6. A ESCOLA MUNICIPAL ESPERANÇA
6.5 O educador Evandro: “[...] acho que todos saíram de lá me chamando de pai”
6.5.1 A idiossincrasia do saber-fazer de Evandro
A história de Evandro até chegar à docência pareceu-nos muito interessante, pois apesar de ter na predição da mãe uma certeza íntima de que seria educador, ou qualquer outra profissão que lhe oportunizasse estar junto com crianças ou idosos, o coordenador trilhou outros caminhos até que se tornasse, de fato, um professor. Como ele relata, no entanto, sempre gostou de ensinar e a mãe foi preponderante nessa escolha pelo ensino, uma vez que sempre o encorajou a seguir esse caminho, por ver nele a vocação para tal ofício. Após alguns anos de formado como bacharel licenciado em Ciências Biológicas, sem nunca ter pisado antes no chão da escola como professor, Evandro segue para a docência. Sem nenhuma experiência com a sala de aula, consegue dominar as turmas consideradas mais desafiadoras da escola. Isso faz com que ele acredite que realmente possui um instinto para ser educador,
um saber inato que lhe autoriza dominar a cena educativa. Evandro mostra então sentir repulso a ser um biólogo (ou rato) de laboratório, o que colocaria a perder seu “instinto” para ser (um bom) professor. Ser um biólogo bacharel não demostrava, em definitivo, ser o que lhe oportunizaria a satisfação pessoal.
O que chama nossa atenção nos relatos do professor é que toda sua formação referencial ou acadêmica parece ter se dado mais voltada ao que se faria necessário para o trabalho como bacharel, e menos como docente. Até mesmos os estágios que mais marcaram a formação do professor se deram em instituições de pesquisa que solicitavam o biólogo e não o professor. Isso nos parece interessante porque evidencia como a ideia de muito educadores, de que seu saber ser professor pode se sustentar em uma aclamada “vocação” para o ensino, um saber inato, pode determinar a forma como esse professor lida com a escola e inventa sua maneira de educar. Muitos deles, quando convictos dessa vocação, deixam até mesmo de buscar o aperfeiçoamento profissional, o desenvolvimento da profissionalidade, por se crerem prontos para seu ofício. Não dizemos, contudo, que seja esse o caso do educador em questão, mas parece-nos que para Evandro, ter ou não formação acadêmica não é o que se apresenta mais relevante em sua mestria, pois ele demonstra crer-se possuidor de um saber a mais, um saber particular, um instinto que, independente das variáveis, lhe auxilia a cumprir, com êxito, a profissão de professor.
O educador chora ao se referir ao seu instinto como docente e se emociona ao exclamar com orgulho que ele é professor. A mãe parece ter aberto a Evandro as portas da docência, de tal modo que ele demonstra ter tomado isso como uma parte de quem ele era e do que ele deveria fazer. Hermínio parece ter confirmado essa escolha, oferecendo a Evandro a segurança que, porventura, poderia lhe faltar para ser um professor. Não podemos nos esquecer de que Evandro pertence ao que poderíamos chamar “Escola Pedagógica de Hermínio” e somente se tornou coordenador e posteriormente diretor porque Hermínio viu nele o profissional ideal para, um dia, substituí-lo. Com isso, ele parece ter se tornado um educador por convicção, que acredita, verdadeiramente, que sabe conciliar o cuidado e o ensino, acolhendo seus alunos, ou aprendizes, como filhos adotivos.
Evandro parece ter descoberto na predição materna o que lhe outorgaria a realização pessoal, subjetiva, o que lhe faria sentir a aparente inteireza do ser, que compreende o que sabe fazer, e por essa certeza orienta sua vida. Diferente de Hermínio, no entanto, Evandro não parece ter um saber-fazer pronto a oferecer a qualquer um. O posicionamento do educador frente àqueles que ele parece julgar serem superiores a ele, principalmente hierarquicamente, demostra a atitude humilde do aprendiz. Foi possível observar isso no trato
dele com os gestores da escola. Suspeitamos, porém, que para com aqueles que ele considera inferiores, necessitados de orientação, o educador emerge e se coloca, disposto a educar e a ensinar, unindo afeto e conhecimento, pois ele demostra se comprazer em oferecê-los. Estaria, em vista disso, a idiossincrasia do saber-fazer do educador em saber-ensinar-ao-inferior-a-saber?
Alguns indícios nos levam a supor que sim, e buscamos nos relatos do educador alguns argumentos que possam justificar a nossa suposição. A maneira como Evandro se refere ao significante pai, em sua trajetória, parece ser de grande relevância para a constituição do educador que ele é. Logo no início da entrevista, ele aponta como a reciprocidade faz parte da maneira como ele encara o trabalho na escola e a relação com seus alunos, algo que talvez tenha vindo de sua formação familiar, embora ele não estivesse muito certo disso. Ainda que não tenhamos extraído do entrevistado dados suficientes para confirmar nossa hipótese, parece-nos, de fato, que ele tomou muito da relação familiar para conduzir seu ensino, buscando ser para seus alunos o genitor que considerava ideal, ou uma reprodução da mãe, que foi de grande relevância para sua escolha profissional, apresentando-lhe o que ele era bom em fazer.
