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4 A INSTITUCIONALIDADE CAMPONESA ENDÓGENA E A ATER

4.1 SOCIOCULTURA CAMPONESA:UMA INSTITUCIONALIDADE ENDÓGENA

4.1.2 Comunidade: o lugar da institucionalidade endógena

A formação sócio-histórica dos SSE inclui o surgimento de estruturas institucionais associadas ao conceito de comunidade. Nessa perspectiva, a comunidade é o lugar onde se concentram as relações sociais locais. Este atributo faz a comunidade tornar-se uma estrutura institucional endógena e primária que ordena e regula as relações entre os indivíduos e famílias camponesas nelas residentes. Por meio da observação direta do cotidiano das famílias verificou-se que a comunidade é um agrupamento de dimensões variáveis, reunindo residências familiares, geralmente, unidas por laços de parentesco e

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transações econômicas, especialmente a produção de mercadorias e valores de uso para autoconsumo.

Todavia, o conceito de comunidade não é isento de polêmica quanto ao seu significado ou sua função social. Conforme, Guijt e Shah (1999), não são homogêneas em suas composições e preocupações, e muito menos harmoniosas nas suas relações. As mesmas autoras apontam as dificuldades em definir os limites de pertencimento ou não dos sujeitos a uma comunidade. Estes aspectos do conceito, entretanto, têm sido oportunos nos processos de empoderamento de indivíduos e grupos específicos, de indução à ação coletiva, de direcionamento de políticas públicas, assim como a indicado caminhos para a adequação da pesquisa científica. Daí a pertinência do conceito.

Conforme Tönnies (1957), os fundamentos da comunidade residem nos laços de parentesco que se difundem e agregam os indivíduos não apenas fisicamente, mas institucionalmente – em termos de normas de conduta e perspectivas, principalmente. Assim, emerge a unidade fundamental da comunidade: o grupo familiar. Essa estrutura induz o surgimento dos elementos primordiais da comunidade, tal como as noções de hierarquia e autoridade e a divisão do trabalho que passam a ordenar a vida comunitária.

Em geral o conceito de comunidade está associado à convivência em um espaço geográfico comum de uma população com relações familiares e/ou sociais o que implica na ocorrência de intensa interação social. A estes fatores, neste trabalho, acrescentam-se e enfatizam-se as relações econômicas de produção e troca – comercial e simbólica. Neste sentido, as comunidades são os lugares dos acordos, contratos e transações que envolvem o uso dos recursos naturais e o emprego do trabalho familiar nos sistemas produtivos.

Em conformidade com Tönnies (1957), o conceito de a comunidade é empregado neste trabalho, como o local do entendimento, não obstante diversidade e os conflitos e dissensos inerentes à vida comunal. Tais entendimentos são mediados, pois, pela institucionalidade endógena que ordena as relações e iniciativas econômicas dos camponeses no âmbito e fora das suas comunidades. Deste modo, o habitus associado aos costumes e práticas dos camponeses expressa sua racionalidade econômica em um lugar geográfico onde ocorre a sua produção. Ainda, extrapola tais limites e se torna – na condição de comunidade – o objeto vislumbrado pelo ambiente institucional que interage com o campesinato.

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SSE Comunidade Tempo de Existência < 50 anos +/- 50 anos > 50 anos AM 070 e Vicinais Açutuba X

lago do Limão X

Paricatuba X

Ramal Nova Esperança X Serra Baixa X

Ariauzinho lago do Ariauzinho X Ramal do Ariauzinho X

BR 319 Araçá X

Ramal do Caapiranga X

Costa e ilha do Barroso Nova Esperança X São Francisco X

Costa e ilhas do Iranduba Divino Espírito Santo X N. Srª. de Fátima X São Francisco X São João X

São Judas Tadeu X

Entorno Rural de Autazes AZ 01 X

lago da Josefa X

Rosalinho X

São João

São João do Alto Sampaio X Janauacá igarapé do Itaúba X igarapé do Karará X igarapé do Paissandu X igarapé do Pajé X igarapé do Timbó X lago do Jacaré X N. Srª. Aparecida X N. Srª. das Graças X Divino Espírito Santo X Lago do Curarizinho Divino Espírito Santo X Lago do Miriti N. Srª. do P. Socorro X

S. João Batista X

Santa Luzia X

Lago do Purupuru Santa Maria X

São Francisco X

Novo Céu e rio Mutuca Novo Céu X

Autaz Mirim X

Igarapé Tapioca X

PA Panelão Panelão X Rio Acará Grande Boa Esperança X

Cristo Rei X

Quadro 8 – Estimativa do tempo de existência das comunidades visitadas. Fonte: Pesquisa de campo, 2009.

