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Pretendemos, nesta subseção, tecer os pontos nos quais a minha história se conecta com as dos/as interlocutores/as. Inicialmente, tenho que dizer que conhecia a maioria das (senão todas as) pessoas trans* estudantes de psicologia de Recife. Infelizmente ainda somos poucos ocupando esses espaços. Mas, para além disso, estar em um núcleo de pesquisa conhecido por trabalhar as temáticas de gênero e sexualidade, como também compor a coordenação da Comissão Temática de Gênero e Sexualidade do CRP-02, me possibilitou estar em um lugar de visibilidade e conhecer essas pessoas.

Foi no dia 29 de janeiro de 2020, no auditório do CRP-02, que senti meu campo-tema em ebulição. Nessa data, a Comissão de Gênero e Sexualidade, em parceria com a Comissão de Direitos Humanos, realizou uma oficina intitulada “Trans-formando a Psicologia”, sobre a qual comentei brevemente no início desta dissertação11. Esta tinha como objetivo dialogar com psicólogos/as e estudantes de psicologia trans* sobre suas experiências como profissionais e estudantes.

As trocas geradas na oficina me ajudaram a refletir ainda mais sobre a temática. Além disso, também foi nesse momento que minha dissertação começou a ganhar corpo e comecei a dialogar sobre ela para além dos muros da universidade. No final da oficina, conversei com Vênus e Viper sobre a temática da minha pesquisa, questionei se elas aceitariam ser minhas interlocutoras e ficamos de conversar com mais calma posteriormente.

De forma indireta, a oficina também me proporcionou dialogar com mais dois interlocutores. Fabi e Yan chegaram a mim para perguntar como foi o evento. Ao fim da conversa, comentei sobre minha dissertação e questionei se não queriam participar. De imediato, aceitaram e marcamos nosso encontro.

Diante disso, o percurso desta pesquisa se deu a partir de encontros com pessoas trans*

que estão cursando ou terminaram há no máximo um ano a graduação em psicologia na Região Metropolitana de Recife, seja em instituição pública ou na rede privada. Dessa forma, como critérios de inclusão, definimos: 1) ser uma pessoa que se autodeclara enquanto pessoa trans*;

2) estar matriculado/a no curso de graduação em psicologia ou que tenha finalizado o curso há no máximo um ano; 3) assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido indicando que concorda em participar da pesquisa. Em relação aos critérios de exclusão: 1) não se enquadrar nesse perfil; 2) ter algum comprometimento físico ou mental que impedisse a participação, 3) não expressar desejo de participar voluntariamente da pesquisa.

De início, pensávamos que seria necessário dialogar com “interlocutoras/es-chave”, ou seja, pessoas estratégicas que, a partir de suas participações no movimento LGBT, poderiam indicar possíveis interlocutoras/es que pudessem colaborar com a pesquisa. Contudo, o diálogo inicial com essas/es quatro interlocutoras/es foi suficiente, pois algumas/alguns delas/es também estão inseridas/os em movimentos LGBT. Realizamos entrevistas narrativas com essas pessoas e, ao fim destas, solicitamos que eles/as indicassem novas pessoas que se enquadrassem no perfil da pesquisa. Esse tipo de amostragem, nomeado de bola de neve, é uma forma de amostra não probabilística que se utiliza de redes ou cadeias de referência (VINUTO, 2014). O

11 Link da divulgação da oficina: Notícias - Conselho Regional de Psicologia (crppe.org.br).

processo foi finalizado quando atingiu o ponto de saturação, ou seja, quando não houve novos nomes indicados pelas/os interlocutoras/es.

Como havíamos planejado inicialmente, essas quatro entrevistas foram realizadas presencialmente em locais escolhidos pelas/os interlocutoras/es. Elas ocorreram entre fevereiro e março, antes da expansão da pandemia de Covid-19. Com o advento da pandemia e o isolamento social, precisamos pensar em estratégias alternativas.

