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A IDENTIDADE DO CONSUMIDOR FINANCEIRO

No documento reginaldoramosdebritto (páginas 53-69)

Há uma identidade própria em construção neste deslocamento do cidadão ao consumidor financeiro que pretende inscrevê-lo no processo de consumo, carregando algumas características da primeira posição, mas que fundamentalmente tem o efeito de resultar em implicações próprias. Lembremos da contribuição de Apple (2003) , já consideradas de que,sobre as posições de sujeito pois,

Cada termo implica um daqueles mapas rodoviários que discuti acima; cada termo situa-nos como sujeitos sociais em relações particulares com os processos econômicos e sociais. Cada um deles tem anexada uma identidade que nos posiciona em relação à visão do processo tal como é descrita pelo próprio discurso. (APPLE, 2003, p.23-24)

Ou seja, podemos dizer que os discursos próprios da educação financeira posicionam os indivíduos numa posição de sujeito que em Kistermann (2011) é descrita como indivíduo consumidor e que aqui pode ser referido como consumidor financeiro. Essa caracterização tem o efeito de, além de inscrevê-los como consumidores, delimitar seu campo de atuação, seu modo de participação, sua identidade de consumidor que em geral traduzem os cidadãos em termos das próprias marcas que consomem. No caso de produtos financeiros, acreditamos que tal identificação, dos indivíduos com os produtos, não seja, ainda, expressiva. No entanto na veiculação publicitária as instituições que os vendem retratam seus potenciais consumidores do mesmo modo com que são caracterizados outros tipos de consumidores, ou melhor, consumidores de outros tipos de mercadorias. Mensagens publicitárias das instituições financeiro-bancárias, via de regra associam a aquisição e/ou consumo de seus produtos a imagens de consumidores realizados

financeiramente e que demonstram terem realizado seus sonhos de consumo: aquisição de um automóvel, da casa própria ou de campo, uma aposentadoria segura, etc.

Assim como em Kistemann (2011),

“Entendemos que os cidadãos não podem ser compreendidos como meros consumidores, porque o desejo individual não é o mesmo que o interesse comum e bens públicos são sempre algo mais do que uma aglomeração de vontades privadas. [...] O consumismo se ligou a uma nova identidade política, na qual o próprio negócio desempenha um papel de forjar

identidades que levem a comprar e a vende. Assim a identidade tornou-

se um reflexo de estilos de vida intimamente associados a marcas comerciais e aos produtos que elas rotulam, bem como a atitudes e comportamentos ligados a onde compramos , como compramos e o que comemos , vestimos e consumimos. Estes atributos, por sua vez, estão associados à renda, classe e outras forças econômicas que podem parecer permitir escolhas, mas que, na verdade, são determinadas largamente por uma rede de profissionais e suas premissas do mercado econômico, estando além do controle dos indivíduos consumidores.”(KISTEMANN, 2011,p.19)

Bauman (2008) novamente contribuirá para essa discussão ao considerar que

“fetichismo da subjetividade, tal como, antes dele, o fetichismo da mercadoria, baseia-se numa mentira, e assim é pela mesma razão de seu predecessor – ainda que as duas variedades de fetichismo centralizem duas operações encobertas em lados opostos da dialética sujeito-objeto entranhada na condição existencial humana. Ambas as variações tropeçam e caem diante do mesmo obstáculo : a teimosia do sujeito humano, que resiste bravamente às repetidas tentativas de objetificá-lo.”(BAUMAN, 2008,p.30)

Assim talvez a característica mais importante da construção da identidade do consumidor financeiro seja a sua própria comodificação. Uma vez educado financeiramente, o consumidor torna-se também mercadoria, consumida pelo sistema financeiro e ou bancário. A partir do momento que, pela Educação Financeira, desenvolvemos nos indivíduos, a capacidade de “melhor consumir” os produtos financeiros, estamos tornando-os também melhores mercadorias, mais atraentes ao sistema financeiro e ou bancário. Este processo de consumir consumidores está implícito nas propostas de Educação financeira analisadas nesta pesquisa.

Resta o receio que as propostas curriculares que se desenham para os sistemas escolares, tanto aqui no Brasil quanto a outros países no mundo, não oferecem possibilidade de diálogo, não seguem uma orientação dialógica. São, podemos dizer semelhantes a uma lógica cartesiana do penso logo existo traduzido em termos do consumo logo existo.

