• Nenhum resultado encontrado

2.3 A poesia da negatividade

2.3.4 Gegenwort e Genicht

Ao adotar a negação como princípio básico, a contra-palavra atua diretamente contra aquilo que Celan chamou de nilema (Genicht)71, o nilema é motivado, segundo Gadamer (2005, p. 118), “pela simples necessidade de efeitos decorativos, de ornamento.” A expressão aparece no poema “Varrida” (“Weggebeizt”), de Sopro, Viragem:

VARRIDA pelo

vento dardejante da tua Palavra a variegada desconversa da vida vivida – as cem

línguas do im- poema, o nilema.

Re-

demoinhado livre

o caminho através da neve de humanas formas,

neve de penitente, para as hospitaleiras

câmaras e mesas glaciares.

71 O neologismo “Genicht” recebeu, ao longo do tempo, diversas traduções. Raquel Abi-Sâmara (2005) optou por traduzir o neologismo como “nãopoema”. Flávio Kothe (2016) e Cavalcanti (2011) traduziram como

“impoema”. Na antologia Sete rosas mais tarde (1993), organizada e traduzida por João Barrento e Y.K.

Centeno, foi adotada como solução tradutória a expressão “nilema”. Adotaremos a solução oferecida por Barrento devido às afinidades que julgamos existir entre o “nilema” e a figura do negativo que tentamos defender como leitmotiv da poética celaniana. Pois, por mais que a solução de Abi-Sâmara conserve a característica do não (nicht) implícita no Genicht, consideramos que a opção de Barrento ofereça possibilidades interpretativas mais fecundas para o entendimento da poesia que se coloca pós-Auschwitz.

Fundo

na fenda do tempo no

favo de gelo

espera, cristal de sopro, o teu testemunho irrefutável.

(Celan, 1993, p. 125)72

Sobre os versos que compõem a primeira estrofe, Gadamer afirma a ocorrência do embate entre dois tipos de linguagens: o primeiro, devedora dos procedimentos técnicos de embelezamento e ornamentação, é considerada pelo hermeneuta como a construtora de

“pseudocriações da linguagem” que visam, sobretudo, à consolidação de “falsos testemunhos”

(Gadamer, 2005, p. 118); o segundo, por sua vez, configurar-se como a “aparição (Erscheinung) da própria linguagem, da linguagem verdadeira, luminosa e redentora”

(Gadamer, 2005, p. 118), em suma, o “testemunho/ irrefutável” (“unumstöliches/ Zeugnis”), como diz Celan nos versos finais do poema. É possível notar no posicionamento de Gadamer uma proximidade com a proposta filosófica heideggeriana para o entendimento da poesia, pois, de um lado, temos a desconversa da vida, isto é, o falatório (Gerede)73, a linguagem convencional entendida como mero meio de comunicação; de outro lado, temos a palavra poética capaz de varrer para longe o acumulado da linguagem convencional. Desse modo, para Gadamer, a primazia da palavra poética colocaria em evidência a retomada da linguagem verdadeira, atenta à necessidade de fazer desaparecer qualquer falsa intenção presente nos nilemas. Ademais, em tom positivista, o hermeneuta afirma que o poema faz transparecer um caminho de travessia da linguagem que vai dos nilemas em direção aos verdadeiros poemas, ressaltando que o “caminho dessa travessia é, em última análise, o caminho da purificação da palavra, de uma palavra que, na prática do silêncio e da circunspecção, renuncia ao burburinho das novidades e a todos os moldes de linguagem” (Gadamer, 2005, p. 119, grifos nossos).

Concordamos com a leitura gadameriana que ressalta a ocorrência de uma tensão entre dois tipos de linguagens, entretanto, rejeitamos a visão da poesia celaniana como uma

72“WEGGEBEIZT vom/ Strahlewind deiner Sprache/ das bunte Gerede des An-/ erlebten – das hundert-/ züngige Mein-/ gedicht, das Genicth.// Aus-/gewirbelt,/ frei/ der Weg durch den menschen-/ gestaltigen Schnee,/ den erschnee, zu/ den gastlichen/Gletscherstuben und –tischen// Tief/ in der Zeitenschrunde,/ beim/ Wabeneis/

wartet, ein Atemkristall/ dein unumstöliches/ Zeugnis.” (Celan, 1993, p. 124)

73 Em uma passagem de Ser e tempo (Sein und Zeit), Heidegger descreve a atividade do falatório do seguinte modo: “O falatório é a possibilidade de tudo entender sem uma prévia apropriação da coisa. O falatório já protege por antecipação contra o perigo de malograr em tal apropriação. O falatório, que qualquer um pode obter, não só dispensa da tarefa de um entendimento autêntico, mas desenvolve uma entendibilidade indiferente para a qual já nada está fechado.” (Heidegger, 2012, p. 475)

proposta linguística que culmine na purificação e iluminação da linguagem. O tom ontológico da proposta de Gadamer, derivado de Heidegger, parece, a seu modo, alojar a poesia celaniana no movimento que Adorno (2009) classificou como o fascínio pelas teorias ontológicas prometedoras da restituição da gloriosa presença do ser. Entretanto, repetimos a questão que fizemos anteriormente: como falar em ser, restituição, positividade ou redenção em um poeta como Celan, cuja vida e poesia são profundamente marcadas pela barbárie e pelo apagamento do ser?

