3. DA JUSTIÇA E DA IGUALDADE
3.4. A IDEIA DE JUSTIÇA EQUITATIVA E O PRINCÍPIO DA
exemplificando como se H fosse equitativamente igual a H, resumido na expressão
H=H, tem-se aparentemente um fato. Está-se falando das mesmas letras, ocupantes
do mesmo local no alfabeto. Contudo, quanto à expressão H=h, toma-se certa
precaução, pois apesar de ainda se tratar das mesmas letras (latu sensu), uma
muito se distingue da outra. Desde o simples preconceito de estética formulado pela
visão inerente ao signo, até mesmo na ortografia quando distinguidas conforme o
local da palavra na oração, diferenciando-as quando no início de uma oração com
um H (maiúsculo) e um h (minúsculo) nas demais posições. H maiúsculo que não se
118
confunde semanticamente com o outro H maiúsculo inerente ao significado da
expressão em que este está inserido, assim é com o sentido da proposição “História”
como ciência humana, da outra palavra – “história”. Nem confundido quando usado
para distinção entre substantivos próprios e comuns. São diferenciados, também,
em sua pronúncia, conforme sua posição dentro de uma palavra, o h na palavra
“helicóptero” – que possui valor simbólico
119– não tem o mesmo som do h na
palavra “espelho”. Diante de tal análise, vê-se que a expressão h=h não é uma
verdade absoluta, assim como H=H, pois se fossem equitativas, as letras h poderiam
ser analisadas em qualquer circunstância e seriam todas iguais. De forma que as
expressões: Há, ah!, Hannah, helicóptero, História e história, possuem a letra h
igualmente equitativa somente quando vista de forma isolada de sua direção
significativa
120, e empregado a ela a etiqueta sonora “agá” ou um dos signos h/H:
H-á, a-h-!, H-anna-h, h-elicóptero, H-istória e h-istória. Para, finalmente, formular uma
afirmação preconceituosa: “– estes são h (agás)!”. Mostra-se, dessa forma uma
equitativa verdadeira, porém a sua possibilidade de demonstrabilidade, e referência
com o princípio da igualdade
121, depende da sua análise hipotética, nunca factual.
Observa-se, também, que as distinções de h estão intimamente ligadas ao local
onde ela está empregada – sua volta. Portanto, ter uma ideia do h e diante dela
definir as demais letras que correspondem materialmente a ela (etiqueta sonora agá
e ou signo h/H) como iguais é proceder de forma transcendente ao buscar, a partir
do modelo universal, por igualdade sem levar em conta os demais fatores de
historicidade, fatores históricos, ambientais, etc.
Para que esse proceder transcendental não ocorra no Direito Penal, existe o
princípio da individualização da pena. Porém, este não se mostra eficaz ao que se
propõe pelos motivos anteriormente citados de criminalização, segregação, do
homem médio, etc.
Para reaver o objetivo de proporcionar igualdade material, em demasia a
determinados casos que envolvem sérios déficits estatais, é que se faz necessário o
uso do princípio da coculpabilidade. Esta compreensão é possível através da
119
BECHARA, 2015, p. 94. 120
Ou seja, isolada do significado que ela tem dentro do contexto da expressão com base em seu signo e posição.
121 Princípio da identidade formulado por Parmênides (530 a. C. – 460 d. C.). Segundo este princípio todo objeto é idêntico a si mesmo, ou seja a=a, e mesmo que se afirme que a=b, pode-se pressupor que (a=a) = (b=b).
analogia às liberdades conquistadas nas revoluções burguesas na Europa que
proporcionaram liberdade aparente, somente formal, necessitando do
reconhecimento do direito a igualdade para serem efetivadas no plano material
122.
O princípio da coculpabilidade se propõe a análise da igualdade material de
modo mais amplo e, consequentemente, a aproximação maior da justiça (strictu
sensu). Como um ciclo, volta-se ao mesmo impasse das revoluções burguesas e a
necessária evolução epistemológica para efetivar um direito posto, mas sem
eficácia.
Pois, ao contrário do que reza um dos argumentos da justificação da pena,
torna-se estranho pensar em ressocializar alguém que não possuí o ímpeto social
inato. No sentido de que não lhe fora oferecido alternativa efetiva de mudança de
paradigma social ao qual pertence. Portanto, esse indivíduo, não se coadunando ao
espírito social de forma harmônica por conta da total inobservância do Estado como
garantidor, não pode ser tratado como elemento à parte da sociedade, “como
doença social”.
O Estado, como garantidor de todos se torna a primeira fonte do dever de
evitar os resultados provenientes da falta de elementos básicos à formação
psicossocial e pessoal da autodeterminação, é a obrigação de cuidar, proteção e
vigilância imposta por lei e princípios. Porém, o que há é a negligência daqueles
deveres, e a procura de forma estranha e desmedida o dever de vigilância.
Aqui se volta à questão inicial da primeira parte do presente trabalho: sendo o
Estado inadimplente com seus cidadãos, como possui legitimidade para tratar, no
momento da valoração penal, de forma equânime os indivíduos, ou pior, de forma
inquisitorial?
A resposta para esta questão pode estar nas linhas iniciais da Teologia Política
de Carl Schmitt: “Soberano é que decide sobre a exceção”
123, assim demostrando a
evidente força do ente estatal perante os demais indivíduos. Porém, muito se
distancia este conceito do sentido de Estado Democrático de Direito, que termina
por afastar tal resposta, ao menos em seu caráter formal. Antes deve o Estado
Democrático assumir sua parcela de culpa (latu sensu) perante o caso concreto. O
cidadão não deixa de ser cidadão – nem humano – quando comete uma infração.
122
CARVALHO, 2002. 123