Capítulo 2 A mineração e o enraizamento das estruturas eclesiásticas na fronteira
2.3. Do Sertão dos Cataguases aos sertões mais ocidentais da América
2.3.2. O poder metropolitano nas Minas do Cuiabá
Como consequência da queda de produtividade das Minas do Cuiabá houve agravamento da pobreza, endividamento dos mineradores, superfaturamento de mão-de-obra escrava e dificuldades quanto ao abastecimento na região. O quadro, no final da década de 1720 e início da década de 30, segundo Luiza R. R. Volpato, era desanimador 411. Somado a isto tudo, o poder metropolitano buscava instalar suas instâncias de controle e fiscalização, o que consistia em mais um peso sobre a população.
Deste modo, para uma ação mais efetiva, o próprio governador da Capitania de São Paulo, o Capitão-general Rodrigo Cesar de Menezes se deslocou para as novas Minas do Cuiabá e, ao chegar à região, prontamente elevou o Arraial do
408 ANAIS de Vila Bela 1734-1789..., p. 281 e 287.
409 VISITAS Pastorais. Livro nº2 – Devassas, ano 1785 – Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, p. 157.
410 SELVAGGI, João Batista (S.J. Pe.). Diamantino no Século XVIII. In.: Ásia, Setembro, São Paulo, 1955, pp. 47.apud.: SILVA, José de Moura e. Diamantino: 283 anos. Cuiabá, MT: Entrelinhas, 2011, p. 35.
411
Senhor Bom Jesus à condição de Vila Real, em 1727. Por um breve período, o governador da Capitania de São Paulo se instalou nas Minas do Cuiabá e, com sua presença, intensificou a arrecadação do fisco, mesmo com o enfraquecimento das minas, o que aumentava a situação de dificuldades ao pressionar os mineradores. Para o historiador Virgílio Correa Filho, o governador Rodrigo Cesar de Menezes era dissimulado, era um homem cruel, prepotente, arrogante, corrupto e opressor. No entendimento do autor, para exercer o seu poder na região, o governador usou de algumas artimanhas: ele silenciou os irmãos Leme; afastou o sertanista Pascoal Moreira Cabral e se deslocou até as minas, local onde elevou o arraial à condição de Vila Real e instituiu o senado da Câmara de Cuiabá 412. De fato, a estadia do governador Rodrigo Cesar nas Minas do Cuiabá, apesar de ter durado pouco tempo - cerca de dois anos -, parece que não foi nada conveniente para muitos, como pontuou Barbosa de Sá, que também parecia não ser simpatizante a ele. Para o cronista foi expresso o sentimento de alívio com a partida do governador de volta para a vila São Paulo, pois, segundo o mesmo:
Com sua partida [Rodigo Cesar de Menezes] melhorou tudo cessaraó as excommunhõens execuçoens Lagrimas e gemidos pragas, fomes, enredos, e mecillanias apareceo logo o ouro produziraó os mantimentos melhorarão os enfermos jam hyems transit et recidit &a [o inverno já passou, e então cai a primavera]. 413
O cronista pode ter razão em seu julgamento sobre a partida do governador, como também pode ter exagerado, visto que as dificuldades não desapareceram imediatamente. No ano de 1732, por exemplo, a Câmara da Vila Real apresentou ao rei nova representação dando conta do estado de miséria em que se encontravam as minas da região 414.
A situação de decadência da extração aurífera das minas do Cuiabá, na década de 1730, se agravava e, a estaaltura, conforme Otávio Canavarros, a esperança para os cuiabanos seria a confirmação do achado de novas jazidas na região do divisor de águas nas chapadas dos gentios pareci, que ficavam no sentido Oeste. Para o mesmo historiador, restavam apenas duas alternativas aos moradores
412
CORREA FILHO, Virgílio, op. cit., p. 211. 413 BARBOSA DE SÁ, José, op. cit., p. 25. 414
das Minas do Cuiabá, ou abandoná-las, ou permanecer e, dentre os que abandonaram a região, provavelmente, retornaram a São Paulo ou foram para Goiás onde as novidades de novos achados se sucediam. Em relação aos que ficaram, ou foram morar nos sítios dos arredores, ou retornaram ao sertanismo na preação de indígenas 415.
