3.1 A noção benjaminiana de história
3.1.1 A história e seu modelo de apresentação constelacional
O conceito de constelação (Sternbild) aparece inicialmente no “Prólogo epistemológico-crítico” como modelo de apresentação (Darstellung) filosófico oposto à noção representativa da filosofia sistemática. Para Benjamin, frente ao totalitarismo do modo sistemático da filosofia moderna – modo dominante do pensar acadêmico alemão no início do século XX, sobretudo com a hegemonia do pensamento neo-kantiano – é necessário um modelo de pensamento que não violente a coisa mediante a tentativa de apreensão de sua totalidade, mas que esteja ciente de que algo escapa às tentativas conceituais de dominação e identificação do objeto. É justamente nesse detalhe que escapa à totalização que reside a
122 Para falarmos com Friedrich Nietzsche, na Segunda consideração intempestiva, não se trata de ler a história através dos momentos de pretensas objetividades como fazem os historiadores “ingênuos”, cujo trabalho
“consiste em adaptar o passado à trivialidade atual” (Nietzsche, 2008, p. 73), mas sim de se ler o histórico que reside no instante do passado que se ilumina enquanto potência carregada de violência capaz de retirar a inércia do passado meramente entendido como complemento harmônico do presente.
possibilidade de subversão do entendimento acerca dos objetos em prol de um modelo de pensamento não violento.
Partindo da analogia de que a relação das ideias com os fenômenos se dá pela mesma constituição que a relação entre as estrelas, o pensador salienta que:
[...] as ideias são constelações eternas, e se os elementos podem se conceber como pontos em tais constelações, os fenômenos estão nelas simultaneamente dispersos e salvos. E aqueles elementos, que os conceitos têm por tarefa destacar dos fenômenos, são mais claramente visíveis nos extremos da constelação. (Benjamin, 2011, p. 23)
Em outros termos, o modelo constelacional de apreensão circunda o objeto tocando levemente seus pontos de iluminação para dizer sobre ele, mas preservando aquilo que nele se faz irredutível à representação totalitária, salvando, por assim dizer, a condição de unicidade e novidade do fenômeno. Assim, a constelação, ao mesmo tempo em que aborda a coisa, nega os procedimentos que visam dizê-la em sua imediaticidade, cuja finalidade seria a de conservá-la em uma estrutura conceitual totalitária ou incluí-la numa cadeia de acontecimentos lineares determinados. Ao conservar aquilo que na coisa resiste à apreensão conceitual, subsiste na apresentação constelacional a tensão entre o objeto e o querer representá-lo. Porém, a Darstellung benjaminiana concede “ao excêntrico e ao estranho”
(Gagnebin, 2011, p. 13) uma posição determinante, dirige-se, exatamente, ao que permanece irredutível e salvo na constelação, aquilo que escapa à totalitária apreensão sistemática. Nesse sentido, é no detalhe que se ilumina singularmente na constelação – capaz de revelar tanto a tensão existente entre o fenômeno, o conceito e a ideia quanto a possibilidade de uma leitura que se coloca como um outro dizer acerca do fenômeno – que reside a potencialidade de instaurar um modelo revolucionário da apresentação filosófica, teórica, conceitual e, sobretudo, historiográfica.
