7. O curso de Administração a partir dos relatos discentes
7.3 Um novo ethos: o Ensino Superior
As Instituições de Ensino Superior (IES) podem ser compreendidas como um espaço social entrecortado por diferenças humanas (LOURO, 2012), entre elas as de orientação sexual. Ao longo do processo de socialização em que se busca um ofício profissional, os indivíduos são influenciados pelo saber e pelas práticas discursivas, os quais estão intrinsecamente ligados ao ambiente social do Ensino Superior.
Ao abordarem aspectos e impressões acerca deste ambiente, alguns dos entrevistados estabelecem comparações entre o ethos escolar e as IES, utilizando expressões como "mente mais aberta" para caracterizar a relação do contexto atual em que estudam com as diferenças de orientação sexual:
"Eu acho mais fácil no ambiente de faculdade porque todo mundo que está ali já sabe o que quer. Está estudando para o seu futuro, uma coisa que já é certa. Então, acho que na faculdade as pessoas já têm a mente mais aberta para lidar com outro tipo de pessoas. E escola não, a maioria são adolescentes que acham que o certo é só uma coisa só e só existe um padrão a ser vivido". (Miguel)
"A cabeça de uma pessoa adulta é totalmente diferente de uma pessoa que está na adolescência, então são mundos totalmente diferentes [o escolar e o Ensino Superior]. A gente percebe sim uma maior aceitação dos homossexuais, sendo que por vezes tem alguns comentários, como posso dizer, também negativos a respeito do homossexual". (Carlos)
"No ensino superior tem pessoas que são mais maduras, que lidam bem com essa questão da pessoa assumir ou não assumir a sua sexualidade. Eu não tenho, eu não sofro a mesma coisa que sofria no ambiente escolar durante o ensino médio e o ensino fundamental. [... Mas] no meu caso eu não falo a ninguém que eu sou bissexual, entendeu? Eu não tenho isso abertamente. Eu nunca fui, nem na minha família, nem no colégio, nas escolas que eu passei, nem aqui na faculdade eu falo sobre". (Marcelo)
"Na faculdade em si, algumas pessoas, não todas, mas acho que a grande maioria é mais mente aberta. Elas estão mais bem informadas, bem mais instruídas. [...] Então, até o momento eu não sofri nada nem vi nada, tipo, 'minha nossa!'". (Caio)
No entanto, ao longo das entrevistas pude constatar que o ideal da heterossexualidade compulsória ainda é bastante presente neste ambiente, o que faz com que algumas práticas que denotam preconceito, discriminação ou exclusão sejam naturalizadas, e fez com que alguns estudantes abordassem com maior polidez situações que pudessem denotar condutas socialmente não aceitas no ambiente educacional envolvendo as diferenças de orientação sexual.
Algumas das contradições que me possibilitam essa análise podem ser evidenciadas em falas de um mesmo entrevistado, como as do discente Caio, que falou "não sofri nada nem vi nada, tipo, 'minha nossa!'" e momentos depois relatou com pesar caso de associação feita por discentes na instituição entre o HIV (em português Vírus da Imunodeficiência Humana) e os gays:
"É porque na verdade esse menino lá da sala ele tinha sentado e ele tinha saído, aí o outro menino chegou atrasado e sentou no lugar dele. [E disseram] "não senta aí não, porque fulano sentou aí". Aí o outro soltou "vai que tu senta aí e depois pega AIDS". Aí foi uma coisinha mais pesada. [...] é, o fato de falar que [...] o HIV no caso começou por conta de gay, entendeu? E hoje, 2018, a maioria dos portadores e transmissores do vírus do HIV são héteros, homens, inclusive. E, para mim, essa é uma das maiores falta de informação que tem. Achar que entrou nesse contexto sexual, achar que é praticamente por osmose. Um lance de toque, passou. Entende? Eles falam muito isso". (Caio)
Ainda que se enxergue maior consciência do que é considerado errado e dos limites de comportamento na convivência adulta, de maneira mais velada e/ou eufemizada, exemplos de preconceito e de discriminação — como o relatado por Caio — podem ser percebidos em diversos momentos no cotidiano do curso. Os relatos descrevem situações em que se brinca ou se deslegitima aqueles que são diferentes e que não se enquadram ao padrão heteronormativo.
