2. LIVRE-ABÍTRIO, DETERMINISMO, NEURODETERMINISMO,
2.7. O PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE E O COMPATIBILISMO
coculpabilidade o determinismo proposto pela teoria de Ferri, tampouco o
indeterminismo do livre-arbítrio, pelo fato de que ambos não são respostas
adequadas ao Direito Penal. O determinismo por negar desde a gênese a liberdade
80
KHALED Jr, Salah H. O problema da indemonstrabilidade do livre-arbítrio: a culpabilidade jurídico-penal diante da nova concepção de homem da neurociência. Sociologia Jurídica: número 10, Janeiro-julho de 2010. cap. 3.
81 “As consequências do compatibilismo humanista [...]: a) Em caso de que novos conhecimentos empíricos, obtidos, por exemplo, através das modernas técnicas de neuroimagem, demostrem que se vinham impondo penas em casos nos que agora sabemos que a conduta delitiva se devia a déficits cerebrais, isso deve ser tido em conta a favor do autor. Em particular é muito provável que os novos conhecimentos deem lugar a uma ampliação dos casos de inimputabilidade e semi-imputabilidade (Feijo Sánchez, 2011, 39). b) qualquer medida que se pudesse adotar como alternativa ao castigo tradicional, em todos os casos mencionados anteriormente, deveria respeitar sempre os mesmos limites e garantias materiais e processuais que amparam os sujeitos considerados culpáveis no marco do Estado de Direito.” (BUSSATO, Paulo Cesar. Neurociência e direito penal. São Paulo: Atlas, 2014. pp. 41-42).
de vontade, e o livre-arbítrio por acredita-lo como ponto de partida e suficiente por si
só para castigar. Ao contrário deste dualismo, o princípio da coculpabilidade oferece
o meio termo, uma via interpretativa alternativa dos extremos do livre-arbítrio de um
lado e do determinismo de outro.
Pois, é evidente que fatores biológicos favorecem determinadas habilidades,
mas, contudo, não há de se negar que o ambiente possui influência direta nas
atitudes. Pois age, antes, na própria personalidade do sujeito. Não o obrigando
diretamente a determinada atitude delituosa, mas age de maneira incisiva,
providenciando o ambiente favorável para seu afloramento.
Assim, é rigorosamente simples afirmar que determinado sujeito não está
fadado à vida criminosa por pertencer a um meio precário, porém, é uma concepção
romântica acreditar que o ambiente não influi no agir. Em que, todo ser é antes fruto
de seu tempo em um determinado local, estes fatores de sua história e historicidade.
Este conjunto tempo/local age de maneira direta na autodeterminação.
Vê-se esta influência do meio por sobre o indivíduo no pensamento de
Immanuel Kant (1974), em sua alegoria do quarto escuro
82: Supondo que se entre
num quarto conhecido anteriormente, mas agora escuro e que fora reorganizado na
ausência do ingresso, a movimentação no interior do quarto será possível com um
conhecimento a priori do mesmo, em paralelo ao uso de ferramentas da consciência
e da racionalidade – como as noções de esquerda, direita, cima, baixo, frente e
atrás. Porém, este conhecimento, tanto a priori quanto racional de esquerda, direita,
etc, muito pouco ou nada poderá ajudar ao pleno mover-se dentro do quarto, agora
modificado. Então, supondo também, a vontade de apanhar algum objeto qualquer
dentro do quarto, que conforme o conhecimento a priori, sabe-se a sua posição – na
esquerda, na direita, etc. –, agora, diante da nova realocação, não será possível o
alcance de tal objeto pela interferência que o meio promove na subjetividade do agir
intuitivo e racional, desprezando o conhecimento que se tem a priori do quarto e as
noções cognitivas de esquerda, direita, etc. Destarte, não possibilitando, ao entrante,
alternativa distinta do uso dos meios que detém no momento – tato – para
possibilitar a movimentação ou apanhe do objeto no interior do quarto.
Influência esta que está presente também no pensamento de Martin Heidegger
(1993), em que demonstra diversas vezes o influxo que o meio proporciona ao
82
KANT, Immanuel, Was heisst: Sich im Denken orientieren? (1786) WW. (Akad. Ausgabe), tomo VIII, p.131-147. Ed. brasileira: Immanuel Kant, textosseletos, p.76, Ed. Vozes, Petrópolis, 1974.
indivíduo (dito de maneira demasiada genérica).
O Autor escreve no seu livro Ser e Tempo no sentido que um caminho, por
mais “objetivamente” longo que pareça, pode ser mais curto do que um caminho
objetivamente curto, pois talvez, seja uma “difícil caminhada” e, por isso, possa se
apresente como um caminho sem fim. E é nesse “apresentar-se” – tempo e local –
que cada mundo – vida, personalidade – está propriamente à mão. Esta ideia que
Heidegger explica se relaciona com a questão levantada no primeiro capítulo, onde
foi abordada a classe qual se nasce que tem a potencialidade de transformar
homens em humanos e homens em objetos, usáveis, descartáveis, etc.
Neste mesmo sentido Busato:
Desse modo, antes mesmo de nascer, o indivíduo humano se descobre condicionado pelas influências do meio que atuam sobre a sua mãe. No processo gestacional a ausência de cuidados pré-natais, a pressão psicológica sobre a matriz, estes fatores influenciam o nascituro (BUSATO, 2014).