É justamente a noção de uma apresentação constelacional da história que nos interessa em Benjamin. Conforme o fragmento [N 1,9] do Projeto das Passagens, é uma constelação atuante, capaz de despertar a realidade da ilusão onírica promovida pelo mito do progresso contínuo da humanidade ao trazer à tona os momentos críticos da história que se opõem ao direcionamento linear e harmônico do historicismo totalitário que, como se sabe, não aceita em sua concepção continuísta os desvios históricos promovidos pelas revoluções, pelos massacres e pela barbárie123. Nesse sentido, entendemos que a ideia benjaminiana de
123 Em proximidade com a nossa defesa da constelação como apresentação benjaminiana da história, podemos recuperar o que Georg Otte (1994), em Linha, choque e mônada. Tempo e espaço na obra tardia de Walter
constelação preserva, como potência de transformação, as tensões necessárias para um modelo de apresentação historiográfico apropriado ao “arrancar a tradição da esfera do conformismo” (Benjamin, 2012, p. 12) e implodir a forma anterior de organização dos fenômenos históricos organizados em prol da linearidade dos acontecimentos e do continuum histórico ditado pelos vencedores. Logo, articular a história segundo a imagem de uma constelação é, sobretudo, opor-se radicalmente à noção historicista que busca reconhecer o passado “tal como ele foi” (Benjamin, 2012, p. 11)124. A constelação, nesse contexto, fornece ao historiador a possibilidade intermitente de se apoderar de uma “recordação (Erinnerung)”
quando ela surgir “como um clarão num momento de perigo” (Benjamin, 2012, p. 11), retirando, desse modo, a história do domínio apático do “foi assim” e inserindo-a na turbulência de uma constelação saturada de tensões que podem a qualquer instante subverter a ordem do discurso dominante.
É importante ressaltar que o modelo constelacional, segundo Adorno125, “ilumina o que há de específico no objeto e que é indiferente ou um peso para o procedimento classificatório” (Adorno, 2009, p. 140). Transportando essa observação adorniana para o campo semântico da historiografia de Benjamin, podemos afirmar que a constelação ilumina a especificidade do acontecimento contrária à classificação historicista que organiza os acontecimentos de acordo com as suas égides, sobretudo aquelas do progresso dos vencedores e, por isso, como organização histórica oposta ao harmônico continuísta da história que promete as benesses de um progresso universal da humanidade, a constelação dá a ver aquilo que há de malogrado na história ou, em tons benjaminianos, a “facies hippocratica da história” que “ganha expressão na imagem de um rosto – melhor, de uma caveira”,
Benjamin, acrescenta sobre tal apresentação constelacional da história, que recai, sobretudo, na superação da temporalidade progressista em direção à atenção ao instante do passado que se ilumina como o momento crítico da tensão inerente à constituição de um outro entendimento para o presente.
124 A ideia da interpretação do passado “tal como ele foi” é lema central do historicismo cunhado por Leopold von Ranke, de modo que esse lema, conforme ressalta Otte, foi “originalmente usado pelo Historicismo contra aqueles que tentavam ‘adaptar’ a interpretação dos fatos históricos a uma determinada ideologia subjetiva ou coletiva, testemunha, ao mesmo tempo, um certo, otimismo epistemológico, por pressupor a possibilidade de um encontro com os fatos puros do passado através do fundamento humano comum.” (Otte, 1994, p. 28-29)
125 É interessante notar que no ensaio “A atualidade da filosofia” (“Die Aktualität der Philosophie”), de 1919, Adorno apresenta a constelação, em consonância com a crítica benjaminiana aos modelos totalitários de apresentação conceitual filosófica, da seguinte maneira: “A autêntica interpretação filosófica não aceita um sentido que já se encontra pronto e permanente por detrás da questão, e sim a ilumina repentina e instantaneamente e, ao mesmo tempo, a consome. E assim como as soluções dos enigmas se formam quando os elementos singulares e dispersos da questão são colocados em diferentes ordenações, até que se juntam em uma figura, da qual salta para fora a solução, enquanto a questão desaparece, da mesma maneira a filosofia tem de dispor os seus elementos, que recebe das ciências, em constelações mutáveis, ou para usar uma expressão menos astrológica e cientificamente mais atual, em diferentes tentativas de ordenação, até que ela se encaixe em uma figura legível como resposta, enquanto, simultaneamente, a questão se desvanece.” (Adorno apud Perius, 2011, p.133).
(Benjamin, 2011, p. 176). Nessa imagem estão contidos os detalhes dos sofrimentos continuamente perpetrados pela marcha progressista do historicismo.
