Em um exercício como o nosso, o primeiro processo para se chegar à colcha de retalhos é selecionar quais retalhos serão utilizados. É importante que as pessoas que irão tecer criem critérios no momento de escolher as cores, texturas, estampas, pois cada detalhe é relevante.
Esse mesmo movimento serve para o/a pesquisador/a em uma revisão de literatura.
Antes de iniciar a busca pelas literaturas científicas é necessário refletir qual o objetivo com a revisão da literatura para, então, estabelecer alguns critérios para guiar a pesquisa. Com isso, propomos aqui uma aproximação com as produções narrativas científicas que dialoguem com as experiências de pessoas trans* em instituições de ensino, como também a respeito do debate de gênero e/ou sexualidade na formação em psicologia.
Dito isto, procuramos estabelecer quais seriam nossos critérios de busca. No primeiro momento, para decidirmos quais bases de dados seriam utilizadas, levamos em consideração as possibilidades dos tipos de documentos que poderíamos abarcar, ou seja, artigos científicos, teses e dissertações. Além disso, considerando que a temática da pesquisa envolve a formação
2 A revisão de literatura durou de dezembro de 2019 ao final de janeiro de 2020.
em psicologia, também tomamos como fonte de busca a revista Psicologia Ensino & Formação, conforme quadro abaixo:
Quadro 1 – Informações sobre bases de dados
Base de dados Informações Tipo de brasileiros como um todo, desde os fascículos de cada título de periódico até os textos completos dos artigos.
Artigos visibilidade das produções científicas voltadas para a psicologia feitas na América Latina.
Artigos científicos
Psicologia Ensino &
Formação
Revista editada pela ABEP (Associação Brasileira de Ensino de Psicologia) que tem como objetivo difundir conhecimento sobre o ensino e formação em psicologia em diferentes níveis e contextos. pesquisa do Brasil, como também estimula a publicação de teses e dissertações em meio eletrônico.
Teses e Dissertações Fonte: Elaboração própria.
Após definirmos quais seriam as bases de dados nas quais realizaríamos nossa revisão sistemática, estabelecemos os critérios que nos guiariam em relação ao período e o idioma das produções. Optamos por não definir um período temporal para a seleção das produções, pois, por estarmos trabalhando com narrativas, é importante compreender como essas narrativas científicas vieram sendo construídas ao longo do tempo em diferentes contextos históricos.
Em relação ao idioma, optamos pelas produções escritas em português e que tratassem do contexto brasileiro. Tal escolha se deu por levarmos em consideração que o Brasil, como já citado, é o país que mais mata pessoas trans* no mundo. Dessa forma, é importante nos atentarmos a como essa temática vem sendo estudada no contexto marcado por assassinatos e violências diárias.
Após esse primeiro movimento de triagem, começamos a pensar quais termos poderiam ser utilizados para encontrarmos publicações com as quais pudéssemos dialogar. Esse foi um processo cauteloso e de muitas experimentações, pois a escolha dos termos é crucial no processo de revisão. Assim, inicialmente, utilizamos termos mais gerais como transexualidade e identidade de gênero para observar quais eram as temáticas que mais apareciam.
3 Site: https://scielo.org/
4 Site: http://pepsic.bvsalud.org/
5 Site: http://bdtd.ibict.br/vufind/
Após essa primeira experimentação, percebemos que, para identidade de gênero, a maioria dos textos eram voltados para questões relacionadas à desigualdade de gênero – mais especificamente focando em mulheres cisgêneras – e também à temática da identidade (construção de identidade, identidade social). Os textos que apareciam voltados para as transidentidades eram os mesmos que apareciam quando utilizamos transexualidade.
Diante disso, optamos por utilizar apenas o termo transexualidade combinado com os termos psicologia e formação em psicologia. Além disso, seguimos as orientações dadas na banca de qualificação e também pesquisamos os termos transgênero e transfobia, ficando as seguintes combinações:
• Transexualidade
• Transexualidade + psicologia
• Transexualidade + formação em psicologia
• Transgênero + psicologia
• Transgênero + formação em psicologia
• Transfobia + psicologia
• Transfobia + formação em psicologia
Em seguida, iniciamos nossa pesquisa nas bases de dados utilizando as ferramentas para busca oferecidas por cada site. Na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), acessamos o link “pesquisa de artigos”, selecionamos o campo “todos os índices” e utilizamos a expressão and fornecida pela ferramenta. O mesmo processo foi feito no site do PePSIC. Já no BDTD, acessamos o link “busca avançada”, selecionamos a opção “todos os campos” e na correspondência de busca “todos os termos”.
No que se trata da Psicologia Ensino & Formação, a revista foi lançada em 2010 e conta com oito volumes até então. Assim, analisamos os títulos dos artigos de cada volume para observar se algum dos termos e/ou combinação de termos aqui estabelecidos foi utilizado. A partir disso, observamos os seguintes resultados:
Tabela 1 – Número absoluto de textos por termos de busca
Termos de busca Número de textos sem “limpeza”
SciELO PePSIC Psicologia Ensino &
Finalizado esse primeiro momento de pesquisa, nos vimos diante de um número grande de materiais. Contudo, era necessário realizar uma “limpeza”, pois, a partir da leitura dos títulos percebemos que a maioria dos documentos não contemplavam nosso objetivo.
De início, para compreender o que estavam pesquisando no campo da psicologia sobre as questões trans*, não focamos em textos que falassem apenas sobre a formação, mas sim abrangemos para todos os textos que falassem de psicologia6 e transgeneridade. Diante disso, após a exclusão dos textos que se repetiam, foram encontrados um total de 155 produções.
Algumas temáticas se repetiram, como, por exemplo: 34 textos fazem uma leitura da transexualidade a partir da psicanálise, sendo alguns textos com um viés despatologizante, enquanto outros afirmam que o “transexualismo” (sic.) é uma psicose e uma histeria da modernidade; 24 se debruçam sobre atenção à saúde (incluindo o debate sobre dificuldade de acesso a diversas dimensões: sexual, reprodutiva, mental, etc., ao processo transexualizador, entre outros); 12 dos textos falam sobre a transexualidade a partir da prática clínica e/ ou abordagens psicológicas; 7 se debruçam sobre a dificuldade de garantia de diretos (como a mudança de nome, por exemplo); e 6 discutem sobre transfobia.
Tendo em vista o nosso objetivo, para facilitar a organização e visualização das produções entradas, criamos os seguintes eixos temáticos: 1) Experiências trans* em instituições de ensino; 2) Debate de gênero e sexualidade na formação em psicologia. Após a leitura dos resumos e das palavras-chaves utilizadas pelas/os autoras/es, começamos a separar
6 É importante pontuarmos que, nesse momento de refinamento dos textos, algumas produções de outras áreas
(como, por exemplo, saúde coletiva, educação, psiquiatria e direito) apareceram. Deixamos os textos que falassem a respeito do olhar da psicologia sobre a temática da transexualidade para compreendermos também como a psicologia vem sendo acionada por essas outras áreas para falar sobre as vivências trans*.
os textos que dialogavam com cada eixo. Feito isso, ficamos com o total de 4 produções, sendo elas: 1 artigo, 1 dissertação e 2 teses.
Diante disso, decidimos realizar uma revisão assistemática da literatura. Pedimos indicações de textos para pesquisadoras/es e ativistas que estudam sobre a temática, observamos os anais de congressos que debatem sobre gênero e sexualidade e fizemos uma leitura das referências bibliográficas dos cinco textos encontrados da revisão sistemática. A partir disso, encontramos mais 5 textos, dos quais: 1 dissertação e 4 artigos.