Capítulo 2 A mineração e o enraizamento das estruturas eclesiásticas na fronteira
2.2. A Igreja católica colonial no quadro da mineração
Da mesma forma, que o desenvolvimento da mineração na América portuguesa não foi fruto do acaso e, tampouco, simples iniciativa de indivíduos, o sistema eclesiástico que se expandiu para a região mineradora também se enquadrou aos interesses e deliberações provenientes do Reino. Preocupada com o descaminho de seus tesouros coloniais, a metrópole portuguesa tomou medidas diferenciadas para a instalação da rede eclesiástica na região de mineração e, por sua vez, a instituição eclesiástica também deu suas respostas.
Eduardo Hoornaert classifica a ação missionária, ou eclesiástica, desenvolvidas nas zonas de mineração como um movimento eclesiástico portador de diferenças em relação às outras regiões da América portuguesa. De fato, a mineração desencadeou a formação de uma sociedade com um Modus vivendi próprio, ou seja, não foi apenas o sistema eclesiástico que sofreu essas influências, mas a sociedade colonial como um todo 319, na qual o desenvolvimento da mineração não ocorreu de modo isolado ou regionalizado, mas, atingiu todas as esferas sociais da época.
317
CORTEZÃO, Jaime, op.cit., p. 171. 318
CANAVARROS, Otávio, op. cit., p. 56-57.
319 ÁVILA, Affonso. O lúdico e as projeções do mundo barroco. São Paulo: Editora Perspectiva, 1980, p. 60.
Conforme Arlindo Rubert, a mineração despertou em toda a América portuguesa, e até no Reino, o desejo de encontrar o precioso metal, de ir às minas e fazer fortuna, ―Nobres e plebeus, patrões e escravos, até padres e religiosos sonhavam com as riquezas fáceis‖ 320
. Como também despertou comportamentos sociais indesejados. Conforme o mesmo autor, diante da indisciplina e do tumulto gerado pela febre do ouro, o Estado tentou acabar com a desordem, assim como a Igreja teria tomado medidas firmes contra a ganância e pelos atropelos cometidos contra as leis sagradas321.
Desde os inícios procurou o bispo do Rio de Janeiro D. Francisco de São Jeronimo mandar visitadores, fundar paroquias e curatos e impedir a ida de clérigos adventícios. Todavia, a maior dificuldade por parte do Governo e da Igreja foi obviar a corrida dos religiosos às novas fontes de riquezas, embora muitos fossem a pretexto de esmolas para embelezar suas igrejas e conventos 322.
É possível que alguns religiosos em Portugal viam as regiões de mineração na América portuguesa como local para se captarem recursos para reformar os seus conventos no Reino. Pois, vários clérigos pediram autorização para atravessar o Atlântico e se arriscarem pelos sertões com objetivo de arrecadar donativos. Desse modo, seja por ambição, seja por necessidade, muitos sacerdotes seculares e regulares passaram pelas minas, pois, a fama das mesmas ―correram o mundo‖ e o descontrole sobre o clero era de fato uma realidade. Para conter a presença de religiosos sem licenças legítimas, segundo Arlindo Rubert, os superiores das Ordens regulares mandavam visitadores com a determinação de recolherem todos os frades em atividades ilícitas. O autor destaca que só um deles recolheu 16 religiosos e os remeteu a seus conventos 323.
Os bispos do Rio de Janeiro também agiram nesse sentido, chegando a ir pessoalmente até as Minas Gerais, por exemplo. D. frei Antônio de Guadalupe, fez duas prolongadas visitas pastorais e, segundo Rubert, conseguiu reformar muita coisa por lá. Ainda segundo o autor, d. frei João da Cruz fez também uma longa visita pastoral às Minas, remediando o que pode e, dom frei Manoel da Cruz,
320 RUBERT, Arlindo. A Igreja no Brasil: expansão territorial e o absolutismo estatal
(1700-1822).Vol. III. Santa Maria: Editora Palloti, 1988, p. 336.
321
Ibid., p. 336. 322 Ibid., p. 336. 323
primeiro bispo de Mariana ao tomar posse de seu governo, também fez grandes esforços para disciplinar a sociedade local e seu clero, colocando vários religiosos para fora de sua diocese 324.
