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A HISTÓRIA DO ESPORTE

No documento Download/Open (páginas 60-64)

O novo dicionário Aurélio (HOLANDA, 2004) define esporte como “o conjunto dos exercícios físicos praticados com método, individualmente ou em equipe.”

Brohm citado por Proni (2002, p.40) afirma que quando se olha para a complexidade do fenômeno esportivo (o qual delimita um campo específico e original no espectro das atividades físicas em geral), depara-se com a necessidade de superar a polissemia do termo “esporte” e a dificuldade de percebê-lo como uma totalidade integrada.

Já no entendimento de Proni (2002, p.40) esporte é algo preciso, o qual exclui de seu domínio os fenômenos anexos, embora parecidos, não fazem parte desse domínio (como as ginásticas, os jogos infantis, etc.). E concebê-lo como uma totalidade não significa desconhecer a multiplicidade de suas facetas, porque “o esporte não é uma instituição unitária, senão uma unidade diferenciada, altamente hierarquizada, na qual se entrecruzam distintas instâncias e níveis de competição.”

Gebara (2002, p.05) discorrendo sobre a história do esporte sugere a abordagem de modelos de análise voltados para a sua compreensão, considerando que estamos diante de um fenômeno universalmente crescente e economicamente em expansão. Esses modelos de análise procuram compreender a especificidade do esporte moderno, distinguindo-o dos jogos e das formas ancestrais de competição física que estes esportes assumiram.

Para Brohm (apud PRONI, 2002, p.37) o esporte moderno difere-se do antigo não apenas por introduzir a noção de recorde, mas fundamentalmente no que se refere aos respectivos “cimentos sociais” (relação de produção escravista versus capitalista) e à concepção de corpo associada às tendências dominantes nos respectivos modos de produção.

Baseando-se nas abordagens de Allen Guttmann (1978), Gebara (2002, p.06) cita sete características distintivas do esporte moderno, como: secularismo, igualdade de oportunidades na competição e em suas condições, especialização das regras, racionalização possibilitando sua internacionalização, organização burocrática, impulso para a quantificação e a busca de recordes.

Os primeiros autores a tentarem explicar o surgimento do esporte moderno inspiraram- se em Marx e Weber. Não obstante, há uma contribuição substancial da chamada Escola de Frankfurt e do modelo de análise Weberiano, sintetizado nas sete características do esporte moderno apontadas por Guttmann (GEBARA, 2002, p.06).

O esporte moderno, segundo Brohm citado por Proni (2002, p.37), tem sua origem na Inglaterra, em consonância com a consolidação do modo de produção capitalista e do estado burguês. Afirma ainda que

em meados do século XVIII, havia um interesse crescente pela velocidade, a obsessão pelo mensurável e a perseguição de recordes. Em 1750 foi fundado o Jockey Club. A aposta era a incitação à superação de marcas, mas as corridas de cavalos também contribuíram para aperfeiçoar métodos de treinamento sistemático. Pouco a pouco, essas características se transferiram para a corrida a pé e para outras competições físicas, à medida que se desenvolveu o “esporte patrocinado”, no qual a aristocracia desempenhou papel decisivo.

Gebara (2002, p.06) propõe também uma abordagem mais histórica do esporte moderno, buscando valorizar o seu processo de constituição em relação à possibilidade de distingui-lo do não-moderno, considerando que ele é um objeto em constituição, portanto não é possível a sua compreensão com base em um modelo de análise preconcebido. Não obstante serem os modelos de análise fundamentais para o desenvolvimento problematizador do tema.

Dessa forma Gebara (2002, p.07) propõe discutir a história da formação do esporte moderno, seu significado a partir de sua contribuição, em finais do século XIX, e suas tensões atuais.

