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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO

1.2 A HIPÓTESE DE TRABALHO

Em teoria econômica, a evolução é um processo de transformação nas instituições que ordenam as relações sociais em diversos níveis da existência humana. Uma das abordagens deste tipo de fenômeno investiga o modo como as rotinas de trabalho das organizações mudam. Nessa perspectiva, intenta-se compreender as relações de causa e efeito subjacentes às mudanças e as trajetórias resultantes da atuação deste mecanismo sobre as instituições em questão. Ao se examinar as UPC com as ferramentas analíticas deste paradigma, percebe-se que as mudanças econômicas em curso nos seus sistemas produtivos possuem condicionantes intrínsecos e externos a este tipo de unidade produtiva, isso é, impostos pelo ambiente institucional e pela dinâmica do ecossistema.

Estas pressuposições geraram uma hipótese de trabalho sobre os modos como estes dois fatores interferem sobre as trajetórias evolutivas das UPC e como essa organização reage a tais injunções modificando os seus sistemas produtivos e adaptando-se às tensões

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exógenas. Entretanto, as UPC não são organizações homogêneas, mas bastante diversificadas em seus aspectos socioculturais e econômicos, de tal modo que das suas reações às tensões externas, surgem diversas trajetórias evolutivas em um mesmo território. Portanto, o primeiro elemento da hipótese é de que existe uma diversidade complexa de sistemas produtivos praticados pelas UPC do Território Manaus e Entorno, resultando em trajetórias únicas que, no entanto, possuem aspectos similares os quais permitem um nível mínimo de agrupamento.

As tensões exógenas que influenciam as mudanças adaptativas nos sistemas produtivos são provenientes do ambiente institucional e das dinâmicas dos ecossistemas. Em relação ao ambiente institucional, têm-se duas fontes de tensões: o mercado e as estruturas institucionais onde estão as organizações em cujo escopo as UPC ou a família camponesa possuem relevância. O mercado é uma instituição envolvente onde as relações de troca são intermediadas por uma cadeia de comerciantes e produtores e os preços oscilam em função dos movimentos da oferta e da demanda. Deste modo, o mercado exerce uma tensão, elevando os riscos e incertezas nas transações que as UPC realizam com a sua produção. Assim, os produtores camponeses criam estratégias reprodutivas para assegurar níveis satisfatórios de eficiência do trabalho familiar, construindo noções sobre o mercado, planejando o cronograma e a qualidade da sua produção, bem como desenvolvendo táticas de distribuição para auferir preços melhores.

Quanto às demais estruturas institucionais, existem dois grandes grupos de organizações e programas pertinentes: i) há aqueles cuja missão envolve o trabalho direto junto à UPC e à família camponesa, tais como a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), os agentes de crédito e os agentes dos mercados institucionais; e ii) existem os que impactam indiretamente os sistemas produtivos, tais como as agências governamentais de monitoramento ambiental, regularização fundiária e os benefícios sociais e previdenciários, cujo escopo extrapola a dimensão econômica dos sistemas produtivos camponeses – não obstante impactá-los. As influências provenientes deste ambiente institucional tornam-se complexas e nem sempre consoantes.

As situações descritas a seguir, exemplificam situações em a complexidade se torna evidente.

A ATER, os agentes de crédito e os agentes dos mercados institucionais intentam dinamizar a produção e fomentar mudanças que aumentem a produtividade, a qualidade da produção e incorporem novas tecnologias nos sistemas produtivos. Por sua vez, os programas de benefícios sociais e previdenciários objetivam assegurar direitos às famílias camponesas através das transferências de renda. Em princípio, parece não haver contradições, mas os

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impactos das ações institucionais revelam novos problemas. Neste caso específico, cresce a probabilidade de que os incrementos na renda decorrentes da percepção dos benefícios sociais desmobilizem as forças de trabalho familiares que estariam envolvidas nas atividades econômicas planejadas para o desenvolvimento das UPC. Sem a motivação das famílias camponesas para investir o trabalho familiar nas atividades produtivas planejadas pelas organizações intervêm na comunidade, os riscos para a realização dos objetivos programados crescem, tendendo a inviabilizar as ações ou reduzir sua eficácia.

Há, por outro lado, organizações cujo escopo é mais amplo que a produção e o comércio da família camponesa. Trata-se, no âmbito deste estudo, das organizações cuja atribuição é o licenciamento ambiental e a regularização fundiária dos imóveis rurais. Uma vez que, em conformidade com a legislação vigente, as operações de crédito têm como pré- requisito o licenciamento ambiental e a regularidade fundiária, as ações propostas em operações interinstitucionais de ATER e crédito podem vir a ser obstaculizadas por objeções e exigências cruciais impostas pelas agências ambientais e fundiárias. Nestes casos, surgem impedimentos que retardam ou inviabilizam os objetivos dos projetos de outras organizações que atuam junto às UPC, frustrando expectativas quando não ocasionando prejuízos econômicos e socioculturais.