Ser pai para Evandro parece reafirmar nele seu “instinto” de educador para conduzir aprendizes, pois é a função de um pai orientar seus filhos e é característico do pai orgulhar-se das conquistas dos filhos como se fossem suas. O educador se orgulha quando seus alunos (ou estudantes, como ele prefere chamá-los) o reconhecem nesse lugar de pai, que cuida, dá afeto, conhece e sabe orientar. Ser o pai de tantos alunos parece oportunizar a Evandro a concretização de um projeto de vida que não poderia dar certo se não fosse ensinando e cuidando do outro, mas sempre do outro inferior, aquele outro que carece e solicita cuidado e proteção. Na dura realidade de muitos de seus alunos, carentes da figura de uma referência, o professor evidencia sua mestria ao saber fazer a condução dos pequenos outros que se colocam à mercê de seus ensinamentos, constituindo-se a referência necessária para eles.
Enquanto a mãe ou o próprio Hermínio parecem ter se apresentado como grandes Outros para Evandro, determinando, em alguma medida, o seu vir a ser educador, em contrapartida, ele parece eleger outros inferiores suscetíveis a serem conduzidos, e por crer-se instrumentalizado de um instinto que lhe autoriza essa condução, ele parece desempenhá-la de maneira magistral.
É notório no caso de Pedrinho como Evandro se coloca no lugar daquele que poderia conduzir seu aluno, mas também suprir suas necessidades de afeto e parentalidade. Embora o menino já se encontrasse em situação de desamparo, a figura do grande Outro Evandro na
vida dele demostra ter dado ao educador, e não propriamente ao menino, a sensação de que Pedrinho se encontrava acolhido e tinha uma chance de superação das dificuldades que atravessava em sua caminhada. O recolhimento do menino e da irmã, no entanto, mostrou a Evandro um sujeito não todo que porta um saber não todo, e que em decorrência disso, tende a evidenciar suas falhas. A impotência que sente o educador parece dizer-lhe que seu saber-ensinar-ao-inferior-a-saber é falho, e não poderá, ao menos não como ele gostaria, adotar imageticamente todos aqueles que ele julga necessitados de seu acolhimento. Se Hermínio consegue modalizar seu saber-fazer e circunscrevê-lo ao que é possível, Evandro toma para si como impotência e frustração tudo aquilo que está além de seu saber-fazer, pois ele parece acreditar, convictamente, que quantos haja a demandar quem os conduza, aí ele estará, com seu saber-fazer particular. Quando se vê confrontado com a impossibilidade de fazer mais, Evandro se culpa e busca justificar sua falha pelo que poderia ter feito a mais e não o fez.
Esse saber-fazer idiossincrático de Evandro, para o trato com a violência, demonstra servir-lhe muito bem. Confrontado com casos violentos todos os dias, o educador não parece necessitar reflexionar muito antes de agir frente ao ineditismo. Percebemos isso em casos como o do menino com a tesoura ou da menina com a faca. O educador não parece ter medo da situação, mas mobilizar e traduzir instantemente seus saberes em fazeres assertivos, neutralizando os perigos mais eminentes e mobilizando depois meios de solucionar a questão.
Ele parece saber, de fato, agir como pai, ou, ao menos, como um bom educador.
A “missão” a que Evandro se refere ao falar do cuidado que tem com seus filhos biológicos não parece ser uma missão somente para com a família. Conjecturamos que a missão de Evandro seja atualizada todos os dias, quando ao pisar no chão da vida, ele encontra alguém a quem possa endereçar seu saber-fazer, seja com a família, seja na escola.
Mas esse alguém, como dissemos, necessita estar sempre aquém dos saberes que sustenta Evandro. Percebemos isso, por fim, quando no fim de nossa conversa, em um momento de silêncio, o educador aponta seu incômodo frente à ideia que os outros fazem dele por ser alto, forte, esguio e aparentar demasiada virilidade. O professor não gosta que pensem que sua autoridade com seus alunos se encontra fundamentada no medo que a figura dele pode impor.
Como ele ressalta, ele não precisa ser bruto por ser grande. Mas, um detalhe na maneira como Evandro se expressa, mostra que essa relação do educador com a imagem que fazem dele pode determinar mais do que se mostra em sua relação com seu saber-fazer próprio.
Evandro se serve, sem reservas, do diminutivo para se referir aos seus alunos, salas de aula e a tudo e a todos que se apresente como um outro inferior para o educador. Não percebemos, contudo, nas falas do professor, referências no diminuto à direção da escola, aos
seus gestores ou aos seus colegas de trabalho. Apenas aos seus alunos, turmas, filhos...
Evandro parece dividir bem seu mundo ao meio, estando fixado em identificar pequenos outros de um lado e ser condicionados pelos grandes Outros de outro. Ele demonstra tentar demarcar, no entanto, que isso não se dá pelo seu tamanho ou pela sua força física, mas pelo seu instinto para educar, que ele cumpre a exemplo de uma missão na qual que não lhe é permitido falhar saber-ensinar-ao-inferior-a-saber.
6.6 A educadora Marta: “Eu não podia ser a mesma, tinha que ser uma outra. Hoje sou