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O surgimento da Rede Juventude Viva do RN

4. Resultados e discussão

4.1. O surgimento da Rede Juventude Viva do RN

Em 2013, nos dias 29 e 30 de novembro, em Natal-RN, foi realizado o IV Seminário sobre Realidades Juvenis. Organizado pelo CMJ de Natal e contando com a temática “Enfrentando o Extermínio da Juventude Potiguar”, esse Seminário reuniu diversas organizações juvenis ou que trabalhavam com jovens, além de redes e mandatos parlamentares.

Tendo como público-alvo atores como líderes ou militantes jovens, autoridades, educadores, instituições, etc., o Seminário objetivava promover diálogos e reflexões sobre as realidades e os dados de genocídio dos jovens no estado, realizando também pressão sobre o poder público e pensando ações de enfrentamento a essa realidade. Essa edição do evento foi realizada na própria sede do CMJ em Natal, localizada no bairro de Cidade Alta, e contou com a parceria de várias organizações de religião católica (como as Pastorais da Juventude), dos mandatos de vários parlamentares, do Observatório da População Infanto-juvenil em Contextos de Violência (OBIJUV/UFRN), entre outros, além também do apoio do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do adolescente (COMDICA).

Durante o Seminário, ocorreram sete mesas temáticas, alguns Grupos de Trabalho (GTs) e oficinas, ao final dos quais foram tirados encaminhamentos, como a realização de encontros, marchas, ações de pressão do poder público pela adesão ao Plano Juventude Viva e pela criação de órgãos, como conselhos e secretarias nos municípios e no estado, entre outros. Todas essas informações foram retiradas dos Anais do próprio Seminário, fornecido pelo CMJ para esta pesquisa. Vale ressaltar que, nesse documento, é citada, ainda, a existência de uma carta ao poder público, que foi lida durante o momento de relato dos GTs e escuta das autoridades no Seminário, mas cujo conteúdo na íntegra não consta nos Anais, nem entre os documentos fornecidos pela Rede Juventude Viva do RN. Essa carta também é do conhecimento de um dos entrevistados, Oxalá: “no final do ’Seminário de Realidades Juvenis’, nós lemos uma carta de fundação da Rede Juventude Viva”.

Afora a carta, não há outro registro em forma de documento que situe a criação da RJV RN no IV Seminário sobre Realidades Juvenis. No entanto, esse é o marco atribuído ao surgimento da Rede por boa parte dos entrevistados, como pontuam Oxóssi, “participei também da Rede Juventude Viva, onde nasceu através do ‘Seminário de Realidade Juvenis’, que foi promovido inicialmente..., foi criado inicialmente pelo Centro Marista de Juventude Natal”, e Iansã:

E naquele final de semana, foram dois dias de atividades, surgiu a necessidade dentro dos próprios participantes - não foi algo diretamente planejado, as ações foram acontecendo de acordo com as necessidades dos jovens, das discussões que nós fazíamos... E aí, ia culminando que no final do Seminário nós fizemos um manifesto formalizando a Rede Juventude Viva do Rio Grande do Norte.

Há, no entanto, um registro de reunião cedido pelo coletivo para esta pesquisa que data de abril de 2013 (ou seja, anterior ao Seminário), no qual já se denomina aquela iniciativa como Rede Juventude Viva do RN. Ainda assim, mesmo os participantes que não colocam

apenas o Seminário como sendo o início da Rede reconhecem a sua importância para o desenvolvimento desta iniciativa. Entre as falas desse outro grupo de entrevistados, não há consenso sobre qual seria o marco de fundação da RJV RN:

Eu acho que a Rede Juventude Viva iniciou-se através de um coletivo chamado Articulação Potiguar de Juventudes. (...) Tanto é que boa parte dos representantes da Articulação Potiguar de Juventudes estão na Rede Juventude Viva, ou seja, é caráter de rede mesmo, da pluralidade dos movimentos e diversidade. (Xangô)

Um ator importante para a criação da RJV RN surge nessa fala: a Articulação Potiguar de Juventudes (APJ). Silva (2015), em seu trabalho sobre os movimentos sociais juvenis em Natal-RN e suas contribuições para as políticas públicas de juventude, aponta que a APJ nasceu em 2009, após uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte – provocada por uma parceria entre o deputado Fernando Mineiro, do Partido dos Trabalhadores, e diversas organizações e grupos juvenis –, cujo propósito foi debater as políticas públicas de juventude do estado. A composição da APJ contava com mais de quarenta iniciativas, entre privadas e públicas, e uma diversidade de movimentos na sociedade civil, sendo a maior parte de Natal, mas agrupando também alguns de outros municípios da região metropolitana; além disso, sua atuação apresentava caráter de rede.

Outros dados não constam nos documentos e foram acrescentados pelos entrevistados, como a realização de rodas preparatórias para o Seminário nas quatro zonas de Natal:

E aí, nós começamos a fazer, a princípio na grande Natal, nas quatro zonas, rodas de conversa em praças públicas abertas a diversas pessoas. A gente procurava uma pessoa que era da comunidade, organizava, marcava, chamava e fazia o debate, apresentando a pesquisa, os dados mais recentes que tinham saído tanto do Mapa da Violência quanto também do Observatório. (...) E aí, a partir dessas discussões, a gente falava da intenção da mobilização e ressaltava que nacionalmente existia um plano, chamado Plano Juventude Viva, e que precisaria de construir uma Rede e de aprofundar nosso debate, e

garantir que tanto o governo do estado quanto o município fizessem a adesão desse Plano e garantissem recursos para estar combatendo este extermínio. (Iansã)

Silva (2015), além de reforçar o uso da metodologia e do material destacados pelos entrevistados, traz dados mais concretos, tais como o número de mais de dez rodas de conversa realizadas (além das de Natal), em Caicó, Mossoró, Ceará-Mirim, Macaíba, Parnamirim, entre outros municípios, que contribuíram para que o Seminário contasse com a participação de “mais de 120 adolescentes e jovens, de diversos grupos e organizações juvenis de todo o estado” (p. 90).

O evento também é destacado como tendo sido importante na trajetória de militância e formação de um dos participantes que se considera um dos fundadores da RJV RN, a saber:

Eu descobri, nesse processo, que o grande problema da juventude, o maior problema da juventude hoje, era exatamente o direito de viver, que está relacionado ao extermínio da juventude. Então, antes de qualquer outro direito, a pessoa precisa ter o direito à vida... (Oxalá)

As diversas ações de incidência política realizadas pela APJ, e destacadas no estudo de Silva (2015), além de tudo o que foi exposto sobre o IV Seminário sobre Realidades Juvenis, combinados com as falas dos participantes, revelam a importância desses espaços para denunciar uma realidade de opressão à juventude – em especial negra e pobre –, pressionar o poder público e articular a participação juvenil na cena pública do estado, inclusive funcionando como molas propulsoras de novas iniciativas, como a Rede.