Partindo da possibilidade de que na predileção pelo detalhe na apresentação constelacional da história reside uma defesa importante para a aproximação entre Benjamin e Celan, convém relembrarmos que um processo similar à expressão da história como imagem aterradora da caveira ocorre na poética de Celan quando ela se dirige à imagem do cadáver enquanto emblema de uma negatividade radical que não pode, de modo algum, ser separada do fazer poético. Assim, de modo bem próximo ao projeto benjaminiano de uma contra-história, em Celan temos uma contra-palavra capaz de modificar/interromper o fluxo contínuo e mecanicista do fazer artístico/poético, como vimos na análise de “O meridiano”. Nesse sentido, tanto Benjamin quanto Celan impõem, cada um a seu modo, um olhar atento à tensão inerente ao passado histórico, com destaque às imagens da negatividade, dos mortos, dos cadáveres e dos oprimidos. Em outras palavras, ao imporem esse olhar, eles iluminam por um instante o passado e o presente dos discursos históricos e poéticos através de imagens revolucionárias e rememorativas desses restos e fragmentos do passado que se atualizam no presente através da constelação.
Indo em direção contrária à concepção linear de história e próximo à ideia da história como constelação, Benjamin ressalta a necessidade de se “aplicar à história o princípio de montagem. Isto é, de erguer as construções a partir de elementos minúsculos, recortados com clareza e precisão” (Benjamin, 2009, p. 503 [N 2,6]). Não se trata, portanto, de visualizar a história como um edifício cujos cômodos completamente preenchidos pelos espólios dos vencedores abrigam o necessário a ser conhecido, mas sim de ir em direção àquilo que não apenas escapou à acumulação inerte de fatos e acontecimentos, como também se encontra carregado de uma potência crítica capaz de abalar as estruturas desse mesmo edifício. Dirigir-se a esDirigir-ses desprezados detalhes de tensão torna-Dirigir-se o caráter determinante da apreDirigir-sentação da história na forma não totalitária da constelação, firmando-se como a tarefa atribuída ao historiador benjaminiano, sujeito que, como o chiffronnier de Baudelaire126 ou o eu-lírico
126 Baudelaire apresenta a figura do trapeiro no poema “O vinho dos trapeiros” (“Le vin des chiffoniers”), cuja tarefa, aproximada daquela destinada ao poeta moderno, pode ser encontrada na seguinte estrofe: “Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,/ Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,/ E, alheio aos guardas e alcagüetes mais abjetos,/ Abrir seu coração em gloriosos projetos.” (“On voit chiffonnier qui vient, hochant la tête,/ Buttant, et se cognant aux murs comme un poëte,/ Et, sans prendre souci des mouchards, ses sujets, / Épanche tout son coeur en glorieux projets.”) (Baudelaire, 2006, p. 350-351 – trad. Ivan Junqueira). A imagem do trapeiro apresenta uma detalhada descrição na seguinte passagem de Paraísos Artificiais (2007): “O trapeiro é a figura mais provocadora da miséria humana. Lumpemproletário num duplo sentido: vestindo trapos e ocupando-se dos trapos. “Eis um homem carregado de recolher o lixo de cada dia da capital. Tudo o que a cidade rejeitou, tudo o que ela perdeu, tudo o que desdenhou, tudo o que ela destruiu, ele cataloga e coleciona. Ele consulta os arquivos da orgia, o cafarnaum dos detritos. Faz uma triagem, uma escolha inteligente; recolhe como
celaniano que escreve e rememora, dirige-se ao lixo e à ruína, ou, em outros termos, àquilo que foi e continua desprezado pela narrativa continuísta da história. Nesse contexto, conforme ressalta o pensador, o desejo de reconhecer “a vida de hoje, as formas de hoje”, reside, sobretudo, “nas formas aparentemente secundárias e perdidas” de uma época (Benjamin, 2009, p. 501 [N 1,11])127.