Para Pereira (2010, p.02), as condições para que jovens possam aderir ou não a grupos sociais está fortemente ligado ao consumo de determinados produtos ou como compartilhar determinados significados atribuídos aos afazeres individuais e coletivos. Nesse sentido a moda, o jeito de vestir, pode ser entendida como uma produtora de possibilidades de pertencimento, na medida em que serve como referência para que os jovens realizem experimentações diversas que vão desde a estética às estratégias de convívio com o outro.
As afirmativas de Melucci e Pereira são realmente as marcas dessa fase da vida, a adolescência. As roupas femininas seguem sempre estilos próprios da juventude, quase sempre acompanhando a moda, como as calças de cós baixo e as camisas baby look com o umbigo de fora. Os homens vestem camisa básica, calça “pega frango” (na altura da canela) e tênis. Nem todos os adolescentes, alunos da CEDAF/UFV, se vestem dessa maneira, mas uma grande maioria.
Os grupos têm sua representatividade, pois são formados de acordo com a identificação de cada personagem.
Outro ponto marcante no meio adolescente são as marcas corporais como brincos, piercings e tatuagens, que já fazem parte do seu dia-a-dia, tal qual a época da jovem guarda comandada por Roberto Carlos e sua turma nos idos de 1960, com cabelos longos, calças boca de sino e gírias tipo: “bicho”, “uma brasa mora”, “paz e amor com dois dedos a mostrar um V.”
Almeida (2010, p.16) ao se referir aos motivos pelos quais os jovens se aproximam de um grupo, afirma que geralmente isso acontece
através de sua rede de sociabilidade por convite ou mesmo curiosidade. Os motivos desta aproximação são dos mais variados, desde a busca por novas relações afetivas até afinidades ideológicas. A relação que o jovem tem com um grupo, de início, é sempre de experimentação: experimentam-se relações, concepções, desejos, expectativas... É com o passar do tempo que esta experimentação torna-se identificação.
“A juventude, uma categoria inventada pelos adultos, mantém-se, mas os seus gostos, atitudes, sonhos e sentidos tornam-se cada vez mais difíceis de somatizar. A experiência social contemporânea marca as identidades juvenis como um profundo desejo de viver em grupo, fazer-se na relação com o outro” (SOUZA, 2004, p.47).
A socialização dos jovens está se produzindo em outros ambientes, onde as trocas culturais criam novos estilos de se vincular ao mundo, de decidir e de enfrentar os problemas, ou seja, ampliam-se as possibilidades de reconhecimento (SOUZA, 2004, p.56).
Nesse contexto, os múltiplos pertencimentos dos sujeitos estruturam a identidade, tanto individual como coletiva e, segundo Melucci citado por Souza (2004, p.56), “a identidade se constrói a partir de experiências comuns que se confrontam.”
A identidade é, portanto, “um processo de negociação constante cujo desafio é viver tecendo a trama da continuidade” (SOUZA, 2004, p.56).
Com os jovens, o grupo tem uma função de formação identitária mais intensa do que em outra faixa etária. Em meio às diversas experimentações nas quais os jovens estão imersos (primeira experiências com o trabalho, com a sexualidade, com as relações fora do núcleo familiar, definição dos estudos...), o grupo pode auxiliá-los na elaboração de suas identidades (ALMEIDA, 2010, p.16).
Para muitos jovens, “a vivência grupal torna-se uma mediação com o mundo, reforçando ou rechaçando valores veiculados pelos meios de comunicação, pelo pensamento
O reforço dos valores morais da família é visto, por nós educadores e pais, como um caminho sem espinhos, pois não há pais que queiram que seus filhos sigam caminhos tortuosos, apesar de às vezes o exemplo não vir da família em função de ser muito comum a desagregação familiar nos dias atuais.
Nessa fase da vida, a adolescência, longe da família, o indivíduo tem vários caminhos a seguir e nesse aspecto o grupo é fator decisivo para a escolha. Muitos, por influência do grupo em que convivem, contestando os valores familiares, religiosos e culturais, perseguem caminhos que se contrapõem ao que a sociedade e a própria família estabelece como correto.
Melucci citado por Souza (2004, p.56) considera a identidade individual uma das chaves para a compreensão das mudanças do indivíduo em uma sociedade complexa. Primeiro, analisa que as mudanças nas relações sociais alteram interesses e aspirações dos indivíduos, segundo que a experiência do indivíduo participa desse processo e o modifica.
Reguillo Cruz citado por Carrano e Peregrino (2003, p.16. Grifo do autor) estabelece três recortes que nos ajudam a compreender a constituição das identidades juvenis:
O primeiro recorte se refere ao espaço que se desdobra em duas dimensões: o espaço dado e o território como espaço construído. O espaço dado é representado pela cidade, que preexiste aos indivíduos. O território, entretanto, é o espaço cotidiano construído pelos atores juvenis. O espaço se torna, assim, uma extensão do próprio sujeito, numa verdadeira geografia da aterrissagem em que se mesclam a identidade e a memória do grupo. O segundo recorte se relaciona com a alteridade, a necessidade do outro para a constituição “do nós” do grupo. O terceiro recorte se refere à necessidade de a identidade se mostrar para se manter. A cidade é transformada de espaço anônimo em território pelos jovens atores urbanos que constroem laços objetiváveis, comemoram-se, celebram-se, inscrevem marcas exteriores em seus corpos para fixar e recordar quem são.
Carrano e Peregrino (2003, p.16) dizem que essas marcas, em seus corpos, se relacionam com os processos de representação, verdadeiras objetivações simbólicas que permitem distinguir os membros dos grupos no tempo e no espaço.
A expressão dessas marcas pode ser objetivada no próprio corpo (como uma tatuagem) ou mesmo habitar o corpo como adereço de identidade, tal como acontece com os bonés que se transformaram em fonte de tensão permanente em algumas instituições que não toleram seu uso nos espaços escolares (CARRANO e PEREGRINO, 2003, p.16).
Souza (2004, p.57) afirma que
o grupo é o espaço da visibilidade para os jovens, da sua constituição como sujeito social, significando uma ampliação de redes de amizade, num exercício de convivência social que reforça a auto-estima e os coloca na cena pública, exercendo uma identidade reconhecida e desejada no grupo e que põe em relevo potencialidades pessoais.
Ainda Souza (2004, p.64) citando Melucci, diz que “os grupos são espaços privilegiados de construção de identidades. Porém, aprender na relação com o outro, viver em grupo é o grande desafio posto a todos.”
“A experiência em grupo por si só não significa que seus integrantes terão uma ação mais ou menos solidária ou tolerante entre si ou com membros de outras comunidades ou grupos” (ALMEIDA, 2010, p.16).
A participação em um grupo é orientada por certa visão de mundo (guiada por posicionamento políticos, sociais, ideológicos, religiosos, etc.) que esse grupo assume. De acordo com essa visão de mundo assumida, os sentimentos de igualdade e diferença experimentados por seus membros podem tomar variados significados (ALMEIDA, 2010, p.16).