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3. A I gualdade na H istória

3.7. Os S éculos XX e XXI

3.7.2. A I gualdade em D ocumentos de C aráter E specífico

vertente. Por outro lado, a procura da efetividade dos direitos proclamados tomou forma em vários documentos legais que estiveram, e estão ainda, sujeitos a contínuo aperfeiçoamento.

Eliminação deTodas asFormas deDiscriminaçãoRacial203, que institui oComité para aEliminação da

Discriminação Racial204. Um ano depois, institui o dia 21 de março como “Dia Internacional para a

Eliminação da Discriminação Racial”. A implementação das “Décadas de Combate ao Racismo”

fizeram-se acompanhar de Conferências Mundiais dedicadas a este tema, entre as quais, a da cidade deDurban, no ano de 2001, proclamado como “AnoInternacional deMobilização contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia, e a Intolerância Conexa”. Acreditando que a luta contra a discriminação não estava definitivamente ganha, pretenderam osEstados, nesta terceira Conferência

Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Conexa, tornar efetiva a erradicação destes critérios discriminatórios, sendo que, para tal, foi emitida uma declaração política em que se reafirmam “os princípios da igualdade e não discriminação”, assim como a diversidade cultural como “elemento precioso para o progresso e bem-estar da Humanidade” (DECLARAÇÃO DA CONFERÊNCIA MUNDIAL CONTRA O RACISMO, DISCRIMINAÇÃO RACIAL, XENOFOBIA E INTOLERÂNCIA CONEXA205). É neste sentido que define um conjunto de compromissos, assim como umPrograma de Ação que insta osEstados a adotarem medidas no sentido de dar cumprimento aos objetivos enunciados na declaração.

Também o Conselho da Europa exerceu um papel fundamental na luta contra a discriminação racial, à qual fez referência desde logo, na Convenção Europeia dos Direitos do

Homem e respetivos protocolos adicionais, assim como noutros documentos de caráter geral. Em 1993, naCimeira deViena, foi novamente relembrado o facto de que “a rápida e ampla eliminação de todas as formas de racismo e discriminação racial, xenofobia e manifestações conexas de intolerância, constitui uma tarefa prioritária da comunidade internacional (CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS, 1993b), sendo então criada a Comissão Europeia contra o Racismo e a

Intolerância, cujas atividades se veem reforçadas na segunda Cimeira de Chefes de Estado, em

Estrasburgo206.

203Com entrada em vigor em 1969, este documento define “discriminação racial” como “qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência fundada na raça, cor, ascendência na origem nacional ou étnica que tenha como objectivo ou como efeito destruir ou comprometer o reconhecimento, o gozo ou o exercício, em condições de igualdade, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos domínios político, económico, social e cultural ou em qualquer outro domínio da vida pública” (no artigo 1º). Preconiza, assim, que os “EstadosPartes condenem a discriminação racial e se obriguem a prosseguir (...) uma política tendente a eliminar todas as formas de discriminação racial” (artigo 2º) (CONVENÇÃO INTERNACIONAL SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIALInPROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA

GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)).

204Este Comité contava como principal objetivo “fiscalizar e rever acções de Estados no cumprimento das suas obrigações no quadro de um instrumento internacional específico de direitos humanos”

(PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(3)).

205 In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2007.

206ConformeMINISTÉRIO DA JUSTIÇADIREÇÃO-GERAL DA POLÍTICA DE JUSTIÇA, 2008.

Entre os trabalhos desenvolvidos nesta área salientamos, ainda, a Convenção Quadro para a

Proteção das Minorias Nacionais que os membros do Conselho adotam em 1995, no sentido de

“proteger a existência das minorias nacionais no seu próprio território”, cujos direitos constituem

“parte integrante da protecção internacional dos Direitos do Homem”, afirmando que “uma sociedade pluralista e verdadeiramente democrática deve não apenas respeitar a identidade étnica, cultural, linguística e religiosa de qualquer pessoa pertencente a uma minoria nacional, mas igualmente criar condições adequadas à expressão, à preservação e ao desenvolvimento dessa identidade” (CONVENÇÃOQUADRO PARA A PROTECÇÃO DAS MINORIAS NACIONAIS207).

