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2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

2.5 A HETEROGENEIDADE DA LINGUAGEM – AUTHIER-REVUZ

Para a pesquisadora, que fundamenta seus estudos também na teoria da polifonia linguística de Bakhtin, a linguagem é constitutivamente heterogênea. Esse não é, entretanto, o único principio no qual fundamenta suas pesquisas sobre a linguagem. Authier-Revuz (2004), conforme afirma, fundamenta sua base teórica da heterogeneidade constitutiva do discurso no

princípio dialógico do círculo de Bakhtin e na psicanálise, na leitura de Freud, marcada por Lacan. Esses dois pontos de vista, conforme explica, constituem questionamentos radicais com bases diferentes, no que diz respeito à imagem de um locutor fonte consciente de um sentido que ele traduz nas palavras de uma língua.

Nesse aspecto, de acordo com os estudos de Authier-Revuz (2004), todo discurso se constrói no processo enunciativo a partir de outros discursos:

Todo discurso se mostra constitutivamente atravessado pelos ‘outros discursos’ e pelo ‘discurso do Outro’. O outro não é um objeto (exterior, do qual se fala), mas uma condição (constitutiva, para que se fala) do discurso de um sujeito falante que não é fonte-primeira desse discurso. (2004, p.69)

A constituição de um discurso é dependente do outro, não (só) no sentido de que é necessária uma figura que represente esse outro, mas no sentido de que as relações que se constroem na e pela linguagem é que darão sustentação à língua e garantirão que o discurso faça sentido, uma vez que reproduzem outros discursos, posição alicerçada nas teorias bakthinianas nas quais a autora se fundamenta. Todo discurso, assim, traz marcas de outros tantos discursos já proferidos. Authier-Revuz (2004, p.35) em uma passagem em que retoma Bakhtin (1963), destaca que “somente o Adão mítico, abordando com sua palavra um mundo ainda não questionado poderia ter escapado à orientação dialógica inevitável com o já-dito da palavra do outro”.

Todo discurso, assim, constitui-se na interação por meio da interdiscursividade e da interlocução, inscrevendo constitutivamente a presença das palavras dos outros. A atividade de linguagem é demarcada pela presença de outro(s) no processo enunciativo, visto que o sujeito que enuncia ajusta seu dizer ao outro e o faz por meio de discursos já situados e constituídos histórico-socialmente. Essa é a condição, a língua, conforme Authier-Revuz (2004, p.68), “só se realiza atravessada pelas variedades de discursos que se relativizam umas às outras em um jogo inevitável de fronteiras e interferências”. No que se refere às palavras que constituem o discurso, conforme explica a autora, elas trazem sentidos já construídos em um processo dialógico, não são neutras, seu sentido foi construído por um encaminhamento dialógico por meio de outros discursos. Assim, as palavras remetem a outros contextos aos quais foram subjugadas e adquiriram sentidos diversos numa relação dialógica pelo entrecruzamento de discursos, não em torno de um núcleo de sentido comum, mas na “pluriacentuação” da palavra.

Um outro aspecto de que trata Authier-Revuz (2004), é a psicanálise que, conforme a autora, constitui o sujeito falante como um material e não um objeto próprio. Para ela, embora o sujeito acredite ser fonte e origem de seu discurso, o sujeito não diz, ele é dito pela linguagem, é efeito de linguagem. A pesquisadora explica que efeito de linguagem se relaciona as duas “proposições lacanianas”: “o inconsciente é o discurso do outro” e “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Esse outro seria o lugar estranho, origem de todo discurso, lugar da família, das posições sociais, da lei, etc. Acrescenta, ainda, conforme citação de Clément (1975b, p.53) que retoma uma passagem de Lacan, Ecripts (p.704), em que o sujeito “é essencialmente representação, [...] dependendo das formas de linguagem que ele enuncia e que na verdade o enuncia [...] o sujeito não é nada senão a ordem da linguagem na qual ele foi aculturado” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 65). Nessa perspectiva, o sujeito é sujeitado ao desejo do outro, posição que contraria a noção de um sujeito pleno, autônomo, que estaria na origem de seu dizer, uma vez que reflete em suas palavras concepções adquiridas nas relações sociais, o que contraria a ideia de autonomia.

A heterogeneidade discursiva se evidencia, conforme a pesquisadora, sob dois aspectos: constitutiva e mostrada. A heterogeneidade constitutiva é condição de todo discurso. A heterogeneidade mostrada não é independente, corresponde a uma forma de negociação, conforme destaca a pesquisadora, e articula-se com a constitutiva, podendo ser demarcada no fio discursivo por meio da interdiscursividade inerente a todo discurso e é detectável pela análise.

