1.2 Pressupostos teóricos
1.2.3 Da ideologia
1.2.3.1 A ideologia e a literatura infantil e juvenil
A génese da literatura infantil está medularmente associada a uma dimensão ideo- lógica, intimamente aliada à função formadora das crianças, apresentando os livros de potencial recepção infantil modelos de comportamento com vista à integração dos mais novos nos valores e normas sociais. Com efeito, os primeiros livros produzidos para as crianças eram instrumentos essencialmente didácticos, pedagógicos, criados para contri- buírem, de forma explícita, para a formação das crianças. Shavit (2003, pp. 186-197) sublinha que a origem da literatura infantil esteve intimamente ligada às necessidades do sistema educativo, resultando, por isso, um forte domínio deste sistema sobre a literatura para crianças. Por outro lado, o sistema educativo serviu de quadro para a legitimação e desenvolvimento desta literatura que veiculava as normas sociais vigentes, servindo ob- jectivos ideológicos (Shavit, 2003).
A título de exemplo, os contos dos irmãos Grimm - Kinder- und Hausmärchen -, publicados em 1812, apresentam uma «historical function within socialisation process which forms taste, mores, values, and habits» (Zipes, 1986, p. 2), tendo exercido uma profunda influência nas crianças e adultos ao longo dos séculos. Com efeito, estes contos parecem ter estado ao serviço da promoção dos valores patriarcais e do processo de soci- alização das crianças no século XIX (Bacchilega, 1997; Bottigheimer, 1987; Tatar, 1987; Zipes, 1986, 1988). Desde uma abordagem feminista, estes contos de fadas contribuíram
para a aculturação das mulheres não só para os seus tradicionais papéis sociais, mas tam- bém para a formatação das atitudes femininas em relação aos homens, ao casamento e à sociedade17.
Stephens (1992) considera que a dimensão ideológica é inerente à literatura infantil e juvenil, uma vez que:
Writing for children is usually purposeful, its intention being to foster in the child reader a positive apperception of some socio-cultural values which, it is assumed, are shared by author and audience. These values include contempo- rary morality and ethics, a sense of what is valuable in the culture’s past (what a particular contemporary social formation regards as the culture’s centrally important traditions), and aspirations about the present and the future. Since a culture’s future is, to put it crudely, invested in its children, children’s writers often take upon themselves the task of trying to mould the audience attitudes into ’desirable’ forms, which can mean either an attempt to perpetuate certain values or to resist socially dominant values which particular writers oppose. (p. 3)
Ao longo das últimas décadas, realizaram-se várias investigações sobre a estreita rela- ção entre a ideologia e a literatura infanto-juvenil. Destacam-se os trabalhos de Stephens (1992) e Hollindale (1992). Com efeito, os textos ficcionais devem ser olhados como lugares onde a ideologia se inscreve de forma profunda, constituindo-se como podero- sos instrumentos de inculcação de valores socioculturais, com repercussões importantes a nível da formação pessoal dos leitores.
Carlos Reis (2000) sublinha, na mesma linha de pensamento, que a literatura, pela sua capacidade de inserção social, parece especialmente vocacionada para exercer o que autor designa por «activação pragmática da ideologia», advertindo, no entanto, para o facto de a literatura não ser panfleto e que «os signos ideológicos em contexto literário hão-de ser entendidos como elementos que remetem para significados axiológicos [...] podem ser coerentemente localizados num sistema ideológico» (pp. 380-381). Hamon (1984) reforça que devemos referir-nos ao «effet-idéologie» nos textos (e não à ideologia), surgindo aquele «par la construction et mise en scène stylistique d’appareils normatifs textuels incorporés à enoncé» (p. 20).
No contexto da literatura infantil e juvenil, podemos falar de «ideas, normas, valores, creencias, opiniones, prejuicios o actitudes próximas a la emotividad y creada a partir 17Curiosamente, como explanamos noutro lugar (Tomé e Bastos, 2011), em determinadas tendências da
actual literatura juvenil contemporânea, nomeadamente na recente «chick lit», verificamos que os mesmos valores são transmitidos e promovidos junto das adolescentes modernas.
de los multiples mecanismos que permite una narración» (Lluch, 2003, p. 33), quando nos referimos à ideologia. Neste sentido, todos os textos transmitem uma determinada visão ideológica, através da paródia de determinadas atitudes, da perspectiva que adopta o narrador, dos protagonistas, da valorização de determinados comportamentos e opiniões, do tipo de leitura que se propõe e das relações intertextuais que se privilegiam, entre outros recursos. Também Shavit (2003, p. 14) frisa o facto de a literatura para crianças ser o resultado dos constrangimentos que lhe são impostos por parte de vários sistemas culturais, entre eles o educativo e o ideológico, entre outros.