A Conferência Europeia contra o Racismo, promovida por este organismo em outubro de 2000, visou prosseguir os objetivos de luta contra o racismo e a intolerância, para além do que exerceu um contributo para a terceira Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,

Xenofobia eIntolerânciaConexa.

Finalmente, a União Europeia demonstrou o seu empenho nesta luta quando, para além de consagrar estes princípios nos seusTratados, desenvolve uma ação concertada que inclui a criação de organismos dedicados a esta problemática (como é o caso do European Network Against Racism, que representa mais de seiscentas organizações208, ou do Observatório Europeu do Racismo e da

Xenofobia, substituído em 2007 pelaAgência dos DireitosFundamentais daUniãoEuropeia209), assim como o desenvolvimento de inúmeros planos de ação comunitários. A adoção de legislação específica nesta área mostrou decisiva importância de forma a dar cumprimento efetivo a tal desiderato210.

-AIgualdade deGénero

Quando falamos de igualdade de género, falamos, normalmente, de direitos das mulheres, desfavorecidas ao longo daHistória daHumanidade. A luta pelos direitos das mulheres constituiu um

207 In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1).

208ConformeCOMISSÃO EUROPEIA, 2009.

209ConformeCONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA, 2007.

210Em 2000, aDiretiva 2000/43/CE, que aplica oPrincípio daIgualdade deTratamento entre asPessoas, sem

Distinção de Origem Racial ouÉtnica, conta como objetivo principal “estabelecer um quadro jurídico para o combate à discriminação baseada em motivos de origem racial ou étnica, com vista a pôr em prática nos

Estados-Membros o princípio da igualdade de tratamento” (artigo1º), igualdade que define como “a ausência de qualquer discriminação, directa ou indirecta, em razão da origem racial ou étnica” (artigo2º). Como discriminação direta considera “sempre que, em razão da origem racial ou étnica, uma pessoa seja objecto de tratamento menos favorável que aquele que é, tenha sido ou possa vir a ser dado a outra pessoa em situação comparável” e discriminação indireta “sempre que uma disposição, critério ou prática aparentemente neutra coloque pessoas de uma dada origem racial ou étnica numa situação de desvantagem comparativamente com outras pessoas, a não ser que essa disposição, critério ou prática seja objectivamente justificada por um objectivo legítimo e que os meios utilizados para o alcançar sejam adequados e necessários” (CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA, 2000).

processo que atravessou os séculos e ganhou amplitude nos séculos XIXe XX211. Hoje, como refere

DOMINGUES F(2010) “em nenhuma Constituição dos países civilizados actuais se faz discriminação entre homens e mulheres quanto aos direitos: todos são igualmente cidadãos”.

A preocupação da ONU e das instituições a ela ligadas, no que respeita aos direitos das mulheres, levou a que, para além do assente nos documentos de caráter geral, fossem aprovados outros instrumentos que promovessem uma efetiva igualdade de género, como foi o caso da

Convenção sobre aEliminação deTodas as Formas deDiscriminação contra as Mulheres, de 1972212. Em 1975, aONUoficializaria mesmo o dia 8 de março como o “DiaInternacional daMulher”.

A realização das Conferências Mundiais sobre Mulheres, assim como as resoluções adotadas pela organização213e pelos organismos a ela ligados, no que concerne à igualdade de género, visaram contribuir para o cumprimento de tal desiderato214.

211Como contam os autores, em 21 de junho de 1908, cerca de 250 mil defensoras dos direitos femininos participaram numa manifestação realizada no Hyde Park de Londres, exigindo o direito de voto para as mulheres e igualdade social. Já em 1910, é criada a Associação Mundial para o Direito de Voto Feminino, considerada como entre as maiores organizações internacionais. Em Portugal, conta-se que Carolina Beatriz

Ângelo vendo recusado, em 1911, o seu pedido de inscrição nos cadernos eleitorais, levou o caso a tribunal e ganhou a causa, tendo-se tornado a primeira portuguesa a exercer o direito de voto (tudo conformeREIS Aet al, 2004).

