PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
CAPÍTULO 2 – A LEITURA E O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM
2.1. A habilidade da leitura e sua importância
“A leitura é um conjunto de habilidades linguísticas e psicológicas, que se estende desde a habilidade de decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender textos escritos. Essas categorias não se opõem, complementam-se; a leitura é um processo de relacionar símbolos escritos a unidades de som e é também o processo de construir uma interpretação de textos escritos.”
Soares (2014, p. 68 e 69)
A leitura é ação de ler algo por meio da associação de letras e símbolos com o objetivo de, primeiramente, decodificar a informação que ali está escrita em uma sequência lógica de seu conteúdo. Ou seja, é um exercício que proporciona uma espécie de "colheita" do agrupamento das informações que ali estão inseridas. Segundo Faria e Pericão (2008, p. 182), a “competência de leitura é a aptidão reconhecida a alguém para realizar o ato de ler”. Durante muito tempo a leitura foi considerada, apenas, como uma forma de receber uma determinada mensagem. Atualmente, pesquisas na área, têm provado que a leitura é mais que isso. É um processo que exercita a nossa mente em diversas competências contribuindo com o desenvolvimento do próprio intelecto. Sendo assim, sua prática, durante a infância, desperta a criatividade e as competências linguísticas, de memória, conhecimento e comunicação das crianças com tudo a sua volta. Esse hábito também aumenta a capacidade de concentração e atenção do aluno. Além disso, o contacto com os livros é um estímulo para a imaginação e curiosidade com o mundo.
Ninguém começa a ler a palavra sem antes ler o mundo, pois essa é a primeira leitura que se apresenta para cada indivíduo. A criança leva as suas experiências para dentro da escola e o gosto pela leitura é despertado quando consegue fazer uma associação do conteúdo ensinado com os seus interesses e necessidades.Na perspetiva deCagliari (1998, p. 89), o processo de alfabetização
“inclui muitos fatores, e quanto mais ciente estiver o professor de como se dá o processo de aquisição de conhecimento, de como uma criança se situa em termos de desenvolvimento emocional, de como vem evoluindo a sua interação social, da natureza da realidade linguística envolvida no momento em que está acontecendo a alfabetização, mais condições terá o professor de encaminhar de forma produtiva o processo de aprendizagem.”
Sabendo que a criança assimila mais pelo que vê do que pelo que ouve, convém que o educador não se esqueça de usar recursos visuais durante a atividade letiva. Da mesma forma, quando a criança tem uma figura de influência, no seio familiar ou na escola, que
demonstra o prazer pela leitura (a criança vê essa pessoa constantemente a ler livros, ouve as suas leituras agradáveis, revela gostar do que ouve), pode-se dizer que a primeira etapa do processo para ser leitor está iniciada.
Ler histórias, interpretá-las, dramatizá-las, simular vozes dos personagens, perguntar o que foi compreendido, questionar o que mais gostou, dar espaço para a criança fazer perguntas, opinar e argumentar auxiliam-na a associar essa tarefa com afetividade e diversão. Através de uma prática consciente, o docente poderá estar a transformar o mundo de uma criança, tal como afirmaPaulo Freire (1981, p.13)
“de alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de “escrevê- lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.”
Em nossa sociedade a leitura representa um papel imprescindível, considerando que ela está presente por toda a parte, seja por meio de palavras escritas, ou não. A leitura é frequentemente associada com a escrita, sendo o leitor o decodificador das suas letras por meio de sílabas, sinais e pontuações.
Contudo, parando para pensar nas situações que ocorrem no dia-a-dia percebe-se que existem outras formas de leitura, as quais todos estão expostos constantemente, por exemplo, quando se faz a interpretação do olhar de alguém ou de uma conversa; quando se faz a “leitura do tempo”; quando o condutor lê os sinais de trânsito e os piões, as placas das ruas… tudo isso leva a assumir a leitura como sendo mais do que uma decodificação de palavras escritas.
Em outras palavras, antes mesmo da palavra escrita, cada um tem acesso a interpretação da leitura conforme a realidade a qual está exposto. Com isso, a escola tem um bom “material de trabalho” e uma excelente oportunidade de integrar a criança no ambiente social por meio da leitura.Assim, Lajolo (1996, p. 28) defende que:
“aqueles que formam leitores (…) desempenham um papel político que poderá estar ou não comprometido com a transformação social, conforme estejam ou não conscientes da força de reprodução e, ao mesmo tempo, do espaço de contradição presentes nas condições sociais da leitura, e tenham ou não assumido a luta contra aquela e a ocupação deste como possibilidade de conscientização e questionamento da realidade em que o leitor se insere.”
Tendo em conta que o ser humano traz em si o desejo e a necessidade natural de se comunicar com o meio ao qual está inserido, e que a capacidade de comunicação é oriunda
da espécie humana, tendo a leitura como parte do desenvolvimento de uma técnica que está atribuída a essa aptidão, há que aproveitar esta base como rampa de lançamento para o desenvolvimento do gosto pelo ler, pelo ouvir ler.
Como já referido, diariamente “chovem” informações que os cérebros captam, muitas vezes, de forma inconsciente e sem esforço premeditado. A esta constante captação de informação escrita, há quem chame de "ato de ler", porém nem todo o "ato de ler" significa compreender e compreender o que se está a ler ou o que se está a ouvir ler é fundamental para dar sentido à leitura. No entender de Solé (1998)
“aprender a ler não é muito diferente de aprender outros procedimentos ou conceitos. Exige que a criança possa dar sentido àquilo que se pede que ela faça, que disponha de instrumentos cognitivos para fazê-lo e que tenha ao seu alcance a ajuda de seu professor, que pode transformar em um desafio apaixonante o que para muitos é um caminho muito duro e cheio de obstáculos” (cit. por Carrenho et al. 2013, p.3).
Como processo de aprendizado, a leitura na vida das crianças precisa ser ensinada e trabalhada de forma explícita, continuada e inclusiva, pois a mesma possui a qualidade benéfica para todos que dela usufruem. Seja alguém que se encontra no início do seu desenvolvimento de leitura, seja uma alguém portadora de necessidades especiais ou dificuldades de aprendizagem, faz-se necessário a figura presente da escola e do professor na vida desses alunos.
É importante ressaltar que, por ter uma conexão direta com as vivências, estímulos e aprendizados de cada um, a leitura é sempre dinâmica e ininterrupta, pois enquanto lê/ouve ler, o leitor/ouvinte evolui, desenvolve novos significados, novas expressões e novas interpretações.
Assim, pode-se manter ou alterar, e, até mesmo, corrigir interpretações anteriores, com base nas hipóteses e aprendizados do tempo presente. Com isso, pode-se afirmar que o leitor é o agente ativo na construção de novos significados do texto, por meio do seu contato e envolvimento com a linguagem escrita desse e de outros anteriormente lidos e interpretados.
Por todos os aspetos mencionados, conclui-se que a leitura não é simplesmente um procedimento de decifrar símbolos e grafias., mas sim, raciocinar, criticar e interpretar a mensagem passada.