Hollindale (1992) identifica três dimensões no contexto da inscrição da ideologia nos livros de potencial recepção infantil e juvenil. Se por um lado, em determinados textos, é possível identificar a presença explícita e deliberada das crenças sociais, políticas ou morais do autor e da intenção deste em transmiti-las, noutros textos esses valores são su- bliminarmente veiculados. Neste último caso, porque a ideologia está presente de forma invisível (Hollindale designa-a como «passive ideology», p. 29), os livros constituem-se como poderosos veiculos de transmissão ideológica. Com efeito, embora a demonstração da presença das ideologias nestes textos exija uma cuidadosa análise, o facto de os mes- mos veicularem valores tidos como certos na sociedade confere-lhes uma enorme eficácia nesta questão da forma(ta)ção das atitudes dos leitores: «Unexamined, passive values are widely shared values, and we should not underestimate the powers of reinforcement vested in quiescent and unconscious ideology» (Hollindale, 1992, p. 30).
Finalmente, este investigador alerta para uma dimensão que terá que ser forçosamente considerada no contexto da literatura em geral, e, de modo particular, no âmbito da litera- tura infanto-juvenil: a presença inerente da ideologia na linguagem, veiculando os textos os valores e as crenças do mundo em que o autor vive. Neste contexto, «A large part of any book is written not by its author but by the world its author lives in» (Hollindale, 1992, p. 32).
Nesta mesma linha de pensamento, Stephens (1992) na sua obra Language and Ide- ology in Children’s Fiction, sublinha o facto de a ideologia ser formulada na e pela lin- guagem, uma vez que esta «as a system of signification - what is commonly referred to as discourse - is endemically and pervasively imbued with ideology» (p. 1). O estudo da linguagem, neste contexto, torna-se de crucial importância, veiculando, pois, todos os textos uma determinada ideologia, mais ou menos implícita: «this inherency of ideology
in language works to suppress articulations of conflict and to restrict signification to the attitudes and interests of dominant social groups» (Stephens, 1992, p. 10). Neste contexto, Fairclough (1989, pp. 73-74) analisa as relações entre discurso18 e ideologia, reforçando o facto de aquele se constituir como um poderoso mecanismo de sustentação/manutenção de relações de poder: «We might say that, in terms of “power in discourse”, discourse is the site of power struggles, and, in terms of “power behind discourse”, it is the stake in power struggles - for control over orders of discourse is a powerful mechanism for sustaining power».
Quer ao nível da história quer ao nível do discurso, os textos ficcionais constituem-se como contextos especiais para a ideologia operar, porque os textos narrativos estão alta- mente organizados e estruturam discursos que podem ser usados para expressar delibera- damente certas práticas sociais instituídas ou veicular implicitamente normas e valores e sociais (Stephens, 1992).
A ideologia opera a diversos níveis, afirmando Stephens (1992) que uma narrativa é constituída por três elementos interligados: «the discourse, a “story” which is ascertained by an act of primary reading (reading for “the sense”); and a significance, derived by secondary reading from the first two» (p. 12). Neste contexto, os textos ficcionais devem ser lidos simultaneamente como processos linguísticos e narratológicos. Esta situação incluiu a atenção a importantes componentes dicursivos (a escolha do vocabulário, da sintaxe, a ordem da apresentação dos acontecimentos, a focalização do narrador, entre outros) e a leitura do discurso narrativo tendo presentes os elementos acima referidos (story e significance), uma vez que a ideoologia opera a ambos os níveis.
O ponto de vista é considerado o aspecto narrativo onde o controlo implícito, por parte do autor, das estratégias de leitura é mais poderoso, uma vez que este tem a função de «constructing subject positions and inscribing ideological assumptions» (Stephens, 1992, p. 56). Através de um narrador omnisciente ou de uma narrativa na primeira pessoa, os leitores são subrepticiamente envolvidos e convocados para partilhar uma determinada ideologia societal, sobretudo nos livros de recorte realista, o que permite a estreita partilha e comunhão, pela identificação, dos pontos de vista e cosmovisões do narrador.
Com efeito, a identificação do leitor real com o leitor modelo presente nos textos é talvez a forma mais evidente de assegurar a passagem da ideologia implícita já que 18Fairclough (1989) considera que o discurso deve ser compreendido como uma prática social, o meio
«the “best” reading [...] occurs when the real reader is most closely aligned with the ideological position of the implied reader» (Stephens, 1992, p. 55). Em suma, a ideologia está sempre presente nos textos de potencial recepção infanto-juvenil, de forma mais ou menos explícita, não se devendo descurar o seu impacto nos leitores, como ainda acentua Stephens (1992):
Narrative fictions have referential meaning and are constructed with the in- tent of shaping reader responses, and hence reader attitudes. A fictive text might offer its readers a variety of possible interpretative subject positions, ranging from the passive to the interrogative. These differences are of crucial importance for reading fiction, and especially for examining the ideological impact on readers. (p. 80)
Neste contexto, Hollindale (1992) defende a importância de se localizar a ideologia nos livros de potencial recepção infantil e juvenil, não na tentativa de avaliar, desacreditar ou aplaudir a ideologia dos autores, mas apenas para «to lift ideology “off the page” and bring it from obscure and unexpected places into the light» (p. 40), uma vez que, como conclui o investigador, a ideologia faz parte de nós.