Certeau (2008) trás outra importante contribuição para esta questão quando trata do “não lugar” ao afirmar que “de um lado a análise mostra que a relação (sempre social) determina seus termos, e não o inverso, e que cada individualidade é o lugar em que atua uma pluralidade incoerente (e muitas vezes contraditória) de suas determinações relacionais.” (De Certeau, p.38).

É mais uma posição de reforço do equivoco presente nas propostas veiculadas sobre Educação financeira que pretendem conferir centralidade ao indivíduo como que isolado do tecido social. Daí porque não acreditamos numa caracterização que indique perceber os indivíduos como consumidores apenas, o que lhes subtrai outros valores, não carregados neste processo de construção de sua identidade de consumidor. Pelo mesmo motivo não acreditamos em educação para o consumo e temos como já foram apresentadas, posições críticas, contrárias, ao que se constitui como proposta de se educar financeiramente os indivíduos.

A educação deve se orientar para a cidadania, ainda que sobre esse conceito, muito utilizado, tenham se construído significações distintas.O que significa cidadania ou ser cidadão , é questão que precisa ser reflexivamente , respondida.

Temos dito em várias oportunidades, sobre a não pertinência de reflexão sobre determinadas questões, sob a alegação do “espaço” e também pelo propósito deste trabalho.

No entanto uma questão sempre nos leva a outras e um modo que encontramos aqui para contornar essa dificuldade, no que tange ao tema cidadão X consumidor, na tentativa de constituir uma “identidade do consumidor”, foi através de uma reportagem que encontramos na Revista “Ética – pensar a vida e viver o pensamento”, Edição 2: “AFETOS CONSUMO”26

.

26

Afetos e Consumos/ [Coordenadora Ana Cláudia Ferrari; organizado por Clóvis de Barros Filho]. – São Paulo: Duetto Editotial ,2011. –(coleção ética: pensar a vida e viver o pensamento) Vários colaboradores.

Nesta revista encontramos pelo menos quatro artigos que se relacionam ao tema em questão em nossa pesquisa documental dado que tratam do consumo.São eles:Torcedor: consumidor ou cidadão? , A aura de espiritualidade das marcas, Redução de Danos nas relações de consumo e O mito do consumo como ato individual. Sugerimos à aqueles interessados pelo tema do consumo que leiam os referidos artigos. São todos muito interessantes.

Para os propósitos de nossa pesquisa vamos a estes textos no sentido apenas de pinçar considerações que servirão para compor também o conjunto de nossa revisão, ao mesmo tempo em que pretendemos através deles constituir reflexão sobre a identidade do consumidor.

Em “Torcedor: consumidor ou cidadão?27”, como sugere o tema há uma

reflexão sobre a tendência de transformar os eventos esportivos em grandes eventos comerciais e dessa forma, os torcedores em consumidores. Voltado ao futebol de modo mais específico o autor o descreve como “esporte mais popular do planeta, e, portanto mercadoria valiosíssima” [...] “vendido das mais diversas formas...” [...] “Dentro dessa lógica de mercantilização do futebol, não é de surpreender que o torcedor seja visto cada vez mais como consumidor.” (p.24).

Acrescentaríamos ao exposto apenas que esse processo pode ser lido pelo fenômeno da comodificação, do futebol e torcedor.

Neste artigo, o autor observa o enorme poder conferido à Televisão como consequência “da ideia de que o torcedor é, antes de tudo, um consumidor e de

que o futebol deve ser visto como grande negócio”. De modo semelhante, a

iniciativa de Educar financeiramente os indivíduos deslocando-os de uma posição (de cidadãos) para outra em que se identificam como consumidores, significa movimentar um rentável mercado de produtos financeiros. Tanto assim que há uma certa vinculação presente nas asserções das estratégias entre ser financeiramente educado e alcançar um bom nível de cidadania.

