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3 Perturbando a tranquilidade da normalidade: a estranheza da teoria queer

3.2 A heteronormatividade e a inteligibilidade sobre os corpos

Enquanto a heterossexualidade é concebida como uma orientação sexual, a heteronormatividade engloba as instituições, as estruturas de conhecimento e as práticas discursivas e sociais por meio das quais a heterossexualidade é tomada como normal e arquitetada como modelo a ser seguido, o que a confere privilégio em relação às demais formas de sexualidade (BERLANT; WARNER, 1998).

As discussões que serviram de base para o início da problematização da heteronormatividade podem ser encontradas na definição de heterossexualidade compulsória, por Adrienne Rich (1980); na demonstração da sobreposição entre questões de gênero e de sexualidade, e consequente evidenciação de como as relações de gênero estão heterossexualmente estruturadas, a partir das contribuições de Monique Wittig (1980); e na caracterização da matriz heterossexual, por Judith Butler (2017).

Dentro do modelo discursivo de inteligibilidade de gênero, os corpos são generificados e sexuados ao nascer, carregando expectativas de performance tanto de gênero quanto de orientação sexual. O homem necessita ser masculino e atraído por mulheres, enquanto a mulher precisa ser feminina e sexualmente interessada por homens (BUTLER, 2017; PHILLIPS, KNOWLES, 2012). Tal construção de pensamento decorre da heterossexualidade compulsória, que institui por meio de elementos simbólicos a predisposição natural dos corpos à orientação heterossexual.

No tocante à matriz aludida por Butler (2017), a autora expõe a existência de um ordenamento social e cultural que compele os sujeitos sociais a binários de gênero e de sexualidade, manifestamente distintos, os quais arquitetam identidade sexual e de gênero atreladas a desejo devidamente oposto e complementar.

A matriz heterossexual hierarquiza e fornece critérios para o reconhecimento e inteligibilidade cultural dos corpos, naturalizando gênero e desejo (BUTLER, 2017). A citada inteligibilidade é realizada por meio de semioses observáveis — sobre o modo como as pessoas se vestem, se comportam e se expressam, por exemplo —, atreladas a expectativas do que é ser mulher e do que é ser homem, forçando os sujeitos a buscar coerência e sentido nas construções binárias tanto físico quanto socialmente instituídas (BUTLER, 2017; TYLER, COHEN, 2010).

Por meio da referida matriz, os sujeitos sociais são induzidos a performar e corporificar signos admitidos como normais (BUTLER, 1993a; TYLER, COHEN, 2010). O sentido de normalidade, por sua vez, é atribuído às expressões inteligíveis a partir da matriz de poder, concebendo, dominando e selecionando os sujeitos viáveis a partir das normatizações sobre a sexualidade (HARDING et al., 2011).

A compulsoriedade heterossexual (RICH, 1980) e a matriz de inteligibilidade (BUTLER, 2017) alicerçam a heteronormatividade. A legitimação social da orientação heterossexual juntamente às demandas de performances de gênero a ela atreladas arquitetam uma rede normativa que regula e estabelece limites ao comportamento dos sujeitos (BUTLER, 1993), a qual denominamos de heteronormatividade.

Mediante a naturalização, normatização e institucionalização da heterossexualidade sobre os corpos sociais, criam-se limites à manifestação da sexualidade (OLIVEIRA, 2013), a fim de regular, vigiar e punir performances desviantes.

O sistema de reconhecimento heteronormativo institui modelo a ser seguido em nossa sociedade, por intermédio de institucionalização tanto de normas sociais, quanto políticas, jurídicas e econômicas (SOUZA; PEREIRA, 2013), as quais estabelecem a orientação heterossexual como exemplar normativo, enquanto exclui, marginaliza ou silencia homossexuais e bissexuais (OLIVEIRA, 2013). O padrão estabelecido passa a controlar os comportamentos a medida que corporifica e transforma em rotina as normas heteronormativas (HIGASHI, 2016).

A cultura heterossexual está presente nos mais variados arranjos da vida em sociedade. É uma produção difusa, constituída por signos que atribuem a partir de noção biológica modo natural de existência, e se contrapõe a identificações apontadas como não naturais (BERLANT; WARNER, 1998; HIGASHI, 2016). É possível observar ainda que a matriz heterossexual sustenta valores masculinos, por meio da hierarquização dos gêneros (TYLER; COHEN, 2010).

Nesta cultura, os indivíduos passam a se esforçar para ajustar sua performance a estereótipos legitimados socialmente. Os homossexuais, em especial, sofrem dupla normatização: por serem homossexuais (e não heterossexuais) e por terem que se resignar exclusivamente a padrão de comportamento masculino ou feminino, associadamente compatível a seu gênero (HIGASHI, 2016).

No campo da Administração não é diferente. A heteronormatividade pode ser observada nas estruturas e nos processos organizacionais, como também nas teorias que reproduzem relações e práticas de poder baseadas no gênero e na sexualidade (REED, 2007).

Não obstante, nas organizações, a heteronormatividade se institucionaliza e naturaliza de maneira sutil padronizando a vida daqueles que as constituem.

Harding et al. (2011) afirmam que as organizações costumam ser estruturas heterossexistas, as quais submetem os indivíduos que delas fazem parte a adaptar suas performances ao modelo de comportamento heteronormativo. São espaços que costumam gerar constrangimento, temor e sofrimento nos que possuem sexualidade desviante da norma hegemônica (HARDING et al., 2011).

Mesmo em organizações autodenominadas gay-friendly2, costumam-se exigir aos homossexuais comportamentos "discretos" (normalizados) nas relações de trabalho, associando a necessidade de adequação à cultura heteronormativa (SOUZA; PEREIRA, 2013; PRIOLA et al., 2014). Por meio deste exemplo, podemos notar a sutil incidência da heteronormatividade sobre a performance dos sujeitos no trabalho, além da disfarçada discriminação contra LGBTs neste ambiente.

Mediante a naturalização do padrão heterossexual, discursos normativos baseados em valores morais hegemônicos passam a exercer controle sobre as diferenças sexuais e silenciar performances destoantes da matriz de poder, restringindo a manifestação da sexualidade "desviante" (fora da matriz heterossexual) ao domínio da vida privada (PRIOLA et al., 2014). No Brasil, mesmo com a Lei nº 9.029/1995 — que proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho —, não há legislação federal específica contra a homofobia, e é ínfima a existência de políticas de equidade e de apoio sindical (HIGASHI, 2016). Essas e outras evidências ajudam a justificar a necessidade de se questionar as metanarrativas disseminadas pela heteronormatividade, a fim de possibilitar reconhecimento a outras formas de viver, sem negar as diferenças de orientação sexual, além de possibilitar espaço e dar voz àqueles que não se enquadram na matriz de poder.

A adaptação às normatizações de gênero e de sexualidade instituídas pela matriz heterossexual não se dá deliberada ou conscientemente, ela é fruto da repetição das normas que submetem, direcionam e coagem os indivíduos a se identificarem com a ordem simbólica para que possam ser reconhecidos e existir como sujeitos (SOUZA, 2017). O constante processo de repetição das normas dá origem ao que podemos chamar de performatividade.

2

Termo norte-americano, também usado no Brasil, utilizado para se referir a espaços, políticas ou organizações receptíveis para as pessoas LGBTI (LGBT, s.d.).