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Revisão de texto: Dinheiro: os segredos de quem têm.

No documento reginaldoramosdebritto (páginas 77-81)

SOBRE A PESQUISA EM DOCUMENTOS.

2.2. PRIMEIRA PARTE LITERATURA – REVISÃO: AUTOAJUDA FINANCEIRA.

2.2.2. Revisão de texto: Dinheiro: os segredos de quem têm.

O segundo texto considerado nesta parte de nossa pesquisa documental é DINHEIRO OS SEGREDOS DE QUEM TEM: como conquistar e manter sua independência financeira do autor Gustavo P. Cerbasi. Assim como o, “Terapia Financeira”, julgamos poder classificá-lo como livro de autoajuda financeira. Essa identificação se justifica pelo que se destinam tais trabalhos: ajudar indivíduos a controlarem e gerirem suas finanças pessoais.

Já na introdução deste livro o autor indica que ler sua obra significa que o leitor enquadra-se num grupo “imenso” de pessoas que não estão seguras quanto a seu futuro, quando consideramos a vida financeira, pois como afirma se assim não fosse “não leria este livro”. Ainda que possa parecer prematuro, esta primeira consideração nos permite dizer se tratar de livro que se enquadra no perfil de literatura, que estamos chamando de auto-ajuda financeira.Faz um apelo a algo que ultrapassa o escopo da organização das finanças, parecendo querer evocar

emoções e crença do leitor sobre a verdade das palavras que carrega e sobre o potencial que ele (leitor) não sabe que tem.

Via de regra, livros dessa natureza, ainda que estabeleçam um importante conjunto de procedimentos que podem ajudar os indivíduos a controlar suas finanças, nisto nós concordamos, o fazem não considerando outras relevantes variáveis o que tem o efeito em longo prazo de retirá-las do escopo de questões que ajudam a produzir e consequentemente alargarem, a pauperização do trabalhador.

Que valor terá este “manual de práticas financeiras” a um trabalhador português, por exemplo, que terá nos próximos meses seu salário reduzido em 22%?48Que desempenho se pode esperar no controle de suas finanças, de cidadãos gregos ou espanhóis que convivem hoje com taxas de desemprego entorno de 23% e 21%49, respectivamente?

A autoafirmação com palavras de ordem como: “você consegue!” e “Acredite!”, fazem parecer crer aos indivíduos que apenas o seu comportamento pode mudar as coisas, valorizando o individualismo, característico da orientação ideológica do neoliberalismo que por si só representa um problema a ser combatido. Esse tipo de literatura com forte apelo à crença na capacidade individual, acreditamos, subtrai importantes elementos que figuram como variáveis nos problemas de ordem financeira, valendo-se apenas da motivação. Não é o que pensamos quando nos propomos a educar financeiramente os indivíduos e não compartilhamos da crença de que se pode alcançar o bem estar coletivo pela observância do bem estar individual. Mas essa não é nossa única divergência. No texto em análise, inadvertidamente o autor atribui a uma negativa característica cultural latina, o imediatismo, a responsabilidade sobre a incapacidade que teríamos para o planejamento de nossa vida futura. Para CERBASI (2005),

“algumas heranças latinas de nossas características culturais são extremamente negativas para nossa sobrevivência. Uma delas é o imediatismo. Dificilmente pensamos no futuro quando tomamos nossas decisões. E há grande contradição nessa forma de pensar, pois nós,

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Esse corte faz parte do pacote recessivo que a Grécia , Espanha mas também Portugal tiveram que proceder para receber ajuda financeira da União Europeia através do BCE.

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Segundo o Jornal da Globo News edição das 18 horas do dia 02/04/2012 os índices de desemprego nos 17 países da Zona do Euro estão no maior índice desde 1997. Chegando a 23% na Espanha relativos a população economicamente ativa e 21% na Grécia.

brasileiros, vivemos continuamente a sensação de insegurança.

Insegurança quanto ao emprego, quanto ao valor do aluguel, quanto à alíquota de impostos... Mesmo assim, temos uma cultura extremamente

imediatista, focamos apenas o presente para tomar nossas decisões.” (CERBASI, 2005, p.13).

A primeira parte da citação acima: “algumas heranças latinas de nossas características culturais são extremamente negativas para nossa sobrevivência” se adequaria, perfeitamente ao ideário Eugenista50 que, aqui no Brasil na década de 20 a 30, pretendeu constituir um homem (naturalmente sem características negativas) de boas origens. Esse posicionamento demonstra resquícios de um comportamento já ultrapassado de supervalorização do padrão comportamental do colonizador. Um resquício de um complexo de inferioridade que ainda, infelizmente, se manifesta em vários campos de atividade social.