A cada visita às comunidades, procurou-se obter dados sobre a história local através de entrevistas com um ou mais moradores residentes há mais de duas gerações adultas, preferencialmente. As informações construídas com estes procedimentos indicam que

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essas comunidades existem há períodos compreendidos entre cinco ou mais décadas – ver Quadro 8. As comunidades mais antigas foram localizadas nos SSE Janauacá, lago do Purupuru, lago do Miriti, lago do Curarizinho, Entorno Rural de Autazes e Novo Céu e rio Mutuca; comunidades mais recentes aparecem nas ilhas e costas do Iranduba, na costa do Barroso e na AM 070 e vicinais. Há SSE, tais como a BR 319, o PA Panelão e o rio Acará Grande nos quais as comunidades não existem no formato tradicional, estando ainda em fase de formação.

A dinâmica da formação narrada pelos interlocutores revela que os agrupamentos mais antigos formaram-se desde a chegada de migrantes que fixaram residência e iniciaram atividades produtivas e comerciais. A partir deste núcleo as comunidades cresceram através da dinâmica demográfica familiar, pelas uniões matrimoniais e pela atração de parceiros, trabalhadores e outros migrantes. Em geral, nomes de santos da igreja católica foram atribuídos às comunidades, que predominam nos SSE visitados, ocorrendo nomes oriundos das línguas indígenas e outros vinculados às particularidades geofísicas, topográficas e históricas. Estes últimos casos, dizem mais respeito às localidades, isto é, territórios demarcados no imaginário e no meio físico no qual ocorrem diversas comunidades.

Fotografia 1 – Sede do “Onze Unidos Futebol Clube”, na Comunidade Divino Espírito Santo, SSE Janauacá. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

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Fotografia 2 – O INCRA e os moradores da Comunidade Divino Espírito Santo discutem a reforma agrária na Costa do Iranduba. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

Fotografia 3 – Aspecto da vida escolar na Comunidade Santa Maria, SSE lago do Purupuru. Foto de: Jesse Rodrigues, 2009.

Fotografia 4 – Templo Católico na Comunidade Rosalinho, SSE Entorno Rural de Autazes. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

Em tais condições a comunidade tornou-se o lugar mais próximo de referência da vida socioeconômica, pois é o local onde ocorrem as festividades de época, as disputas

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futebolísticas, as reuniões políticas, as tomadas de decisão comunitárias, bem como a articulação das trocas comerciais. Estes locais reúnem grande parte das instituições locais tais como as escolas, os templos religiosos, os postos de atendimento à saúde e os pequenos entrepostos comerciais. Deste modo, torna-se o local onde os camponeses se encontram, dialogam, negociam e tomam decisões estratégicas. Neste local, suas atenções convergem para os fatos cotidianos e para as novidades que chegam do ambiente externo. Portanto, a comunidade estrutura a vida social, modificando os hábitos e estabelecendo os costumes; ao mesmo tempo a comunidade é modificada pelos indivíduos e famílias que a constituem.

Fotografia 5 – Posto de Saúde na calha do rio Acará Grande. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

Fotografia 6 – Produtores camponeses a postos para vender seus produtos na confluência da Cabeceira do Purupuru com o Ramal do Km 22 da BR 319. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

A comunidade remonta ao campesinato mais tradicional, em geral observado nos SSE mais distantes de áreas urbanas, onde estes aglomerados têm sua importância institucional ampliada pelo distanciamento geográfico. Onde os aglomerados não ocorrem, os referentes são os ramais ou as calhas dos rios. Nos SSE AM 070 e vicinais e BR 319 os

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ramais que interligam a estrada ao rio ou lago reúnem um aglomerado linear formado por UPC estrategicamente localizadas às suas margens. Os SSE Novo Céu e rio Mutuca, lago do Purupuru e rio Acará Grande, apresentam as UPC dispersas por lagos e igarapés, tendo como referentes comunitários a calha do rio Mutuca, o lago do Purupuru e o rio Acará Grande. Nestes casos específicos, os processos comunitários ocorrem nas residências de famílias camponesas que exercem alguma liderança política e a inexistência da comunidade faz com que a estrutura institucional preponderante seja a família.