3 FUNDAMENTOS ESPISTEMOLÓGICOS
3.5 FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DO TRABALHO HUMANO
3.5.2 Trabalho humano: apresentação e análise
3.5.2.1 A ideia e o trabalho interior
Fazer um trabalho e realizá-lo requer uma ideia pré-existente na mente do trabalhador. Se a ideia não é dele próprio, ela é de outra pessoa. As receitas de cozinha, as plantas de casa e edifício, as fórmulas, pré-projetos e projetos de tese são, por exemplo, entre outros, tantas maneiras de como a ideia se apresenta. O que quer dizer que, o homem, na sua mente, constrói projetos antes de realizá-los.
Esta ideia, formada na mente do trabalhador, mostra que o trabalho humano carrega realmente uma intencionalidade do homem que trabalha. Pode-se dizer que o trabalho humano, por causa desta carga intencional, tem desde a fase embrionária da ideia inicial, uma marca identitária do trabalhador (SOARES; COSTA, 2011).
Esta intencionalidade, que tem sua fonte na ideia, mostra também, ao mesmo tempo, que o trabalho é uma atividade especificamente humana. É nesta perspectiva que Karl Marx afirmava no seu livro O Capital a respeito da ideia:
Uma aranha executa operações semelhantes ao tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto h h é f construção antes de transformá-lo em realidade. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que á existia antes idealmente na imaginação do trabalhador (MARX, 2017, p.202).
Esta comparação dá ao homem o privilégio de ser o único animal capaz de trabalhar realmente por causa das suas capacidades racionais e afetivas. O trabalho humano é intencional; é principalmente por isso que ele é um verdadeiro processo civilizatório. Marx observa nesta perspectiva:
A noção de intencionalidade permite-nos entender o trabalho como um processo civilizatório, por meio do qual o homem se distanciou dos outros primatas, construiu os seus primeiros instrumentos e perpetuou a técnicas de confecção deles. O processo civilizatório de trabalho traduz-se em atividade humana orientada para um determinado fim no intuito de produzir valores de uso, bens resultantes do intercâmbio entre o homem e a natureza. Partindo deste entendimento, o ato de trabalhar consiste na apropriação da natureza para a satisfação das necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre o homem e a natureza, comum a todas as formas sociais (MARX, 2017, p.20).
Esta ideia inicial que dá a intencionalidade ao trabalho manifesta e revela para Marx a capacidade do homem de produzir e melhorar as suas condições de vida. Pelo trabalho, o ser humano doma o mundo e a si mesmo. O trabalho faz sair o homem do estado de natureza selvagem para um estado de civilização. É obvio que a construção das cidades, as invenções técnicas, a evolução, hoje em dia dos meios de comunicações e suas tecnologias são resultantes do trabalho humano. Todas estas obras têm como fonte a ideia inicial, este trabalho interior, que vai exteriorizar-se.
A ideia no trabalho determina, orienta e capacita o ser humano a fazer, a realizar e realizar-se. É, por exemplo, conhecido que, num aspecto psicológico, muitas terapias de recuperação nos casos de tratamento comportamental de alguns vícios e dependências, de algumas distorções comportamentais fazem uso do trabalho como um dos meios terapêuticos. Só com a ideia de trabalhar, de fazer algo, o homem determina-se, orienta-se, pode até reequilibrar-se nos tempos de desordem emocional e psíquica. A ideia pode ser até mesmo fonte e início de um novo modo comportamental para o homem.
O sentido grego do trabalho, enquanto atividade, vem reforçar e tonificar este aspecto da ideia como fonte. A ideia é fonte e início do trabalho humano. É neste aspecto que os gregos antigos usavam o termo “ποίήσίς” - o que literalmente significa- “criar” para designar o trabalho. Criar no sentido em que surge uma novidade, no sentido de invenção de algo novo pelo ato de fazer. Pela ideia inicial do trabalho, o homem cria e inventa sua vida exterior e interior. É neste sentido que, na fase de realização, o trabalho vai ser para o homem um meio de criação das suas condições de existência e de vida (PHILIPPE, 2002).