A identificação da heterogeneidade é possível por meio de marcas linguísticas explícitas, o que caracteriza a heterogeneidade mostrada marcada, como no caso do discurso relatado, em que o enunciador se utiliza de palavras de outrem, das quais se apropria e insere ao seu discurso, podendo ser pelo uso de aspas, itálico, glosas, entonações específicas ou pelo discurso indireto. Já a heterogeneidade mostrada não marcada se caracteriza pela ausência de marcas linguísticas visíveis nos enunciados, a alusão a uma outra fonte pode ser feita por meio da ironia, do pastiche, do jogo de palavras ou do discurso indireto livre. Nesse caso, a construção do sentido pretendido pelo enunciador não explicita as outras vozes constituintes de seu discurso. Essa estratégia é própria de uma “não coincidência do dizer consigo mesmo”, em que a construção do sentido pretendido não explicita a outra ou as outras vozes com que o discurso é constituído.

2.5.1 A autonímia simples e a conotação autonímica

A heterogeneidade constitutiva pode ser demarcada pela presença do outro no discurso, por meio de uma ruptura sintática em que o discurso reportado é inserido, é o caso do discurso direto, próprio da autonímia simples, conforme a autora. Quando a inserção de um outro discurso se caracteriza pela ausência de rupturas sintáticas é denominada de conotação autonímica. Por meio desse recurso, o locutor faz um comentário sobre determinado fragmento de seu discurso, como se ocupasse uma outra figura, a do observador das palavras utilizadas. Esse fragmento pode ser marcado por itálico, aspas ou por algum comentário.

As expressões de que se utiliza o enunciador para expressar seu comentário, conforme Authier-Revuz (2004), caracterizam marcas de uma atividade de regulagem do processo de comunicação e especificam as condições necessárias à troca verbal, aos olhos do locutor, à dada passagem do discurso. Para a autora (2004, p.14), “essas fórmulas constituem um metadiscurso ingênuo, comum, que especifica e explica o estatuto outro do elemento referido”. (Grifos da autora), ou seja, do ponto de vista do locutor, a explicação que acrescenta seria uma maneira de determinar um sentido único ao que expressa, prevenindo-se para evitar outras possibilidades de interpretação da parte de seu interlocutor.

Esse conjunto constitui, de acordo com a pesquisadora, uma forma de modalidade enunciativa, a que ela denomina modalidade autonímica. A duplicação do uso de um termo por um comentário reflexivo opacificante suspende no termo, naquela situação de uso, o caráter absoluto, inquestionado, evidente, vinculado ao uso-padrão das palavras. Para a autora (2004, p.82), “a modalização, confere a um elemento do dizer o estatuto de uma maneira de dizer, relativizada (mesmo que seja para valorizá-la), dentre outras”.

As formas pelas quais se realiza a representação metaenunciativa, que constitui um ponto do dizer, em maneira de dizer, são extremamente variadas, podendo ser formas sintagmáticas, sinais entonativos ou tipográficos, configurações discursivas, unívocas ou não, tanto no plano da reflexividade como no da opacificação.

Ao especificar inúmeras formas de reconhecimento de um outro, uma outra voz no fio discursivo, Authier-Revuz auxilia-nos, pois estudo que desenvolvemos em nossa pesquisa pressupõe entender a posição que ocupa cada enunciador na cadeia discursiva e as relações que são estabelecidas por meio da linguagem. Ao enunciar, todo indivíduo se estabelece como sujeito e ao assumir tal posição, concomitante institui também ao outro o mesmo status, uma vez que é a linguagem que permite ao homem construir-se como ser social. São os enunciados que permitem evidenciar a posição que ocupa o(s) outro(s), não só o que se faz

presente no momento da comunicação, mas o outro, representado por sua voz, suas ideias, suas ideologias.

A intencionalidade comunicativa determina, de certa forma, a organização textual. Acreditamos que são os objetivos a serem alcançados por todo e qualquer locutor que justificam as estratégias organizacionais de um texto. Visto nosso objeto de análise ser constituído de pequenos textos, elaborados com a finalidade de responder às questões dos autores dos livros didáticos em suas propostas de interpretação textual, compreendemos que há da parte deles uma expectativa de resposta condicionada ao assunto de que tratam, o que não descaracteriza os princípios que caracterizam a linguagem como heterogênea. Como há objetivos específicos a serem alcançados, uma vez que toda obra didática tem um fim específico, são propostas, portanto, atividades direcionadas, que delimitam a expressão do interlocutor, aluno, uma vez que a função social do trabalho autoriza essa prática.