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A identidade da Rede Juventude Viva do RN

4. Resultados e discussão

4.2. A identidade da Rede Juventude Viva do RN

Embora não haja registro nos Anais do Seminário sobre o marco de criação da RJV RN, vale recobrar o que foi sinalizado no tema anterior sobre a coincidência entre as

iniciativas integrantes da APJ e da Rede, o que já dá indícios de que a composição desta poderia mesclar representantes de movimentos e do poder público. Coadunando com essa informação prévia, verificou-se que, nos cinco registros de reuniões fornecidos pela RJV RN para esta pesquisa, havia a presença de pelo menos um representante do poder público (principalmente de mandatos e da SEJURN) e um de movimento social (principalmente das pastorais).

O próprio Núcleo Operativo Provisório, conforme registrado na reunião de 28 de fevereiro de 2015, contava com cinco integrantes, sendo três representantes de mandatos do Partido dos Trabalhadores, um representante do CMJ e um da PJ. De acordo com os registros em diários de campo, duas das quatro rodas de diálogos com a temática da relação entre redução da idade penal e genocídio da juventude também contaram com essa representação mista, ou seja, havia participantes tanto do poder público quanto da sociedade civil:

A primeira roda de diálogos (...) aconteceu na ASBAV (Associação Beneficente Amor Verdadeiro), em Jardim Progresso (...). Na responsabilidade pela facilitação do momento estavam a SEJURN e o OBIJUV. Porém, no dia apareceram outras pessoas para contribuir, a saber, integrantes da PJ que também integram a Rede Juventude Viva. (Diário de campo 1)

Além dessas ações, os diários de campo com registro de duas reuniões também corroboram esse tipo de representação: “a reunião da Rede Juventude Viva (...) contou com a presença de cinco pessoas, sendo três representantes da SEJURN, uma do CMJ (uma das idealizadoras da Rede) e eu” (Diário de campo 6).

Quando questionados sobre a identidade do coletivo, as falas de três dos entrevistados estiveram de acordo com uma definição da RJV RN como mista:

Bom, quando eu passei a me inserir (...) a ideia era que fosse mista. Até porque na época nós tivemos um apoio muito bom, muito grande, do Deputado (PT)... enquanto

parlamentar, enquanto detentor de mandato público. Ele foi um apoiador na época. (Ogum)

No entanto, dois deles fizeram questão de destacar que a presença mais forte no coletivo sempre foi de membros não ligados ao poder público:

Era mista, sociedade civil e poder público, mas a característica principal era mais da sociedade civil mesmo. Eventualmente tinha poder público, porque a gente tinha a presença da (...) secretária, e tinha os mandatos também. (Oxóssi).

A gente mesclava essa relação entre sociedade civil e poder público. Porém, a grande força da Rede era sociedade civil, porque a gente não contava com o poder público propriamente dito. (Ogum, grifo nosso)

Acerca da expressão destacada da fala de Ogum, outra entrevistada esclareceu melhor essa ideia:

A ideia era que tivesse atores da sociedade civil para dialogar com o poder público. O convite, ele era feito, mas acho que, de todas as atividades que nós fizemos, nós só tivemos a presença do poder público pouquíssimas vezes. E quando tinha eram só... assim... não era dos gestores diretos. Tinham dois, no máximo, mandatos que nos acompanhavam nesse período todo. (Iansã, grifo nosso)

Houve divergências entre os demais entrevistados no que se refere à identidade da Rede. Nesse sentido, ainda que mantendo a posição que defende ser “a sociedade civil” a força maior do coletivo, uma das participantes trouxe o que considerou ser uma contribuição da participação de membros na SEJURN:

Era boa parte sociedade civil, porque existiam vários movimentos: Juventude de Terreiros, as Pastorais, o OBIJUV daqui da UF participava... participa, enfim, o Levante Popular da Juventude... (...). Tivemos um pouquinho de avanço quando (...) passou ser Secretária. Aí houve esse misto de sociedade civil com o Governo, porque ela estava inserida nesse processo, conseguiu adiantar muito a questão do Plano no estado, mas, em Natal, especificamente, tinha poucas participações de gente ligada à Prefeitura, né? (Oxum)