212Adotada em 1979, entrou em vigor na ordem internacional em 1981. Define, no artigo 1º, “discriminação contra as mulheres” como “qualquer distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo que tenha como efeito ou como objectivo comprometer ou destruir o reconhecimento, o gozo ou o exercício pelas mulheres, seja qual for o seu estado civil, com base na igualdade dos homens e das mulheres, dos direitos do homem e das liberdades fundamentais nos domínios, político, económico, social, cultural e civil ou em qualquer outro domínio”. Deste modo, estabelece (artigo 2º) que “os Estados Partes condenam a discriminação contra as mulheres sob todas as suas formas” e prevê, ainda, medidas de discriminação positiva com o objetivo de conseguir a “instauração de uma igualdade de facto entre os homens e as mulheres” (artigo 4º) (CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO CONTRA AS MULHERES In

PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)). A entrada em vigor, a 22 de dezembro de 2000, do Protocolo Facultativo à Convenção sobre a

Eliminação deTodas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, reforçou o objetivo da convenção na promoção dos direitos das mulheres, permitindo ao Comité para a Eliminação da Discriminação contra as

Mulheres (instituído no artigo 17º daConvenção) a aceitação de queixas assim como a abertura de inquéritos (conforme PROTOCOLO OPCIONAL À CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINÇÃO CONTRA AS MULHERES In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)).

213Entre estas, aResolução do Conselho de Segurança das NaçõesUnidas nº1325, de 2000, sobreMulheres,

Paz e Segurança (implementada em Portugal pela Resolução do Conselho de Ministros nº 71/2009), é considerada como uma das mais importantes no sentido em que conta com o objetivo de “aumentar a participação das mulheres e integrar a dimensão da igualdade de género em todas as fases de construção da paz, incluindo em todos os níveis de decisão” (PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS, 2009).

214A título de exemplo, refere-se, no âmbito daOIT: aConvenção nº 100 relativa àIgualdade deRemuneração entreMão-de-Obra Masculina e aMão-de-ObraFeminina emTrabalho de Valor Igual, adotada em 1951, que preconiza que os Estados-Membros devem “assegurar a aplicação a todos os trabalhadores do princípio de igualdade de remuneração entre a mão-de-obra masculina e a mão-de-obra feminina por um trabalho de igual valor” (CONVENÇÃO Nº 100DA OIT RELATIVA À IGUALDADE DE REMUNERAÇÃO ENTRE MÃO-DE-OBRA MASCULINA E A MÃO-DE-OBRA FEMININA EM TRABALHO DE VALOR IGUAL In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)); e, a Convenção nº 156, relativa àIgualdade de Oportunidades e deTratamento para os Trabalhadores dosDois Sexos:Trabalhadores

OConselho da Europa desenvolveu também uma importante ação nesta matéria, desde logo refletida naConvençãoEuropeia dosDireitos doHomem. Reafirmou, ainda, os direitos das mulheres como parte indivisível dos Direitos Humanos na Declaração e Programa de Ação de Viena, quando preconiza que “osDireitosHumanos das mulheres e das crianças do sexo feminino constituem uma parte inalienável, integral e indivisível dos Direitos Humanos universais” e apela “à erradicação de todas as formas de discriminação, flagrantes ou ocultas, de que as mulheres são vítimas”

(CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS, 1993c).

A igualdade entre homens e mulheres é, ainda, considerada como um princípio fundamental da União Europeia, plasmada, desde logo, nos seus Tratados, assim como na Carta dos Direitos

Fundamentais daUniãoEuropeia215. Entre os pareceres adotados por este órgão, outros instrumentos houve no sentido de concretizar este princípio216.

-AIgualdade emFunção daIdade

A história da Infância nem sempre se pautou por uma realidade de que nos orgulhamos.

Aliás, esse foi o mote para a emergência, nos últimos séculos, de documentos diretamente focados nos interesses das crianças, como forma de preservar direitos e proteção a um grupo etário com características próprias.

comResponsabilidadesFamiliares, adotada em 1981, que visa essencialmente os “trabalhadores de ambos os sexos com responsabilidades para com os filhos a seu cargo, quando essas responsabilidades limitem as suas possibilidades de se prepararem para a actividade económica, de acederem a ela, de nela participarem ou progredirem”, assim como “trabalhadores de ambos os sexos com responsabilidades para com outros membros da sua família directa que tenham uma necessidade manifesta dos seus cuidados ou do seu amparo, quando essas responsabilidades limitarem as suas possibilidades de se prepararem para a actividade económica, de acederem a ela, de nela participarem ou progredirem”, não estabelecendo, portanto, distinções de tratamento entre os dois sexos (CONVENÇÃO Nº 156 DA OIT RELATIVA À IGUALDADE DE OPORTUNIDADES E DE TRATAMENTO PARA OS TRABALHADORES DOS DOIS SEXOS:TRABALHADORES COM RESPONSABILIDADES FAMILIARES In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(2)).

