p. 53-54.
85 Este momento da profissionalização do jornalista é marcado pela publicação em 1969 da definição do
profissional de Jornalismo pela Lei 972/69. Esta de inspiração autoritária, junto à Lei de Imprensa de 1967, cria obstáculos à livre expressão do jornalista profissional. São claras as posições contrárias à subversão política. A lei de imprensa representa em parte o que os militares previam na Doutrina de Segurança Nacional. Portanto, as
Desse modo, em reação a essa situação de cerco à liberdade de imprensa, no final da década de 1960, surgem os primeiros passos alternativos que resistiram com criatividade à repressão do regime militar vigente à época.
Um grupo liderado por Edmar Oliveira — Durvalino Filho e Paulo José Cunha — começou a publicar no semanário Opinião. Este jornal era de propriedade do professor José Camillo da Silveira Filho. Consta que a gráfica deste jornal foi vendida ao jornalista e escritor Herculano de Moraes. Para o jornalista Moreira, esta aquisição remete ao primeiro jornal realmente alternativo a circular em Teresina, com o título de Tribuna Democrática. Participaram do jornal João Moura e B. Sá. Entre estes Jari Mosil, pseudônimo de Arimathéa Moreira.
O jornal “O Estado”, órgão de imprensa oficial, onde funcionava plenamente o release oficial, arriscou dar espaço a alguns jornalistas com uma página de feitio alternativo. Moreira afirma que a página durou muito pouco. Helder Feitosa, proprietário deste diário de notícias, costumava chamar estes jornalistas de “os meninos universitários”, por causa da rebeldia que caracterizava o grupo. Realmente, tentativas como estas ocorreram, mas não dava para a Direção do jornal sustentar. Não só havia um censor militar dentro dos jornais, mas também a autocensura. O jornalista Pires de Saboia em um de seus depoimentos deixa clara a existência desta prática no jornalismo local.86
Há uma brecha histórica que extravasa os limites do discurso modernizador em curso. Mesmo o jornal O Dia, numa coluna que pouco durou, muito provavelmente pelos mesmos motivos de O Estado, na coluna de Humor Folha da mãe Ana,87 publica uma charge, que, como afirmado, ocupa lugar de diagramação pouco comum, de dimensões gráficas de pequenas proporções. Mas como já se foi dito, momentos de comoção social abrem brechas históricas que apontam visões de críticas ao processo modernizador em curso na cidade. Nesse aspecto é a arte usando de suas táticas que resolve ocupar o papel de desconstrutora da ordem estabelecida.
Embora se tenha centrado preocupação nas tensões geradas entre jornalistas profissionais desejosos de mais espaços para a realização do seu ofício, esta pesquisa não fecha os olhos à imprensa alternativa, visto que esta é denunciante. Acredita-se que o tecido da
reuniões das Assembleias dos jornalistas no SINDJOR-PI são marcadas por um clima de formalidade que se discutirá em seção específica desta tese. Cons.: O papel da Associação Brasileira de Imprensa. In: ALVES, Maria Helena M. Estado e oposição no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985. p. 208-218.
86 Pires de Saboia. Cadernos de Comunicação do Piauí. Revista do Sindicato dos Jornalistas do Piauí. Teresina,
p.14, mar./abr. 20015.
87 Coluna “Folha da Mãe Ana”, encarte especial pelo aniversário da cidade, Jornal O Dia, Teresina, 18 ago. 1974,
liberdade de expressão se encontrava claramente cingido pelas manchas escuras da repressão e do autoritarismo. O registro da existência da Imprensa alternativa dá o contraponto ao que seja hegemonicamente oficial. Há uma oficialidade repressora, sim. Por isso mesmo Kucinsk define imprensa alternativa no Brasil como algo que nasce em oposição ao Regime Militar pós-64.
Após a curta existência do Tribuna Democrática, surge Estado Interessante, no ano de 1972. Chama a atenção o fato de seu editor Alberoni Lemos Filho transitar também pelo Sindicato dos Jornalistas. Mais uma vez surgem aqueles que compunham as fileiras da imprensa alternativa e ligados a este alternativo: Edmar Oliveira, Durvalino Filho, Paulo José Cunha, Marcos Igreja, Luiz Cláudio Pitta, este escrevia sobre discos.88
Ainda entre as lembranças de Moreira, sobre a imprensa alternativa, não há margem de dúvida sobre o cerco censurador à imprensa local e aos jornalistas profissionais. Embora o SINDJOR-PI tenha sido considerado espaço pouco aberto a questionar o processo modernizador em curso em Teresina, os jornalistas mais inconformados com a situação buscaram alternativas. Mais que isso, sofreram provável ou seguramente perseguições de difícil registro em razão de olhares monitoradores dos órgãos de polícia, formas de disciplinamento e as astúcias do governo que dispunha de chamarizes para aqueles que, por uma questão de sobrevivência, dependiam do seu ofício e do seu salário. Esses jornalistas iam engrossar as fileiras daqueles em favor do projeto de modernização da cidade de Teresina. A situação não parecia ser fácil: “‘O Estado Interessante’ resistiu a mais braba das censuras, da ditadura e do próprio jornal-mãe, no caso ‘O Estado’, do Saudoso Helder Feitosa”.89
No que diz respeito à convivência entre jornalistas, como em qualquer grupo em que o terreno das formações intelectual e ideológica nem sempre se revelam homogêneas, veem-se os grupos que mais frequentavam o espaço do SINDJOR-PI, outros, convivas de territórios alternativos como daqueles que se acabou de analisar. Imagine-se o quanto muitos rachas não tenham acontecido. O ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, José Lopes dos Santos, na semana em que formava sua equipe de assessores de imprensa para a Secretaria de Comunicação do Governo Bona Medeiros, ao anunciar o jornalista Feitosa Costa como membro da equipe em formação, o escolhido é anunciado como parte de um grupo de amigos com afinidades profissionais.
