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3 FUNDAMENTOS ESPISTEMOLÓGICOS

3.3 FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DA EDUCAÇÃO: SAVIANI,

A educação como ciência preocupa-se de maneira geral com o desenvolvimento do homem, enquanto pessoa humana, nas suas diferentes dimensões essenciais: física, intelectual e moral. Ela é vista como um processo que respeita etapas e ritmo da natureza humana (AURÉLIO, 2008).

Educar é uma obra; é o trabalho de um homem, a serviço de outro homem capaz de ser transformado. É, por assim dizer, uma pessoa em estado de imperfeição (criança, filho) que, por educação da outra (adulto, pais) vai se aperfeiçoando. Neste sentido, a educação é uma cooperação entre os filhos e os pais, entre o educador e o educando, adultos e crianças num contexto favorável pela agradabilidade e a eficácia.

No estudo em questão, o contexto é o quadro familiar. Afinal, a educação pode ser considerada formalmente como uma arte a serviço da pessoa humana, em processo de crescimento e desenvolvimento (MONTESSORI, 2018; PHILIPPE, 1996; FREIRE, 1996). Ela corresponde então, a um trabalho de transformação do educador, em cooperação com a natureza do educado para uma qualificação, um crescimento e desenvolvimento da sua humanidade, conforme Duarte:

h é f . h f -se de formas espontâneas de educação, ocorridas em outras atividades, também dirigidas por fins, mas que não são os de produzir a hum . Q - . é . é é

educação, a humanização do indiv duo o re ult do i direto do tr b lho educativo. Outros tipos de resultado podem existir, mas serão indiretos. (DUARTE, 1998, p.2)

A educação utiliza outras disciplinas como ferramentas, dentre elas a Pedagogia, a Didática e a Psicologia. Este estudo é baseado nesta interdisciplinaridade. Esta seção da presente pesquisa usa as ferramentas pedagógica, didática e psicológica. O fundamento pedagógico que serve de ferramenta nesta pesquisa é a teoria histórico-crítica do professor Dermeval Saviani, com a psicologia construtivista de Jean Piaget e Lev Vygotsky. Quanto a didática, vamos analisar concretamente o trabalho de casa e/ou doméstico como um serviço da comunidade familiar com ajuda do princípio de subsidiariedade na maneira concreta de realizá-lo.

3.3.1 A teoria histórico-crítica de Dermeval Savianina educação dos filhos

A teoria histórico-crítica, desenvolvida por Dermeval Saviani29 1943 h - é “ h - ”, que tem como fundamento o materialismo histórico, como aduz o teórico:

“ h - ” é h educacional com base no desenvolvimento histórico objetivo. Portanto, a concepção pressuposta nesta visão da pedagog h - é histórico, ou seja, a compreensão da história a partir do desenvolvimento material, da determinação e das condições materiais da existência humana (SAVIANI, 2005, p.88).

Trata- f “praxi”; é z formalizada num conhecimento prático cuja importância, no processo educativo, não separa a história enquanto evento e o pensamento teorizado. A teoria não é um ideal, mas uma ferramenta para realização:

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Graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1966); Doutorado em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1971). Em 1986 obteve o título de livre-docente; em 1990 foi aprovado no Concurso Público para Professor Adjunto de História da Educação da UNICAMP e em 1993 foi aprovado no Concurso Público de Professor Titular de História da Educação da UNICAMP. Atualmente é professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas, mas continua atuando como Professor Titular Colaborador Pleno do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNICAMP. É Professor Emérito da UNICAMP, Pesquisador Emérito do CNPq e Coordenador Geral do Grupo de Estudos e Pesquisas & quot; História, Sociedade e Educação no Brasil & quot; (HISTEDBR), tendo recebido o título de & quot; Doutor Honoris Causa & quot; da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Tiradentes de Sergipe. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia e História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação brasileira, legislação do ensino e política educacional, história da educação, história da educação brasileira, historiografia e educação, história da escola pública, pedagogia e teorias da educação. (Texto informado pelo autor). Fonte (CNPq CV: http://lattes.cnpq.br/2205251281123354)