215 A alusão a este princípio encontra-se neste documento, para além do artigo 21º, sobre “Não

Discriminação”, no artigo 23º, que preconiza a “igualdade entre homens e mulheres em todos os domínios”

(UNIÃO EUROPEIA, 2010b).

216 É o caso da Diretiva 2004/113/CE, que aplica oPrincípio de Igualdade de Tratamento entre Homens e

Mulheres no Acesso a Bens e Serviços e seu Fornecimento (CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA, 2004), assim como o Regulamento (CE) nº 806/2004 sobre Promoção da Igualdade entre Homens e Mulheres. Este regulamento prevê, “por um lado, a integração da dimensão do género no conjunto das políticas fundamentais em matéria de cooperação e de desenvolvimento, que será complementada com a adopção de medidas específicas destinadas a favorecer a emancipação das mulheres e o seu papel nos domínios económico, social e ambiental” e, por outro, “sublinha o papel transversal da igualdade entre homens e mulheres no quadro do financiamento comunitário relativo ao desenvolvimento e prevê o apoio ao desenvolvimento das capacidades públicas e privadas dos países em desenvolvimento que possam assumir a responsabilidade e tomar a iniciativa de promover a igualdade entre homens e mulheres” (PARLAMENTO EUROPEU;CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA, 2004).

O mesmo aconteceu com o estatuto da pessoa idosa. O aumento da esperança média de vida e as alterações sofridas nos estilos de vida das populações trouxeram novas necessidades de atuação nesta área com vista a suprir necessidades emergentes. Exigia-se, pois, que as organizações direcionassem também o seu trabalho para esta problemática.

Em 1924, a Sociedade das Nações adotou a Declaração dos Direitos da Criança onde reconhecia que a criança deveria ser protegida “independentemente de qualquer consideração de raça, nacionalidade ou crença” (DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA, 1924217). Após a Segunda

Guerra Mundial, a preocupação internacional com os direitos da criança fez com que o Conselho

Económico eSocial dasNaçõesUnidas recomendasse a adoção da mesma declaração com o objetivo de direcionar as atenções do mundo do pós-Guerra para esta problemática. Fundou assim, em 1946, o Fundo de Emergência das Nações Unidas para as Crianças que daria lugar, em 1950, a um órgão especial de caráter permanente, o Fundo das Nações Unidas para a Infância. Com a adoção da

DeclaraçãoUniversal dosDireitos doHomem, as Nações Unidas proclamavam uma série de direitos universais de que todos os seres humanos, incluindo as crianças, deveriam gozar218, reforçando o seu caráter no Pacto Internacional dos DireitosCivis e Políticos219. Mais tarde, a Declaração dos Direitos da Criança, de 1959220, e a Convenção sobre os Direitos da Criança221 (adotada pela Assembleia das

217 In MONTEIRO A, 2002. Este documento, conhecido como Declaração de Genebra, tecia uma série de direitos relativos à criança, nomeadamente ao seu desenvolvimento material e espiritual, à alimentação, à educação e à sua proteção face ao perigo e contra a exploração.

218 No artigo 25º desta declaração, podemos ver uma alusão específica à criança, quando refere que “a maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais”, para além do que, numa perspetiva de igualdade no seio deste grupo, preconiza que “todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam da mesma protecção social” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948c).

219No artigo 24º, preconiza o direito da criança “às medidas de protecção que exija a sua condição de menor”

sem discriminação alguma por motivo “de raça, cor, sexo, língua, religião, origem nacional ou social, propriedade ou nascimento” (PACTO INTERNACIONAL SOBRE OS DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS, 1996b In

PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)).