Outro participante, no entanto, não mencionou o poder público ao falar de identidade da Rede, definindo:

a Rede como uma rede. Porque, assim: a característica da Rede é a diversidade. A diversidade dos movimentos sociais de juventude... A rede, ela é um movimento social. Aliás, ela é um conjunto de movimentos sociais. Porque nós tínhamos vários grupos, com várias figuras ali dentro, com várias origens: tinha juventude rural, tinha juventude urbana... (...). Ela é uma rede da sociedade civil. (Oxalá)

Finalmente, o entrevistado abaixo contribuiu para elucidar tantas divergências de posições quanto a esse tema:

Bom, a Rede não foi pensada assim. (...) A estrutura dela não foi pensada antes dela. O debate foi se dando, a organização dela foi se dando à medida que o debate e a criação dela foi se dando também. (...) Pro Seminário, quando ele se realizou, se concretizou, ele veio trazendo essas diversas juventudes que foram se agregando no meio do caminho. E aí a Rede foi resultado disso. Então, tinha desde juventude de terreiro a fundações, né? (...). Desde movimentos sociais a mandatos, que foram se aglomerando, e isso não foi pensado. Apenas ela se concretizou, e as pessoas estavam juntas porque a pauta era a mais emergente, mais interessante e mais emergente do que dizer quem podia e quem não podia participar daquele espaço. O importante era todo mundo poder participar e fazer força pra pautar – era esse o objetivo mais inicial. (Yemanjá)

Assim, o que se pode concluir é que a emergência da pauta e empolgação dos coletivos em construir a RJV RN determinou o surgimento de uma identidade inicial para esta iniciativa. No entanto, emergiram dúvidas, imprecisões e incongruências entre as definições da identidade presentes nas falas dos entrevistados. Nesse sentido, alguns entrevistados também sinalizaram a demanda de uma discussão e sistematização da Rede sobre si mesma (identidade, objetivos, composição, abrangência, etc.):

Essa discussão foi inserida posteriormente no processo de organização da Rede, mas ela não foi vencida. Ela chegou a ser colocada: “mas quem faz parte da Rede, quem organiza a Rede, quem opera a Rede, quem dinamiza a Rede?”, mas esse debate nunca foi vencido. Não foi colocado na pauta e decidido. (Yemanjá)

A Rede foi criada, tivemos algumas pautas iniciais, mas chegou naquela fase de que era necessário repensar a própria Rede, e isso não foi dado prosseguimento. (Oxóssi)

Um dos momentos apontados nas falas, em que foi discutida essa necessidade de reflexão e estruturação da RJV RN, foi descrito pela pesquisadora em uma das reuniões observadas:

A reunião foi tomando um rumo de conversa mesmo sobre a estrutura e organização da Rede, sobre estar desmobilizada e quais as possíveis causas, sobre a necessidade de reconfiguração da comissão operativa (por esta estar distante das atividades) e de realização de um momento para definir ou redefinir identidade, objetivos e próximas ações da Rede (...). Ficou a resolução da realização de um momento para estruturação da Rede, uma espécie de seminário de um dia todo, envolvendo o amplo convite a outros atores (com prioridade para jovens negros), cuja programação deverá ser pensada pela comissão operativa. (Diário de campo 6)

Esse seminário de reestruturação, no entanto, não ocorreu até o presente momento. Levando em consideração essas reflexões, embora as respostas a questões sobre a identidade da Rede envolvam também elementos subjetivos de cada entrevistado, há grande possibilidade de que a ausência de discussão, registro e socialização de informações sobre a RJV RN seja a razão principal de tantas divergências acerca deste tópico e, consequentemente, tenha contribuído de alguma forma para a desmobilização, esvaziamento e atual quadro de estagnação do coletivo.