Na pedagogia histórico-crítica, a educação escolar é valorizada, tendo o papel de garantir os conteúdos que permitam aos alunos compreender e participar da sociedade de forma crítica, superando a visão de senso comum. A ideia é socializar o saber sistematizado historicamente e construído pelo homem. Nesse sentido, o papel da escola é propiciar as condições necessárias para a transmissão e a assimilação desse saber (JACINTO, 2014, Online).

A teoria de Dermeval Saviani volta seu olhar para as instituições escolares, podendo ser adaptada pela educação no âmbito familiar. Ele não prioriza nem a teoria e nem a prática, mas busca fazer das duas coisas em uma. Sem teoria, a prática não existe; e sem a prática, a teoria é pura abstração sem utilidade, é preciso dar praticidade ao conteúdo teórico. Para Saviani, o conhecimento é uma extração da vida prática e, enquanto tal, é uma necessidade que ela volte a ser praticável (SAVIANI 2005, 2007).

O histórico é prático. Pode- z “ h científicos si z f é é á á , oportuniza aos educandos se apropriarem destes conhecimentos com sentido para suas ” 2005 .15 . z educação pelo trabalho. Para ele, o trabalho funciona como instrumento de suma importância para a educação. Existiu na época da revolução industrial, paralelamente à revolução educacional (2007, p.158).

Para chegar a distinção, e às vezes à separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, é importante conciliar os dois para que exista uma formação completa ao longo da vida. Desta maneira, não serão formados apenas profissionais (homens de profissão, máquinas humanas), mas atores e protagonistas sociais (cidadãos). (SAVIANI, 2007).

De acordo com Saviani, o trabalho e a educação são duas atividades interligadas. Educar é trabalhar e trabalhar é educar:

Na verdade, todo sistema educacional se estrutura a partir da questão do trabalho, pois o trabalh é ê h h z z ê . h é z , agir sobre a realidade, transformando-a em função dos objetivos, das necessidades humanas. A sociedade se estrutura em função da maneira pela qual se organiza o processo de produção da existência humana, o processo de trabalho. (SAVIANI, 1986, p.14)

O pensamento de Gramsci (1968) e Manacorda (1964), comentaristas e críticos de Marx, apontam o problema entre teoria e praticidade na divisão do trabalho, mostrando a separação do trabalho e da educação, Saviani por educação pelo trabalho indica uma solução ao problema social da divisão do trabalho.

Se a teoria histórico-crítica tem um fim social, a vida em sociedade, a sua base epistemologia, é psicológica. De acordo com Gasparin e Petenucci (2008), a teoria pedagógica de Saviani tem como fundamento psicológico a psicologia de Vygotsky:

A Psicologia que embasa a Pedagogi h - é h - h é h , construído através de suas relações com o mundo natural e social. Ele difere das outras espécies pela capacidade de transformar a naturez é h f h -humano (GASPARIN; PETENUCCI, 2008, p.5).

Se a teoria histórico-crítica é baseada na psicologia de Vygotsky, ela pode ir além dos muros da instituição escolar. Como é possível praticar tal teoria no ambiente familiar? Qual didática poderia ser utilizada para a prática da teoria de Saviani em família? O serviço, enquanto ato natural ao convívio familiar pode ser o meio concreto didático para criar hábitos nos filhos enquanto crianças?

3.3.2 Didática: serviço da comunidade familiar com o principio de subsidiariedade

Se os pais são formadores e educadores, eles necessitam não só de uma teoria pedagógica (histórico-crítico), mas também de uma didática (do serviço da comunidade familiar com princípio de subsidiariedade). Para aplicar a pedagogia histórico-crítica de Saviani, o serviço da comunidade familiar parece uma das didáticas mais plausíveis.