É muito interessante perceber como os participantes da Folha de Cultura do Jornal da
Manhã, neste caso comandada por Kenard Kruel, traziam com frequência aqueles
88 MOREIRA, Arimatéa. Imprensa Alternativa. Teresina, Retranca, abr. 1992, p. 7. 89 MOREIRA, A., op. cit., abr. 1992, p. 7.
companheiros de luta no SINDJOR-PI. A pesquisa revela assim a formação de companheiros por afinidade, que só uma nova pesquisa revelaria melhor os perfis intelectuais e ideológicos daqueles agentes da notícia.
Mas a convivência nem sempre se revela duradoura ou pacífica, principalmente em se tratando da imprensa alternativa. Moreira revela a constatação desta assertiva ao se referir à debandada, às vezes rachas intragrupos. Em suas argumentações sobre os integrantes do alternativo Estado Interessante, afirma que o clima por vezes esquentava:
Na realidade tudo ia bem, até que houve um “racha” na equipe, e o Edmar Oliveira saiu do esquema, levando o Durvalino, o Pêjota Cunha, o Arnaldo Albuquerque, até mesmo o Torquato Neto, que já começava a aparecer nas páginas do Interessante.90
Este clima de disputa muitas vezes resultava na criação de novos grupos.
Com o apoio do pessoal do jornal “A hora”, que tinha como Slogan “um jornal feito de jornalistas” e como principal articulador o célebre Miguel Cavalcante, ou “Miguel Bracim”, os remanescentes do “O Estado Interessante”, fundaram “A Hora Fatal”, que infelizmente, não passou de quatro edições.91
Este universo de divisões internas, de diferentes espaços aos quais frequentavam, e a busca de outras alternativas que quebrassem as barreiras impostas pela censura, ou pelos possíveis privilégios alçados àqueles que tomavam posições de governo vêm revelar a complexa teia dos atores analisados. Nesta rede de conflitos, ganham monta muitas vezes ressentimentos, disputas, acertos de contas.92 A. Tito Filho, durante a década de 1980, resiste em não renovar a sua carteira profissional de jornalista.93
A finalidade desta seção de capítulo foi justamente mostrar que a militância jornalística não é restrita à década de 1980; mesmo em pleno regime militar, a classe se mobiliza, inclusive fora do espaço do SINDJOR-PI. Continua-se a defender a tese de que este Sindicato, na década de 1980, que começava a lutar contra os reveses da força repressora do Estado autoritário, verá outras pedras no caminho.
90 MOREIRA, A., op. cit., abr. 1992, p. 7. 91 Id. Ibid.
92 A. Tito Filho. Entrevista concedida a Pompílio Santos. Teresina, Retranca, 28 a 30 abr. 1988, p. 6. O jornalista
Pompílio Santos cobra de Arimathéa Tito Filho explicações sobre possíveis perseguições políticas à sua pessoa pelo decano do Jornalismo teresinense.
93 Pela Lei 972/69, o jornalista provisionado é aquele que não dispunha de diploma de jornalista, e que deveria
renovar de dois em dois anos a sua provisão para o exercício legal da profissão. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/deI0972.htm>. Casa Civil, Presidência da República.
A década de 1980 surge assim como uma encruzilhada de difícil condução da categoria. Os novos atores sociais passavam a ocupar a cena. Se, de um lado, almejavam sacudir a poeira e dar a volta por cima, através das lutas políticas e sociais que marcaram a década de 1980, por outro lado, outros fatores freiam de chofre estas ações, ou concorreram para inibir tal sonho. A categoria ainda não dominava a arte de viver em meio a um novo tipo de imprensa, um novo tipo de jornal, como já se afirmou, o jornal modernizado, de feitio empresarial, com jornalistas assalariados e com jornada de trabalho excessiva. A reclamação é geral em relação ao patronato, explorador da força de trabalho do jornalista, e a empresa que não dava condições de trabalho para o desempenho da função de jornalista nos moldes a preservar a sua integridade profissional e de trabalhador.
As amarras ao exercício da livre imprensa são denunciadas como reflexo da força imperiosa do capital, visto que a força trabalho se via submetida. Não seria arriscado afirmar que setenta por cento das matérias veiculadas pelo órgão de comunicação oficial da categoria tenham como alvo denunciar estes novos desafios.
Tudo isso vem contribuir para que a década de 1980 tenha iniciado, por meio de seus atores, como o momento propício para reverter esta situação de desníveis de poderes, e de se conquistar uma nova identidade para a categoria dos jornalistas profissionais do Piauí.
3.6 A formação na redação e no exercício da profissão – perfil das redações, continuidades