A ocorrência de dois tipos de linguagem e, consequentemente, de dois tipos de poesia pode, de modo determinante, dialogar não apenas com a possibilidade da poesia pós-Auschwitz, como também com a situação tensionada em que ela se encontra, conforme apresentado pelo discurso “O meridiano”. Avistamos a dualidade linguística apresentada por Gadamer, no sentido em que de um lado temos uma poesia afeita aos procedimentos técnicos que, sem nenhuma resistência, vê-se submetida às demandas do estético. Tal poesia torna-se especializada e, uma vez submetida à vaidade do crítico cultural, não tem mais nada a dizer e, mesmo que atento, o receptor torna-se surdo diante das demandas do negativo, demandas que são desviadas pelas intenções estetizantes depositadas na poesia dedicada a apresentar a realidade sob o véu da falsa harmonia. É a essa poesia que Celan chama de nilema, cuja intenção parece ser desviar-se da negatividade subjacente a qualquer arte que se propõe autêntica no horizonte após Auschwitz e, ao se desviar, no sentido adorniano do termo, o nilema comete

uma injustiça contra as vítimas com toda afirmação de positividade da existência, uma afirmação que não passa de um falatório, com toda tentativa de arrancar de seu destino um sentido qualquer por mais exíguo que seja, possui um momento objetivo depois dos acontecimentos que condenam ao escárnio a construção de um sentido da imanência que emane de uma transcendência positivamente posicionada. (Adorno, 2009, p. 299, grifos nossos)

Do outro lado, porém, encontra-se uma poesia atenta às necessidades de modificar o fluxo da respiração perante a negatividade da contra-palavra e, desse modo, revelar a dureza do negativo e da memória que jaz no interior das falsas palavras embelezadas. É uma poesia capaz de não apenas fazer com que o seu receptor se comprometa com “as tensões de um caminho que leva ao absurdo” (Alleman apud Costa Lima, 2012, p. 354) da barbárie, como também fazer com que ele dê um passo além em direção ao confronto com o nilema que se coloca como falsa poesia. Nesse sentido, sobre a primazia dos nilemas na configuração de uma poesia falsamente positiva pós-Auschwitz, podemos repetir a indagação feita por Steiner,

motivado pelo dictum adorniano, em que o crítico reflete sobre a subversão do sentido da poesia em direção à ausência de sentido que, de modo paradoxal, fornece a quimérica aparência de harmonia:

Não estou dizendo que os escritores deveriam parar de escrever. Isso seria insensato.

Indago se não estarão escrevendo demais, se não será a torrente de palavras impressas, onde, entontecidos, buscamos nosso caminho, uma subversão do sentido.

“Uma civilização de palavras é uma civilização atormentada.” É uma civilização na qual a constante inflação de registros verbais desvalorizou de tal modo o ato outrora numinoso da comunicação escrita que praticamente não há como o válido e o genuinamente novo possam se fazer ouvir. Cada mês tem de se produzir sua obra-prima e assim as prensas à força transformam a mediocridade, por um momento, em esplendor artificial. (Steiner, 1988, p. 73-74)

A colocação de Steiner é taxativa quanto à transformação da escrita em mera artificialidade estética descomprometida com as tensões irresolutas da realidade. É, justamente, no sentido de renegar os rastros das tensões existentes na poesia que nós nos afastamos de Gadamer, para quem, a poesia celaniana propõe, após realizar a varredura dos rastros dos nilemas, a redenção da linguagem num campo pleno e isento de tensões.

Afastamo-nos porque aceitar a palavra celaniana como redentora parece-nos um movimento que visa afirmar a sua existência em um espaço de positividade que se esquece da presença da barbárie, inerente à toda produção poética de Celan. A nosso ver, o movimento de afirmação da positividade da linguagem em Celan não apenas renega a existência de uma constelação mortuária que exige a sua observação por um leitor atento aos relampejares da obscuridade, como também subverte a já mencionada expressão adorniana de que o “sofrimento perenizante tem tanto direito à expressão quanto o martirizado tem de berrar” (Adorno, 2009, p. 300). Isso cria uma direção à arte que, ao fim e ao cabo, deverá se posicionar como uma arte potencialmente alegre devido à positividade que a recobre como promessa de redenção, deixando a negatividade da memória do passado arrasado para trás. Assim, conforme alertado por Adorno (2001) no ensaio “A arte é alegre?” (“Ist die Kunst heiter?”), “depois que Auschwitz se fez possível e que permanece possível no futuro previsível, a alegria despreocupada na arte não é mais concebível. Objetivamente se degenera em cinismo, independente de quanto se apoie na bondade e compreensão humanas.” (Adorno, 2001, p. 16).