Segundo Gebara (2002, p.07), com a expansão dos esportes a partir da Inglaterra, duas questões tornaram-se visíveis e fundamentais,

de um lado, com a expansão vitoriosa da burguesia e seu crescimento, a identidade de seus membros estabelecia-se também pela participação em alguma atividade ociosa, especialmente o esporte. De outro lado, a socialização da mulher, especialmente pela sua possibilidade de maior liberdade motora, encontraria na massificação dos esportes importante componente. É preciso alertar que esta análise proposta por Hobsbawm se refere ao processo histórico europeu e, particularmente ao caso inglês; é arbitrário pensar a história dos esportes no Brasil, transformando este caso em modelo de análise, não obstante sua importância pedagógica.

Passados cem anos do início desse processo, as grandes questões colocadas hoje, segundo Gebara (2002, p.09), em torno do fenômeno esporte são:

a americanização da cultura inglesa no desenvolvimento do futebol americano, alimentado pela comercialização dos esportes, o que favoreceu o desenvolvimento de esportes já comercializáveis (MAGUIRRE, 1990); a também “americanização” do esporte do Canadá, considerando a hegemonia do capitalismo norte-americano, com a presença cultural e da mídia (KIDD, 1991); entre os franco-canadenses e no Caribe, estas influências são menores, havendo inclusive movimentos de resistência às modalidades esportivas de origem norte-americana; na África e na Ásia, Wagner (1990) e Guttmann (1991) sugerem a utilização do termo “mundialização” ao invés de “americanização”, posto que o fenômeno em análise se refere a um processo de homogeneização da prática e do consumo esportivo, explicado pelo maior ganho de popularidade do esporte em escala mundial, motivação internacional para participar de eventos competitivos, influência da mass media nos países do terceiro mundo, gerando interesse pelos esportes ocidentalizados e importância política do esporte.

Autores como Mc Kay & Miller (1991) e Mc Kay, Lawrence, Miller & Rowe (1993), citados por Gebara (2002, p.10), que centram sua análise no processo de desenvolvimento do esporte na Austrália, contestam o conceito de “americanização”, afirmando que o que acontece com o esporte é um processo similar ao da globalização do capital, independente de sua origem nacional.

O que esses mesmos autores afirmam é que “o que se verifica no esporte é a constituição de uma elite de atletas em escala mundial, elite esta que, rigorosamente falando, não tem apenas uma bandeira nacional, mas sim um conjunto de marcas multinacionais a defender.” (MC KAY e MILLER, 1991; MC KAY, LAWRENCE, MILLER e ROWE, 1993

apud GEBARA, 2002, p.10)

Guttmann e Wagner (apud GEBARA, 2002, p.11) fixam-se na tese da modernização, argumentando que “a industrialização e a modernização são decisivas para o processo de difusão cultural (inclusive em seus aspectos lúdicos), no qual as práticas tradicionais são gradualmente substituídas e/ou transformadas (institucionalizadas) em modalidades esportivas no sentido moderno.”

Contestando as afirmações de Guttmann e Wagner, um grupo de autores formados basicamente por economistas, dentre eles aqueles que defendem a tese da globalização do capital, além de Cantelon e Murray (1993), afirmam que “a análise não se refere a um processo universal de modernização, mas sim a um processo derivado do próprio desenvolvimento do capitalismo, no qual floresce a mercantilização do esporte.”

Brohm (apud PRONI, 2002, p.34) fiel a sua formação marxista, procura sempre estabelecer um paralelo entre a mercantilização do esporte e a lógica de organização capitalista da sociedade, e recorre à definição de Althusser, especialmente ao examinar o

Para autores que argumentam na direção da tese do imperialismo como Kidd e Maguirre citados por Gebara (2002, p.11), “a expansão do capitalismo e sua imposição aos países economicamente dependentes criam um processo de supremacia cultural, redundando na absorção de valores e práticas sociais pelos países subordinados, como a “americanização e a “japoneização”, etc.“

Citados por Gebara (2002, p.11), Mc Kay e Miller (1991) sugerem que “uma economia política do esporte pode ser mais bem abordada com base em conceitos como “pós- fordismo”, “globalização do consumo” e “lógica capitalista”, conceitos que transcendem os espaços nacionais.”