Apesar de parte dos entrevistados afirmar que não tem ou teve problemas de convívio, outros discentes identificam contradições no discurso de alguns atores deste contexto com relação ao que é dito e ao que efetivamente ocorre na prática social do dia a dia, como pode ser observado na fala de Rafael:
"Eu não tive problema ainda, eu só acho que tem, entre pessoas, assim, uma aceitação forçada, que, no caso, "tá eu aceito", mas é como você vivesse numa bolha. "Você vive no seu mundo e eu vivo no meu". [...] assim, quando você diz que aceita, você está conversando, você diz ser meu amigo e diz que aceita, mas coisas que você fala vão mostrando que realmente você não aceita, que você vai totalmente contra aquilo. Daí você entra numa
contradição, e você não sabe se realmente aquela pessoa aceita ou se está fazendo aquilo de fingimento, só porque está na sua frente". (Rafael)
As incoerências percebidas por Rafael são reforçadas por outros relatos que evidenciam a existência de brincadeiras pejorativas, olhares enviesados, atitudes segregadoras, etc. — os quais serão melhor explorados nas subseções 8.7 e 8.8.
"Querendo ou não o preconceito existe e é muito escondido em partes, normalmente as pessoas dizem que não têm, quando na verdade elas acham que não têm, mas sim, elas têm. [...] Querendo ou não o gay tem um destaque sempre maior, porque o gay é um [ser] aberto, aí muita gente já olha com outros olhos para a gente. Muita gente acha que é uma escolha, mas na verdade não é. É uma coisa que acontece naturalmente. Como eles têm a orientação deles eu tenho a minha. E realmente isso acontece, quando estou num grupo de amigos - na minha sala eu sou o único gay que tem lá - aí todo mundo já me conhece. Nunca falei com todo mundo da minha sala, mas todo mundo me conhece. Se eu fosse um hétero no meio deles eu acho que seria uma pessoa despercebida. Mas como sou gay, todos me conhecem por ser gay. Já teve comentários quanto a isso, eu procuro relevar". (Miguel) "Às vezes eu enxergo um incômodo, às vezes eu fico incomodado com alguns tipos de brincadeiras, não comigo, mas que tiram com outros colegas que são e, na maioria das vezes, levam isso como riso né, afinal, tudo que o povo fala, o povo acha que é piada. Ah, é só uma brincadeira. Só que toda brincadeira ela tem um fundo de verdade. Então, eu acho que isso incomoda um pouco, porque poderia ser comigo se eu fosse abertamente com todo mundo, entende? E eu não ia gostar do tipo de brincadeira que tem". (Rafael)
A observação de Miguel com relação a ser o único gay em sua sala de aula, reflete percepção de alguns alunos para o fato de que os LGBTs são minoria não só com relação às relações de poder, mas também minoria numérica em termos quantitativos de alunos nas salas de aula.
"Na minha sala, eu não sei se o senhor lembra, mas tinham uns 100 alunos [no começo do curso]. Eu não lembro muito, mas eu acho que só tinha eu de LGBT, não tinha mais nenhum outro, se tinham não falavam. [...] É muito pouco. Agora que a gente está na sala, a gente está com 3 turmas [unificadas], são 3 de ADM. Só tem 3 LGBT, 1 na minha sala e 2 na outra turma, o resto da sala não tem. E juntando as 3 ficam uns 45 alunos, por aí". (Júnior)
Compreender como os entrevistados enxergam o Ensino Superior foi um passo para chegar ao real lócus de pesquisa desta tese: o curso de Administração. Nas próximas subseções discorro sobre aspectos relacionados às performances, relações e impressões dos discentes no e sobre o curso.