Isto posto, tem-se um segundo elemento da hipótese de trabalho: a complexidade do ambiente institucional que envolve as UPC e as famílias camponesas. Essa característica da institucionalidade exige o desenvolvimento de competências e habilidades entre os produtores camponeses a partir dos aspectos socioculturais intrínsecos à família camponesa. Neste sentido, tem-se um terceiro grupo de instituições: aquelas que aqui se denominam endógenas ao campesinato. Essa institucionalidade atua como referência para o ordenamento e regulação das relações entre as UPC e o ambiente institucional e o ecossistema.

Os condicionantes ecossistêmicos exigem adaptações nos hábitos, nas rotinas de trabalho e o desenvolvimento de habilidades, conhecimentos e estratégias de reprodução econômica e social da família. As influências destes aspectos sobre as trajetórias dos sistemas produtivos provocaram o surgimento e adaptação de rotinas de trabalho através das quais os produtores camponeses planejam e executam suas atividades produtivas e comerciais. Daí o terceiro elemento da hipótese de trabalho, que diz respeito ao aprendizado sobre a dinâmica dos ecossistemas sistematizado em saberes, hábitos e rotinas de trabalho em constante evolução. Através de ajustes incrementais nestes aspectos socioculturais a família camponesa busca repor os níveis de eficiências tensionados pela dinâmica dos ecossistemas.

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Isto posto, conjectura-se que a mudança tecnológica e econômica das UPC é uma possibilidade histórica condicionada por fatores intrínsecos e extrínsecos à UPC. Estes fatores possuem uma diversidade de situações em vários territórios aqui representados pela diversidade de sistemas produtivos existentes em distintos Sistemas Socioecológicos (SSE) do Território Manaus e Entorno. Cada sistema produtivo possui uma trajetória específica, em um território particular, que o posiciona em relação ao ambiente institucional exógeno que envolve as UPC. Têm-se então uma nuvem de situações diversas na qual as UPC oscilam entre a tendência à integração ao mercado e à propensão à subsistência. Essa tensão induz as UPC a superar através de mudanças estratégias nos seus sistemas produtivos, no âmbito das suas restrições econômicas e dos seus aspectos socioculturais.

A estrutura analítica proposta procura identificar as relações causais que provocam estas diferenciações de trajetórias ao estudar a condição vigente das UPC e a suas propensões às mudanças econômicas em um contexto específico do estado do Amazonas: o Subpolo Três do Território Manaus e Entorno4 – doravante apenas Subpolo Três. Os aspectos analisados dizem respeito aos seus sistemas produtivos e à institucionalidade mais próxima das UPC e cuja missão envolve relações diretas com o seu desenvolvimento - os serviços de ATER, os sistemas de crédito, as agências de licenciamento ambiental e os serviços de regularização fundiária. A finalidade é apresentar uma etnografia do campesinato através da apresentação dos seus sistemas produtivos adaptados às condições ecossistêmicas e institucionais, bem como apreender aspectos socioeconômicos e tecnológicos. Deste modo, verifica-se a pressuposição inicial sobre as trajetórias de evolução das UPC, a partir da compreensão do estudo da sua condição presente e das propensões que apresenta.

4 Em 2009, como estratégia para coordenar melhor as discussões e ações em toda a extensão do Território, a

Comissão Implementação de Ações Territoriais (CIAT) do Território Manaus e Entorno (TME) decidiu, tendo em vista as distâncias e particularidades geográficas e as especificidades socioeconômicas, subdividir o Território em três setores. O setor três incluiu os municípios Autazes, Manaquiri, Careiro, Careiro da Várzea e Nova Olinda do Norte. Nessa pesquisa, trabalhou-se apenas com os quatro primeiros e mais o município de Iranduba, que se inclui no setor dois do TME. Esses municípios formam um bloco separado de Manaus pelos rios Negro e Amazonas e, de Nova Olinda do Norte, pelo rio Madeira. A esse conjunto, atribui-se, no contexto dessa pesquisa, a denominação de Subpolo Três do Território Manaus e Entorno.

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1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo geral

Compreender as diferenciações nas trajetórias dos sistemas produtivos camponeses das UPC situadas no Subpolo Três através de uma estrutura analítica evolucionária.

1.3.2 Objetivos específicos

Os objetivos específicos da pesquisa foram: i) elaborar a estrutura analítica com os conceitos obtidos nos campos da Teoria Econômica Institucional e Evolucionária, da Teoria do Desenvolvimento Endógeno, da Antropologia e das teorias sobre a socioeconomia dos sistemas produtivos camponeses; ii) caracterizar o território de realização da pesquisa em suas dimensões ecossistêmica, institucional, econômica e sociocultural; iii) analisar os aspectos econômicos, tecnológicos, institucionais e socioculturais inerentes aos mecanismos que influenciam e condicionam as mudanças nos sistemas produtivos das UPC do Subpolo Três; e, iv) articular os resultados obtidos através da apresentação dos aspectos do ambiente institucional, e dos processos de produção e comercialização camponesa no Subpolo Três; v) modelar as trajetórias dos diferentes sistemas produtivos nas UPC em sistemas socioecológicos específicos.