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Capítulo 1: Fundamentação Teórica

1.2 Identidade

1.2.2 A identidade como construto sócio-cultural

Seguir o paradigma pós-estruturalista e rechaçar a existência de um núcleo anterior a qualquer prática social significa considerar que as identidades não simplesmente existem, elas são construídas. A identificação, processo do qual transcorre a identidade, é, conforme a própria definição sugere, um processo no sentido de que é inacabado.

Não existe identidade absoluta, única, fixa ou estável, pelo contrário, elas são múltiplas, variáveis, em constante processo de elaboração seguido de uma ilusão de fixidez. Ao longo da vida, “ganhamos” e “perdemos” dezenas de identidades, pois elas estão sempre, como bem define Rajagopalan (1998, p.42), em “estado de fluxo”.

Segundo Hall, (1999, p.21), ”uma identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada.” Portanto, o sujeito não possui uma “identidade-mestra” que alinhe as suas demais identidades. Dependendo do contexto, determinadas identidades se manifestarão no indivíduo mais do que outras.

Por exemplo, para um homem, médico e vereador em sua cidade, a identidade que “pesa” mais no momento em que está em seu consultório perante um paciente é a sua identidade como médico. Em uma reunião de seu partido, o que se manifesta, certamente, é sua identidade como vereador. Já em uma sessão da câmara de vereadores, durante votação de projeto relacionado à área da saúde, haveria uma tensão potencial entre sua condição de médico, pensando em primeiro lugar no ideal para a saúde da população, e sua condição de vereador, pensando em favorecer a população que representa, mas tendo que convergir também para a solução mais sustentável para o município. Não se pode chegar a uma conclusão sobre que identidade se sobressairia e determinaria sua conduta nesse caso, pois isso dependeria de como o sujeito fosse interpelado, das significações que chegariam até ele nesse determinado contexto e contribuiriam para uma ou outra identificação.

Depreende-se do exemplo que a conduta humana se altera conforme se as identidades se manifestam, e essas, por sua vez, alteram-se conforme os sujeitos são interpelados. Não há, então, uma identidade que gerencie todas as demais e oriente a ação humana, há identidades plurais, e elas se manifestam conforme o contexto de ação.

A fragmentação e a pluralidade de identidades caracterizam o sujeito pós-moderno. Essa carência de estabilidade no processo da constituição de identidades é atribuída por Hall (1999) ao descentramento do sujeito. Tal descentramento se deve, de acordo com o autor, ao fenômeno da constante transformação que afeta todas as partes do globo, desestabilizando o mundo em geral, inclusive as identidades culturais. A diversidade cultural que interpela os sujeitos a partir da segunda metade do século XX, período em que se intensificaram e facilitaram as comunicações com, praticamente, qualquer parte do mundo (ponte concretizada pela globalização e pelas novas tecnologias), favorece a constituição de múltiplas identidades em um processo cada vez mais ágil.

Á medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente”. (HALL, 1999, p.13)

Conforme Castells (1999) as identidades são socialmente construídas e perpassadas por valores culturais, mesmo quando baseadas em características biológicas, como as identidades de gênero, que se constituem sobre corpos sexuados, ou identidades de raça, que têm na cor da pele fator determinante. O autor enfatiza que interpretações biológicas são, acima de tudo, interpretações, pois são processadas pelos indivíduos em sociedade.

A construção de identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva ou por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso. Porém, todos esses materiais são processados pelos indivíduos, grupos sociais e sociedades, que reorganizam seu significado em função de tendências sociais e projetos culturais enraizados em sua estrutura social, bem como em sua visão de tempo/ espaço. (CASTELLS, 1999, p.23)

Negros, brancos e pardos, classificações freqüentemente utilizadas em nosso país, não são categorias objetivas, são expressões de subjetividade. O que torna um indivíduo pouco branco ou não tão negro a ponto de se classificar como pardo a não ser a percepção de si mesmo e do outro? Nada, pois não há características absolutamente isentas de interpretação, uma vez que elas existem somente a partir do momento em que o sujeito constrói o mundo em significado.

Portanto, a construção de identidades passa, inevitavelmente, por práticas de significação, e não há significação senão pela linguagem. A linguagem é constitutiva das identidades e dos sujeitos. Rajagopalan (1998, p.41-42) afirma que “A identidade de um indivíduo se constrói na língua e através dela. Isso significa que o indivíduo não tem uma identidade fixa anterior e fora da língua”. Dessa forma, é inexistente uma essência anterior à linguagem que determine ou molde a construção de identidades, porque elas são construtos sócio-culturais resultantes de práticas de significação, tais como discursos e representações.

Entendemos representações como sistemas de significação decorrentes do uso da linguagem que abrangem signos lingüísticos e imagéticos.19 As representações constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos assumem posições de sujeito e manifestam suas identidades.

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. (WOODWARD,2000,p.17)

Ao falar nas identidades por um prisma pós-estruturalista, é freqüentemente referenciado o conceito de dialogismo. Como verificamos, o conceito de dialogismo provém dos estudos de Bakhtin (1992) e é

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A representação a que nos referimos não corresponde ao conceito estruturalista de representação de um referente exterior à linguagem, mas sim ao conceito pós-estruturalista de representação como sistema de significação. Conforme Silva (2000, p.90), a noção clássica de representação como mimese ou representação mental e externa do real não se enquadra na perspectiva culturalista. Por isso, torna-se necessário redefinir seu conceito, tratando-a como sistema de significação material, já que existe na materialidade dos textos, e com a arbitrariedade própria dos sistemas de significação.

compreendido como diálogo entre discursos e diálogo entre sujeitos. Em outras palavras, o dialogismo é não só princípio fundador da linguagem, mas também dos sujeitos, de modo que somente é possível estabelecermos nossa identidade, a partir da qual assumimos uma posição de sujeito, dirigindo-nos a um outro sujeito que nos é, ao mesmo tempo, exterior e constitutivo.

Enfim, é impossível pensar o Mesmo totalmente à parte de seu Outro, já que há entre ambos uma relação dialógica. Á medida que definimos a identidade como construto sócio-cultural, contestamos os essencialismos e caminhamos rumo a um entendimento das relações entre linguagem, sociedade e cultura.