O ser humano é criador das suas atividades de vida. Das atividades mais simples as mais complexas, o homem trabalha. Do trabalho de nutrição de seu próprio organismo, ao trabalho de construção de sua própria identidade - psicológica, humana, pessoal - passando pela construção da sua habitação, o ser humano trabalha. Ele inventa-se, ele cria-se. Ele cria, recria e inventa também suas condições de vida exterior. O homem, enquanto trabalhador, apresenta-se como auto-criador, não só de seus meios e condições de vida, mas também de seu ser-físico, de seu ser-espiritual, de seu ser-social, seu ser-relacional, seu ser-psico. Ele sai da individualidade para a coletividade. ( , 2013; ESCURRA, 2016). á afirma: “ h estão contidas in nuce todas as determinações que (...) constituem a essência do novo no ” , 2013, p.44)
Também sob esse aspecto o trabalho se revela como o veículo para a autocriação do homem enquanto homem. Como ser biológico, ele é um produto do desenvolvimento natural. Com a sua autorrealização, que também implica,
obviamente, nele mesmo um afastamento das barreiras naturais, embora jamais um completo desaparecimento delas, f . , 2013, p. 82).
É “ποίήσίς” (poesia é “cri r”,
á “άρϰη”
(arkê) significando princípio, o que significa primeiro ou causa (PHILIPPE, 1996; 2002). Trabalhar em grego significa pôr os princípios, as bases, as fundações, os fundamentos. No pensamento helenístico grego, o ser humano aparece como um arquiteto, no sentido primeiro e básico, o que quer dizer: aquele que põe os fundamentos. Pelo trabalho, o ser humano põe os fundamentos não só das construções das realidades do mudo exterior, mas também de sua vida enquanto ser humano. Então, o homem se constrói construindo.
O trabalho, enquanto atividade, iniciando-se com a ideia, tem algo a ver com arquitetura. O que faz pensar num processo em duas partes: uma parte teórica e a outra prática. É neste sentido, por exemplo, que Aristóteles escreveu o livro A Poética. Uma tragédia escrita (teoria) que precisa ser apresentada, atuada em cena (prática). A ideia que está no princípio, fundamento ou causa da atividade humana de trabalhar, precisa ser realizada. O trabalho deve passar da teoria da ideia interior para uma prática exterior, pela etapa da realização (ARISTOTELES, 2015).
A ideia, como fase inicial do trabalho, coloca luz em dois aspectos do trabalho humano. O primeiro é o aspecto do trabalho como uma fonte de vida humana. Pelo trabalho, o ser humano, de certa maneira, vai criar-se, criando suas condições de vida. E o segundo aspecto é que, como ideia, projeto, todo trabalho precisa de realização. O trabalho projeta o ser humano no exterior dele. O homem, pelo trabalho, vai a conquista do mundo, ele é chamado a transformá-lo, organizá-lo, aperfeiçoá-lo, pela sua própria subsistência. No universo, na natureza, mundo objetivo exterior, a ideia vai permitir que o ser humano manifeste a sua subjetividade, sua interioridade e intencionalidade através do seu trabalho. (PHILIPPE, 1996; ARENDT, 2016)
A ideia é, então, uma necessidade intrínseca ao processo do trabalhar. Esta necessidade, que é a ideia pelo trabalho, exige por si mesma uma realização para evitar ficar num aspecto de projeto. Philippe afirma a respeito da ideia: “ z conhecimento (ideia), oriundo da luz da inspiração é, precisamente, considerar o possível, z h ” 199 .18 . precisa encarnar-se, realizar-se. Se a ideia é o projeto do que deve ser feito, ela precisa ser exteriorizada. Esta fase de realização é a segunda grande etapa do trabalho enquanto atividade
humana. O que é o trabalho enquanto realização? O que é esta fase exterior do trabalho, o que ela revela do homem?