Bourdieu (apud GEBARA, 2002, p.16) apresenta outra perspectiva de abordagem do esporte moderno, em que “no nível das práticas e dos consumos, corresponde a ‘uma oferta destinada a encontrar uma certa demanda social’, de modo que as relações entre oferta (novos esportes, novos equipamentos, por exemplo) e demanda (dada pelas transformações dos estilos de vida) explicariam as transformações das práticas e dos consumos esportivos.”

Para Gebara (2001, p.12) uma melhor compreensão do esporte moderno, agregado aos aspectos apontados anteriormente, passa pelo papel da indústria do entretenimento. Nesse particular a televisão “é um fenômeno que pode ser definido pela espetacularização do evento esportivo, colocando-o na dimensão tanto do cotidiano quanto do acontecimento único e universal, como os Jogos Olímpicos.”

Referindo-se ao mais novo livro de Hobsbawm (1995), Gebara (2002, p.12) cita a retomada da questão do esporte moderno pelo autor, que enfoca como um aspecto novo a questão da globalização. Para Hobsbawm,

no campo da cultura popular o mundo tornou-se americano com algumas tonalidades regionais. O esporte, contudo, tornou-se uma exceção: nesse setor “a influência americana permaneceu restrita à área de dominação política de Washington”. Segue um argumento inquestionável, pois o futebol foi o esporte “que o mundo tornou seu”. Se do ponto de vista canadense a “americanização” tem sentido, tanto quanto o tem no caso da cultura popular, especialmente da música, do ponto de vista da grande explosão esportiva mundial – o futebol – a história parece ser outra.

Contribuíram para essa mudança de visão os sul-americanos, pois o futebol na cultura brasileira e argentina é um fenômeno que não carece de maiores considerações. O evidente potencial de produção de espetáculos futebolísticos não deve ser negligenciado, principalmente se articulado com o papel que a juventude desempenha a partir de 1950 (GEBARA, 2002, p.12).

”É bom lembrar que os esportes são, cada vez mais, afirmação da supremacia da juventude, particularmente quando possibilitam definir ambições de fortuna e fama.” (GEBARA, 2002, p.12)

Outro aspecto importante e que não pode ser esquecido no processo vivido pelos esportes nos últimos cem anos, segundo Gebara (2002, p.13), é o seu deslocamento da área do saber articulado pelo lazer e tempo livre para aproximar-se do mundo do trabalho e da mercantilização. Continua o autor,

trata-se de produzir e controlar eventos, imagens e o cotidiano espetacularizado, trata-se de mercadorias de um novo tipo, não diretamente produzidas pelo trabalhador assalariado (o operário da Revolução Industrial), mas pela mercadorização de símbolos e signos produzidos por um processo cultural de múltiplas dimensões, a um tempo local e regional, e global no momento seguinte.

Stigger (2009, p.129) admite dificuldade em aceitar formulações de discussões sociológicas sobre o esporte, tanto no senso comum do ambiente universitário como nas próprias produções acadêmicas disponíveis, porém reconhece a validade de muitos aspectos dessas formulações, mas destaca que

as suas conclusões são muitas vezes fruto de reflexões teóricas e de observações distanciadas do espaço concreto onde o esporte acontece, e que as suas referências principais são eventualmente análises macrossociais que carecem de dados empíricos. Não raras vezes, as suas conclusões são sustentadas por reflexões realizadas sobre as competições esportivas oficiais, que são posteriormente generalizadas, sem levar em conta o contexto cultural do local em que o esporte é praticado. A aceitação de formulações como essas se torna ainda mais difícil quando, nos dias atuais, se identifica o esporte como uma prática social difundida por todo o mundo, realizada nas mais variadas formas, e por diversos tipos de pessoas, as quais, em grande parte, o inserem entre as suas opções de atividade de lazer e nos seus estilos de vida particulares.

2 ESPORTE, EDUCAÇÃO E SUAS RELAÇÕES COM O CONTEXTO DA

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