O curso da História hoje indica, ao menos, que devemos ter mais cautela em descrever comportamentos sociais e econômicos (no caso), justificando-os apenas com base em condições étnicas e culturais. Ainda que o desempenho positivo da economia brasileira, comparado a alguns países da União Europeia, possa ser considerado algo sazonal, é preciso olhar com mais acuidade para a situação econômica de vários países da “zona do euro” para percebermos que existem problemas que não se explicam por diferenças culturais e que dizem respeito a um modelo, capitalista, que está saturado e fragilizado.

O “imediatismo” cultural ao qual CERBASI (2005) atribui parte da “culpa” sobre nossa incapacidade de pensar e de planejar o futuro, não é exclusividade latina. Pelo contrário é fruto de uma forma de pensar o mundo que tem naturalidade europeia, a modernidade, que traduzida no cenário econômico implica no imperativo do consumo já e cria socialmente a necessidade de que os indivíduos estejam sempre consumindo.

Sobre esta constante necessidade de consumir Kistemann (2011), registra, por exemplo, que:

50 Segundo Diwan Pietra (2007) em Raça Pura, os objetivos da Eugenia seriam “purificar a raça. Aperfeiçoar o homem. Evoluir a cada geração. Se superar. Ser saudável. Ser belo. Ser forte. Essa pseudo- ciência tem sua origem moderna “na segunda metade do século XIX mais exatamente após o lançamento do livro A Origem da Espécies , de Charles Darwin”(DIWAN p.37), inaugurando o que se convencionou chamar de darwinismo social.

“a moda e o design se incumbem de envelhecer os bens simbólicos atuais, tornando-os rapidamente ultrapassados e obsoletos aos olhos de seus possuidores. O aumento da produção , da lucratividade e do emprego é o lado iluminado da sociedade de consumo, no entanto , para funcionar devidamente , tal sistema requer que as novidades devam ser continuamente almejadas e adquiridas cujo dínamo mais eficiente vem sendo a propaganda. “(Kistemann, 2011,p.69)

Nesta mesma perspectiva Bauman (2010) afirma que

“A produção contínua de novas ofertas e o volume ascendente de bens oferecidos também são necessários para a velocidade da circulação de bens e reacender constantemente o desejo de substituí-los por outros, “novos e melhores”; também são necessários para evitar que a insatisfação dos consumidores com um produto em particular se condense num desapreço geral em relação ao próprio estilo consumista de vida. ”(BAUMAN, 2011, p.35-36).

Essa necessidade volátil de consumo não é uma característica latina europeia, americana ou asiática. Trata-se de uma característica da modernidade - é social - que se reflete em todos os campos de atividade social, das instituições escolares até o interior das famílias e nas relações de trabalho por exemplo.

Além do mais é preciso lembrar ou informar ao leitor, por exemplo, que a Espanha, depois de muitos anos de enriquecimento, e de ser apontada como maior símbolo de prosperidade da Zona do Euro, atravessa crise econômica sem precedentes na história o que provavelmente implicará aos espanhóis algumas dificuldades, sobretudo no campo econômico – financeiro.

Na Grécia o desemprego atinge , em abril de 2012, 23% da população economicamente ativa e neste país. A “geração sem futuro”, forma como são chamados os jovens gregos que participam das manifestações populares contra as medidas de austeridade, sugere que a “Insegurança quanto ao emprego, quanto ao valor do aluguel, quanto à alíquota de impostos...” talvez não possa ser atribuída apenas a brasileiros ou latinos como uma condição quase natural.

Como se vê, as dificuldades econômico-financeiras pelas quais passamos tem, no imediatismo cultural uma frágil tentativa de explicação além de reforçar um estereótipo de inferioridade cultural latina. Dizem respeito a algo muito maior: o capitalismo.

Alias Therborn (1995) identifica a perspectiva que acabamos de constituir como “contradição fundamental do capitalismo atual” sobre a qual afirma,

Ela se manifesta na destruição social criada pelo poder do mercado. Vemos em todos os países, não somente na América Latina tendências a um desemprego de massas de caráter permanente, uma reprodução da pobreza e, também, o surgimento de alto grau de desesperança e de violência, inclusive nos países escandinavos. Esta tendência autodestrutiva da competição atual no capitalismo, geradora de mecanismos cada vez mais intensos de exclusão social de uma grande parte da população, é um aspecto central desta contradição sociológica. (THERBORN, 1995, p.47).

Como já dissemos, mas é sempre importante reforçar, o que causa insegurança quanto ao futuro talvez resida no passado de ajustes neoliberais que talvez tenham minado a crença do trabalhador num futuro melhor. Atribuir-lhe responsabilidade, caracterizando-o como culturalmente culpado pela sua situação financeira, é transformar vítima em réu. Além do que desloca nossa atenção do foco pela qual ela realmente deveria estar dirigida.

No documento reginaldoramosdebritto (páginas 77-81)