É visível que o cinismo não se encontra muito distante do niilismo – termo que, por aproximação semântica, podemos relacionar com o nilema –, já que ambos os procedimentos negam as premissas fundamentais em prol de arranjos interpretativos e institucionais que favorecem a predominância do status quo. Desse modo, questionamos se existe algo mais favorável à permanência das coisas dadas do que a afirmação de uma falsa realidade

harmônica e isenta de questões, que estende sua positividade ao terreno artístico através da submissão da arte aos procedimentos técnicos e a uma linguagem potencialmente reconciliatória.

Continuando com a leitura de “Varrida”, chegamos aos versos da segunda estrofe: “o caminho através da neve de/ humanas formas” (“der Weg durch den menschen-/ gestaligen Schnee”). Nesse contexto, o caminho que a linguagem realiza pela neve adquire uma forma similar às figuras humanas. Diferentemente de Gadamer, que entende a imagem da neve (Schnee) em Celan como motivo de calma e refúgio para o poeta, entendemos a neve como uma alegoria mortuária, isto é, como a remissão ao túmulo onde jazem o corpo da mãe e dos de milhares de judeus assassinados.74 Assim, caminhar através da neve não pode ser entendido senão como um caminhar com a palavra poética entre os mortos pelas sendas de um imenso cemitério de formas humanas que jazem na brancura paradoxal da neve. Dizemos paradoxal, pois, de modo algum, a imagem do branco celaniano pode ser remetida a um estado de calma ou de luminosidade, pelo contrário, o branco em Celan é negro – como o

“leite negro da madrugada” (“Schwarze Milch der Frühe”) (Celan, 1993, p. 16-17). É, portanto, figura da negatividade, da morte que as palavras devem enfrentar para, enfim, seguir o diálogo como forma de rememoração das vítimas.

Por fim, a terceira estrofe parece revelar uma forte influência benjaminiana, no sentido em que caminhar para o fundo da fenda do tempo em direção ao cristal de sopro (“Atemkristall”) com a intenção de resgatar o testemunho irrefutável talvez possa significar um procedimento similar àquele delimitado por Benjamin no que diz respeito à necessidade de ater-se aos fragmentos e aos detalhes que se iluminam numa visada privilegiada do objeto.

Ir fundo na fenda do tempo, em outras palavras, quiçá signifique questionar o tempo a fim de que, no obscuro de sua constituição, seja possível visualizar o detalhe que anteriormente escapou às demandas previamente determinadas pela interpretação. Em termos benjaminianos, ater-se àquilo que no objeto é detalhe quer dizer ir ao encontro do agora da cognoscibilidade que resiste no tempo distante de sua narrativa continuísta e, nos versos do poema celaniano, aquilo que resiste no tempo, tributário da durabilidade do cristal, é a memória que repousa no testemunho irrefutável da catástrofe. Desse modo, podemos questionar: a quem subsiste o direito de proferir tal testemunho irrefutável? A essa questão, apenas uma resposta é permitida: aos mortos, àqueles que submergiram até o fundo da barbárie e não tiveram forças para retornar; àqueles que, na terminologia de Primo Levi, são

74 Maurice Blanchot (2011), também ressalta que a neve em Celan não possui nada de consolador, mas pelo contrário, acentua o pesar que precede o adentrar do poeta em direção ao abismo do passado.

chamados de muçulmano (der Muselmann), “a multidão anônima, continuamente renovada e sempre igual, dos não-homens que marcham em silêncio”; àqueles em que não mais existe “a centelha divina, já estão tão vazios, que nem podem sofrer” (Levi, 1988, p. 91)75. Nesse sentido, atravessar a neve de morte que se acumula nas palavras não leva a nenhum local de calmaria ou bem-aventurança, mas, ao contrário, faz afundar os olhos na frágil fenda que se abre no tempo e, assim, ir em direção à tarefa de dar legibilidade aos restos prenhes de negatividade e memória que se acumulam na durabilidade do cristal-de-detalhe.

De posse dos referencias discutidos no decorrer desse tópico, a saber, a ausência de perdão aos seus algozes, a não existência de nenhum discurso de consolo ou restituição, a adoção de uma palavra que é contra e que não lhe serve de morada, refúgio ou remissão à terra natal, a necessidade de caminhar em direção à morte presente nas palavras, o tom fúnebre existente na língua escolhida para a expressão da poesia, a legibilidade poética que se dirige a uma realidade estritamente marcada pelo negativo, o movimento de não desviar o olhar das ruínas corporais que brotam do cadáver e, sobretudo, a certeza de que a possibilidade da poesia pós-Auschwitz reside tanto na contemplação da morte como parte constituinte do falar poético quanto na consolidação de um outro direcionamento para a poesia que não aceite os discursos de apaziguamento das tensões inerentes ao negativo, podemos entender a poesia celaniana como uma poesia da negatividade. Deste modo, com a finalidade de que todos os referenciais listados acima estejam contidos na terminologia

‘poesia da negatividade’, objetivamos empreender tal termo como um operador teórico da poética celaniana atento às tensões, às negatividades e às rupturas que se sobressaem na poesia de Paul Celan em seu caminho dialógico em direção à morte e às memórias daqueles que estão mortos.