No entanto, pelos acontecidos nas minas com os bispos observa-se que o trabalho episcopal empreendido não foi nada fácil, alguns deles já tinham idade avançada e não tinham boa saúde, como também existiam muitos riscos ao percorrer os caminhos nada seguros do sertão. D. frei Francisco de São Jerônimo, por exemplo, apresentou suas desculpas ao rei, por não poder ir pessoalmente às Minas Gerais, por estar doente e com idade avançada, mas também ponderou dizendo que ―[...] não podia fechar os sertões, por onde passavam frades e clérigos da Bahia, de Pernambuco e do Maranhão, apesar das excomunhões que tinha posto‖325
. Desse modo, considerando as perturbações e os problemas ocasionados com frequência por sacerdotes nas minas, principalmente os regulares, em 18 de março de1702, o rei mandou tirar das Minas todos os religiosos e clérigos ―ociosos‖ e que só permanecessem os que tinham mais capacidade e requisitos para desempenharem suas funções 326. Cada vez mais a Coroa tentou restringir a presença dos clérigos. Em 28/03/1709, ordenou que não passasse nenhum religioso de Portugal para o Brasil 327. Nota-se que d. João V lutou por seu direito de patrono das colônias ultramarinas, recusando, inflexivelmente, a permitir que qualquer Ordem religiosa se fixasse nas regiões mineradoras da América portuguesa. O período joanino (1706-1750) foi de grande impacto sobre a vida eclesiástica colonial, principalmente, para a malha eclesiástica das zonas de mineração.
No entanto, esse pretexto para a implementação de uma política proibitiva ser adotada desde o início dos descobrimentos auríferos, segundo Charles R. Boxer, foi pelo fato de que religiosos ―renegados‖ estariam contrabandeando ouro das áreas de mineração 328. A superposição dos interesses da Coroa nas regiões auríferas como Minas Gerais, Goiás e Cuiabá, teve como resultado a proibição de instalação de casas e conventos de ordens regulares e limitou a presença de padres religiosos. Somado a isso, também se deve levar em consideração outro aspecto que é
324 RUBERT, Arlindo, op. cit., p. 337. 325 Ibid., p. 336-337. 326 Ibid., p. 336. 327 Ibid., p. 336.
328 BOXER, Charles R. O império marítimo português 1415-1825. Trad. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 260.
apontado na análise de Eduardo Hoornaert, a proibição para clérigos regulares se instalarem nas regiões mineradoras aconteceu porque as Ordens religiosas eram por demais independentes e não agradavam as autoridades civis 329.
Assim, nas áreas que não foram de mineração percebe-se o protagonismo pelos padres e religiosos pertencentes às Ordens regulares como os jesuítas, franciscanos e carmelitas, enquanto que nas zonas de mineração, a ação missionária da Igreja Católica foi marcada pela predominância dos padres seculares.
Desse modo, a administração quase que exclusiva das freguesias nas regiões de mineração feita por clérigos seculares, devido à intervenção da Coroa com medidas proibitivas e restritivas para com a ação missionária de Ordens religiosas, tradicionalmente praticada na América portuguesa, acabou propiciando o cenário no qual os religiosos de ofício não foram os responsáveis pela implantação da fé católica, destacando o papel dos leigos e, indiferentemente de sua condição social, foram os agentes diretos de formação da Igreja Católica nas zonas de mineração 330. Assim, o florescimento de associações religiosas leigas propiciou o surgimento de características próprias e um modo genuíno, menos clerical e mais laical, sustentado pela ação destas associações leigas e também por ermitões 331.
No entanto, apesar dos estudos de Boschi serem referenciais para se pensar nas consequências da intervenção estatal na formação do da Igreja católica nas zonas de mineração, principalmente no que se refere aos desdobramentos das medidas tomadas pela Coroa no regramento da atividade do clero destas regiões, sua análise recai na ação da Igreja católica na região das Minas Gerais, onde houve uma interferência muito mais evidenciada do regime do Padroado régio, como também dos bispos do Rio de Janeiro. Os bispos conseguiram fazer várias visitas à essa região e, depois, na década de 1740, foi criado o bispado de Mariana que, não demorou em receber seu primeiro bispo, d. frei Manuel da Cruz 332.
Assim, para o Mato Grosso setecentista, reservada as devidas proporções em termos quantitativos, percebe-se algumas diferenciações no processo de instalação da Igreja católica na região em relação às demais capitanias de mineração, como por exemplo, a carência de clérigos; o distanciamento geográfico, a ausência de
329
HOORNAERT, Eduardo, op. cit., p.98. 330
BOSCHI, C. Cesar, op. cit., p. 24. 331 HOORNAERT, Eduardo, op. cit., p. 94. 332
prelados e a pequena presença de alguns sacerdotes regulares que, mesmo com todo o cuidado que se teve, restringindo a presença de religiosos na região 333.
Na circunscrição eclesiástica instalada na fronteira Oeste não é encontrado na documentação disponível o registro da existência de ermitões, apenas de missionários ―avulsos‖ que passavam de povoado em povoado como evangelizadores-pregadores, como também de esmoleres da Terra Santa e pouquíssimos clérigos tidos como ―aventureiros‖.
2.3. Do Sertão dos Cataguases aos sertões mais ocidentais da América