Mas em meio a este cenário, aparentemente desolador, em que se encontravam as Minas do Cuiabá na década de 1730, seus moradores conseguiram realizar novos achados que trouxeram um pouco de alento e esperança. Foram descobertas novas lavras nos sertões do Mato Grosso. Ademais, foi aberto um novo caminho para as minas, que passava pela Capitania de Goiás e evitava o trajeto pelo Xaraés (Pantanal), onde estavam os temidos paiaguá e guaicurú. Com estes novos acontecimentos foi possível melhorar o abastecimento e isto estimulou o comércio e o povoamento local. Chegaram tropas de mulas, cavalos e boiadas que proporcionaram também a vocação pecuária da região 416.
Contudo, ainda sobre o período da presença do Capitão-general Rodrigo Cesar de Menezes nas Minas do Cuiabá, verifica-se que a atenção maior sobre as descobertas auríferas, por parte do poder metropolitano, se deu em função do considerável impulso que tomou o seu desenvolvimento e também pela política de restrições econômicas e, segundo Caio Prado Jr., da opressão administrativa sobre o universo colonial 417. Assim, de início, a Coroa estabeleceu a livre exploração das minas, mas submetida a uma estreita fiscalização, na qual se reservava a cobrança da quinta parte de todo o ouro extraído como tributo 418. Conforme Caio Prado Jr., em 1702, a lei até então aplicada foi substituída pelo Regimento dos superintendentes, guarda-mores e oficiais deputados para as minas de ouro que, com algumas modificações posteriores, sem que lhe alterasse a feição essencial, se manteve até o final do período colonial 419.
Cumpre mencionar que em Cuiabá, desde 1724, funcionou a Superintendência das Minas, mas em 1726, foi ligada à Ouvidoria e, a partir de 1730, a Provedoria da Fazenda passou a ter a missão de cuidar da descoberta e controle das lavras, como também da supervisão dos guarda-mores e menores.
415
CANAVARROS, Otávio, op. cit., p. 159. 416
Ibid., p. 162. 417
PRADO Jr., Caio, op. cit., p. 56. 418 Ibid., p. 57.
419
Inclusive tinha ainda como subordinados diretos o guarda-mor e seu escrivão. Segundo Canavarros, ganhavam todos pelos requerimentos de datas, geralmente uma oitava de ouro por solicitação420.
Para dirigir, fiscalizar e cobrar tributos no século XVIII, a Portugal criou uma administração especial subordinada única e diretamente ao governo metropolitano, as chamadas ―Intendências‖ 421
. Segundo Caio Prado Jr., nas minas vivia-se uma luta constante, de um lado o fisco reclamando e cobrando os seus direitos e, de outro, os mineradores dissimulando o montante da produção. Para o autor seria natural que os mineradores sempre procurassem burlar a fiscalização que, por sua vez, devia ser difícil de se fazer, pois, ―[...] o ouro era mercadoria muito facilmente escondida graças ao seu alto valor em pequenos volumes‖ 422
.
Desse modo, com o objetivo de proteger os interesses da Fazenda Real e se evitar os descaminhos do ouro foram tomadas várias providências e medidas legais (inclui-se aqui a restrição de sacerdotes nas minas, principalmente, os regulares). Na Capitania de Minas Gerais, por exemplo, estabeleceram taxações por capitação de escravos, criaram-se casa de fundições e se proibiu a circulação de ouro em pó ou sem a dedução dos quintos, foram fixadas cotas anuais mínimas a serem atingidas com a arrecadação dos quintos, mas, quando o quinto arrecadado não atingia a cota estabelecida (100 arrobas), procedia-se ao derrame, isto é, obrigava-se a população a completar a soma, sendo minerador ou não, de forma quase sempre arbitrária e violenta 423.
Dentre as medidas estabelecidas para o controle fiscal das riquezas extraídas, insere-se a fundação de vilas como uma forma de fiscalização. No caso das Minas do Cuiabá, para Carlos A. Rosa, a fundação da Vila Real do Senhor Bom Jesus em janeiro de 1727 é entendida por alguns historiadores como uma forma de implementar o fisco nas Minas do Cuiabá. Seria uma manobra fiscal aplicada pelas autoridades da época com o objetivo de tentar evitar o contrabando e garantir a arrecadação 424. Porém, o mesmo autor, não endossa essa tese porque, para ele,
420
A partir de 1738, a Intendência criou uma Provedoria da Capitação na região do Guaporé nas Minas do Mato Grosso. (CANAVARROS, Otávio, op. cit., p. 136).
