V. O ONTEM, O AMANHÃ E A VIRTÙ SEM RESIGNAÇÃO
5.3. A hiperdialética
Essa filosofia oposta ao pensamento de sobrevoo é a filosofia que Merleau-Ponty desenvolve paralelamente em O Visível e o Invisível. Para o filósofo, o mundo histórico não deve mais ser pensado pela alternativa entre os homens ou as coisas, porque nem a iniciativa humana nem o peso das coisas são por si mesmos determinantes no curso dos acontecimentos, sempre há a ação conjunta de ambos. Merleau-Ponty pensa numa carne da história, na qual, assim como em nosso corpo, que não é uma matéria separável de um espírito, tudo conta, tanto as ações dos humanos, quanto os acontecimentos naturais, os econômicos, os sociais etc.
174 Merleau-Ponty define a carne como um elemento, como o emblema concreto de uma maneira geral do ser. A carne é o que une os contraditórios, é o meio onde se formam o sujeito e o objeto, é o corpo como visível e vidente, tocante e tocado, objeto e sujeito; ela é a saída do dualismo substancial entre o corpo e o espírito, ela é um elemento que comporta a reversibilidade do visível e do tangível e que nos permite a abertura a um ser intercorporal que também abole o dualismo entre o eu e o alter ego. Nas palavras de Merleau-Ponty:
Há um círculo do tocado e do tocante, o tocado apreende o tocante; há um círculo do visível e do vidente, o vidente não é sem existência visível; há mesmo inscrição do tocante no visível, do vidente no tangível, e reciprocamente, enfim, há propagação dessas trocas em todos os corpos de mesmo tipo e de mesmo estilo que eu vejo e toco – e isso pela fundamental fissão ou segregação do que sente e do sensível que, lateralmente, faz comunicar os órgãos de meu corpo e funda a transitividade de um corpo a outro (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1768).
Agora o fato de eu não me ver como os outros me veem não significa falha ou incompletude, mas abertura. Aquilo que eu não posso ver diretamente, como meus olhos ou minhas costas, o que seria o meu invisível, é um visível do qual eu não possuo a titularidade porque para que eu possa ver eu preciso enlaçar na minha visão uma visão que não é a minha. O visível é, então, dono “de uma profundidade inesgotável: é o que faz com que ele possa ser aberto a outras visões que a nossa” (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1768). É assim que se quebra a ilusão solipsista segundo a qual o eu só se ultrapassa por si mesmo, porque é pelo outro que o vidente que eu sou me pode ser verdadeiramente visível e, “pela primeira vez, eu me apareço de volta para até o fundo dos meus próprios olhos” (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1768). O corpo enlaça um outro corpo e por ele se imbrica na carne do mundo onde seus movimentos se direcionam à carne em geral. Para Merleau-Ponty, essa completude que se faz na incompletude é a reversibilidade que é sempre iminente e nunca plenamente realizada. A carne do mundo, tal como nosso corpo, comporta um acoplamento do visível e do invisível, do tocante e do tocado no qual estes jamais coincidem: por exemplo, quando eu toco algo com minha mão direita e toco em seguida minha não direita com minha mão esquerda, minhas mãos são ao mesmo tempo tocantes e tocadas, mas uma não se confunde com a outra, do mesmo jeito que o meu visível pelo outro não se confunde com o meu visível para mim. E isso não é uma falha, mas justamente a diferença de onde transparece a identidade e a proximidade que discerne a diferença e a distância. De acordo com Merleau-Ponty:
[...] isso não é uma falha: pois se essas experiências nunca se recobrem exatamente, se elas escapam no momento de se reunir, se há sempre entre elas o “mexido”, uma lacuna, é precisamente porque minhas duas mãos fazem parte do mesmo corpo,
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porque ele se move no mundo, porque eu me ouço de dentro e de fora; eu experimento, e tantas vezes quanto quero, a transição e a metamorfose de uma das experiências à outra, e é somente como se a articulação entre elas, sólida, inabalável, me restasse irremediavelmente escondida. Mas esse hiato entre minha mão direita tocada e minha mão direita tocante, entre minha voz ouvida e minha voz articulada, entre um momento da minha vida total e o seguinte, não é um vazio ontológico, um não ser: ele é separado pelo ser total do meu corpo e pelo do mundo, é o zero de pressão entre dois corpos que faz um aderir ao outro (MERLEAU-PONTY, 2010, pp. 1772-1773).