220 Este documento previa um estatuto de proteção especial à criança, em decorrência da “sua falta de maturidade física e intelectual”, estabelecendo, por conseguinte, a igualdade entre todas as crianças “sem distinção ou discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou da sua família” (princípio 1º), devendo para tal ser protegida “contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza” (princípio 10º). No princípio 7º, numa perspetiva de igualdade de oportunidades, prevê o direito igual à “educação, que deve ser gratuita e obrigatória, pelo menos nos graus elementares”, propícia a, “em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as suas aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um membro útil à sociedade”. Condena, deste modo, no que à criança respeita, (no princípio 9º) “todas as formas de abandono, crueldade e exploração”, “tráfico”, assim como empregar-se “antes de uma idade mínima adequada” ou dedicar-se a “ocupação ou emprego que possa prejudicar a sua saúde e impedir o seu desenvolvimento físico, mental e moral” (DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA In PROCURADORIA

-GERAL DA REPÚBLICAGABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)).

221Este documento define como criança “todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo” (artigo 1º), sendo que “os Estados Partes comprometem-se a respeitar e a garantir os direitos previstos na presenteConvenção a todas as crianças que

Nações Unidas em 1989), constituiriam documentos com contributo fundamental na proteção dos direitos da criança, sendo que a segunda veio imprimir o valor jurídico que a primeira não apresentava. Estes instrumentos internacionais viriam, ainda, a constituir fonte de inspiração para muitos outros, no reforço da discussão pública e da adoção de jurisdição nesta área222.

No nossoContinente, para além do assente nos documentos de caráter geral, oConselho da

Europa adotou, em 1996, a ConvençãoEuropeia sobre o Exercício dos Direitos daCriança, que veio alicerçar os interesses das crianças através de um conjunto de medidas processuais, contando, também, com a instituição de umComité de forma a fazer valer os seus direitos223.

No que à pessoa idosa diz respeito, o Plano de Acção Internacional sobre os Idosos foi adotado pela Assembleia Mundial sobre os Idosos, assim como outros instrumentos o foram por organismos como aOMSe aOIT. Finalmente, aONUadota, em 1991, osPrincípios dasNaçõesUnidas para as Pessoas Idosas, em que encoraja os governos a incorporarem determinados princípios nos seus programas nacionais, nomeadamente no que se refere a critérios de independência, participação, assistência, realização pessoal e dignidade, preconizando ainda o tratamento justo da população idosa “independentemente da sua idade, género, origem racial ou étnica, deficiência ou outra condição” e a sua valorização, “independentemente da sua contribuição económica”

(PRINCÍPIOS DAS NAÇÕES UNIDAS PARA AS PESSOAS IDOSAS224).

A União Europeia nomeia estes dois grupos etários como foco de especial atenção e proteção, refletindo-o nos seusTratados e naCarta dos DireitosFundamentais daUnião Europeia225 do mesmo modo que nos programas de ação comunitários levados a cabo nos últimos anos.

se encontrem sujeitas à sua jurisdição, sem discriminação alguma” (artigo 2º), e ainda que todas as decisões relativas a crianças “terão primacialmente em conta o interesse superior da criança” (artigo 3º). Para além do conceito de proteção, este documento acrescenta o de participação, no sentido em que reconhece à criança novos direitos e liberdades fundamentais, nomeadamente o de exprimir os seus pontos de vista (artigo 13º) e de ver a sua opinião ser tomada em conta (artigo 12º), assim como a liberdade de consciência e religião (artigo 14º), bem como de associação (artigo 15º), entre outros aspetos. O artigo 43º daConvenção cria oComité dos

Direitos da Criança, um órgão especialmente dedicado a esta área de intervenção. Esta convenção contou ainda com dois protocolos facultativos: o primeiro, relativo à venda de crianças, prostituição e pornografia infantis, adotado pelaONUem 2000; o segundo, relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados (CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇAInPROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICAGABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1)).

222 Outros instrumentos universais podem ser encontrados em PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA

GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1).

223 Conforme CONVENÇÃO EUROPEIA SOBRE O EXERCÍCIO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS In

PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICAGABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(1).

224 In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(2).

225Neste documento, para além do assente no artigo 21º sobre “NãoDiscriminação”, o artigo 24º debruça-se sobre os “Direitos das Crianças” e o artigo 25º sobre os “Direitos das Pessoas Idosas” (conforme UNIÃO EUROPEIA, 2010).