Sobre o poder conferido às Televisões, Lopes (2011) argumenta se tratar de uma “visão” ao “mesmo tempo, potencialmente crítica e ideológica.”. A perspectiva

27

Sobre o Autor: Felipe Tavares Paes Lopes tem graduação em comunicação social pela PUC-SP. É doutorando em psicologia social pela USP e o autor dos livros Comunicação do eu: ética e solidão (Vozes) e Teorias da comunicação em jornalismo: reflexões sobre a mídia (Saraiva).

de ideologia sobre a qual analisa a questão do consumo é a de John B. Thompson no livro Ideologia e cultura moderna, um conceito negativo como afirma nosso autor. Importante considerar que se trata da mesma abordagem de ideologia que encontramos nas referências da Análise de Discurso Crítica e que segundo (Rezende e Ramalho, 2011),

Provém de Thompson (1995) [...] o conceito é inerentemente negativo. Ao contrário das concepções neutras, que tentam caracterizar fenômenos ideológicos sem implicar que esses fenômenos sejam, necessariamente, enganadores e ilusórios ou ligados com os interesses de algum grupo em particular, a concepção crítica postula que a ideologia é, por natureza, hegemônica, no sentido de que ela necessariamente serve para estabelecer e sustentar relações de dominação e, por isso, serve para reproduzir a ordem social que favorece indivíduos e grupos dominantes.” (Rezende e Ramalho, 2011, p.49).

Para Lopes (2011), no artigo em exame, na análise da ideologia na perspectiva de Thompson, “todo fenômeno ideológico é enganador, ilusório e/ou

parcial e deve ser sempre combatido.” (p.27). Trata-se da perspectiva negativa

pela qual pode ser lida a ideologia que, no entanto pode servir para reproduzir ou transformar a realidade social.

Pensar sobre estas questões nos fazem oscilar de uma posição a outra com muita facilidade e talvez indiquem a necessidade de aprofundar reflexão, sobre as formulações de Certeau sobre os conceitos de táticas e estratégias. Percebo em suas orientações também um modo de pensar sobre as ideologias, como que relacionadas a fenômenos sempre passiveis de serem perspectivados a partir de duas posições, aquelas referidas ao “lugar” e ao “espaço”.

Para Josgrilberg (2005, p.50) “tais expressões não são termos opostos, mas dois aspectos de um único tema extremamente complexo: a organização dinâmica de uma sociedade.”. O primeiro descreve uma série de procedimentos estratégicos ligados a posições de poder e o segundo, retrata a perspectiva de arranjos diversos que fujam as orientações prévia e estrategicamente estabelecidas.Por exemplo, quando Lopes (2011) afirma que “ver o torcedor como consumidor tem ajudado a conferir uma série de direitos a ele e a subverter um quadro de sistemático descaso.” (p.28), retrata uma posição que até concordamos, mas que se refere a uma situação, que pode ser interpretada em termos de que: os direitos (ora

concebidos) estão sendo considerados na posição de consumidores e não na de cidadãos o que deixa sob suspeita tais iniciativas, democráticas, e que podem assim, inclusive serem percebidas como estratégias para a maximização de seus potenciais de consumo.

Ao transportar o indivíduo cidadão para o papel de consumidor, num cenário em que “Há uma tendência mundial de transformação dos estádios em

espaços de consumo; eles são cada vez mais pensados para obtenção de lucros.” (Lopes, 2011, p.29), pode estar em operação uma orientação ideológica em

favor do capital.

O objetivo não está na criação de um “espaço” com maior conforto aos torcedores e sim na possibilidade de ampliar a capacidade de capitalizar lucro, mas pela potencialização no indivíduo, de sua capacidade de consumo e pela transformação do cidadão em consumidor apenas. Os aspectos positivos que são carreados para posição, de consumidor, que o cidadão torcedor, “ao caso”, passa a ocupar, são como já dissemos efeitos colaterais desejáveis, mas não o foco principal da estratégia. Portanto se há por um lado o que se comemorar há por outro, sobretudo o que se refletir criticamente.

1.8. ACERSSÕES LEGAIS NA CONSTITUIÇÃO DE MELHORES

TORCEDORES/CONSUMIDORES.

No artigo Torcedor: consumidor ou cidadão, percebemos ainda outros elementos aos quais nos referimos criticamente no percurso de nossa pesquisa documental. Falamos das asserções28 constituídas no processo de legitimação da Educação Financeira. Aqui estão presentes, as do tipo “legal”, que é bom lembrar, já promovendo a devida adaptação para o presente cenário, formam um conjunto de normas que tem por objetivo criar um marco legal, no presente caso para o torcedor. O exemplo aqui é do Estatuto do Torcedor que no entender de LOPES, “serve para regulamentar a promoção do esporte como espetáculo, estabelecendo normas de

28 A escrita do texto da Dissertação não percorre os mesmos caminhos da pesquisa que lhe dá origem de modo que vamos aqui nos referir a um termo (asserção) que será descrito de forma mais detalhada mais a frente.

proteção e defesa do torcedor.” Visto de outro modo serve também para proteção defesa manutenção e potencialização do consumo.