Merleau-Ponty nota que ainda falta um elemento para podermos dar conta da experiência da carne. Ainda que a visão faça a articulação entre dois “eu penso” e os tire da insularidade permitindo que o combate entre eles seja sem vencedor, que mostre que ambos participam de uma visão em geral e sem titularidade, ela conduz a uma análise sem fim: eu vejo, o outro me vê, eu vejo que ele me vê, ele vê que eu vejo que ele me vê etc. A visão ajusta os olhares um ao outro e desenha o mundo comum que eles veem, mas é a linguagem que rompe essa fascinação inicial e esse círculo sem fim e carrega o sentido dessa experiência visível. Afinal, as experiências da carne também têm uma idealidade, senão como conseguiríamos fazer a ligação entre os fragmentos de uma música e os momentos de um campo luminoso, por exemplo? É como se a carne mudasse de carne e passasse a um corpo mais leve e mais transparente no qual ela conseguisse por seu próprio arranjo captar o sentido das coisas. Porém isso não significa que o sentido esteja na linguagem em si mesma ou que ele esteja no pensamento e seja apenas traduzido em linguagem: significa que pensamento e linguagem são uma palavra operante na qual os dois são os dois lados de uma mesma moeda; não há o pensamento e a palavra, e sim uma invasão mútua de um pelo outro. Para compreendermos o que dizemos, nós devemos ser meros operadores da palavra, nosso pensamento é pensamento falante e a linguagem é palavra pensante. Isso não tem a ver com a linguagem sistematizada pelos linguistas, mas com o sentido que é produzido através da invasão entre as duas ordens. Nesse sentido, assim como os signos são iguais uns aos outros enquanto puras diferenças, o pensamento e a palavra são indiscerníveis naquilo que eles têm de diferente. Eles se recobrem um ao outro como dois relevos de uma mesma figura e o sentido é essa figura que vem da sobreposição desses relevos. A palavra é então a visão do espírito, ela metamorfoseia as estruturas do mundo visível e opera como que uma sublimação da carne. Mas é do mesmo fenômeno da reversibilidade que se trata aqui: a palavra que fala é a expressão da percepção muda, é a estrutura do mundo mudo que é exprimida em palavras. A palavra é a articulação de todo o aparato mudo que faz o meio pelo qual ela obtém a significação. Conforme Merleau-Ponty:
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Como há uma reversibilidade do vidente e do visível, e como, no ponto onde se cruzam as duas metamorfoses, nasce o que chamamos percepção, do mesmo jeito há uma reversibilidade da palavra e do que ela significa; a significação é o que vem selar, fechar, juntar a multiplicação dos meios físicos, fisiológicos, linguísticos da elocução, contraí-los em um só ato, como a visão vem concluir o corpo estesiológico; e, como o visível apreende o olhar que o desvelou e que faz parte dele, a significação jorra de volta sobre seus meios, ela anexa a sua palavra que se torna objeto de ciência [...] (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1778).
Para Merleau-Ponty, todas as condições para a linguagem já estão dadas no mundo mudo. O mundo mesmo contém tudo aquilo que é necessário para que haja palavras entre as pessoas, de modo que o sentido não é uma camada acima do mundo sensível, ou acima mesmo do som das palavras, ele está na “totalidade do que é dito, ele [é] o integral de todas as diferenciações da cadeia verbal, ele é dado com as palavras naqueles que têm ouvidos para escutar” (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1779). Merleau-Ponty faz então com essa filosofia do quiasma do visível e do invisível um pensamento que não é de sobrevoo, mas de invasão, de penetração. A reversibilidade que é a marca dessa filosofia não é uma reversibilidade dialética, porque não busca uma síntese, mas a identidade na diferença, a proximidade na distância, a presença na ausência. Como diz Merleau-Ponty em Signos:
Quando eu falo do nada, já há ser, esse nada não nadifica realmente, e esse ser não é idêntico a si, sem questão. Em um sentido, o mais alto ponto da filosofia só é talvez o de reencontrar esses truísmos: o pensar pensa, a palavra fala, o olhar olha – mas entre as duas palavras idênticas, há a cada vez o vão que saltamos para pensar, para falar e para ver (MERLEAU-PONTY, 2014, p. 39).
Assim, esse abandono da dialética não é senão o abandono do que Merleau-Ponty chama de “má dialética” e é feito em nome de uma hiperdialética. O autor explica que na história da filosofia, até então, a dialética nunca foi tocada em seu estado puro, ela sempre foi positivada e desnaturada ao ser formulada em enunciados e, destacada de seu contexto antepredicativo, sempre acabou se tornando um conjunto de significações unívocas como resultado do procedimento de tese, antítese e síntese. A dialética vulgarizada se tornou um pensamento sistemático que culmina no cinismo e no formalismo e elimina o que ela tem de mais fecundo, que é a sua ambiguidade. Merleau-Ponty afirma, n’O Visível e o Invisível:
A má dialética é a que não que perder sua alma para salvá-la, que quer ser dialética imediatamente, se autonomiza, e culmina no cinismo, no formalismo, para ter escapado de seu próprio duplo sentido. O que nós chamamos hiperdialética é um pensamento que, ao contrário, é capaz da verdade, porque ela encara sem restrição a pluralidade das relações e o que chamamos de ambiguidade. A má dialética é aquela que acredita compor o ser por um procedimento tético, por um conjunto de
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enunciados, por tese, antítese e síntese; a boa dialética é aquela que é consciente de que toda tese é idealização, que o Ser não é feito de idealizações e de coisas ditas [...], mas de conjuntos ligados onde a significação nunca é senão em tendência, onde a inércia do conteúdo nunca permite definir um termo como positivo, um outro como negativo, e ainda menos um terceiro termo como a supressão absoluta deste por si mesmo (MERLEAU-PONTY, 2010, pp. 1722-1723).
Essa dialética sem síntese, ressalta Merleau-Ponty, não é o puro relativismo ou um ceticismo, porque ela não nega a ultrapassagem que une, mas nega o desembocamento num novo positivo. Porque tudo na vida e na história não ultrapassa senão conservando, sempre há algo que se sedimenta e sobrevive, assim como há o que foi excluído para sempre. Como observa Judith Revel, trata-se de uma dialética aberta onde perdura a ambiguidade sem a ilusão de uma conciliação em alguma Aufhebung. A ultrapassagem é feita enquanto “sedimenta por empilhamentos sucessivos, em uma verticalidade que se torna precisamente um dos temas portadores da reflexão de Merleau-Ponty, o já-aí e a abertura da diferença” (REVEL, 2015, p. 205). A hiperdialética portanto abarca o estatuto do negativo, mas não um negativo puro, e sim uma potência afirmativa que sobrevive a si mesma e se junta à história já feita e ambígua e se empilha na série complexa das determinações dadas para deslocar os equilíbrios e fazer a abertura que abre espaço para a invenção histórica. Essa abertura “é o quiasma da história já feita e a história no ponto de se fazer, das determinações e da invenção, da matéria do mundo e da possibilidade de sua prosa” (REVEL, 2015, p. 206).