- AIgualdade nasPessoasPortadoras deDeficiência

Os direitos das pessoas portadoras de deficiência foram alvo de preocupação de várias organizações, de que aONU não é exceção. Muito embora os seus documentos de caráter geral não se dirijam especificamente à proibição da discriminação em razão da deficiência, será fácil de a deduzir, tendo em conta que todos eles proclamam a igual dignidade de todos os seres humanos, assim como, naDeclaraçãoUniversal dosDireitos doHomem e nosPactosInternacionais deDireitos se assume a proibição de discriminação em qualquer outra situação para além das citadas.

A sua ação direta tomou forma no “Ano Internacional das Pessoas Deficientes”, celebrado em 1981, que resultou noProgramaMundial deAcçãoRelativo àsPessoas com Deficiência, aprovado no ano seguinte226. Mais tarde, com a aprovação das Regras Gerais sobre a Igualdade de

Oportunidades paraPessoas comDeficiência, é estabelecida a necessidade de intensificar esforços no sentido de “conseguir que as pessoas com deficiência possam participar plenamente na sociedade e desfrutar dos direitos humanos em condições de igualdade” (REGRAS GERAIS SOBRE A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA)227. A Convenção sobre os Direitos das

Pessoas comDeficiência vem reforçar esta ideia reconhecendo que “a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interacção entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efectiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”, dado que o seu propósito passa por

“promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua

226ConformeASSEMBLEIA DAS NAÇÕES UNIDAS, 1982.

227Nestes esforços, inclui o documento o dever de os Estados velarem “para que os programas de educação pública reflictam, em todos os seus aspectos, o princípio da plena participação e igualdade” (regra nº1), assim como de reconhecerem “a importância global das possibilidades de acesso dentro do processo de conseguir a igualdade de oportunidades em todas as esferas da sociedade” (regra nº5), nomeadamente: no campo da educação, velando “para que a educação das pessoas com deficiência constitua uma parte integrante do sistema de ensino” (regra nº6); no emprego, assegurando “igualdade de oportunidades para obter um emprego produtivo e remunerado no mercado de trabalho”, tanto “em zonas rurais como nas urbanas” (regra nº7), através de medidas com vista a “apoiar activamente a integração das pessoas com deficiência no mercado de trabalho” e a estimular “os empregadores para que haja ajustamentos razoáveis para dar espaço a pessoas deficientes” (regra nº7); na cultura, velando “para que as pessoas com deficiência se integrem e possam participar nas actividades culturais em condições de igualdade” (regra nº10); nas atividades recreativas e desportivas, onde oEstado deve intervir no sentido de “assegurar que as pessoas com deficiência tenham igualdade de oportunidades” (regra nº11); na religião, visto que os “Estados devem promover a adopção de medidas para a participação das pessoas com deficiência na vida religiosa da sua comunidade em pé de igualdade” (regra nº12); e, ainda ao nível da legislação, onde devem ser criadas “bases jurídicas para a adopção de medidas destinadas a conseguir os objectivos de plena participação e de igualdade para pessoas com deficiências” (regra nº15) (REGRAS GERAIS SOBRE A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(2)).

dignidade inerente” (CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIAa228). Defende ainda que “as medidas específicas que forem necessárias para acelerar ou alcançar a efectiva igualdade das pessoas com deficiência não serão consideradas discriminatórias” (CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIAb229).

No âmbito do Conselho da Europa e do assente na Convenção Europeia dos Direitos do

Homem 230, a Declaração de Viena vem assumir que “qualquer discriminação directa ou outro tratamento discriminatório negativo de uma pessoa com deficiência constitui uma violação dos seus direitos” (CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS, 1993d).

A União Europeia aborda esta problemática, nomeadamente nos artigos 21º (sobre “Não

Discriminação”) e 26º (sobre “Integração das Pessoas com Deficiência”) da Carta dos Direitos

Fundamentais da União Europeia. No primeiro dos aludidos artigos, preconiza a proibição da discriminação, nomeadamente em razão de deficiência, acrescentando, no segundo, “o direito das pessoas com deficiência a beneficiarem de medidas destinadas a assegurar a sua autonomia, a sua integração social e profissional e a sua participação na vida da comunidade” (UNIÃO EUROPEIA, 2010c). Entre os trabalhos da União nesta área encontra-se ainda o European Disability Forum, organismo criado com o objetivo de defender os interesses das pessoas portadoras de deficiência na

Europa231. Mais recentemente, o “Ano Europeu das Pessoas com Deficiência”, em 2003, pretendeu, entre outros pontos, sensibilizar a população e promover a reflexão e o debate sobre esta problemática. OConselho emitiu ainda, nos últimos anos, um conjunto de resoluções no sentido de fazer cumprir os princípios proclamados.