Inicialmente, em constante diálogo com o orientador, resolvemos dar uma pausa nas entrevistas para compreender como seria o período que iria se seguir. Contudo, entendendo que a pandemia iria perdurar mais do que desejado, acordamos em dar continuidade às entrevistas de forma remota através do Google Meet.

A busca pelas/os novas/os interlocutoras/es no contexto pandêmico não foi tão simples.

Basta uma pesquisa rápida nas bases de dados para encontrar artigos, dissertações e teses que falam sobre a relação da população LGBT, mais especificamente transexuais e travestis, com seus familiares, como também da dificuldade dessa população conseguir emprego formal em decorrência da transfobia sofrida. Com as/os interlocutoras/es da minha pesquisa não foi diferente. Duas pessoas só puderam marcar a entrevista quando seus familiares não estavam presentes em casa, pois tinham receio do que eles poderiam escutar. Outra negou, de início, porque estava passando por transfobia em casa e não estava bem emocionalmente para responder uma entrevista, e outra pessoa havia saído de casa e estava sem emprego para se manter, negando também, inicialmente, nosso diálogo.

Diante disso, as entrevistas remotas ocorreram em um processo mais lento. A primeira só pôde ser realizada no dia 27 de maio de 2020. A segunda entrevista remota ocorreu apenas no dia 19 de junho, e a terceira, 10 de julho, totalizando sete entrevistas, entre remotas e presenciais. Tentamos ainda entrar em contato com outras/os interlocutoras/es, contudo, sem sucesso. Por exemplo, uma pessoa que havia se colocado disponível para entrevista antes da pandemia acabou desistindo do curso, não se encaixando mais nos nossos critérios de inclusão.

Apresentamos com isso nossas/os interlocutoras/es:

Quadro 2 – Identificação das/os interlocutoras/es

Nome Idade Identidade de gênero

Cor/

Raça

Universidade/

Faculdade Pública ou Privada

Fabi 40 Travesti Branca Privada

Viper 25 Não binária Negra Privada

Vênus 30 Mulher Trans Branca Pública

Yan 26 Homem trans Branco Privada

Juni 23 Não binário Branco Privada

Jô 23 Travesti Mestiça Pública

Juno 21 Transmasculino Branco Pública Fonte: Elaboração própria

É importante informar às/aos leitoras/es que os nomes aqui expostos foram nomes escolhidos pelos/as nossos/as interlocutores/as, dentre eles nomes próprios e nomes fictícios.

Levando em consideração a lente que utilizamos aqui nesta pesquisa, entendemos ser uma postura ética deixar os/as interlocutores/as escolherem os nomes a serem utilizados, incluindo como possibilidade o nome próprio, especialmente por ser a autonomeação um direito que lhes foi ou ainda lhes é negado. Se adotamos as narrativas aqui escritas como coproduções – ou textos híbridos –, nossas/os interlocutoras/es também são autores/as, logo, coube ao/à autor/a decidir como gostaria de ser nomeado/a.

Além disso, como já viemos pontuando ao decorrer desta seção, esta pesquisa parte de um compromisso ético-político com a transformação social e de uma postura reflexiva sobre a construção de conhecimento. Cada etapa foi pensada de maneira cuidadosa para resguardar as/os interlocutoras/os, de forma que os benefícios da pesquisa se sobressaíssem aos riscos.

É importante situar também que as/os interlocutoras/os assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em consonância com compromisso assumido na aprovação deste trabalho pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos da UFPE, como também seguindo as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde (Resolução CNS Nº 466/2012) e a Resolução CNS Nº 510/2016 (que orienta sobre especificidades éticas das pesquisas nas ciências humanas e sociais e de outras que se utilizam de metodologias próprias dessas áreas).

4.2 TECENDO NARRATIVAS E PRODUZINDO CASTELOS: O PROCESSO DE