Servir é uma das primeiras coisas que os pais ensinam aos filhos. Inicia-se por um serviço com objetivo de agradar os pais, os irmãos, os avós. (CORTELLA, 2017). Primeiro servir para agradar os membros da família, e depois, pouco a pouco, para ajudar no bom funcionamento da comunidade familiar. É simplesmente fazer o bem para os outros, que são f z “ ” demonstra Bronfenbrenner (1996) na sua bioecologia.

Como parte concreta da pedagogia, a didática é uma ferramenta de transmissão do conhecimento. Os pais precisam trabalhar o modo de fazer e de dizer para que os filhos aprendam o serviço - para cada faixa etária, os pais devem adotar uma didática de serviço dentro da comunidade familiar. Eles precisam ser maleáveis para adaptar seus filhos ao cotidiano (ALMEIDA, 2015).

Instala-se, por conseguinte, troca natural entre os filhos, as crianças e os pais. Logo, os pais, educando, são educados a serem pais (FREIRE, 2006). Com essa transmissão de

conhecimento teórico e prático, no ato de servir e agradar os pais, os filhos entram também no processo de generatividade a respeito de seus pais. Os filhos geram os pais na sua maneira de serem pais.

Apesar do processo educativo em si, os pais e filhos tem uma relação mais profunda, baseada no princípio de generatividade de transmissão da vida. Os pais, enquanto genitores são chamados a transmitir além da vida biológica, todas as outras dimensões da vida. A generatividade é uma lógica de doar-se, de dom da vida que vai muito além do dom da vida biológica (DONATI 2008). 2019 f “ é f h f que tem ô ... é h f ” (p.30). No mesmo 2013 f “ h f an ê f h ” .14 .

A generatividade pauta-se primeiro na transmissão de valores antes de conquistar toda õ . “ ” responsabilidade de cuidar, de guiar, de orientar. Assim, o serviço à comunidade familiar os pais ensinando a servir para os filhos, pelo princípio da generatividade eles tornam-se servidores da família de geração em geração.

O princípio de subsidiariedade que deve acompanhar esta didática de serviço da comunidade familiar é um princípio político, social, econômico e ético, cujas raízes filosóficas encontram-se na antiguidade grega. Ele foi formalizado pelo papa Leão XIII na primeira Encíclica social da Igreja Católica Rerum Novarum publicada no dia 15 de maio 1891 (SAMPAIO, 2011).

Segundo Sampaio (2011), o princípio de subsidiariedade é:

... é õ f z f . õ f sociedade, obri f . f z .” (SAMPAIO, 2011, p.109) Tam é h “ ” f que é um erro moral e de caridade permitir que um nível social muito alto faça o que pode ser feito pelo nível social mais baixo, porque seria privado de tudo o que ele pode fazer. Como

tal, e como consequência disso, o trabalho de todos tem o mesmo respeito, independentemente do seu nível social, porque eles são os únicos que podem fazê-lo (SOUZA, 2010; SAMPAIO, 2011).

Na educação familiar, o princípio de subsidiariedade, vai consistir em educar os filhos para a responsabilidade. Os pais, os parentes educadores, são chamados a mostrar, a ajudar os filhos a serem responsáveis no seu nível de estado de criança. O que a criança pode fazer e realizar os pais não o façam. Eles podem iniciar dando um primeiro exemplo, mas nunca devem tomar o lugar da criança, somente no caso de necessidade absoluta (PETRINI; CAVALCANTI, 2005). Assim o filho, servindo a comunidade familiar no seu nível, vai responsabilizar-se para com ela. E por várias pequenas responsabilidades, os filhos, enquanto crianças, constroem a capacidade de assumir responsabilidades maiores. O que se encaixa bem com a linha da teoria construtivista dos psicopedagogos Jean Piaget e de Lev Vygotsky.

3.4 O CONSTRUTIVISMO DE