421
PRADO Jr., Caio, op. cit., p. 57. 422
Ibid., p. 58. 423
Ibid., p. 58-59.
424 No entanto, Rosa considera que endossar esse posicionamento limita a possibilidade de análise e compreensão do processo de conquista da região. ―O fisco‖, apesar de ser
em torno da fundação de vilas, como a Vila Real e a Vila Bela, estão aspectos como o fator de governabilidade que era praticado em todo o império português 425. De fato, como bem analisou Canavarros, com a fundação da Vila Real do Senhor Bom Jesus, foram instalados vários órgãos do poder metropolitano. Na provisão de 1746 de d. João V, ao governador da Capitania de São Paulo, Luiz de Mascarenhas, este aspecto fica evidente quando o monarca determina que se tomem alguns cuidados como os seguintes:
[...] O sítio que se eleger para fundação da dita vila [do distrito de Mato Grosso] seja o mais saudável e em que haja boa agua para beber e lenha bastante; e se determine o lugar da praça, no meio da qual se levante o pelourinho e se assinale área para o edifício da igreja capaz de receber competente número de fregueses quando a povoação se aumente e fará logo ele ouvidor delinear por linhas retas a área para as casas se edificarem, deixando ruas largas e direitas e em primeiro lugar se determine nesta área das casas as que se devem fazer para a câmara e cadeia e casa das audiências e mais oficinas publicas e os oficiais da câmara depois de eleitos daráo os sítios que se lhes pedirem para casas e quintais nos lugares delineados; e as ditas casas em todo o tempo serão feitas todas no mesmo perfil exterior, ainda que no interior as fará cada morador a sua vontade, de sorte que se conserve a mesma formosura da terra e a mesma largura das ruas.426
De acordo com os cuidados apresentados a serem tomados não se pode negar que nessas considerações feitas pelo monarca está presente um importante princípio ordenador urbano de um projeto mais amplo. Nesse sentido, o historiador Jovam Vilela da Silva compara as duas vilas fundadas na Capitania de Mato Grosso ao que os romanos denominaram, de certa maneira, de Urbe sede, ou seja, para o autor, estas eram ―cidades‖ construídas com caráter urbano definido, como sede de um governo, de poder religioso, ou missão cultural de relevo, isso porque, também as mesmas incorporaram as especificidades das Instruções Régias e ―[...] pela ocupação estratégica dentro do território mato-grossense, tendo nos roteiros fluviais e das
indispensável ―[...] não é suficiente para a compreensão do sistema colonial‖, (ROSA, Carlos A, op. cit., p. 16).
425
Ibid., p. 16. 426
PROVISÂO de D. João V ao Governador da Capitania de São Paulo, Luiz de Mascarenhas, 1746. Mss., Lisboa, 05-07-1746, Arquivo Histórico Ultramarino, Mato Grosso, cx. 40, doc. 1998. (Transcrição: Carlos Alberto Rosa). In: ROSA, Carlos A, op. cit., p. 191- 194.
monções, fortalezas e presídios para garantir a defesa e uma determinada linha de fronteira‖ 427
.
Essas duas vilas fundadas na fronteira Oeste da América portuguesa auxiliaram decisivamente no povoamento e conquista da região para os portugueses, configurando, de certo modo, um dos legados da mineração na Capitania de Mato Grosso, assim como para a América portuguesa que, desde o início do século XVIII, com os desdobramentos da economia mineira acarretaram mudanças definitivas para vida colonial, como a transferência da Capital do vice- reinado da cidade de Salvador na Bahia para a cidade do Rio de Janeiro, a criação de novos bispados, a instalação do Tribunal da Relação no Rio de Janeiro, estes são apenas alguns exemplos 428. As mudanças e transformações dos aspectos econômicos, demográficos e geográficos serviram de base para mudanças no âmbito social como um todo, alterando significativamente as relações político- econômicas, sociais, culturais e, de modo específico, a estrutura eclesiástica durante o século XVIII.