As asserções legais cumprem o papel de constituir a porta de entrada para iniciativa privada dar consecução ao processo de comodificação dos torcedores. Este processo os retira da posição de cidadãos (e atributos próprios desta posição) e os inscreve na posição de consumidores (também com atributos particulares) na qual estão sujeitos aos desejos privados, que não por acaso concorrem para maximização do lucro.

Tanto é assim que se permite certa “suspensão de direitos” dos cidadãos como veremos.

As conclusões a que chega o autor são as mesmas que externamos em nosso trabalho “o torcedor não tem seus direitos assegurados porque é cidadão e até esses, derivados de sua condição de consumidor, são alteráveis em função de uma necessidade constante do mercado em potencializar os lucros”. Exemplo oportuno e flagrante sobre esse aspecto, e especificamente ao que se refere ao consumidor/torcedor, é a atual29 discussão sobre a Lei geral da Copa do Mundo de futebol.

Com os extratos de reportagens representados a seguir, temos a intenção de retratar o processo de constituição do marco legal para a realização da Copa do Mundo. Nossa intenção é descrever como essas asserções legais cumprem o papel de comodificação dos torcedores. Mais a frente, como é o objetivo da pesquisa documental, vamos descrever como elas operam para a constituição também de consumidores de produtos financeiros. Uma última consideração: retratamos como asserções30 tantos os textos das normas (Leis, Decretos, Resoluções ou outros dispositivos legais) como também discursos (extratos de textos), em geral, jornalísticos que tratem do tema com olhar jurídico. Vejamos:

29

Escrevíamos esta parte no momento em que essa discussão estava sendo feita no Congresso Nacional.

30

S.f. Afirmação, proposição que se tem como verdadeira: os fatos justificaram-lhe as asserções. Fonte: http://www.dicio.com.br.

(1) Fonte:http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/06/lei-geral-da-copa-e-publicada-no-diario-

oficial.html

(2) Fonte:http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/06/lei-geral-da-copa-e-publicada-no-diario-

oficial.html . Data: 6/06/2012 07h06 - Atualizado em 08/06/2012 14h58

(3) Fonte: http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/06/lei-geral-da-copa-e-publicada-no-diario-

A partir desse extrato percebe-se que se matem aberta a perspectiva de que talvez direitos sejam suspensos em favor de interesses comerciais.

(4) Fonte:http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/06/lei-geral-da-copa-e-publicada-no-diario-

oficial.html. Data: 6/06/2012 07h06 - Atualizado em 08/06/2012 14h58

Parece-nos que, no extrato (1), para o autor da reportagem não há diferença entre manter uma proibição e retirá-la, ainda que explicitamente não se informe nada quanto a validade daquilo que era objeto da proibição. O que não é proibido é permitido. Essa questão retrata, em exata medida, um comportamento liberal.

É preciso retomar uma reflexão que fizemos no Capitulo I apenas para dizer que para Bobbio (2000, p.101), ser liberal significa “a faculdade de cumprir ou não certas ações, sem o impedimento dos outros que comigo convivem, ou da sociedade, como complexo orgânico ou, simplesmente, do poder estatal...”. (grifo nosso).

Sobre os significados atribuídos a ideia de liberdade afirma Bobbio que “permitido e obrigatório são dois termos antagônicos”, que se diz que “tudo aquilo que não é permitido é obrigatório”, e inversamente “tudo aquilo que não é obrigatório é permitido”.

Suspender a proibição é permitir o livre comércio de bebidas alcoólicas durante os jogos da Copa do Mundo em detrimento de orientações legislativas que

impeçam essa prática em eventos esportivos. Trata-se do Laissez-faire31- uma das características do pensamento liberal.