- AIgualdade noDireito a umAmbienteSaudável: asGeraçõesVindouras

A perceção internacional da degradação progressiva do Ambiente bem como do contributo humano para tal situação aconteceu sobretudo nos séculos XX e XXI. Por outro lado, a nova Era desenvolveu a noção de igualdade de direitos entre os homens, assim como o igual direito a um ambiente propício ao seu desenvolvimento. Compreendeu, então, oHomem que estes dois fatores poderiam entrar em rutura, nomeadamente quando estes direitos se alargavam às gerações futuras, uma vez que ele destruía dia a dia o seu planeta.

228 In PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA GABINETE DE DOCUMENTAÇÃO E DIREITO COMPARADO, 2008(2).

229Idem.

230Muito embora não haja uma alusão direta, neste documento, à discriminação em razão da existência de uma deficiência, defende a proibição da discriminação sem qualquer distinção, no seu artigo 14º (conforme

CONSELHO DA EUROPA, 1950).

231ConformeCOMISSÃO EUROPEIA, 2009.

O primeiro documento da ONU no que respeita diretamente às questões ambientais foi a

Declaração deEstocolmo, de 1972, que surge como resultado da I ConferênciaMundial sobre oMeio

Ambiente, realizada, nesse mesmo ano, na aludida cidade. Assumia, então, logo no seu 1º princípio, que “o Homem tem o direito à igualdade, à liberdade e a condições de vida satisfatórias, num ambiente cuja qualidade lhe permita viver com dignidade e bem-estar, cabendo-lhe o dever solene de proteger e melhorar o ambiente para as gerações vindouras”, condenando deste modo “as políticas que promovam ou perpetuem o apartheid, a segregação racial, a discriminação e as formas coloniais ou outras, de opressão e de domínio estrangeiro” (DECLARAÇÃO DE ESTOCOLMO, 1972a232).

Alertava, neste sentido, para a necessidade de uma educação ambiental (princípio 19), prevendo as classes desfavorecidas: “é essencial ministrar o ensino, em matérias de ambiente, à juventude assim como aos adultos, tendo em devida consideração os menos favorecidos”; bem como defendia a participação de todos os países nos “assuntos internacionais relativos à protecção e à melhoria do ambiente”, em “espírito de cooperação e em pé de igualdade” (princípio 24) (DECLARAÇÃO DE ESTOCOLMO, 1972b233).

Mais tarde, na Declaração de Viena, a necessidade de um desenvolvimento sustentável é novamente relembrada quando osEstados-Membros doConselho daEuropa afirmam que “o direito ao desenvolvimento deverá ser realizado de modo a satisfazer, de forma equitativa, as necessidades de desenvolvimento e ambientais das gerações presentes e vindouras” (CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS, 1993e).

Os documentos de caráter ambiental, mormente no contexto europeu, multiplicaram-se e abordaram temas diversos como a proteção da camada do ozono, a poluição química e sonora, os resíduos, a proteção da fauna e da flora, a qualidade do ar e da água, entre outros. Nestes documentos podemos, pois, encontrar três faces do conceito de igualdade, nomeadamente: do direito de todos os seres humanos a um ambiente favorável; do direito das gerações vindouras ao usufruto de um ambiente com as mesmas características; uma igualdade de compromisso dos

Estados, atendendo a situações específicas de cada um, face a tal desiderato.

- AIgualdade e aOrientaçãoSexual

Numa cultura que cresceu e organizou a sua vivência na heterossexualidade, a aceitação de outro tipo de orientação sexual gerou confusão entre os organismos governamentais e mesmo na população em geral, porventura ainda longe de estar concluída.

232InINFOPÉDIA[em linha]: Declaração deEstocolmo (1972).

233Idem.