Antes de prosseguirmos, pois como já dissemos, “um tema leva a outro e a outro,...”, é preciso lembrar ao leitor (a) que estamos falando das mesmas orientações para o consumo, presentes na Educação Financeira. Os processos de constituição do torcedor/consumidor ou do cidadão/consumidor de produtos

financeiros, ou ainda indivíduo consumidor (Kistermann, 2011) carregam as

mesmas características. O Estatuto do Torcedor e a Lei Geral da Copa em discussão no Congresso brasileiro são exemplos de constituição de marcos legais para a implementação, respectivamente, de um conjunto de normas e condutas aos torcedores e para a realização aqui no Brasil a Copa do Mundo em 2014. Dizem respeito à comodificação32 no sentido proposto por Fairclough (2001) mas também e sobretudo como indicado por Bauman(2008) quando reflete sobre a comodificação das próprias pessoas ( da subjetividade). Referem-se também ao papel do Estado que segundo Habermas se ocupa prioritariamente da comodificação do capital e do trabalho. Aqui, torcedores, vistos como mercadorias que consumirão outras mercadorias são preparados para esta função. Pela Educação Financeira consumidores financeiros serão constituídos. Ao consumirem produtos financeiros serão “consumidos” pelas instituições financeiro-bancárias.

1.9. . EDUCAÇÃO FINANCEIRA & OCDE: de volta ao conceito de capital humano.

Neste item pretendíamos tratar desse conceito que data do cenário industrial americano das décadas de 1950 e 1960 e que se refere a ideia de que investir na formação do trabalhador é imprescindível para o capitalista para maximização do

31 Sobre o “Laissez-faire”:

“Como nota Rosenberg, praticamente "(...) qualquer pessoa instruída submetida a um teste de associação de palavras, quando solicitada a identificar algum personagem histórico com o termo 'laissez-faire' responderia 'Adam Smith'"(Rosenberg, 1979: 20).A metáfora da mão-invisível de Smith habita o imaginário de quase todos os economistas, e é, em geral, interpretada como representando a ideia de que o "mercado" seria uma instituição capaz de "transformar" o auto-interesse individual em benefícios sociais, sem a necessidade de intervenção da "mão-visível" do Estado1. A este cumpriria apenas garantir a ordem institucional e administrar a justiça.” Essa nota é reprodução de trecho do artigo: As razões do laissez-faire: uma análise do ataque ao mercantilismo e da defesa da

liberdade econômica na Riqueza das Nações. MATTOS, Laura Valladão, Revista de Economia

Política, vol. 27, nº 1 (105), pp. 108-129, janeiro-março/2007 32

lucro. Perceberá o leitor, no entanto que dada sua relevância acabamos por nos referir a ele ao longo de boa parte dessa pesquisa documental. Assim neste espaço vamos insistir com tentativa de construir reflexão ainda sobre esse conceito, contudo, relacionando-o a OCDE.

Comecemos com a afirmação de que o projeto de desenvolvimento global (ou globalização)33 tem subjacente uma nova concepção de desenvolvimento, adjetivado de sustentável, que traz novamente para o primeiro plano a teoria do capital humano.(Estrela & Teodoro,2007,05).

A suspeita com as primeiras indagações, sobre a proximidade do conceito de capital humano, que surge no cenário norte-americano a partir da década de 1950, com a proposta de se instituir a Educação financeira, parece agora caminhar para ser “confirmada”. Na falta de um melhor termo usamos aqui a palavra “confirmada” não para dizermos ter chegado à verdade, e sim que agora temos mais elementos que nos permitem fazer tal conexão. Desse modo acreditamos ser possível dizer que a Educação Financeira pode ser percebida como uma manifestação atualizada desse conceito e o texto: As políticas curriculares em Portugal (1995-2007): Agendas Globais e Reconfigurações Regionais e Nacionais- Teodoro & Estrela (2007) terá importantes contribuições.34

Como avaliávamos no início do nosso trabalho, a direção que tomou, parece indicar a necessidade de refletir sobre as relações entre Educação Financeira e a OCDE, também pela perspectiva do conceito de Capital humano. O trabalho de Estrela & Teodoro (2007), aborda de modo direto esta perspectiva que estava a compor os pressupostos (econômico-financeiros) da Educação Financeira.

“Fundada em 1961, a OCDE é uma instituição intergovernamental com influência política nos seus países membros e onde a educação tem vindo a crescer de importância, tendo adquirido um papel central para a

33

Há uma nota na expressão original que é importante que seja transportada para este texto: “Segundo Santos (1995; 1997), devemos falar em globalizações e não no singular, uma vez que se podem distinguir quatro modos de produção da globalização, duas das quais dominantemente hegemónicas, impondo-se de cima para baixo – o localismo globalizado e o globalismo localizado -, e

No documento reginaldoramosdebritto (páginas 53-69)